«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Sábado, Outubro 31, 2009

Um blogue inconveniente

Inconvenientes e desassombrados são dois adjectivos que definem bem alguns dos escritos mais recentes neste blogue.

O tempo torna algumas pessoas cínicas e desassombradas, isto é, passam a desvalorizar determinadas conveniências sociais e a enfrentar determinadas vacas sagradas (desassombrar significa iluminar e desanuviar), o que é positivo, no meu entender. Num sentido geral. Só é incómodo (inconveniente) para quem vive em função das sombras e das conveniências.

Com a idade, embora ainda seja um jovem, vamos perdendo a pachorra para passar o tempo a discutir o acessório, as franjas, o ilusório, para ficar tudo na mesma. Tentamos fazer uma melhor economia e gestão do nosso tempo e esforço. O desassombro e o desencanto reforçam a capacidade de revoltar-se que, afinal, não passa com a idade...

Os portugueses são profissionais no ludibriar dos problemas. Preferem as curtinas de fumo, as tais sombras, o faz de conta, o deixar andar, o não fazer ondas, as meias-tintas, o mais ou menos. Enfrentar o touro de frente só para os forcados na arena, considerados assim meio-loucos, meio-suicidas.

É mais fácil não ter consciência da realidade ou ignorá-la. Nada de verdades ou realidades inconvientes. Nada de luz sobre essa realidade. Evita-se a chatice de mudar seja o que for.

Resistir à pressão das massas para normalizar a bandalheira nas escolas

O segredo é não ceder aos "desvalores" do facilitismo e do laxismo actuais nas escolas, sem cultura de trabalho, disciplina e responsabilidade. Não se deixar levar pela irresponsabilidade de uma certa esquerda e de uma certa direita no que toca ao peso, para o sucesso escolar, dos valores do trabalho, da disciplina e da responsabilidade individuais dos estudantes.
photo copyright

A mentalidade e contexto social actuais é de complacência geral face ao laxismo e ao facilitismo nas escolas. Quem se atreve a contrariar a moda e o politicamente correcto laissez faire, laissez aller, laissez passer, depressa é apelidado de vários nomes.

Isto vem a propósito da notícia intitulada Rédea curta na escola (Diário 25.10.2009), em que os «alunos da Escola Básica e Secundária do Porto Moniz estão cansados da disciplina e das regras de estudo, de não ter um minuto para descontrair e até já ponderaram a possibilidade de fazer uma manifestação.»

Cansados da disciplina e das regras de estudo... Será que é preciso dizer mais alguma coisa perante o tipo de valores que este gente defende? A malta quer o facilitismo e o laxismo («descontrair») que vê nas outras escolas, em casa e em outros espaços sociais. Daí a revolta contra a escola do Porto Moniz, um caso raro em que querem pôr os estudantes disciplinados e a estudar.

Como refere a notícia, a «agudizar o clima está a decisão do conselho pedagógico em descontar as faltas à sala de estudo na avaliação dos alunos do ensino básico. "É uma coisa mínima», refere o director Valter Correia, «mas a sala de estudo foi uma forma que encontrámos para combater o insucesso. Os alunos não aprendiam porque não faziam os trabalhos de casa, porque não traziam o material adequado. Agora, com a obrigação de ir à sala de estudo fazem os trabalhos de casa e os resultados melhoraram".

Se as medidas põem a malta a trabalhar, a reponsabilizar-se e a estudar, com efeitos evidentes na melhoria dos resultdos escolares (sucesso escolar), não deveriam antes estar gratos? Os valores do bom senso e da gratidão são bens escassos... A malta quer é direitos e nada de deveres, algo comum no pós-25 de Abril de 1974. Quer-se liberdade para a bandalheira, não para assumir deveres e responsabilidades.

Para Valter Correia o «mais importante é actividade lectiva, o estudo e o sucesso dos alunos. "É isso que garante a igualdade de oportunidades".» E questiona-se: "Estou aqui há tantos anos, os métodos são estes há anos e só agora é que se lembraram disto?

Alguns estudantes ouvidos pela jornalista dizem estar «cansados de ouvir discursos sobre os 'rankings' e o sucesso». Isto dá vontade de rir, não dá? Confirma-se que eles não querem saber do sucesso... Então que mudem de escola. Vão para uma escola que não exija rigor, disciplina, trabalho, estudo, responsabilidade. Existem muitas à escolha.

Esses estudantes, note-se bem, queixam-se de se dar prioridade aos «exames nacionais e ao estudo», face a actividades extra (desporto, visitas de estudo e a viagem de finalistas que queriam na Páscoa e a escola permite apenas no Verão). Confirmam de novo que querem festa e convívio antes de tudo, não o sucesso escolar, o trabalho, a responsabilidade. Será que não seguem os exemplos na sociedade? Que geração estamos a formar?

O director da escola refere: "As actividades são autorizadas só não podem comprometer as aulas. Podem fazer à quarta-feira à tarde, quando não há aulas, mas é verdade que não temos aqui as semanas disto e daquilo. Isso é perder tempo para dar os programas e distrair do que é importante". Com toda a razão. Apoio a 100% e elogio a sua coragem de contrariar o politicamente correcto e o facilitismo que se tornou natural nas escolas.

«A mais pequena indisciplina é punida de forma severa», diz o Diário. Não se pense que desatam à reguada na escola... «O director garante que é assim na Escola do Porto Moniz, nenhum tipo de indisciplina, sejam risinhos nas salas, atirar papelinhos ou andar à bofetada no recreio. Tudo é punido para que não fique pior, não se abrem excepções a ninguém. "Por muito inocente que pareçam são sempre uma tentativa de desautorização".»

