«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

E agora, algo completamente igual?

A estratégia de esmagamento e desvalorização pública dos docentes pelo actual Governo foi contraproducente, sobretudo numa sociedade que, no geral, não valoriza a escola e o conhecimento.

A frase «And now for something completely different» foi popularizada pelos comediantes Monty Python, na transição entre sketches da lendária série da BBC Monty Python's Flying Circus.

A propósito do que aí vem para os professores e a Educação, após as Legislativas 2009, será caso de um «E agora, algo completamente diferente»?

É importante que os docentes se mantenham vigilantes e preparados para os desafios (lutas) que se continuarão a colocar após 27 de Setembro. Com esperança e ânimo, mas sem ilusões. Não esperamos algo completamente diferente, seja qual for a liderança governativa que venha a formar-se após as Eleições Legislativas de 2009.

Por um lado, já será um passo importante se, ao menos, houver outra atitude de respeito e valorização dos docentes, a alteração de (alguma) legislação e negociação efectiva com a classe.

Por outro lado, será um bom sinal se os valores estruturantes do Trabalho, da Responsabilidade e da Disciplina passarem a ser exigidos aos estudantes como factor de inclusão, sucesso pessoal, preparação para a vida e mobilidade social.

«Os resultados escolares são sempre explicados por mais trabalho e mais estudo», disse a ministra da Educação (RTP1 7.7.2009), que reconhece o peso do empenho do estudante nos resultados, mas tantas vezes ignorado, porque tem sido mais fácil e útil culpabilizar os professores de tudo, até da atitude negativa generalizada dos estudantes perante o trabalho (escolar). As condições de trabalho e realização profissional dos docentes passa muito por aqui e o actual governo acentuou o laxismo na escola (mão dura foi apenas para os professores), como se não bastasse dar-lhes cabo da carreira e salário.

A estratégia de desvalorização da imagem social, de esmagamento ou de "quebrar a espinha" aos professores foi um erro que só o inebriamento de uma maioria absoluta não deixou ver.

O primeiro-ministro José Sócrates, durante uma entrevista concedida à SIC, reconheceu que a avaliação inicialmente proposta pelo governo pecava por ser «burocrática e complexa». Todavia, há uns tempos atrás, não houve este tipo de reconhecimento e foi tudo para manter, contra tudo e todos. Apesar das simplificações já realizadas, o actual modelo continua a agonizar na sua complexidade e burocracia, que emperram mais a vida das escolas do que avaliam o desempenho científico-pedagógico dos docentes.

Os professores e o sector educativo estão cansados de promessas. Em período pré-eleitoral, a Educação é apregoada como decisiva para o futuro do País, mas depois nunca é assumida como prioridade, além dos discursos de circunstância. No final, porque até o conhecimento e a escolaridade continuam a ser desvalorizados pela sociedade portuguesa, tarda a elevação dos níveis de qualidade da escola e de qualificação dos portugueses.

Nélio de Sousa
Dirigente do Sindicato dos Professores da Madeira
Jornal da Fenprof Julho 2009

Sábado, Agosto 29, 2009

David Sylvian abandona a zona de conforto


David Sylvian é capa do corrente número da Wire.

Conheci David Sylvian por via do álbum de há seis anos, Blemish. Fiquei encantado. Há qualquer coisa de belo e hipnotizante neste disco que nunca cansa. A voz caminha solitária e imponente sobre a base musical constituída por música improvisada. David Sylvian tem trabalhado com os melhores músicos da free-improved music. Muito distante, portanto, dos dias da banda Japan, nos anos 70 e 80. Recordar entrevistas aqui (parte 1 de 3), aqui (parte 1 de 3), aqui ou aqui.

O novo Manafon (pode ouvir aqui excertos dos temas), a ser editado em 14 de Setembro, já está disponível para pré-encomenda, este fim-de-semana por 7.74 Libras, (8.79 Euros). Pode também ser pré-comprada a Deluxe Edition do álbum Manafon, que traz um filme documentário sobre música improvisada e mais umas coisas. O preço é outro.

«The voice is the only instrument that is carrying the melody. There are no grooves, no classic harmonies that supply the perfomance (the flights) of the voice. The music comes from the free improv-scene (Evan Parker, Christian Fennesz a.o.) and creates strangely spidery textures you might never have heared before as a "background" for a singer. The moods are exquisite, the lyrics enigmatic, and the singing has that kind of nakedness where artists risk a lot. [...] (When Sylvian recorded BLEMISH, he discovered new areas for his songwriting - MANAFON is the best continuation of that path you can imagine.)» song x

Vídeo com o tema A Fire In The Forest, um dos meus predilectos (ao vivo aqui):



Mais temas ao vivo (boa qualidade, que pode comprar em DVD):
Live in Tokyo 1
Live in Tokyo 2
Live in Tokyo 3
Live in Tokyo 4
Live in Tokyo 5
Live in Tokyo 6
Live in Tokyo 7
Live in Tokyo 8
Live in Tokyo 9
Live in Tokyo 10
Live in Tokyo 11
Live in Tokyo 12
Live in Tokyo 13
Live in Tokyo 14
Live in Tokyo 15

Ainda:
When Poets Dreamed Of Angels

Educação > Legislativas 2009 > Partidos respondem à Fenprof

Está já disponível o documento com a posição dos vários partidos com assento parlamentar (a partir da página 12), incluindo o partido do actual governo, que é igual a si mesmo.

O estatuto da carreira docente (a divisão em categorias - professor e titular -, modelo de avaliação do desempenho docente para substituir o actual, prova de ingresso na profissão); o horário de trabalho (instabilidade, intensificação, entre outros); os concursos de professores; a aposentação; a imagem social dos professores; gestão das escolas; municipalização; educação especial; ensino superior; obrigatoriedade escolar e seis medidas para que a educação saia da actual crise são os temas em cima da mesa.

Leia o que pensam todos os partidos, não invalidando a leitura dos respectivos programas eleitorais. Neste blogue já divulgámos os programas de PSD e BE, no que toca ao sector da Educação, com destaques e comentários numa perspectiva pessoal.

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Educação > Legislativas 2009 > BE

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Embora para os professores seja mais importante as linhas programáticas dos partidos políticos com possibilidade de serem governo e, por conseguinte, colocarem em prática as suas medidas/promessas para a Educação, não deixamos de aqui dar conta dos compromissos eleitorais dos chamados partidos de contestação. Entre eles o programa eleitoral do BE (página 33). Curioso notar que o programa do PSD tem 39 páginas e o do BE 110 páginas.

Sob o título, «combater o défice do atraso com a Educação», o BE dá conta das suas ideias para este sector. Muitas dessas ideias são bonitas e ideologicamente estimulantes (o meu lado idealista agradece), mas enfermam de um claro irrealismo e condescendência no que toca à educação das crianças e jovens (vide notas finais deste post), como se vivessemos num mundo perfeito e fosse possível criar o aluno ideal e uma sociedade utópica. Passamos por cima do irrealismo (é fácil ennunciar princípios sem dizer como os concretizar na quotidiano)e destacamos as seguintes passagens:

«À multifuncionarização que vem recaindo sobre professores e professoras, à angústia das escolas às quais se pedem todos os milagres sem nada em troca, este governo acrescentou a liquidação de todos os resquícios de partilha e cultura colectiva, esvaziando a componente intelectual e a autonomia necessária do trabalho docente em troca da sua disciplina e desejada obediência acrítica.»

«Temos que dignificar as condições de exercício dos profissionais da escola.» [Falta dizer como. Por acaso a autoridade é um dos ingredientes?]

«A humilhação de professores e professoras, exibidos como o bode expiatório e verdadeiros culpados dos atrasos e do desinvestimento, foi acompanhada da degradação intencional das suas condições de trabalho, de um modelo de avaliação construído para impedir o acesso ao topo da carreira de uma larga maioria, assente na fractura administrativa da mesma, entre professores de primeira e de segunda. A divisão arbitrária e incompetente entre professores titulares e não titulares foi um dos mais duros golpes na escola pública, e a avaliação é a sua sequela. Mas não foi o único. Desregulação das relações de trabalho e precarização foram o lema. Aumento do horário de trabalho, exploração indigna de professores de Actividades de Enriquecimento Curricular, Novas Oportunidades, profissionais experientes e qualificados enxotados para reformas humilhantes, estas são as heranças do governo Sócrates.»

