«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Domingo, Novembro 29, 2009

Professores de luto e em luta 177: baratear ainda mais o trabalho dos professores

Em vez do Estado cortar nas despesas supérfluas e nas mordomias inaceitáveis de muitos serviços públicos, bem como enfrentar a corrupção generalizada, quer baratear a mão-de-obra dos profissionais do ensino.
cartoon copyright: Anterozoíde

A divisão da carreira entre duas categorias (professor titular e professor não titular) e um modelo de avaliação maléfica e monstruosamente burocrático de Maria de Lurdes Rodrigues, a anterior ministra da Educação, para impedir a progressão da maioria dos professores a partir do 5º escalão, deram lugar a outra estratégia. Camuflada pela alegada «carreira única», mas com várias divisões (categorias não expressas).

A equipa liderada por Isabel Alçada optou agora por atingir os mesmos (ou até melhores...) fins de barateamento da mão-de-obra (a profissão será cada vez mais a profissão dos mil euros, não obstante ser uma carreira técnica-superior e de elevado desgaste e responsabilidade social) prometendo desburocratizar o modelo de avaliação, mas aumentando as barreiras para a progressão.

Assim, de acordo com a proposta de Isabel Alçada, em vez do actual bloqueio na transição de professor para professor titular, surgem não um, nem dois mas sim três momentos de estrangulamento da progressão, não importa o mérito do professor. Seja Bom, Muito Bom ou Excelente terá de aguardar por vaga (vagas fixadas anualmente) para acesso ao 3º, 5º e 7º escalões.

Está bonito está. Estes mecanismos constrangedores podem ainda ser mais penalizadores para os professores do que a divisão em duas categorias.

Na prática, não há categorias, mas elas estão implícitas. De duas (professor titular e professor não titular) passa a haver 6 categorias: o professor abaixo do 3º escalão, no 3º, abaixo do 5º, no 5º, abaixo do 7º, no ou acima do 7º escalão.

Faz lembrar a estratégia da Madeira, no constrangimento criado (prova pública) para acesso ao 6º escalão, que divide, na realidade, os professores em duas categorias, embora não o verbalizando.

O futuro não é risonho, sobretudo quem anda ainda pelos primeiros escalões da carreira. Ora vejamos: o Governo quer reduzir X na despesa com salários de professores. Quem está nos escalões mais adiantados, a partir de meio da carreira (actual 5º escalão) não podem cortar nada (do que já ganham agora, note-se). Ora, esta "despesa a mais", a que o Governo não pode deitar a mão, será compensada pelos professores mais novos dos quadros e pelos professores com vínculo precário (contratados). São estes duplamente penalizados.

O grande fosso entre professores não será divisão em categorias, nem as quotas para acesso a determinados escalões. O real fosso entre professores cavar-se-á entre os salários de 1.000 euros (para a maioria ou toda a carreira) e os salários de 1.500 a 2.000 euros.

Rouba-se salário, carreira e condições de exercício da sua profissão e, ainda por cima, pedimos-lhes milagres - em nome da consciência profissional, panaceia para todos os males. E como os professores têm essa coisa mística da vocação (chamamento) e da consciência profissional nem é preciso remunerar o trabalho decentemente.

Sábado, Novembro 28, 2009

Se a obra tivesse sido mais espaçada no tempo

Muitas vezes foi repetido o argumento pela governação madeirense de que as obras precisavam de ser feitas com rapidez e em quantidade para se tirar o máximo proveito dos fundos comunitários.

Será que um desenvolvimento infraestrutural mais espaçado no tempo não poderia ter evitado que a Madeira tivesse saído do grupo das regiões europeias de Objectivo 1 e, consequentemente, tivesse perdido 500 milhões de euros no actual Quadro Comunitário de Apoio?

Não poderíamos, neste momento de crise, ter maior receita e maior número de obras no terreno, que injectassem dinheiro na economia regional?

Não poderíamos ter construído, com mais tempo, melhores infraestruturas, sem o custos da rapidez na construção e os custos acrescidos na manutenção dessas obras que, pela pressa com que foram feitas, apresentam mais defeitos e terão um tempo de vida menor?

Não poderíamos ter evitado determinados exageros, nomeadamente no litoral?

Photo taken with a Nokia cellphone 3.2 megapixel camera : no editing : no flash : © neliodesousa : November 29, 2008

Terça-feira, Novembro 24, 2009

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Editors: Papillon



Papillon dos Editors, do novo In this light and on this evening. Gosto da vocalização e da negritude da música.