E não é assim que deve ser? A direcção da escola tem de ter firmeza. Disciplina e firmeza é sinónimo, para a malta do pós-25 de Abril de 1974, de ditadura. O laxismo é de tal ordem que basta uma posição mais firme que deixa logo a malta "oprimida" e auto-apelidando-se de «escravos», como surge num comentário à notícia. Isto é muito revelador da bandalheira instalada.

O problema é Valter Correia ser um caso isolado, no bom sentido, no meio do facilitismo e laxismo geral que grassa pelas escolas da Madeira, do País, da Europa ocidental e da maioria das sociedades do chamado Ocidente. E é difícil remar contra a maré.

Valter Correia tem elevado os resultados da escola, mas afinal não é isso o importante. Interessa é entreter e divertir os alunos com actividades extra, isto é, com fantochada, com fogo-de-artifício, que os madeirenses bem gostam. Deixar a malta regozijar-se na lama do laxismo, em vez de garantirem melhores conhecimentos e competências para serem alguém na vida.

O rigor não é só para os alunos e há professores que não gostam do que lhes cabe. Sem querer ajuizar sobre uma realidade que não conheço bem, pode haver alguns exageros, não sei, penso que os docentes que valorizam as condições de trabalho na sala de aula, sem indisciplina ou má atitude perante o trabalho intelectual por parte dos estudantes, agradecem o rigor.

Quando um colega passou a trabalhar na escola do Porto Moniz disse-me que, em termos de disciplina dos alunos, passou do inferno para o céu, relativamente ao que sucedia na escola anterior. Este docente contraria a ideia que a disciplina e o trabalho estejam a «afastar professores e estudantes para outras escolas», como diz a notícia.

O Diário depois recorda que a «primeira vez que se ouviu falar das boas notas dos alunos da Escola Básica e Secundária do Porto Moniz em exames nacionais foi em 2006, logo depois de se conhecer os resultados das provas do 11º ano.» Na altura, a escola foi a «primeira do ranking regional e o caso mereceu destaque.»

«A disciplina, o estudo, a preocupação em chamar os pais à escola e o controlo às faltas dos professores foram a tónica das declarações do director da Escola numa reportagem publicada na então REVISTA do Diário. Já na altura Valter Correia dizia que era capaz de não renovar contratos a docentes que faltassem muito.»

Aqueles, incluindo escolas e docentes, que menosprezam alguns indicadores dos rankings, apesar de estarem longe de perfeitos e inviesarem algumas leituras mais simplistas, fazem-no porque surgem mal colocados nessa tabela. Então a reacção é atirar os problemas e a realidade para debaixo do tapete. É mais fácil. Assim não precisam de tomar medidas impopulares como Valter Correia.

Este comentário online à notícia, repleta de erros, a indicar que este estudante precisa de mais estudo e rigor, deixa tudo à mostra: «uma forma mais facil, divertida, com mais tempo para a vida adulscente, e outras coisas mais...Querem fazer todo da forma mais dificil, e sem se divertir...a vida acaba rápido...é perto dos 30 anos que se vai divertir..fazer coisas que eram supostas fazer na joventude, como ir a discoteca».

A malta quer é vida «fácil» e «divertida» porque a «vida acaba rápido»... Estudar, ser responsável, ter uma boa atitude perante o trabalho escolar não interessa para nada.

Mas, há outros comentários mais sérios, que não apelam ao facilitismo e ao laxismo: «Eu fui aluna nessa escola, já tirei um curso, actualmente já trabalho e tudo devo a esse PROFESSOR VALTER. Talvez se ele não tivesse tido mão pesada sobre a minha pessoa, não tivesse imposto regras, eu não fosse o que sou hoje: uma pessoa com oportunidades. Se há alguém que marcou positivamente o meu percurso pessoal e académico foi ele. Continue o bom trabalho! Oxalá houvessem mais escolas e professores como nessa escola.»

Outro ainda: «Afinal, o problema não é o professor ou a Escola!!! O problema é o cumprimento das regras, que, pelos vistos, os alunos não querem perceber. Pois... Então querem ter direitos e não cumprem os seus deveres? Se cada um de nós, como pessoa, cumprisse com as suas obrigações, a vida seria muito mais agradável, mais feliz, aproveitaríamos bem esta liberdade. Agora, apenas exigir menos rigor, sem nada fazer para tal, é absurdo. Que tal se começassem a cumprir com as regras? Já pensaram nisso? Experimentem! Não dói nada e fará de cada um de vós uma pessoa melhor e muito mais preparada para a vida.»

Recorde-se:
Menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira
Gastar mais e ter dos piores resultados
Insucesso escolar vem de longe 3
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 1
Laxismo e facilitismo significam exclusão social
Leste arrasa postura desculpabilizante

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Numa escola perto de si



Não é por acaso que surge mais um filme francês sobre o problema da indisciplina e violência nas escolas. Estreou este mês, em Portugal, o filme La Journée de la Jupe (O Dia da Saia), protagonizado por Isabelle Adjani.

Os argumentistas e realizadores reconhecem o potencial dramático da vida actual (vulgo bandalheira) nas escolas. Não é em França que há, como em Portugal, uma chamada «maioria sociológica de esquerda»? Uma certa esquerda adepta do facilitismo e do laxismo...

Só as as consequências efectivas obrigará os governos, as escolas e as sociedades a tomar medidas de bom senso. Deve fazer parte da decadência de boa parte das sociedades ocidentais... A escola reflecte logo a realidade social.

Alguém escreveu que se trata de um filme que «aborda de uma forma provocativa, de tão realista, os problemas que os professores enfrentam no seu dia-a-dia na formação das nossas gerações futuras.»

Curioso que, mesmo nas escolas, muitos não conseguem admitir a realidade. Quem está dentro do aquário não dá conta da água. Quem foi estudante e se formou como professor depois do 25 de Abril de 1974 tende a achar ainda mais natural a «bandalheira» nas escolas. É como o ar que se respira.