O BE «bater-se-á até ao fim pela dignidade de todos os profissionais de educação e contra todos os pontos lesivos do Estatuto da Carreira Docente, na certeza de que sem profissionais motivados e reflexivos não há qualidade de aprendizagens, com claro prejuízo para as crianças e jovens e para as suas famílias e com agravamento do
atraso do país.»

«O Bloco de Esquerda compromete-se na defesa:
• da estabilidade profissional e contra a precarização;
• do fim da fractura entre professores de primeira e de segunda, sublinhada como um dos ataques mais lesivos da escola pública e que não foi fundada nem em critérios de qualidade nem em conteúdos funcionais diferenciáveis;
• por uma avaliação credível, que se inicia pelas escolas em contexto, alia vertentes internas e externas, e assuma a responsabilidade colectiva do trabalho docente;
• por um horário de trabalho que reconheça o aumento do tempo de qualidade para todo o trabalho docente vergonhosamente silenciado, e para dar resposta às exigências de mudança na escola pública;
• pela componente colectiva do trabalho docente como uma das vertentes mais positivas da sua actividade e como um dos aspectos que mais conteúdo dão à relação com os alunos/as.»

«O Estado deve assumir como prioridade absoluta o alargamento da rede de educação para a infância a todas as crianças com quatro anos de idade.»

«Equipas multidisciplinares de combate ao abandono e insucesso escolar. Defendemos a criação de pequenas equipas multidisciplinares – compostas por professores, psicólogos, técnicos de serviço social e mediadores culturais – capazes de promover o acompanhamento personalizado dos alunos sinalizados como estando em risco de abandono e/ou insucesso escolar. Estas equipas respondem ao contexto social de cada escola e trabalham com diferentes instituições da comunidade.» [Concordo desde que não se pretenda que estas equipas resolvam o insucesso escolar sem exigir o necessário trabalho, disciplina e responsabilidade que o estudante tem de pôr em prática no seu processo de aprendizagem.]

«Uma reorganização curricular que permita redução do número de disciplinas e a redução da excessiva carga horária imposta aos alunos

«Limitação do número de alunos/as por turma, nomeadamente nas escolas sobrelotadas (20 no máximo para o 1.º ciclo e 22 para os demais).»

«As novas tecnologias não resolvem problemas básicos da aprendizagem e do combate ao insucesso escolar. O seu papel é relevante para quem não disponha de bibliotecas familiares e é uma fonte de informação utilizada com prazer pela maioria (ao contrário do que sucede com o recurso ao livro). Em contrapartida, pode promover facilitismo no ensino. As novas tecnologias não substituem a aprendizagem por outras vias, como a leitura, e não asseguram, por si só, a formação de uma consciência crítica. A escola, na diversidade da sua actividade, é que garante essa aprendizagem.»

«É certo que o aparelhismo burocrático do Ministério da Educação exige a descentralização. Mas a aposta do ME não está na descentralização, antes numa municipalização obediente e permissiva, com os riscos decorrentes de um modelo que, em Inglaterra, por exemplo, já mostrou o que valia.O Bloco de Esquerda denunciará e combaterá a territorialização político-partidária das escolas e as tentações autoritárias e privatistas dela decorrentes. Exemplos como os do director de uma escola de Fafe que demite arbitrariamente um coordenador vão-se multiplicar. Directores de escolas ao serviço de presidentes de câmara é
o ensejo reformista por concluir. O risco de partidarização total da gestão das escolas públicas é hoje, com este modelo de gestão escolar e municipalização de competência, um risco real. O reforço da autonomia e responsabilidade das instituições é a alternativa.»

NOTAS:

O BE não quer o ensino profissional seja uma «oferta do sistema como solução para o insucesso», porque «as desigualdades de partida reproduzem-se», mas não diz nada como assegurar nas escolas as condições de ensino-aprendizagem para que as tais classes menos privilegiadas, social e culturalmente, valorizem mais a escola, o saber, o trabalho, a disciplina e a responsabilidade individual de cada qual no seu percurso escolar. Uma escola que não exige trabalho, disciplina e responsabilidade ao estudante está a criar exclusão, porque há uma boa parte dos alunos, social e culturalmente desfavorecidos, cuja única oportunidade de mobilidade e ascensão social é a escola. Se não trabalha e não se esforça, não acontecem aprendizagens significativas.

O facilitismo das passagens administrativas e dos diplomas sem corresponderem a conhecimentos e competências efectivas é um logro, que nada tem a ver com qualificação séria nem com uma «escola de qualidade [que] deve ter a inclusão como objectivo essencial.». O discurso paternalista do coitadinho, por isto ou por aquilo, conduz à inércia e à fácil responsabilização de terceiros (sociedade) por todos os males individuais. Quem é socialmente desfavorecido deve ser apoiado na escola, mas não pode ser dispensado de trabalhar, de ter disciplina e civismo, de ser responsável. Pobreza não legitima a indisciplina, a violência ou a ausência de trabalho, esforço e estudo. Pelo contrário, estes estudantes têm de redobrar o seu esforço para recuperar das desvantagens de partida relativamente a outros estudantes. Se nem trabalho se exige nem querem, depois não se queixem que vão cair nas «escolas que “tomam conta” das crianças e dos jovens» e não nas que estão «vocacionadas para a “aprendizagem”.» Como refere ainda o BE, as «primeiras são “escolas do saber”, destinadas a estudantes padrão; as segundas são “escolas do fazer”, para estudantes com contextos sociais e culturais desfavorecidos.» É preciso fazer pela vida e aproveitar os apoios que são concedidos para evoluir socialmente.

O BE não utiliza a palavra autoridade, como se tivesse uma conotação negativa (autoritarismo) devido aos complexos ideológicos de uma certa esquerda. Não se consegue, dizemos nós, sem trabalho, disciplina e responsabilidade por parte do estudante, melhorar os níveis de sucesso escolar nem dignificar as condições de exercício dos profissionais da escola, que o BE defende.

O BE quer que o sistema de ensino combata as «disigualdades sociais e culturais de partida» (página 34) mas depois deve pensar que isso acontece por milagre, sem disciplina, sem trabalho e reponsabilidade dos estudantes. Os professores estão cansados da já referida teoria do coitadinho. A melhor inclusão e contributo para a mobilidade social são o trabalho, a disciplina e a responsabilidade individuais, contando com apoios sociais e socio-afectivos disponíveis na escola, para que se diluam as «desigualdades de partida» e se contribua para a igualdade de oportunidades. Sou totalmente favorável. Já não sei o que se entende por «projecto pedagógico criativo e libertador». A pedagogia é importante mas não substitui o trabalho, a disciplina e a responsabilidade do estudante. É tão ilusório pensar o contrário como acreditar nas estatíticas pré-eleitorais do governo de José Sócrates sobre o sucesso escolar.

Como o BE, também vejo a escola como um pólo da comunidade, com vocação e funções sociais, mas não vamos exigir à escola aquilo que ela não pode dar. Aquele partido defende a escola como «espaço público em torno de três vocações centrais: educar os jovens e as crianças; apoiar as famílias nas suas necessidades; e valorizar a articulação com as dinâmicas comunitárias e de formação ao longo da vida.» Então a principal função e vocação da escola não é ensinar/transmitir conhecimento/desenvolver competências/ensinar a pensar? A educação não é vocação e função da família? A escola é um complemento nessa educação pessoal.

A escola deve oferecer «actividades lúdicas que permitam à escola servir de apoio às famílias»? É esta a vocação da escola? Ser espaço de entretenimento e depósito de crianças e jovens? A escola adaptar-se aos «horários de trabalho dos pais e das mães»? Não se deveria antes pensar-se em alternativas mais adequadas, envolvendo clubes desportivos, associações culturais, escolas de música, ATLs, entre outros. A escola pública e o governo não têm de regular a vida toda das crianças e interná-las na escola. Só falta saírem da escola com banho tomado e de pijama.