As velas ardem até ao fim (4): mudar por decisão

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Um leitor interpelou-me sobre a minha posição a propósito de três citações do livro As velas ardem até ao fim: (3); (2); (1).

Não comungo totalmente com as três citações deste romance quanto à impossibilidade de uma pessoa alterar o seu carácter, mas têm um fundo de realismo, além do fatalismo. Há aspectos estruturais da natureza humana que serão difíceis de alterar.

Dito isto, sou da opinião que o ser humano tem possibilidade, através do seu poder de DECISÃO, de contrariar certas heranças genéticas e aspectos da sua educação/percurso de vida. Por outras palavras, é possível a mudança para melhor de aspectos do carácter, mesmo que não seja uma tarefa fácil. É preciso QUERER e DECIDIR.

Sábado, Novembro 21, 2009

E eles pimba...

Os últimos 30 anos, na Madeira, provam que os ataques pessoais e injúrias beneficiam politicamente quem as profere e penalizam nas urnas as vítimas.
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O contra-ataque de um viajante frequente produziu mais um tirada para a história do parlamento da RAM.

Quando o deputado Fernando Letra do BE, em plena Assembleia Legislativa da Madeira, no passado dia 17 de Novembro, afirmou ser mais madeirense do que muitos dos que nasceram na Madeira, que andam muitas vezes de "rabo no ar" - referiu os casos de Alberto João Jardim e de Jaime Ramos -, o líder da bancada laranja respondeu desta forma:

"Quem anda de rabo no ar é o seu partido, que anda a defender o casamento de homossexuais."

Na mesma sessão plenária, o deputado Jacinto Serrão, do PS, quando também foi alvo de ataques pessoais e injúrias em dia inspirado do adversário político, afirmou que os cidadãos saberiam penalizar quem utiliza tais métodos.

Ora, passaram-se 30 anos e o partido maioritário ganha eleições cada vez com mais folga. Significa simplesmente que tais ataques pessoais e injúrias beneficiam politicamente quem as profere e penalizam nas urnas as vítimas.

A realidade é o que é. Não devemos contar com uma massa crítica ou cultura político-democrática que não temos. A cultura pimba vende porque tem mercado...

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

As velas ardem até ao fim (3): conformar-se e suportar

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai.

«[N]ão é possível suportar a vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo que significamos para nós próprios e para o mundo. Temos de nos conformar com aquilo que somos e de ter consciência, quando nos conformamos, de que em troca dessa sabedoria, não recebemos elogios da vida, não nos põem no peito nenhuma condecoração por sabermos e aceitarmos que somos vaidosos ou egoístas, carecas ou barrigudos - não, temos de saber que por nada disso recebemos recompensas, nem louvores. Temos de suportar, o segredo é isso. Temos de suportar o nosso carácter, o nosso temperamento, já que os seus defeitos, egoísmos e avidez, não os mudam nem a experiência, nem a compreensão. Temos de suportar que os nossos desejos não tenham plena repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é o mais difícil entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa.»

p100 (Publicações Dom Quixote: 19ª edição: 2009)

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

As velas ardem até ao fim (2): carácter inalterável

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai.

«Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o carácter pessoal.»

p119 (Publicações Dom Quixote: 19ª edição: 2009)

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

As velas ardem até ao fim (1): essência do ser é imutável

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai.

«Podes alcançar tudo na vida, podes vencer tudo à tua volta e no mundo, a vida pode oferecer-te tudo e podes tirar tudo da vida: mas nunca podes mudar os gostos, as inclinações, o ritmo da vida duma pessoa, aquela diferença que caracteriza por completo uma pessoa, a pessoa que é importante para ti, que te interessa.»

p128 (Publicações Dom Quixote: 19ª edição: 2009)

Carlos Bica & AZUL (4)


Luscious do álbum Believer.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Professores de luto e em luta 176: entrevista a Isabel Alçada em 17 pontos

Photo copyright: António Cotrim/Lusa

Uma síntese comentada da entrevista de Isabel Alçada, ministra da Educação, RTP1: "GRANDE ENTREVISTA", 12 de Novembro de 2009:

1. «[A avaliação] tem de se reflectir na carreira dos professores. Tem de haver uma articulação entre a avaliação [do desempenho docente] e a carreira.»