O Dia da Saia é «um drama sobre uma professora, Sonia Bergerac, vítima de descontrolo emocional causado pelo stress incutido pela indisciplina dos seus alunos. Um dia descobre na sala de aula uma arma a sair de uma mochila, toma-a e, à falta de melhor solução, usa-a para controlar os alunos he poder tentar dar a matéria. Um drama intenso que nos apresenta um rol de problemas habituais nas escolas francesas, mas também nas portuguesas, como indisciplina, abusos sexuais, racismo e até violência para com os docentes.»

Outra proposta em francês:
Entre Les Murs (A Turma)

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Paulo Rangel quer acabar com o paradigma do facilitismo: welcome to the club

Paulo Rangel acusou o PS de se entreter na luta de classes entre professores, alunos e pais. O eurodeputado do PSD quer uma educação de exigência (deu o exemplo do que fazem a Índia, Singapura ou a Coreia) para que as pessoas saiam da escola com conhecimentos.
photo copyright

Na Grande Entrevista, na RTP1, há pouco, o eurodeputado Paulo Rangel salientou que a Educação deveria ser uma bandeira para o seu partido, de afirmação de um projecto alternativo neste sector.

A palavra exigência surgiu, em contraponto com o actual paradigma do facilitismo e do laxismo estudantil e escolar. Um problema que não se restringe a Portugal, mas afecta o mundo ocidental em geral.

Quando Paulo Rangel se refere à exigência entendo-a no sentido de passar do actual paradigma do facilitismo, da complacência e do laxismo estudantis, para o paradigma assente nos valores universais do trabalho, da disciplina e da responsabilidade individual.

Não quer dizer que concorde com certas estratégias ou políticas do PSD para atingir esse objectivo. PSD ou CDS-PP, porque a direita tem tido a coragem e a liberdade ideológica para abordar o tema sem certos complexos... ideológicos. Faço uma distinção entre o PSD nacional e o PSD Madeira. Nesta matéria da exigência, do trabalho, da responsabilidade e da disciplina estudantis a Madeira está tão mal como o resto do País.

Sei, por experiência directa, no terreno, que esse facilitismo não ajuda a uma efectiva inclusão e democratização do ensino, porque não dota os jovens dos conhecimentos e competências para enfrentar a vida. Uma certa esquerda nega isto. Oferece uma importante bandeira à direita.

Cuidado com aqueles que andam com as palavras «democratização» e «inclusão» na boca, mas que são complacentes com o facilistismo. Defendem princípios bonitos mas quase sempre rejeitam as políticas e as práticas efectivas que permitam a concretização real dessa democratização e inclusão no sistema de ensino. Essa rejeição, muitas vezes, deve-se a constrangimentos ou dogmas ideológicos endémicos.

Esses idealistas ficam satisfeitos apenas com a democratização do acesso, isto é, ter os alunos dentro dos muros da escola sem lhes garantir conhecimentos e competências – sem lhes exigir o esforço, a disciplina e a responsabilidade. Promovem, assim, uma falsa democratização do sucesso escolar e uma ilusória inclusão social.

Alunos sem conhecimentos, indisciplinados, não trabalhadores e irresponsabilizados não os prepara para a vida. São antes factores de exclusão. Mas há quem consiga ver nisso inclusão e democratização...

Trabalho, Responsabilidade e Disciplina são factores fundamentais de inclusão, democratização do ensino, sucesso pessoal, preparação para a vida e mobilidade social. O resto são ilusões que se vendem às pessoas, que vão pagar caro a sua inércia. Juntamente com o resto do País.

Sem a Responsabilidade, a Disciplina e o Trabalho, premissas elementares do processo de ensino-aprendizagem, o esforço de muitos professores nas escolas é inglório. São recursos públicos esbanjados, porque não se quer exigir aos estudantes o esforço e atitude necessários em qualquer escola, em qualquer lugar. Mas, como somos um país de muitos recursos...

Como disse Barack Obama, no discurso em 08.09.2009, aos estudantes, «no final do dia, podem ter os professores mais dedicados, os pais mais atenciosos, as melhores escolas do mundo e nada disso terá importância a não ser que todos vocês cumpram as vossas responsabilidades. A não ser que vocês compareçam a essas escolas, prestem atenção a esses professores, ouçam os vossos pais, avós e adultos e tenham o empenho necessário para obter sucesso.»

Além disso, não aceita a comum desculpabilização e a política do coitadinho, facetas conhecidas do facilitismo e do laxismo: «No final do dia, as circunstâncias da tua vida - como te pareces, de onde vens, quanto dinheiro tens, o que está acontecendo na tua casa - não é desculpa para negligenciares o teu trabalho de casa ou ter uma má atitude. Não é desculpa para dar uma resposta rude ao professor, ou faltar às aulas, ou desistir da escola. Não é desculpa para não tentar.»

Há sinais de que a maré está a mudar, mas muda lentamente. Talvez demasiado lentamente. Enquanto não faz parte do politicamente correcto... Daqui a uns dias toda a gente defende como estruturantes, na aprendizagem, os valores do Trabalho, da Responsabilidade e da Disciplina.