O BE defende o fim das reprovações por ano de escolaridade. É um bom princípio. Mas, é preciso condições e alternativas. Se o estudante não trabalha, não se esforça, é indisciplinado e irresponsável, não tem os conhecimentos/competências mínimas, vamos fazê-lo transitar de ano com que propósito? Para ele sentir mais dificuldades no ano escolar seguinte?

Existem «estudos que demonstram que as crianças e jovens pouco ou nada ganham com a acumulação de retenções para além da quebra de auto-estima». Qual é a alternativa? Transitar sem saber? Não. Primeiro, as premissas de trabalho, disciplina e responsabilidade deveriam ser exigidas ao estudante. Uma certa esquerda pensa que isto não importa e toca a colocar o ónus na pedagogia (varinha de condão para transformar alunos preguiçosos, indisciplinados e irresponsáveis em estudantes de sucesso) ou na sociedade, essa causadora de todos os males. Pois, o BE está mais procupado com a «auto-estima» dos estudantes... repare-se que nem fala de auto-confiança, que é baseada e se fundamenta em alguma coisa, no trabalho e no esforço, por exemplo. O BE poderia propor que os alunos com nível negativo nas línguas ou na Matemática teriam de ficar nas férias na escola a recuperar essas notas para poder transitar sem o facilitismo e laxismo que se promove actualmente, ao deixar o estudante avançar sem conhecimentos mínimos em várias disciplinas nucleares. Será isto inclusão? Uma falsa inclusão.

Recorde-se:
Educação > Legislativas 2009 > PSD

Nacional tombou gigante Zenit

Madeira sempre em festa

A Madeira é uma festa, mas cuidado com as ressacas...
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«De Junho a Setembro realiza-se a esmagadora maioria dos arraiais madeirenses (201), que dá uma média de 12 a 13 por fim-de-semana, que a juntar aos outros eventos de cariz festivo (como festas dos concelhos, semanas gastronómicas, festas de música electrónica, etc) fazem do Verão uma época sempre em festa na Madeira.» (Diário)

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

Educação > Legislativas 2009 > PSD

«O combate ao facilitismo e a recuperação do prestígio dos professores serão linhas mestras do nosso programa de acção», começa por dizer o PSD nesse programa eleitoral hoje apresentado. São bons sinais. Esperemos que esta direita social-democrata não imite, caso venha a ser governo, o laxismo de uma certa esquerda (e de uma certa direita como na Madeira, que deixou instalar a mesma bandalheira nas escolas.) A Educação ocupa o ponto 4 do programa referido, na página 22.

Numa primeira leitura, enquanto professor, posso dizer que o PSD ouviu o terreno. Há medidas que nem eu faria melhor. Se houver esforço de cumprimento destas medidas, há coisas que se podem alterar para melhor, embora o caldo socio-cultural seja difícil. Há outras questões sobre as quais tenho dúvidas. Alguns destaques (sublinhado nosso):

«Todos os estudos e indicadores revelam a necessidade de orientar as políticas para uma maior qualidade do ensino, mas os socialistas optaram por uma política que estimula o laxismo, a falta de disciplina e o facilitismo na avaliação. Para melhorar estatísticas e exibir efeitos de curto prazo, o que se criou foi um clima de desconfiança e desprestígio que, sob a bandeira de uma falsa inclusão, redunda na mais flagrante injustiça social e acaba por prejudicar todos e o País. Para calar críticas, o governo tentou sistematicamente denegrir, agredir e desprestigiar os mais importantes agentes do sistema educativo: os professores

«Desenvolveremos uma política de educação determinada transversalmente pelos valores do rigor, da exigência, da criatividade e formação integral do ser humano e do respeito pelos agentes do sistema educativo».

«Combateremos o facilitismo e promoveremos a instalação de uma cultura de exigência e de rigor, que traduza uma efectiva valorização do ensino e o seu reconhecimento pelas famílias, pelas empresas e pelos alunos e que premeie o esforço e o mérito.»

«Alteraremos o Estatuto do Aluno, valorizando a assiduidade, disciplina e civismo, revogando as normas que possibilitam faltas quase permanentemente justificadas e sobrecarregam os professores com a obrigação de repetirem sucessivamente testes a alunos faltosos.»

«Simplificaremos os processos de punição das infracções disciplinares dos alunos, para sancionamento da indisciplina e da violência nas escolas.»

«Consagraremos formas de participação e de co-responsabilização dos encarregados de educação, condicionando certos apoios sociais do Estado ao cumprimento
dos deveres escolares do(s) aluno(s) a cargo.»

«Restabeleceremos o prestígio dos professores, reforçando a sua autoridade e condições de trabalho de modo a chamar os melhores para o ensino, centrando a sua acção no trabalho pedagógico e aliviando a sua carga burocrática

«Afirmaremos a necessidade da existência de um processo de avaliação dos professores e da sua diferenciação segundo critérios de mérito. Suspenderemos, porém, o actual modelo de avaliação dos professores, substituindo-o por outro que, tendo em conta os estudos já efectuados por organizações internacionais, garanta que os avaliadores sejam reconhecidos pelas suas capacidades científicas e pedagógicas, com classificações diferenciadas tendo por critério o mérito, e dispensando burocracias e formalismos inúteis no processo de avaliação

«Reveremos o Estatuto da Carreira Docente, nomeadamente no respeitante ao regime de progressão na carreira, corrigindo as injustiças do modelo vigente e abolindo a divisão, nos termos actuais, na carreira docente

Recorde-se:
Trágicas ilusões
Balbúrdia na escola

Elementos sobre o estado da Escola Pública 52: trágicas ilusões

O facilitismo e o laxismo educativos tomaram proporções tais que é uma vergonha nacional. O PS de Sócrates faz parte, na Educação, de uma certa esquerda laxista, que aqui temos denunciado, e dedicou-se às estatísticas para iludir os portugueses. Só uma cultura desresponsabilizante e desvalorizadora da escola e do conhecimento podem pactuar com este estado de coisas.
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O primeiro-ministro José Sócrates, segundo o Público, quando pintava de rosa a realidade educativa do país, referiu ser acusado de facilistismo. José Manuel Fernandes, director do referido jornal, no dia 25 de Agosto, procurou deitar luz sobre as zonas escuras que o governo não pretende manter:

«O primeiro problema colocado pelas estatísticas ontem divulgadas pelo Ministério da Educação é que estas fornecem pouca informação. Mais: todos os esforços do PÚBLICO para completar essa informação chocaram com a habitual relutância da administração pública em fornecer as bases de dados e não apenas os números trabalhados "à sua maneira". É um escândalo numa democracia, tornou-se uma rotina com este Governo que trata toda a informação estatística como se de um segredo de Estado se tratasse.» [E fá-lo por alguma razão.]

«Mesmo assim a informação que essas estatísticas fornecem permite verificar que o "grande salto" foi dado apenas nos dois últimos anos lectivos. Porquê? Uma das explicações ontem adiantadas por professores que conhecem bem as escolas é que o novo Estatuto do Aluno [leia este «Balbúrdia na escola»], que foi muito criticado por promover o laxismo e diminuir a autoridade dos professores, automaticamente impede as chamadas "retenções" - a que os mais velhos ainda chamam chumbos... - por faltas.» [A mão dura foi apenas para os professores, para justificar cortes nos salários e nas carreiras, como se o sucesso educativo dependesse só dos docentes. Como se outros actores nada tivessem a ver com os resultados escolares. Como se o trabalho e o esforço dos meninos não fosse necessário...]

«Por outro lado, são inúmeros os exemplos, alguns dos quais chegaram a ser debatidos nestas páginas, da pressão que existe para evitar que os alunos tenham de repetir um ano lectivo, mesmo que, manifestamente, não tenham adquirido as competências, o saber correspondente. Obrigar um aluno a repetir o ano é algo que o "eduquês" condena com veemência, condenação que se tornou doutrina oficial do actual ministério

«Este quadro torna difícil acreditar nos cenários dourados que apontam para mecanismos como as aulas de recuperação ou uma melhor formação de professores como factores do aparente sucesso: mais depressa se olha para a escola e se encontram casos de exames mais fáceis e de conselhos de turma onde os docentes discutem qual deles vai perdoar a negativa a um aluno para não ficar... "retido".» [Eu estou no terreno e isto é pura verdade. Andamos a criar um mundo de faz de conta na escola pública, para mal dela.]