Comentário:
Os sindicatos e partidos de esquerda podem acabar de sonhar com avaliação basicamente ou apenas formativa... Não vingará. O relatório da OCDE aponta para a articulação entre dois objectivos distintos da avaliação: a melhoria profissional (formação) dos professores e a progressão na carreira. Os termos em que se fará é outra questão. Penso que não deve conduzir a disparidades demasiado acentuadas, nem diferenciar em salário quem tem idêntico mérito.

2. «Vai haver um novo modelo de avaliação. A articulação entre o Estatuto e a carreira tem de ser feita de outra forma.»

3. «Criar condições para que o tempo que os professores dedicam à avaliação seja um tempo necessário, suficiente, mas não excessivo. Não burocratizar excessivamente os procedimentos. (...) Para que os professores possam trabalhar com serenidade

Comentário:
Bom senso que se saúda. Esperarei pelas medidas concretas porque de conversas e utopias ando eu farto. Não colide com o facto de que é preciso muita teoria (palavras), pensamento e tentativa e erro para mudar alguma coisa na prática. Mas, a mudança de comportamentos (práticas) chega mais tarde do que a mudança de conceitos (palavras). As pessoas mudam as práticas normalmente quando são empurradas pelas circunstâncias e por questões de sobrevivência. É a condição humana? Geralmente esperam que as coisas mudem mantendo as mesmas estratégias.

4. Quem deve avaliar os professores? «Há vários cenários possíveis e os vários elementos devem estar envolvidos na avaliação. Em primeiro lugar, os avaliadores têm de ser pessoas competentes para fazer a avaliação. Há uma competência própria.» [O avaliador] tem de ser competente e ter essa vontade de avaliar [componente voluntária].» Mencionou ainda a dimensão formativa no sentido do «aconselhamento» por parte do avaliador ao avaliado.

Comentário:
É evidente que o avaliador tem de ter provado mais mérito do que o avaliado. É uma condição base para a credibilidade do processo de avaliação. O professor tem de reconhecer mérito e competência no avaliador. Não há volta da dar.

5. «Queremos um sistema exigente», não «facilitista». Falava a ministra da aprendizagem dos alunos e das metas («padrão») que têm de atingir, ao nível do país.

Comentário:
Vislumbra-se aqui uma mudança de atitude no sentido de contrariar o facilitismo e a bandalheira escolar reinante. Uma esperança surge no horizonte.

6. Novas regras da avaliação [novo modelo] «ainda este ano lectivo».

7. «Revisão desse elemento [divisão da carreira] terá de ter em conta toda a estrutura.»

8. «Vou chegar» a um acordo com os sindicatos.

9. «O cerne da actividade do professor é a sala de aula».

Comentário:
Finalmente alguém percebe qual é a missão da escola...

10. «A profissão de professor é das profissões mais dignas que se pode assumir».

Comentário:
Então vamos lá dignificá-la... começando pelas condições de trabalho dos professores e dando sinais no sentido de a sociedade valorizar o conhecimento e o trabalho intelectual.

11. «A profissão foi maltratada pelos políticos», questionou Judite de Sousa. «Temos que revalorizar», disse a ministra. Por exemplo, disse ser «importante que as famílias compreendam o trabalho do professor», que «é mais difícil do que era no passado».

Comentário:
Seria bom haver esta consciência das maiores dificuldades que os professores sentem hoje na carne, com um desgaste acentuado.

11. «O adulto perdeu a autoridade». Refere-se à relação crianças-adultos. Usou a palavra «irreverência» quando a grande maioria dos problemas da indisciplina não se devem a questões de irreverência, que é muitas vezes usada para desculpabilizar e ser-se complacente com actos de pura indisciplina (perturbação do processo de ensino-aprendizagem).

Comentário:
Um mau sinal... Até me arrepiei na espinha...

12 «Educar significa fazer valer a autoridade do adulto, porque é o adulto que orienta».

Comentário:
Foi-se embora o arrepio... este bom senso agrada-me e deixa de novo esperança. Pensei que a Ministra estivesse a facilitar e a cair na tentação da complacência em moda desde o 25 de Abril de 1974. Mas não, não receia usar a palavra autoridade e reconhecer como necessária por parte do adulto, na educação das crianças e jovens.

13. Os professores têm-se queixado de que a sua autoridade nas escolas foi pura a simplesmente posta em causa», inclusive «pela legislação entretanto produzida» [Estatuto do Aluno, passar sem ir às aulas, etc.], perguntou Judite de Sousa. A ministra defende que a repetência não resolve os problemas e que os apoios suplementares devem existir quando o aluno escorrega para o insucesso, ou seja, quando não atinge as metas.