Recorde-se:
Discurso de Barack Obama aos estudantes
Paulo Rangel VS Augusto Santos Silva: esquerda oferece bandeira para a direita cavalgar

Uma luta também feita neste blogue:
Laxismo e facilitismo significam exclusão social
Leste arrasa postura desculpabilizante
Valores do trabalho e da responsabilidade moribundos nas escolas
Menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira
Realidade escolar
Insucesso escolar vem de longe 3
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 1
Gastar mais e ter dos piores resultados

Mais alguns exercícios de memória:
Falar verdade
Vida ilusória na escola versus dura realidade
Novo paradigma de escola
«A balbúrdia na escola»
Afinal, ministra da Educação desresponsabiliza estudantes
Vida fácil na escola e regras de vida para o estudantes
«Zona de esforço não negociável»
Responsabilizar outros actores e não só os docentes
Professor bode expiatório
Responsabilizar os estudantes pelo seu desempenho
Regras e responsabilização das crianças
Responsabilização
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Responsabilidade com as gerações futuras

photo copyright: SOBRE(voando) o TERRITÓRIO

O director do Público, José Manuel Fernandes, no editorial de 24 de Outubro último, escreveu que o PSD nacional, para se afirmar como alternativa (de projecto) face à actual governação socialista, teria de abordar alguns pontos, sendo um deles - além da liberdade (separação entre cultura jacobina e dirigista e uma cultura em que a reponsabilidade é devolvida aos cidadãos e às empresas), da consciência social (sem omnipresença do Estado) e da fraternidade (valor assumido por todos) -, o da reponsabilidade para com as gerações futuras:

«Isto é, assumir que se governa hoje por empréstimo dos nossos filhos e netos e que não é justo, nem leal, nem sustentável, que estes herdem dívidas e "elefantes brancos" em nome da vã glória de mandar... ou de inaugurar.»

Domingo, Outubro 25, 2009

Obra feita fala ao coração

«Palavras sem obras são tiro sem bala».

«Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.» São estas sábias palavras que nos deixou o Padre António Vieira, no Sermão da Sexagésima.

E explica porquê: «A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos.»

Por isso, pregar aos ouvidos é pouco eficaz, sobretudo em determinados contextos socio-culturais. É preciso pregar aos olhos. Quem o faz conquista audiências e ganha eleições. Contra obras não há argumentos (ideias) que valham. Mesmo que muita dessa obra venha a ruir com o tempo.

«As acções, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo», continua o Padre António Vieira. «Palavras sem obras são tiro sem bala; atroam, mas não ferem.»

Sábado, Outubro 24, 2009

A porta

Porta na zona velha da cidade do Funchal, em casa abandonada que foi palco de um evento artístico.

Photo taken with a Nokia cellphone 3.2 megapixel camera : no editing : no flash : © neliodesousa : july 2009

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

«Do pior da natureza humana»: José Saramago não descobriu a pólvora

photo copyright

No momento em que lança um novo livro, intitulado «Caim», José Saramago afirmou que «a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana».

Não há novidade nenhuma, sobretudo quanto à natureza humana. A Bíblia foi escrita por seres humanos, parece que durante cerca de mil anos, que se limitaram a espelhar a natureza humana, inclusive o que tem de pior.

A Bíblia é um retrato da condição humana e não parte do homem utópico (o tal homem novo) muito ao gosto de uma certa esquerda. Espelha e encara o homem real. Mostra o que temos de mais sombrio e mais luminoso. O que podemos fazer de melhor e de pior. Somos o que somos. E encararmo-nos como somos evita muitas desilusões e problemas.

Recorde-se:
Natureza humana e pedagogia da consequência

Natureza humana e pedagogia da consequência

O ser humano tem uma tendência natural para o mal. For pure evil it takes a human touch...

Para além do apoio psicológico, por via da espiritualidade, para suportar as agruras da vida, as religiões são sistemas que se destinam a contrariar a má índole da natureza humana e a nossa propensão ou tendência natural para o mal e as más acções.

Por isso, a ideia de Jean-Jacques Rousseau que o «homem é bom por natureza» (bom-selvagem) e que a «sociedade [...] o corrompe» é um idealismo e uma ilusão que continuam a causar danos no mundo ocidental, entranhados que estão na nossa cultura, sobretudo pela via de uma certa esquerda irrealista de todas as liberdades para o indivíduo, a qualquer custo para os demais, e de poucas ou nenhumas responsabilidades individuais.

Muitos danos tem a ideia do «bom-selvagem» causado na educação das crianças e jovens, pressionando os adultos no sentido do facilitismo e da complacência. Para não "corromper" a suposta "bondade natural".

Ora, a História da Humanidade está repleta de exemplos, ao nível micro ou macro, que desmentem essa ilusão do homem ser «bom por natureza» do filósofo francês, mesmo que a propensão para o mal não seja igual em todas as pessoas. Há seres humanos com melhor índole natural ou que conseguem aperfeiçoar ao longo da vida.

As religiões, independentemente da opinião que se tenha sobre elas, destinam-se a contrariar a tendência natural para o mal do ser humano. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islão encaram os dramas humanos como a vontade ou castigo de Deus. Para as religiões e filosofias orientais, os dramas humanos são uma consequência dos nossos actos presentes e passados.

Seja como for, sendo os dramas humanos consequência da vontade de Deus ou consequência dos actos de cada pessoa, o objectivo é o mesmo: convocar ou pressionar o ser humano à melhoria e a praticar boas acções. Seja com medo do arbítrio (acção, castigo) de Deus ou com receio da reacção (consequências, efeitos, frutos, retorno) das nossas próprias acções, nesta vida (presente e futura) ou em próximas vidas (reencarnações), o ser humano que seja temente irá sentir-se compelido e pressionado, no sentido de ser virtuoso (agir bem e ser bom).

Nas religiões orientais coloca-se a ênfase no livre arbítrio, responsabilidade e consciência de cada pessoa, para ser melhor e praticar o bem, embora as consequências kármicas e nas vidas futuras (reencarnação) sejam, na prática, como que um castigo, uma penalização, por via do sofrimento, para quem insistir em fazer o mal.

No Judaísmo, no Cristianismo ou no Islão, coloca-se menos ênfase na autonomia, responsabilidade individual e livre arbítrio de cada pessoa, para conduzir a sua vida no sentido do bem. A pessoa é mais dirigida pela entidade divina, superior e exterior, que aplica as consequências a quem conduz uma vida que não seja virtuosa. Em última instância é condenado ao Inferno.