«Em síntese: se uma orientação correcta - a abertura de mais vias no ensino profissional - explica uma parte dos sucessos, orientações e práticas erradas que permitem que as taxas de insucesso baixem não porque as escolas estão a produzir alunos melhor formados, antes porque se acomodaram a menores níveis de exigência. Estes afectam depois a qualidade do ensino superior, como muitos docentes que dão aulas aos primeiros anos verificam ano após ano.» [Outra realidade clara, que os professores bem conhecem. Cada vez se exige menos trabalho, responsabilidade e disciplina ao aluno, que resulta na bandalheira instalada. Os alunos passam a saber as matérias pela rama. Esta é a realidade que a propaganda procura camuflar.]

«Uma última nota, porventura ridícula para quem está no sistema, mas chocante para quem toma à letra as palavras dos governantes e, depois, se confronta com a letra da lei, lei neste caso anterior ao actual Governo: os nossos nove anos de escolaridade obrigatória não correspondem à obrigatoriedade de completar o 9º ano, apenas à obrigatoriedade de frequentar a escola (mesmo que não aprendendo nada) até aos 15 anos, altura a partir da qual a lei portuguesa permite que se trabalhe sem cair na moldura penal do trabalho infantil. Confessando ao mesmo tempo a ignorância sobre este "detalhe" mas assumindo a revolta por esta pantomina, é caso para dizer que nunca deixaremos de ser um país de opereta. E opereta fanhosa.»

Este governo não poderia ter falhado na Educação. Precisamente na Educação. Mantemos ainda elevadas percentagens de trabalhadores não qualificados («em 2007, os trabalhadores portugueses mantinham uma estrutura de qualificações muito semelhante à verificada duas décadas atrás»: 31%), mas este governo parece apostado em aumentar as qualificações com falsos qualificados para compor a estatística. Não sei o que é mais trágico... Quando se varre para debaixo do tapete o problema ele "deixa" de existir e não se tomam medidas para o resolver...

Mais "serviço" de desmontagem da ilusão para votante ver:
AQUI

Recorde-se:
51: falar verdade
50: vida ilusória na escola versus dura realidade
49: novo paradigma de escola
47: «A balbúrdia na escola»
46: Afinal, ministra da Educação desresponsabiliza estudantes
42: Vida fácil na escola e regras de vida para o estudantes
41: «Zona de esforço não negociável»
40: Responsabilizar outros actores e não só os docentes
39: Professor bode expiatório
31: Responsabilizar os estudantes pelo seu desempenho
29: Regras e responsabilização das crianças
27: Responsabilização
24: Laxismo e facilitismo significam exclusão social
23: Leste arrasa postura desculpabilizante
22: valores do Trabalho e da Responsabilidade moribundos na escola
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação

Ideias sobre Educação em que me revejo 2

«Mas sucede que a responsabilidade não nasce senão depois de se ter cultivado cuidadosamente, demoradamente, a semente da responsabilidade. Passámos anos a fomentar no menino um estilo de vida irresponsável, e agora, de repente, exigimos-lhe que seja responsável? Passámos anos a apaparicá-lo, e agora queremos que seja maduro? Para ele ser maduro, teria sido necessário que tivesse vivido: que tivesse passado experiências diversas, que tivesse enfrentado obstáculos, que tivesse feito coisas sozinho, que tivesse errado e emendado depois os erros, que se tivesse aperfeiçoado à custa de esforço pessoal. E nós temos feito tudo para lhe evitar esses obstáculos, essas experiências e esse esforço.»
(Paulo Geraldo)

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Formato USB

O interessante seria conjugar as vantagens de transporte e armazenamento com uma qualidade de som que ultrapassasse o CD e se aproximasse da naturalidade do vinil. Isso sim, seria óptimo.

«LIMITED EDITION DELUXE BLACK HEART-SHAPED USB PENDANT NECKLACE1GB» podemos ler sobre um dos formatos em que é editado o novo álbum, Six, dos THE BLACK HEART PROCESSION.

E explicitam-se os detalhes: «rewritable USB flash drive includes the album in lossless WAV files, plus 15-page Digital Booklet, hi-resolution cover art, and "Witching Stone" music video. Pendant necklace comes packaged inside custom laser-engraved heartshaped metal tin. Limited edition of 1,000 copies.»

Se o USB me garantir, pelo menos, a qualidade do CD, não tenho problema em aderir. Já estou a imaginar um leitor misto de CD e USB, quem sabe se com um écran para vermos logo ali o artwork e lermos as letras durante a audição da música.

Perde-se o contacto físico e ritualístico com o disco, seja em vinil, seja em CD, mas não se pode ter tudo, pelo menos para já. As vantagens de transporte e armazenamento, por exemplo, do formato USB é de ter muito em conta. O interessante seria conjugar estas vantagens com uma qualidade de som que ultrapassasse o CD e se aproximasse da naturalidade do vinil.

Terça-feira, Agosto 25, 2009

Gasolina a 75 cêntimos... em Canárias

Segundo o Tribuna da Madeira, de 22 de Agosto do corrente (páginas 20-21), a gasolina que na Madeira custa 1,22 euros (122 cêntimos) , nos Açores 1,11 euros (111 cêntimos), em Canárias é vendida a 0,75 euros (75 cêntimos).

Há quem consiga e há quem não consiga. Uma questão de prioridades? Através da Lei de Finanças das Regiões Autónomas portuguesas os governos regionais fixam o preço dos combustíveis e «podem reduzir até 30% as taxas dos impostos pagos no continente (o que acontece em relação ao IVA) e, em inferior percentagem variável para os diferentes produtos, a taxa do imposto sobre os combustíveis».

Será por sermos mais ricos (com superior «patamar de desenvolvimento») que canarinos e açoreanos que merecemos pagar combustíveis mais caros?

Recorde-se:
Patamar superior de desenvolvimento justifica combustíveis mais caros na RAM

Segunda-feira, Agosto 24, 2009

Jardim do Mar «mais seguro»?

Para justificar a "promenade" na costa do Jardim do Mar, fez-se crer às pessoas que o mar iria engolir a frequesia de um dia para o outro. As pedras que caem do penhasco, como as que se vêem na imagem, são um argumento (perigo) com outro peso...
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A limpeza do talude sobranceiro ao Jardim do Mar, junto à entrada do túnel para o Paúl do Mar, durante o dia de hoje, é mais uma prova que o perigo da mais pequena freguesia da Madeira advém da queda de pedras do elevado penhasco.

Os 10 milhões de euros que se gastaram na "promenade" (sobretudo para lazer) do Jardim do Mar deveriam ter sido gastos, primeiro e/ou em parte, na segurança do acesso a esta e à freguesia do Paúl do Mar, quem sabe se com uma série de pequenos túneis que evitassem as zonas mais perigosas, como se fez no norte da ilha. A segurança das pessoas deveria estar em primeiro lugar. Espera-se que haja mortes primeiro?

Na inauguração da “promenade”, disse-se que o Jardim do Mar ficava «mais seguro». Será? Para justificar essa obra, fez-se crer às pessoas que o maior perigo vinha do mar.

Domingo, Agosto 23, 2009

Voto dos professores

Não é por acaso que a ministra da Educação é uma das imagens "negativas" escolhidas para o banner do blogue Jamais, de pessoal afecto ao PSD.

A política e a atitude de hostilidade e diabolização pública, confundidas com reformismo, para com os professores portugueses foi um pecado capital, que gerou enorme ressentimento. Os 140 mil docentes portugueses, seja pelo voto na oposição ou em branco, contribuíram, decididamente, para o PS perder as recentes Eleições europeias.

Se se confirmarem os prognósticos e tendências de empate entre PSD e PS, os votos dos professores, e das pessoas que à sua volta influenciam, poderão ser importantes. José Sócrates e o PS, nos vapores da maioria absoluta, pensaram que dispensariam com mais facilidade os votos dos professores para repetir a maioria absoluta ou vencer as eleições. Veremos o que acontecerá em 27 de Setembro.