Comentário:
Concordo que não deveria haver respetências, mas cuidado com os contextos social e cultural de pouca exigência e trabalho em que vivemos. Desconfio que, no final, o professor seja o único a ser responsabilizado e que vai ter de fazer o menino atingir as metas, mesmo que ele tenha uma atitude negativa perante o trabalho escolar (não estude e não se empenhe) e seja indisciplinado.

Isto é tudo muito bonito e até pode funcionar em alguns país nórdicos com outra cultura de responsabildiade cívica. Nas nossas escolas de brandos costumes... desconfio

Além de desconfiar que esses apoios extra aos alunos não funcionem tal como os apoios actuais não funcionam na maioria. Se é para ser mais do mesmo... O que se verifica é que quem não quer estudar e não gosta de trabalhar nem vai aos apoios. E esse sistema de apoios custa muito dinheiro. É bonito mas é caro. O Estado não vai fazer essa despesa. Por isso, estou a ver que tudo acabará por cair em cima do professor, na sala de aula, que tem de fazer pedagogia diferenciada com mais de 20 alunos na sala de aula, em que muitos deles não se empenham nem reconhecem autoridade ao professor. Vamos vivendo no reino da utopia.

14. «Há domínios do Estatuto do Aluno que terão de ser revistos.»

Comentário:
Mais uma esperança. Esperemos que não seja feito com base na desconfiança dos professores e não seja mais um incentivo à balda actual nas escolas.

15. ME deve apoiar os professores divulgando «formas diferenciadas de trabalhar» e ensinar.

Comentário:
Esperemos que não se caia no romantismo do eduquês... que o estudante aprende sem estudar, sem disciplina, sem responsabilização individual... bastando o professor trabalhar, isto é, DIFERENCIAR... Os professores serão sempre os suspeitos do costume na actual conjuntura...

16. «Eu sei fazer», disse quando a entrevistadora falou das «boas intenções» da Ministra... Disse que «não são só intenções e palavras.»

Comentário:
Haver palavras já é um passo no sentido das medidas práticas....

17. «Eu nunca trabalhei na vida sem autonomia», disse quando Judite de Sousa perguntou se o Primeiro-Ministro tinha dado carta branca.

Ceia

Quinta Pedagógica, Prazeres.

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Domingo, Novembro 15, 2009

Uprising



O ritmo, o riff e a linha melódica têm feito com que este tema poderoso, empolgante e catchy dos Muse me esteja a martelar na cabeça. É "Uprising" do novo álbum The Resistance.

Triunfo do princípio do PRAZER sobre o princípio da REALIDADE

Tanto prazer e tanta fruição faz de 38 por cento dos portugueses insatisfeitos com a vida face a apenas 19 por cento dos europeus... Yes, weekend.

As imagens ilustram uma brincadeira, mas profundamente ilustrativo de uma mentalidade e de uma cultura pouco... empreendedora, empenhada e capitalista.

É o domínio do princípio do prazer e da fruição sobre o trabalho, a produtividade, os grandes desígnios como País e enquanto Povo. O português típico, individualista, quer saber do seu fim-de-semana (o tal weekend), do seu copo, do seu futebol, da sua praia, dos seus canais de televisão.

É por estas e outras que se percebem as motivações no comportamento dos portugueses como povo.

Como diz Eduardo Lourenço n'O Labirinto da Saudade- Psicanálise Mítica do Destino Português, de 1978, «É pena de Freud não nos tenha conhecido: teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade

Por isso é que somos pobres... e dos mais insatisfeitos com a vida, como ainda há dias deu conta uma sondagem europeia. O Eurobarómetro divulgou um Relatório que revela que 38 por cento de cidadãos portugueses estão insatisfeitos com a sua vida face a apenas 19 por cento dos europeus.

Por outro lado, sabemos que parte significativa dos estudantes portugueses chegam à escola com um elevado grau de desinteresse, sem cultura de trabalho e com uma atitude negativa e de especial resistência perante o trabalho intelectual. É também exemplificativo.

Pois é, a sociedade portuguesa não lhes dá outros sinais. Agora os professores que se desenrasquem e façam milagres na sala de aula, como se nada tivesse a ver com esse contexto social e cultural de pouca exigência, de pouco trabalho e de inexistência de mérito.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Professores de luto e em luta 175: centralidade do trabalho pedagógico e não da avaliação do desempenho

«Precisamos que os professores tenham serenidade, invistam o seu esforço na sala de aula e que o tempo que dedicam à avaliação não seja excessivo», afirmou Isabel Alçada, a nova ministra da Educação, ontem após as reuniões com os sindicatos de professores.