Numa palavra, está subjacente uma pedagogia do medo, seja o medo de consequências das nossas próprias acções ou de consequências por via do castigo directo de Deus.

Nos grandes objectivos, as religiões buscam todas o mesmo. Apenas as diferencia as formas ou métodos de chegar ao mesmo fim: reprimir a tendência natural do homem para o mal / más acções, induzindo o medo das consequências, e ajudá-lo a lidar com a inevitabilidade dos sofrimentos na vida e a morte.

Mas, não bastam as religiões para reprimir essa tendência natural do ser humano para o mal. Quem não temer o castigo divino ou as consequências kármicas, fica “livre” para a prática de más acções.

Assim, o homem, organizado em sociedade, teve de criar leis terrenas para reprimir e dar consequência às más acções. Todavia, as leis terrenas dos homens também não garantem consequência a todas as más acções humanas. O homem e o mundo são imperfeitos...

Terça-feira, Outubro 13, 2009

NEW ALBUMS VISITED

photo (c)

2010
MARTIN REV > stigmata (CD 2009)
DEAD WEATHER >horehound (CD 2009)
CORNELIUS > sensuous (CD 2006)
RAINER > worried spirits (CD 1992)
RAINER > alpaca lips (CD 1996)
RAINER > nocturnes (CD 1995)
ISOBEL CAMPBELL & MARK LANEGAN > sunday at devil dirt (CD 2008)
PELICAN > what we all come to need (CD 2009)
SLAYER > world painted blood (CD 2009)

2009
RAMMSTEIN > liebe ist fur alle da (CD 2009)
SHRINEBUILDER > shrinebuilder (CD 2009)
ALICE IN CHAINS > black gives way to blue (CD 2009)
OM > god is good [CD 2009]
ZU > carboniferous (CD 2009)
DAVID SYLVIAN > manafon (CD 2009)
CARLOS BICA & AZUL > believer [CD 2006]
BIZARRA LOCOMOTIVA > álbum negro [CD 2009]
THE YOUNG GODS > super ready / fragmenté [CD 2007]
NEUROSIS > given to the rising [CD 2007]
BILL CALLAHAN > sometimes I wish we were an eagle [CD 2009]
DEAD COMBO > lusitania playboys [CD 2008]
THE GUTTER TWINS > saturnalia [CD 2008]
MASTODON > crack the skye [CD 2009]
SOULSAVERS > broken [CD 2009]
AMORPHIS > skyforger (mp3 2009)
SUFFOCATION > blood oath (CD 2009)
PRODIGY > invaders must die [vinil 2009]
ZOMBI > spirit animal (CD 2009)
MY DYING BRIDE > for lies i sire (mp3 2009)
SONIC YOUTH > the eternal (vinil 2009)
THE MARS VOLTA > octahedron (CD 2009)
SUNN O))) > monoliths & dimensions (CD 2009)
STEREOLAB > chemical chorus (CD 2008)
XUTOS & PONTAPÉS > xutos & pontapés (CD 2009)
MILES DAVIS > a tribute to Jack Johnson (CD 1970)
MOGWAI > the hawk is howling (CD 2008)

Silêncio, que agora vou ouvir o Bitches Brew

Bitches Brew, uma obra-prima de Miles Davis: «Davis rejected traditional jazz rhythms in favor of a looser, rock-influenced improvisational style

Greg Anderson dos Sunn O))) disse na Rock-A-Rolla #20: «I find inspiration in the freeness of jazz and the tones that Miles Davis produced, especially in the late 60s early 70s - the darkness of that music".

Process Of Guilt

Erosion, o álbum de estreia dos portugueses e metaleiros progressistas Process Of Guilt está a ser bem recebido pela crítica, seja cá ou lá fora.

Na revista LOUD! de Agosto de 2009 (clicar na imagem para leitura) diz-se, por exemplo, que é «uma das bandas nacionais com mais potencial para virem a ser um caso sério, artisticamente falando» ou que, «pegando no esqueleto de doom, aplicando-lhe algum estrutura do pós-rock e a abrasividade do sludge, não há comparações directas fáceis.»

A inglesa Rock-A-Rolla (SET/OUT 2009) também publicou o seguinte comentário sobre o álbum Erosion: «The sophomore full-length from the progressive doomsters, Erosion follows the recent split with avant-black metal oddity Caina and it's further evidence of why this Portuguese band may yet emerge as the frontrunners in a genre that's moving forward, much like the music itself, at a geological pace.»

E continua: «Refreshingly different, their particular brand of death/doom is atypical of either traditional doom or any other sub-genre you care to think of. Never afraid to step some way out of the comfort zone, POG draw influence from death metal right through to Neurosis, ultimately producing something uniquely their own

Em conclusão: «Definitely worthy of your attention.»

THE OFFICE AMBIENCE



2010
HARVEY MILK
RANGDA
TAME IMPALA
ROBBIE BASHO
CARIBOU
BEST COAST
GONJASUFI
IMMOLATION
FINNTROLL
DARK TRANQUILITY
ROTTING CHRIST
PANTHA DU PRINCE
MARTIN REV
LIARS
HARVESTMAN
KATATONIA
FEAR FACTORY
OVERKILL
PASCAL COMELADE
OXBOW
DO MAKE SAY THINK
MOTORPSYCHO [new album: "heavy metal fruit" 15.1.2010]
THEM CROOKED VULTURES
THE BLACK HEART PROCESSION
ANIMAL COLLECTIVE
CORNELIUS