Sábado, Agosto 22, 2009

Asfixia da democracia democraticamente espalhada

Asfixia da democracia («asfixia democrática» no Continente segundo Manuela Ferreira Leite) ou défice de democracia («défice democrático» na Madeira segundo Mário Soares), venha o diabo e escolha.
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Manuela Ferreira Leite denunciou, numa entrevista na RTP1, a existência de uma «asfixia democrática» em Portugal continental, fruto da governação socialista.

Primeiro, como notou o meu amigo Roberto, não é correcto falar em «asfixia democrática», a não ser que se queira dizer que a asfixia é democrática. Talvez quis dizer «asfixia da democracia».

Seja como for, como ainda notou o referido amigo, podemos estar certos de que a asfixia da democracia está democraticamente espalhada e sentida. É preocupante que o vírus se alastre a todo o país.

Como bem nota André Escórcio no Com que então, parece que a líder nacional esquece os termos da vivência democrática numa parcela do território nacional governada há décadas por um poder absoluto (maioria absoluta) do seu próprio partido.

Mas, se a Madeira é acusada de mau exemplo, esse exemplo não justifica que o Governo da República o procure imitar de algum modo.

Resumindo, como já dissemos em Uns mais iguais do que os outros, mas iguais, poder é poder. E poder absoluto quer-se manter no poder absolutamente. É mais dado a certos tiques e manias de controlo porque fica inebriado e poder-dependente.

Moral da história: como diz a canção Poder de José Mário Branco [no álbum Resistir é Vencer, 2004], «poder/Quem o tem, tem ascendente/Poder/Quem o tem, faz-se valente/Bem usado/Mal usado/O poder é sempre prepotente.»

Em vésperas de eleições, é caso para dizer: venha o diabo e escolha.

A propósito:
Uns mais iguais do que os outros, mas iguais III
Uns mais iguais do que os outros, mas iguais II
Uns mais iguais do que os outros, mas iguais I (domínio absoluto)
Uns mais iguais do que os outros, mas iguais

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Ideias sobre Educação em que me revejo 1

«Os teus filhos, portanto, devem habituar-se desde pequenos a ajudar em casa, a prestar serviços na medida das suas capacidades. O lar, esse milagre quotidiano, deve ser também uma construção deles. Algumas vezes as tarefas que lhes deres exigir-lhes-ão um sacrifício custoso. Mas sem isso a casa não seria a sua casa: seria um lugar vazio, a pensão onde teriam de ir dormir e comer durante mais algum tempo, exigindo que os servissem sem falhas. Assim, porém, sentir-se-ão responsáveis por aquilo que foi também obra sua. Acabarão descobrindo por si mesmos as tarefas que é preciso realizar. Olharão para a casa, para os pais, para os irmãos com os olhos perspicazes do amor.»

«É claro que, quando chega a altura em que precisa mesmo de estudar, porque as matérias se tornaram mais difíceis, não é capaz de o fazer. Pois é natural que - não tendo sido habituado ao esforço de fazer a cama, de ir a pé para a escola, de pôr a mesa... - não seja capaz do esforço de estudar, que é maior do que os outros. É escusado levar o menino ao psicólogo. É escusado pensarmos que o problema está em que não sabe estudar, em que desconhece as técnicas de estudo. O problema dele são... os pais. Exactamente. Seremos capazes de mudar?»

«É realmente monstruoso que o trabalho infantil seja explorado. Ficamos chocados com isso, e fazemos muito bem, pois qualquer género de exploração é odiosa. Mas o trabalho durante a juventude é coisa útil e necessária. É a trabalhar que se aprende a trabalhar. É na juventude que se devem adquirir as capacidades - de esforço, de persistência, de concentração... - que o trabalho exige. O trabalho, com a medida adequada às características e à idade de cada um, edifica o homem. Molda-lhe as virtudes, o carácter e os músculos.»

«Este país está a encher-se de jovens que beberam a escolaridade obrigatória até à última gota e que agora não sabem fazer... nada. Vemo-los hoje frequentar todo o género de casas nocturnas com o dinheiro dos pais. Amanhã, como não aprenderam a trabalhar, terão de tentar sobreviver à custa de adaptações ou de truques, talvez não muito de acordo com a lei ou com os bons costumes.»
(Paulo Geraldo)

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Mais achas para a fogueira do PS Madeira

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No passado dia 10 de Agosto, no Diário, um histórico do PS Madeira deu mais um exemplo de como se contribui para a intriga e descrédito do partido. Será que afirmar que Bernardo Martins «foi daqueles que me puxou o tapete» e que João Carlos Gouveia «não tem categoria para nada» é a fórmula para «disciplinar» e «credibilizar» o partido? Como se pode invocar disciplina com um exemplo de indisciplina?

Duarte Caldeira demonstra que nunca digeriu (perdoou) o facto de ter sido «liminarmente eliminado» da bancada do PS na Assembleia Legislativa da Madeira, no processo de renovação empreendido sob a liderança de Jacinto Serrão, e deseja um regresso ao passado, como se aí morasse a solução.

Aplico as palavras de Vasco Pulido Valente face ao criticado "quero, posso e mando" de Manuela Ferreira Leite, na formação das listas às Legislativas 2009: «Sem uma autoridade fixa e até, eventualmente, brutal, o partido deslizaria para a "federação de câmaras" (à mistura com algumas "distritais"), que dia a dia se afundava na intriga e na irrelevância.» (Público 14.8.2009)

Quem quiser e puder «disciplinar» o PS Madeira, pode já começar por calar o ruído, a intriga e arrasar as "capelinhas", os interesses e os conflitos pessoais. Há demasiados egos e pessoas importantes no partido socialista da Região, que precisam de um tratamento à Alberto João Jardim, para que saia do ciclo vicioso da intriga, da desunião e da irrelevância.

A propósito:
Fórmula anti-saco de gatos

José Sócrates na Fonte do Bispo

Como será que, por exemplo, os professores socialistas receberão José Sócrates na Fonte do Bispo?
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«Sempre que o primeiro-ministro vem à Madeira, o Partido Socialista desce nos votos», afirmou Alberto João Jardim a propósito da visita de José Sócrates à Região, no próximo domingo, dia da Festa da Liberdade, na Fonte do Bispo, organizada pelo Partido Socialista.

Na verdade, tendo em conta os factores concorrentes para o previsto esmagamento do PS Madeira, a acentuada descida nos votos é certa e a vinda de José Sócrates nada alterará. O mais lógico seria ganhar distância desse particularmente mau resultado eleitoral neste arquipélago. De resto, o mau resultado será nacional, mesmo que o partido do actual primeiro-ministro ganhe o acto eleitoral de 27 de Outubro, porque o número de votos descerá de forma substancial face às Eleições Legislativas de 2005.

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

Les Paul, o pai da guitarra eléctrica

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Apesar da dolência induzida pelas férias e os dias quentes de Agosto, não nos passou despercebida a morte de Les Paul, o pai da guitarra eléctrica, na passada quinta-feira-feira, que aqui assinalamos pela sua ligação ao Rock.

Disse o Público: «A mítica Gibson, ícone rock'n'roll utilizado por guitarristas como Jimmy Page, Pete Townshend ou Slash, é a face mais visível do legado do mítico Les Paul, que morreu ontem em White Plains, Nova Iorque, aos 94 anos, de pneumonia.»

«Nasceu Lester William Polfuss em Waukesha, Wisconsin, a 9 de Junho de 1915, e foi pioneiro da guitarra eléctrica de corpo sólido, imprescindível para o nascimento do rock'n'roll, e das técnicas de gravação multipistas que se tornaram a norma desde a década de 1960.»

«Em 1941, apresentou-se pela primeira vez em palco com o instrumento a que chamou The Log: um pedaço de madeira, ligado a um braço de guitarra, onde instalou dois pickups, o que possibilitava prolongar electricamente as notas tocadas na guitarra.»

Apesar de inicialmente recebida com escárnio pelo público e colegas músicos, foi a partir dela que, no início dos anos 1950, a Gibson criou o famoso modelo imortalizado com o seu nome.»

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Usain Bolt, o Ferrari humano

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O impunente jamaicano Usain Bolt, com 1,96 metros de altura e 22 anos, voltou a bater o recorde dos 100 metros obtido por si em 2008. Confirmou ser o homem mais rápido do mundo, agora com a marca de 9.58 segundos, em Berlim, no passado dia 16 de Agosto, nos Campeonatos do Mundo de Atletismo 2009.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Realidade impõe-se às teorias

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«Antigamente tinha seis teorias sobre o modo de educar as crianças. Agora tenho seis filhos e nenhuma teoria.»
Lord Rochester

Esta frase vem a propósito do post recente Novo paradigma de escola.

Segunda-feira, Agosto 17, 2009

Do tempo de Salazar

A Pasta Dentífrica Couto, antes denominada Pasta Medicinal Couto, nasceu em 1932, no mesmo ano em que era publicado o projecto de uma nova Constituição, com que Salazar cria o Estado Novo. Esta coincidência seria suficiente para condenar ao fracasso o ressurgimento do produto no Portugal democrático...

Compreendo o saudosismo face a certos produtos do Portugal de Salazar, por uma questão meramente de apego emocional às coisas do tempo de uma determinada geração de portugueses, mas será que esta pasta dentrífica encontra mercado suficiente que a viabilize no século XXI?

Existe à venda, por exemplo, n' A Vida Portuguesa.

Domingo, Agosto 16, 2009

Elementos sobre o Estado da Escola Pública 51: falar verdade

Falar verdade, por mais politicamente incorrecto que seja. Falar verdade, doa a quem doer.

"A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva.... O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?"

"Os exames são uma vergonha. Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada!"

"Isto da avaliação dos professores não é começar por lado nenhum. Eu já disse à Ministra uma vez «A senhora tem uma agenda errada"» Porque sem pôr disciplina na escola, não lhe interessa os professores. Quer grandes professores? Eu também, agora, para quê? Chegam lá os meninos fazem o que lhes dá na cabeça, insultam, batem, partem a carteira e não acontece coisa nenhuma. Vale a pena ter lá o grande professor? Ele não está para aturar aquilo... Portanto tem que haver uma agenda para a Educação. Eu sou contra a autonomia das escolas. Isso é descentralizar a «bandalheira»."

"Se aparece aqui uma pessoa para falar verdade, os vossos comentadores dizem «este tipo é chato, é pessimista».... Se vem aqui outro trafulha a dizer umas aldrabices fica tudo satisfeito..."

Medina Carreira
(Entrevista conduzida por Mário Crespo, Sic Notícias, 09.03.2009)

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Sábado, Agosto 15, 2009

D. Quixote de la Mancha (6)

«- Neste que agora nos aconteceu [pancadaria pela mãos de um grupo de vinte galegos - vide post anterior] - respondeu Sancho -, gostaria eu de ter essa inteligência e essa coragem que vossa mercê diz; mas juro-lhe pela minha palavra de pobre homem, que mais estou para emplastros que para sermões.»

«Quem diria que, após as tão grandes cutiladas que vossa mercê [D. Quixote] deu àquele desgraçado cavaleiro andante [refere-se a outro episódio], havia de vir tão rapidamente e em seguida esta grande tempestade de pauladas que caiu nas nossas costas?»

«- Senhor, já que estas desgraças são frutos da cavalaria, diga-me vossa mercê se sucedem muito amiúde, ou se têm as suas épocas próprias para acontecer; porque me parece que após duas colheitas ficaremos inutilizados para a terceira, se Deus, pela sua infinita misericórdia, não nos socorre.»

D. Quixote: «[E]mbora tenhamos ficado pisados nesta contenda, estamos ofendidos porque as armas que aqueles homens traziam, com que nos pisaram, não eram senão os seus paus, e nenhum deles, segundo me recordo, tinha estoque, espada ou punhal.»

Sancho: «[M]al pus a mão na minha espada, logo me benzeram os ombros com os seus paus tão grandes que pareciam pinheiros, de modo que me tiraram a vista dos olhos e a força dos pés, atirando-me para onde jazo agora, e onde não me dá cuidado nenhum pensar se foram uma ofensa ou não as pancadas com os paus, como me dá a dor das pancadas, que me hão-de ficar tão impressas na memória como nas costas.»

«- Apesar de tudo isso, faço-te saber, irmão Pança - replicou D. Quixote -, que não há lembrança que o tempo não apague, nem dor que a morte não consuma.
- Pois que maior desdita pode haver - replicou Pança - que aquela que aguarda o tempo que a consuma e a morte a acabe? Se esta nossa desgraça fosse daquelas que com um par de emplastros se saram, não seria tão mau; mas estou a ver que não vão chegar todos os emplastros de um hospital para lhes dar pelos menos algumas melhoras.
- Deixa-te disso e tira forças da fraqueza, Sancho - respondeu D. Quixote, que assim farei eu».

Miguel de Cervantes: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha: Relógio D'Água: Maio de 2005 (obra originalmente editada em 1605): tradução e notas de José Bento: páginas 124-125.

D. Quixote de la Mancha (1)

Sexta-feira, Agosto 14, 2009

Elementos sobre o Estado da Escola Pública 50: vida ilusória na escola versus a dura realidade

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Depois de termos abordado o problema das ilusões que se criam na escola em Vida fácil na escola, chegou-me às mãos um texto de um aluno que confirma a análise.

O texto intitula-se «The Cops» e, no final, depois de expressar que não gosta de polícias, que são maus, violentos, entre outras coisas, conclui o seguinte: «If the cops were like some teachers, it would be much better

Este «se os polícias fossem como alguns professores, seria muito melhor» permite tirar conclusões claras, que prova a tal distância entre a vida na escola e a vida fora dela.

O estudante acha injusto se não o deixarmos fazer o que lhe apetece. Espera e pensa poder fazer lá fora o que faz dentro da escola. Espera e pensa obter a mesma brandura, complacência e falta de autoridade (impunidade) nos polícias que encontram na Escola e nos professsores.

Esperam que o mundo real seja como o ilusório mundo da escola, em que regras, disciplina e responsabilidade individual são altamente realtivizadas em nome da auto-estima (amor próprio) ou de um certo conceito de "inclusão" (manter os alunos dentro dos muros da escola).

O estudante chega à dura conclusão que o mundo real não é a escola, mas em vez de enfrentar a realidade refugia-se no mundo ilusório da escola: manifesta o desejo de que os polícias actuem como os professores. Pretende a mesma permissividade e complacência por parte das forças da ordem, do nosso Estado de Direito, que vive em meio escolar, em que muitas vezes não há consequências para os actos de transgressão que chocam com os direitos dos outros à sua volta.

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

D. Quixote de la Mancha (5)

«- Que diabo de vingança poderá ser a nossa - respondeu Sancho -, se eles são mais de vinte e nós só dois, e até talvez nós só um e meio?

- Eu valho por um cento - replicou D. Quixote.

E, sem fazer mais discursos, lançou a mão à espada e arremeteu contra os galegos, e o mesmo fez Sancho Pança, incitado e levado pelo exemplo do amo.»

«Os galegos, que se viram maltratados por aqueles dois homens, sendo eles tantos, acorreram com os seus paus, e, cercando os dois, desataram todos a bater-lhes com grande afinco e veemência. É verdade que à segunda pancada atiraram Sancho ao chão, e o mesmo aconteceu a D. Quixote, sem que lhe valesse a sua destreza e grande coragem.»

«O primeiro a queixar-se foi Sancho Pança; e, achando-se perto do seu senhor, com voz enfermiça e queixosa, disse:

- Senhor D. Quixote! Ah, senhor D. Quixote!»

«- Senhor, eu sou um homem pacífico, manso, sossegado e não sei fazer caso de qualquer injúria, porque tenho mulher e filhos para sustentar e criar. Assim, sirva também para vossa mercê de aviso, já que não pode ser uma ordem, que de maneira nenhuma levarei as mãos à espada, nem contra vilão nem contra cavaleiro; e que, desde agora até à hora da minha morte, perdoo todas as ofensas que já me fizeram e me hão-de fazer, quer mas tenha feito ou faça ou venha a fazer qualquer pessoa nobre ou plebeia, rica ou pobre, fidalgo ou que tenha de pagar impostos, sem exceptuar nenhum estado ou condição.»