2009
PELICAN
OM
JASON FORREST
CLARA HILL
FELIX KUBIN
LAETITIA MORAIS
ALVANOTO
MURCOF
GIGANTIQ
JEAN-MICHEL
ZAVOLOKA
INTERPOL
EDITORS
BARONESS
MASTODON
FLAMING LIPS
KING CANNIBAL
SERJ TANKIAN
CARLOS BICA
CARLOS BICA & AZUL
BLUE SABBATH BLACK CHEER
PETER WALKER
OOIOO
TANIA TAGAQ
ZU
BORIS
DALEK
JULIAN COPE
KODE9
LINTON KWESI JOHNSON
JON HASSELL
HARVESTMAN
FUCK BUTTONS
LIGHTNING BOLT
RADIAN
LOU BARLOW
THE BLACK HEART PROCESSION
OXBOW
THE GUANTANAMO SCHOOL OF MEDICINE
SHRINEBUILDER
BIZARRA LOCOMOTIVA
MINSK
CELAN
EAGLE TWIN
MADLOVE
PARADISE LOST

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

OLDER ALBUMS REVISITED

photo (c)

2010
MOONSPELL > sin/pecado (CD 1998)
MOONSPELL > irreligious (CD 1996)
MOONSPELL > the butterfly effect (CD 1999)
MOONSPELL > wolfheart (CD 1995)
PARADISE LOST > draconian times (CD 1995)
DILLINGER ESCAPE PLAN > ire works (CD 2007)
CORNELIUS > point (CD 2002)
INTERPOL > turn on the brigh lights (CD 2002)
THE EDITORS > the back room (CD 2005)
NICK CAVE AND THE BAD SEEDS > your funeral... my trial (CD 1986/2009 remaster)
TOM WAITS > blood money [CD 2002]
TOM WAITS > real gone [CD 2004]
DEREK BAILEY > ballads (CD 2002)

2009
RAGE AGAINST THE MACHINE > rage against the machine [CD1992]
MILES DAVIS > bitches brew [2CD 1970]
MEGADETH > countdown to extinction [CD 1992]
TOM WAITS > raindogs [CD 1985]
BODY COUNT > violent demise: the last days [CD 1997]
BODY COUNT > born dead [CD 1994]
NEBULA > atomic ritual [CD 2003]
ANDREW BIRD > the mysterious production of eggs [CD 2005]
VOIVOD > voivod [CD 2003]
JIM O'ROURKE > eureka [LP 1999]
SIX ORGANS OF ADMITTANCE > the sun awakens [LP 2006]
BATTLES > mirrored [CD 2007]
RADIOHEAD > amnesiac [CD 2001]
JIM O'ROURKE > insignificance [CD 2001]
THE YOUNG GODS > only heaven [CD 1995]
DEAD WORLD > the machine [CD 1993]
LARD > pure chewing satisfaction [CD 1997]
LED ZEPPELIN > remasters vol 1 CD [1969-1971]
DAVID SYLVIAN > blemish [CD 2003]
THE FALL > i am kurious, oranj [CD 1988]
MARK LANEGAN > bubblegum [CD 2004]
THE BLACK HEART PROCESSION > amore del tropico [CD 2002]
OPETH > blackwater park [promo CD 2001]
OPETH > morningrise [CD 1996]
MASTODON > blood mountain [CD 2006]
OBITUARY > cause of death [CD 1990]
STUCK MOJO > pigwalk [CD 1996]
ROLLINS BAND > get some, go again [CD 2000]
ALI FARKA TOURE with RY COODER > talking timbuktu [CD 1994]
GOREFEST > soul survivor [CD 1996]
SAMAEL > passage [CD 1996]
VAN DER GRAAF GENERATOR > mp3 selection [1969-1978]
SLAYER > reign in blood [CD 1986]

Sem esmiúçar os resultados eleitorais

O domínio democrático asfixiante traduzidos nos 11 a 0 nas autarquias e 49 a 5 nas freguesias trouxe-me à cabeça uma passagem de um sermão que ouvi no outro dia: «Senhor, seja feita a Tua vontade
photo copyright

A respeito dos resultados das eleições autárquicas na Madeira há pouco para esmiúçar face à alargada estagnação do sentido de voto dos madeirenses, ao contrário das transferências de eleitorado verificadas no território nacional, consoante os candidatos e o tipo de acto eleitoral em curso.

Não coloco em causa a obra do PSD-Madeira, que é vasta, e o seu talento para ganhar eleições (não se ganham aqui votos com ideias), independentemente de se discordar de certas opções e métodos de "fidelização", chamemos assim eufemisticamente, do eleitorado, sobretudo o jovem (abaixo dos 35 anos) e o menos jovem (acima dos 50 anos).

Como tenho referido, antes do acto eleitoral de ontem, trata-se de um período histórico que apanhou uma determinada geração e não há nada (ou pouco) a fazer. Guardem os ideais por mais duas décadas, que equivale a dizer que os deixem em testamento a uma nova geração.

Domingo, Outubro 11, 2009

Eleições orientadas

«- Não tem de ficar a trabalhar nas eleições?
- As eleições? Isso já está tudo tratado. Temos a vitória garantida. O próprio ministro assim o disse esta manhã. Na Índia, meu amigo, as eleições podem sempre ser orientadas. Não é como na América.»

O Tigre Branco de Aravind Adiga
(Editorial Presença, 3ª edição Abril 2009, p160)

Sábado, Outubro 10, 2009

«Excesso de liberdade» ou excesso de social-democracia musculada?

O delegado da Comissão Nacional de Eleições, Paulo Barreto, disse anteontem que o clima eleitoral na Madeira evidencia que «não há asfixia democrática, mas um excesso de liberdade que em nada dignifica a democracia ou a Região». Barreto referia-se aos incidentes com dirigentes do PND e do PSD nas inaugurações de Alberto João Jardim.

Paulo Barreto consegue vilumbrar um excesso de liberdade, mas não de social-democracia musculada. Como disse o outro, por que não te calas?

Recorde-se:

Comunismo, fascismo e social-democracia musculada

photo copyright

Sinais de decadência


Perspectiva da câmara da SIC.


Perspectiva da câmara do lado do PND.