(Continua em próximo post)

Miguel de Cervantes: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha: Relógio D'Água: Maio de 2005 (obra originalmente editada em 1605): tradução e notas de José Bento: páginas 122-123.

D. Quixote de la Mancha (1)

Quarta-feira, Agosto 12, 2009

Elementos sobre o Estado da Escola Pública 49: novo paradigma de escola

CARREGAR O MUNDO ÀS COSTAS? NÃO OBRIGADO. Em lugar de andar a sonhar com ideais, mudanças de paradigma utópicas (baseadas na impossibilidade de criar um Homem Novo ou um Estudante Novo) e rupturas radicais, o meu intento ou desejo mais terreno é que se mude rapidamente do paradigma do facilitismo, do laxismo, da desresponsabilização, da atitude negativa perante o trabalho escolar e da complacência perante a indisciplina, para o paradigma da Responsabilidade, da Disciplina e do Trabalho na escola.
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Canso-me de ouvir teóricos sobre a educação, na forma como iludem premissas básicas e universais do processo de ensino-aprendizagem por parte do estudante (Trabalho, Disciplina e Responsabilidade) e apontam para o IDEAL, para uma mudança sonhada e radical de paradigma de escola, que sabem que não dá resposta aos problemas do momento presente nem do futuro próximo.

Pior do que isso, com um fundo claramente ideológico, procuram fazer passar a ideia de que esse novo paradigma de escola ou novos modelos pedagógicos como que dispensam, ou resolvem de forma espontânea, por arrastamento, a falta da disciplina, de trabalho e responsabilidade entre muitos estudantes na actualidade.

Muitos teóricos insistem nessa ideia do professor enquanto facilitador, orientador, organizador e criador das melhores condições possíveis para os estudantes desenvolverem a sua aprendizagem, mas depois atribuem ao professor, quando não depende só dele, a existência de disciplina, responsabilidade e trabalho nesses alunos.

Afinal, o professor tem de ser uma espécie de «faz tudo» ou «consegue tudo», um milagreiro, em que o seu carisma, liderança e sei lá o que mais tudo soluciona e resolve na sala de aula, mesmo perante os alunos mais indisciplinados, irresponsáveis ou aversos ao mais elementar empenho ou esforço.

Os teóricos ligados a uma certa esquerda evitam sempre o problema da indisciplina , da falta de responsabilidade e da atitude negativa dos alunos perante o trabalho escolar e relativizam o seu peso nos resultados escolares. Além disso, desresponsabilizam essa parte importante do processo de ensino-aprendizagem que são os estudantes e transferem a responsabilidade do sucesso ou insucesso escolar do aluno para o professor ou para a esfera social em geral. Muito cómodo.

Reiventar a roda, se isso é de alguma utilidade, pode ser um sonho belo, dar sentido a uma missão, pode ser uma utopia, um farol para uma caminhada, mas continuamos a perder de vista o essencial e os problemas prementes/reais que precisam de ser resolvidos de imediato, no quotidiano, como tentei alertar. Enquanto não chega o IDEAL, o novo paradigma, é preciso ir resolvendo as questões.

E não resolvemos muitos dos problemas no ensino continuando a dispensar o trabalho, a disciplina e a responsabilidade dos estudantes na escola, valores fundamentais em qualquer época, regime político, sociedade, cultura ou paradigma pedagógico/escolar.

São valores universais e basilares. Não existe nem existirá um novo paradigma de escola (por mais que se tente encontar sentido em reiventar a roda) que tenha sucesso sem esses valores fundamentais. Tem a ver com o fundamental da natureza humana.

Sei que é mais fácil e cómodo desviar o olhar para o longo prazo, esperar um acto messiânico ou acreditar que um modelo pedagógico, um modelo de avaliação, um modelo de sociedade, um regime político, um modelo IDEAL qualquer faça o milagre. Nunca se aprenderá, substancialmente, sem trabalho, sem disciplina, sem responsabilidade.

Antes de mudar o mundo ou criar um Homem Novo (e com ele a sociedade perfeita...), precisamos de, na escola, mudar urgentemente, neste tempo presente, do paradigma do facilitismo, do laxismo, da desresponsabilização, da atitude negativa perante o trabalho escolar e da indisciplina para o paradigma da Responsabilidade, da Disciplina e do Trabalho na escola.

Alguns teóricos da educação fazem lembrar um grupo de barbudos que, no PREC, queriam fundar o Homem Novo. Há quem pense que se pode fundar a Escola Nova, deitando abaixo a escola que existe e construindo de um momento a outro essa escola nova.

Enquanto não chega o IDEAL é preciso resolver os problemas terrenos e concretos com que lidamos todos os dias nas escolas, da forma mais directa, objectiva e realista possível. É incómodo mas é necessário.

Se não somos capazes de actuar e procurar minimizar desde já os problemas reais e evidentes que enfrentamos neste momento, nunca seremos capazes de mudar de paradigma de Escola no médio ou longo prazo, que é uma tarefa tremenda, levará imenso tempo e será muito lenta, porque o corte radical com o actual paradigma, excepto em casos isolados e em contextos especiais, nunca acontecerá com sucesso. A mudança será sempre progressiva.

Terça-feira, Agosto 11, 2009

Kurt Wagner: Tiny Desk Concert



Aqui vai Kurt Wagner dos Lambchop para fazer companhia a Bill Callahan, postado há dois dias neste blogue.

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Desconfiar do demasiado consensual

O novo disco de The Mars Volta (com honras de capa na mais recente Rock-A-Rolla) é daqueles exemplos, para mim (há muita subjectividade envolvida), que «funciona como estímulo para as nossas imaginações por vezes demasiado enredadas nas particularidades monótonas de um dia-a-dia de trabalho» (Flur newsletter LUST #484 31.07.2009).

Mais adiante, a mesma newsletter refere que a «vida é demasiadas vezes muito normal para gastarmos o tempo livre a ler, ver e ouvir coisas consensuais.» E depois lança o desafio: «se nunca o fizeram, fabriquem o vosso próprio cosmos de perversões», isto é, o vosso próprio nicho, para evitar levar uma vida demasiado normal (monótona) limitada ao habitual, ao esperado, ao já trilhado, ao massificado, ao consensual. Se é demasiado consensual, desconfiem.

Domingo, Agosto 09, 2009

Bill Callahan: Tiny Desk Concert



Serve para lembrar-me que ainda não comprei o último disco de Bill Callahan (conhecido também pelo projecto SMOG), uma das vozes (mais quentes e graves, além de Mark Lanegan ou Kurt Wagner, este dos Lambchop) e songwriters preferidos. O vídeo data de 20 de Julho deste ano. Portanto, depois de editado em Abril o disco Sometimes I Wish We Were an Eagle.

Sábado, Agosto 08, 2009

Elementos sobre o Estado da Escola Pública 48: intransigir com a bandalheira

Renovar em Educação significa ter uma intransigência grande com a bandalheira ou a balbúrdia(facilistismo e laxismo) instaladas na escola pública, embora fruto de uma cultura social mais vasta - mas encarada e assumida como se fosse a coisa mais natural do mundo -, que se preocupa mais com a auto-estima (amor, falsa inclusão e ilusões) dos estudantes do que com os seus conhecimentos e competências efectivas.

A trilogia Trabalho, Responsabilidade e Disciplina são incontornáveis, independentemente do regime político do país, da cultura da sociedade ou da corrente/modelo didáctico-pedagógico em prática. Quem escamoteia esta base estruturante de valores na Educação e na Escola presta um péssimo serviço à Educação e à Escola.

Recorde-se:
47: «A balbúrdia na escola»
46: Afinal, ministra da Educação desresponsabiliza estudantes
42: Vida fácil na escola e regras de vida para o estudantes
41: «Zona de esforço não negociável»
40: Responsabilizar outros actores e não só os docentes
39: Professor bode expiatório~
31: Responsabilizar os estudantes pelo seu desempenho
29: Regras e responsabilização das crianças
27: Responsabilização
24: Laxismo e facilitismo significam exclusão social
23: Leste arrasa postura desculpabilizante
22: valores do Trabalho e da Responsabilidade moribundos na escola
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

D. Quixote de la Mancha (4)

«A profissão que exerço não consente nem permite que eu ande de outra maneira. O bom passadio, o conforto e o repouso foi inventado para os indolentes cortesãos; mas o trabalho, o sobressalto e as armas só se inventaram e fizeram para aqueles a que o mundo chama cavaleiros andantes, dos quais eu, embora indigno, sou o mais insignificante de todos. Mal lhe [D. Quixote] ouviram isto, logo todos o consideraram louco».

Miguel de Cervantes: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha: Relógio D'Água: Maio de 2005 (obra originalmente editada em 1605): tradução e notas de José Bento: página 105.

D. Quixote de la Mancha (1)

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Sistema de compensações/equilíbrios

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«Este calor é uma parvoíce, tal como o foi o frio intenso no inverno passado. Que raio, raramente estamos satisfeitos. Hm. O resultado é procurar com mais afinco coisas que nos satisfazem, aquela compensação que o ser humano sempre procura como as crianças habituadas a receber um doce sempre que se portam bem nas idas ao médico. Isso depois passa para a vida adulta.» (Flur: mailing LUST #475 19.06.2009)

O ser humano, para suportar melhor a rotina, as agruras, o fado, isto é, os aspectos mais difíceis e enfadonhos da vida, precisa (além de capacidade de aceitação) de compensações, por mais simples que elas sejam. Precisa de estímulos, de um estonteamento ou alienação qualquer para aliviar a carga.

Nas sociedades ocidentais e ocidentalizadas as pessoas procuram, cada vez mais, um escape nos psicotrópicos, como atestam os números que, de quando em vez, são postos cá fora.

Pode evitar psicotrópicos e/ou toxicodependências e pode evitar a alienação por via do consumo. Não deve evitar o convívio humano, a cultura, a contemplação e a espiritualidade. E os valores, claro, à volta dos quais nunca nos enganamos; estes nunca nos desconpensam ou desequilibram. Para evitar levarmos uma vida estupidificante (pouco saudável).

A propósito:
Mais música, menos Prozac

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

D. Quixote de la Mancha (3)

«Mas quem mete vossa mercê, senhor tio [D. Quixote], nessas contendas? Não será melhor estar em paz na sua casa e não ir pelo mundo buscar um chapéu preto num quarto às escuras, sem ter em conta que muitos vão buscar lã e voltam tosquiados?»

Miguel de Cervantes: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha: Relógio D'Água: Maio de 2005 (obra originalmente editada em 1605): tradução e notas de José Bento: página 71.

D. Quixote de la Mancha (1)
D. Quixote de la Mancha (2)

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Jardim do Mar > Garden of the Sea (slideshow)

Jardim do Mar, Garden of the Sea (to be continued)

Crise anunciada? 2

O artigo intitulado Gratuitos perdem 478 mil leitores (31.07.2009) deixa entender que a crise no Diário de Notícias da Madeira, que levou ao corte de custos e, mais recentemente, ao despedimento de 13 trabalhadores, não pode ser imputado ao subsidiado e gratuito Jornal da Madeira.

Uma das razões invocadas pela Empresa Diário de Notícias é, precisamente, a «distorção das regras da concorrência praticada pelo Governo Regional através do Jornal da Madeira» (ler mais). Será a gratuitidade um (relevante) factor de concorrência?

Na notícia acima citada, podemos ler que a «grande quebra dá-se na imprensa gratuita, que no segundo trimestre deste ano, em comparação com o período homólogo do ano passado, registou uma quebra de 478 mil leitores, registando assim metade da audiência dos títulos pagos. Ou seja, de acordo com o Bareme Imprensa os diários pagos foram lidos por 2.883 mil pessoas, enquanto os títulos de distribuição gratuita se situaram nos 1.414 mil leitores».

O leitor que quer estar bem informado não se importa de pagar pela informação de referência, independente e de qualidade.

Suspeito que os leitores que o Diário de Notícias perdeu, e que buscam a tal informação de referência, estarão órfãos, isto é, não passaram a consumir o subsidiado e gratuito Jornal da Madeira, cuja natureza ou matriz da informação todos sabem qual é. Os leitores sabem distinguir. Será então que o conteúdo informativo do Diário de Notícias da Madeira perdeu capacidade de diferenciação?

Recorde-se:
Crise anunciada? 1

Domingo, Agosto 02, 2009

Xutos & Pontapés na Ponta do Sol

No dia 05 de Setembro está agendado um concerto dos rockers Xutos & Pontapés para a Ponta do Sol (ilha da Madeira), banda que comemora 30 anos de carreira. Lançaram este ano o álbum "Xutos & Pontapés" após cinco anos sem editar originais.

Recorde-se:
«Optámos por engenheiro por causa do actual primeiro-ministro»
(E acabei mesmo por comprar o novo álbum dos Xutos, o qual aprecio bastante. They still rock after all these years...)

D. Quixote de la Mancha (2)

«Em resumo, D. Quixote enfrascou-se tanto na sua leitura [de romances de cavalaria] que a ler passava as noites inteiras em claro e os dias cada vez mais na escuridão; e assim, do pouco dormir e do muito ler, secou-lhe o cérebro, de maneira que acabou por perder o juízo. Encheu-se-lhe a imaginação de tudo o que lia nos livros, não só de encantamentos como contendas, batalhas, desafios, feridas, galanteios, amores, adversidades e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação que era verdade toda a trama daquelas soadas e sonhadas ficções que lia, que para ele não havia outra história mais verdadeira no mundo.»

«A razão da sem-razão que à minha razão se faz de tal maneira enfraquece a minha razão, que com razão me queixo da vossa formosura.» [...] Com estas palavras perdia o pobre cavaleiro o juízo e esforçava-se por entendê-las e arrancar-lhes o sentido, que não extrairia nem as entenderia o próprio Aristóteles, se ressuscitasse de propósito para isso.»

«Na verdade, já louco varrido, acabou por ter a ideia mais estranha que até hoje teve um louco no mundo, e foi que lhe pareceu proveitoso e necessário, tanto para aumentar a sua honra como para o serviço da sua república. tornar-se cavaleiro andante, e ir por todo o mundo com as suas armas e o seu cavalo em busca de aventuras e excutar tudo o que lera que os cavaleiros andantes realizavavam, reparando toda a espécie de ofensas e expondo-se a riscos e perigos, com o que, vencendo-os, alcançasse eterno nome e fama.»

Miguel de Cervantes: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha: Relógio D'Água: Maio de 2005 (obra originalmente editada em 1605): tradução e notas de José Bento: páginas 36 a 40.

D. Quixote de la Mancha (1)

Sábado, Agosto 01, 2009

Crise anunciada?

A Empresa Diário de Notícias alega ter sido forçada a tomar a decisão de iniciar um processo de despedimento colectivo com intenção de reduzir treze postos de trabalho no Diário de
Noticias, sendo dez deles jornalistas.

A crise internacional e a concorrência do Jornal da Madeira, órgão de informação subsidiado pelo Governo Regional e tornado gratuito, são os motivos invocados. A redução de custos levada a cabo não bastou para evitar o despedimento.

No entanto, haverá mais em que pensar. O facto de ter passado por aquela casa faz-me lamentar a perda dos postos de trabalho e perdoará algum benigno "atrevimento" da minha parte ao levantar as seguintes questões:

O Jornal da Madeira existe há muito tempo, subsidiado, e nunca foi incómodo (concorrência) para o Diário. Serão a gratuitidade do JM e o boicote ao nível publicitário relativamente ao Diário suficientes para justificar, em exclusivo, o decréscimo de leitores e publicidade?

Ao longo dos anos, o Diário habituou os madeirenses a encontrar a informação importante, pertinente e de referência nas suas páginas e não no Jornal da Madeira, porque os leitores de jornais sabem bem qual a natureza da informação do jornal subsidiado. Quem queria estar realmente informado lia o Diário e ponto final. Se os leitores-assinantes do Diário trocaram este jornal de referência e independente pelo gratuito JM, será que o conteúdo informativo do Diário perdeu relevância (diferenciação)?

As crises oferecem oportunidades de reinvenção e mudança. Por vezes, a solução mora dentro de nós.