No entender de Paulo Barreto, delegado da CNE na Região, o PND Madeira continua a expor o «excesso de liberdade» cá na ilha. Não percebe que a estratégia de provocação desse trio infernal para o regime madeirense, Baltasar Aguiar, Gil Canha e Eduardo Welsh, acompanhados por José Manuel Coelho, tem exposto pelo país fora a realidade madeirense.

A social-democracia musculada não consegue suportar as provocações e reage de forma anti-democrática e violenta. Rodeia-se de seguranças privados e de agressores, vulgo cães de guardas. Não percebe a decadência de tudo isto. Não percebe que fortalece os rebeldes.

Como já aqui se disee, trata-se de um período histórico que apanhou uma determinada geração e não há nada (ou pouco) a fazer. Evitem ser salpicados de lama e guardem os ideais por mais duas décadas, que equivale a dizer que os deixem em testamento a uma nova geração: Did it need to be so high?

Outra inauguração violenta:
Madeira real

Lições de Monteiro Diniz:
Lição de Monteiro Diniz (intro)
Lição de Monteiro Diniz (parte 1)
Lição de Monteiro Diniz (parte 2)
Lição de Monteiro Diniz (parte 3):

Outras lições:
A lição de Monteiro Diniz
Regiões usam pouco a autonomia
Anormalidade comportamental e democrática continuará
Anormalidade comportamental e democrática continua(rá) 2

Mariachi El Bronx

photo origin

Uma proposta musical para quem passa por este blogue: Mariachi El Bronx. Se seguir este link pode ouvir a música contagiante desta banda punk americana The Bronx, que resolveram inspirar-se na música popular mexicana. O resultado são onze temas de punks tocando mariachi. Mariachi aliado ao power e à energia do rock.

Devido ao fenómeno da emigração, por altura dos arraiais na Madeira, a música mariachi fazia-se ouvir. Não gostava na altura, mas acho agora piada. Quando em simbiose com o rock ainda mais gosto.

Megadeth revisitado

Lançado em 1992, Countdown do Extinction dos Megadeth é dos álbuns de heavy metal que mais me marcaram. Foi com emoção que revisitei este disco ontem e hoje, altura em que a banda lança o novo Endgame. Neste momento, Dave Mustaine e companhia andam em digressão pela Austrália.

Endgame está ser bem recebido, embora seja demasiado retro ou old school thrash metal para os meus gostos: ouvir aqui. Daí antes a minha preferência por revisitar dois discos dos anos 90 da banda: Countdown To Extinction e Youthanasia, os únicos que mantenho na minha selecção discográfica. E não gosto da capa do novo álbum.

Countdown to Extinction é um álbum preenchido com um conjunto de faixas memoráveis, em que cada qual tem uma melodia ou outro elemento que a dintingue das demais. Desde o tema de abertura, "Skin o' My Teeth", passando por "Symphony of Destruction", "Architecture of Aggression", "Foreclosure of a Dream", "Sweating Bullets" ou "This Was My Life", até ao tema que intitula o disco: "Countdown to Extinction".

A qualidade do som foi outro aspecto que me surpreendeu nesta revisitação. Há 17 anos não eram todos os CDs que soavam tão bem, com tão bons graves. Devo alertar que tenho ligado um subwoofer à aprelhagem e que esta foi escolhida (amplificação, leitor de CDs, colunas e cabos) com bons graves em mente. Sou um basshead confesso.

Entretanto, foi lançada uma versão remasterizada de Countdown to Extinction, em 2004. Com uns temas extra.

Pobres e ricos

«Os pobres toda a vida sonham em ter o suficiente para comer e em ficar parecidos com os ricos. E os ricos, com que é que sonham? Com perder peso e ficar parecidos aos pobres.»

O Tigre Branco de Aravind Adiga
(Editorial Presença, 3ª edição Abrial 2009, p168)

História das coisas (consumo)

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Bedford

É uma das imagens de marca da infância. Este velho Bedford ainda circula na Calheta. Um verdadeiro item de colecção.

Photo taken with a Nokia cellphone 3.2 megapixel camera : no editing : no flash : © neliodesousa : september 2009

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Surf in Madeira

Surf In Madeira dinamizado pelo meu amigo e vizinho Ruben Afonso. Keep surfing man.

Acto eleitoral do SPM terminou em 15 de Maio

Daqui a três anos haverá novas eleições, momento em que os sócios julgarão o trabalho da actual liderança do maior sindicato de docentes da Madeira. Para já, deixe-se trabalhar a direcção democraticamente eleita.

O acto eleitoral para o SPM terminou em 15 de Maio, mas pelos vistos o sócio líder da mais que requentada Lista B continua a apresentar-se sobre tal designação, como se estivesse ainda em campanha eleitoral e houvesse eleições neste momento. Já é tempo de fechar esse capítulo eleitoral (aceitar os resultados eleitorais) e cada sócio assumir falar em seu próprio nome e não em nome dos professores.

Vem isto a propósito de quê? Depois de o Sindicato dos Professores da Madeira (SPM) ter denunciado o congelamento na progressão da carreira dos docente na Região, apesar do Bom administrativo, Alberto João Jardim muito incomodado, a partir de um post scriptum no artigo de opinião habitual no Jornal da Madeira, lançou uma insinuação sem consistência, mas perfeitamente intelegível no seu propósito.

A estratégia era lançar a confusão no SPM, sabendo que as recentes eleições foram disputadas por duas listas e conhecendo alguns protagonistas. De repente, por parte do sócio que encabeçou a ressuscitada Lista B, uma insinuação do presidente do PSD-Madeira mereceu enorme credibilidade e a direcção actual do SPM mereceu toda a suspeita.

De facto, viu interesse em dar credibilidade à insinuação de Alberto João Jardim (até reconhecendo virtudes ao governante como a «coragem»).

Bastou o governante madeirense dizer "é bom que não esqueça quem a ajudou a ganhar as eleições no dito Sindicato" e logo saltou a mais que requentada Lista B (liderada pelo sócio João Sousa), lista cujo prazo de validade terminou em 15 de Maio, para cavalgar uma mão cheia de nada, seguindo a estratégia de Alberto João Jardim em lançar lama para cima da actual liderança do SPM e da própria instituição.

Os reais propósitos são simples, como é citado pelo Diário de Notícias (03.10.2009), bastando retirar a palavra «não»: «João Sousa deixa claro que não pretende gerar perturbação no SPM, que não quer aproveitar o momento, nem deixar a ideia de mau perder.»

A má digestão dos resultados eleitorais é evidente quando o sócio do SPM e antigo candidato à liderança pela Lista B realça que apenas perdeu por «80 votos» (afinal foram 178 votos). Ora, tal não é relevante porque pode-se perder por um único voto. São as regras da democracia.

Entretanto, os apelos a Alberto João Jardim, por parte da mais que requentada Lista B, para esclarecer a insinuação, caíram em saco roto. O governante reagiu assim: "Quem é o João Sousa? Que eu saiba era o [André] Escórcio que estava por detrás [da candidatura ao SPM]."

Professores de luto e em luta 173: erro da equipa ministerial de MLR

Primeiro-Ministro José Sócrates com a Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, e o Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos: alguém disse que o homem é o único animal que comete o mesmo erro duas vezes. Esperemos que o novo governo não volte a cometer o erro de reformar a educação sem (ou contra) os professores.
photo origin

«As questões levantadas neste relatório* tocam no âmago do trabalho e das carreiras dos professores. O sucesso de qualquer reforma depende do envolvimento activo dos professores no seu desenvolvimento e concretização. Se os professores não participarem activamente e não sentirem que a reforma também lhes pertence é praticamente impossível que qualquer mudança venha a ter sucesso».

*Em documento da OCDE: Teachers Matter – Attracting, developing and retaining effective teachers, Paris, OCDE, 2005, p. 15.

Recorde-se:
PS perdeu os professores por 4 razões

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Professores de luto e em luta 172: Deixem-nos ser professores

Neste Dia Mundial do Professor, duas notas realistas:

1. Cessar a atitude hostil e diabolizante face a esta classe profissional, a começar nos sinais e exemplos dados pelos políticos.
2. Travar a acentuada erosão da autoridade dos docentes e o progressivo laxismo/facilistismo/irresponsabilidade estudantis.

Este último factor, apesar de menos mediatizado e menos valorizado inclusive pelos sindicatos, tem vindo a minar, progressivamente, as condições de ensino e de aprendizagem nas escolas (recordar o discurso de Barack Obama aos estudantes).

Uma certa esquerda e uma certa direita fecham os olhos à indisciplina, como se fosse inevitável e natural (chamam a isso ser progressista...), e ao pouco empenho dos estudantes na aprendizagem, como se esta acontecesse de forma espontânea ou apenas pela acção mágica do professor.

Juntar pior carreira, menos salário e pior reforma à erosão da autoridade docente e ao maior laxismo/facilitismo face à disciplina e ao trabalho dos estudantes é algo demolidor, com consequências por muitos bons anos.

Nota: O Diário dá conta na edição de hoje da precariedade e instabilidade na profissão, um problema importante: 22% dos professores na Madeira sem vínculo.

Sábado, Outubro 03, 2009

Madeira real





«A violência marcou a inauguração do túnel» e a «população [...] impediu pela força os dirigentes do PND de gravar os discursos de Alberto João Jardim», noticiou a RTP Madeira, ontem, no Telejornal das 21h00 [ver vídeo], que oferece uma outra perspectiva à câmara do PND, nos dois vídeos acima patentes.

Estes acontecimentos são precocupantes e revoltantes. Mais do que isso, entristecem e desapontam. É degradante. Pelos vistos, a maior parte dos madeirenses parece não saber o que é a democracia e revela intolerância relativamente a quem pensa diferente.

A elevação e a cordialidade (pessoal ou institucional) não está no sangue madeirense e não faz parte da sua «realidade comportamental». Tendemos mais para a belicosidade, a contundência verbal, a hostilidade perversa e a pessoalização das questões. Interessa é impedir o outro de ter espaço para crescer.

«O problema é de civismo, de cidadania, de cultura», disse Monteiro Diniz, Representante da República, a propósito de outras violências, ciente da realidade profunda madeirense.

Não faz o meu género a estratégia de provocação, mas compreendo que o PND tenha enveredado por tal metodologia para pôr à mostra a Madeira real, as pessoas e o regime que sustentam.

Os madeirenses reagem quase sempre como uma criança submissa, que receia provocar a ira no pai. A normatividade gera, todavia, alguns rebeldes, mas poucos. Convém que tenham autonomia financeira, para não se desgraçarem. O que não abunda...

Já que qualquer voz dissonante não consegue construir nada na Madeira, e acaba por ser pressionada, controlada, hostilizada e ser-lhe atirada lama para cima, há quem desista de ser construtivo e se dedique a expor a insuficiências endémicas.

Trata-se de um período histórico que apanhou uma determinada geração e não há nada (ou pouco) a fazer. Guardem os ideais por mais duas décadas, que equivale a dizer que os deixem em testamento a uma nova geração: Did it need to be so high?

Recordar:
Lição de Monteiro Diniz (intro)
Lição de Monteiro Diniz (parte 1)
Lição de Monteiro Diniz (parte 2)
Lição de Monteiro Diniz (parte 3):

Outras lições:
A lição de Monteiro Diniz
Regiões usam pouco a autonomia
Anormalidade comportamental e democrática continuará
Anormalidade comportamental e democrática continua(rá) 2

Exemplo