É um bom indicador esta estratégia de recentrar o esforço dos docentes no trabalho pedagógico, isto é, no processo de ensino-aprendizagem. É absolutamente essencial e de bom senso.

A avaliação do desempenho tem de ser um processo simples e ágil, não a insana burocratização implementada por Maria de Lurdes Rodrigues, de modo a não criar ruído ou desviar os agentes de ensino da sua tarefa pedagógica. É para isso que escolas e professores existem. A avaliação do desempenho não pode prejudicar o ensino e a aprendizagem.

Isto apesar de Isabel Alçada, em Julho último, ter dito o seguinte: «Dou o meu inteiro apoio à política educativa que tem sido seguida, por vários motivos (...) considero que é importante a prossecução e o aprofundamento do trabalho que tem vindo a ser realizado».

A ver vamos.

Terça-feira, Novembro 10, 2009

A árdua procura da felicidade

Viriato Soromenho-Marques falou da evolução do conceito de felicidade até à actualmente dominante felicidade mercantil, que não é suficiente para o ser humano ser feliz.
origem da fotografia

A conferência de Viriato Soromenho-Marques, A árdua procura da felicidade, construir a solidariedade na proximidade da solidão, integrada na II Conferência do Funchal: Merecer o Futuro, nos dias 6 e 7 de Novembro, ajudou a perceber o que move as pessoas, actualmente, na sua busca da felicidade.

Conhecer e compreender o que move o ser humano, na sociedade acual, nessa busca da felicidade é importante. Interessa ou não distanciar-se dessa «concepção fortemente mercantil de felicidade, que ignora os limites da Natureza e dos ecossistemas e que esquece a complexidade da condição humana, irredutível à voragem insaciável do processo de consumo»?

Dessa complexidade humana fazem parte as suas dimensões imateriais, como a ética e a espiritualidade, com um papel fundamental no bem-estar e felicidade do Homem.

A felicidade desvinculou-se de terminadas dimensões humanas para servir a economia de mercado, o materialismo e o consumo. É a felicidade com «programa de realização aqui e agora», e com rapidez, que dispensa planos como o transcendental e o ético.

A felicidade moderna assenta na independência e nos interesses particulares, em que o indivíduo «se afasta da cidadania e se centra no consumo e no conforto.» Ele não se afirma como pessoa, «não deixa marca», é anónimo, perdido na multidão, e «não é reconhecido pelos outros». A felicidade é então uma «demanda individual». Essa afirmação e reconhecimento são estruturantes para o ser humano. Soromenho-Marques disse serem necessárias «escalas de participação» para o indivíduo.

«Nunca houve tanto conforto e tanta gente a sobreviver penosamente», disse o conferencista. A felicidade do hiper-consumo não é condição suficiente para a felicidade. Obedece a pulsões. Temos um consumo sempre crescente e desejos nunca satisfeitos.

Como disse Kant, citado na conferência, a felicidade na posse e na fruição é uma ilusão. Sabemos hoje, decorrente de estudos, que o aumento de rendimento per capita, a partir de dado valor, não traz mais felicidade ao indvíduo. Não lhe acrescenta felicidade.

Além do mais «felicidade não existe de forma estável e permanente».

Como sair do impasse e das várias crises que nos assolam actualmente e nos comprometem a real felicidade? Soromenho-Marques propõe um conjunto de princípios: da comunidade inclusiva, que se estende a todas as criaturas; da solidariedade entre gerações; da humildade prudente (em alternativa à arrogância tecnológica); da simplicidade voluntária na Arte de Viver, deixando espaço para os Outros (Ghandi: «Live simply, so that others may simply live...»); da natalidade como renovação; da cooperação compulsiva e da reconstrução da Acção política numa dinâmica sustentável.

Adriano Moreira, na sua intervenção na II Conferência Internacional do Funchal, sublinhou outro aspecto fundamental: «É preciso que os valores condicionem os valores do saber e do saber fazer». Diria ainda que «não basta informação e saber - faz falta os valores», isto é, a sabedoria.

Recordo José Augusto Fernandes a propósito dessa centralidade dos valores (irrenunciáveis) na nossa existência. À volta dos valores nunca nos enganamos. Estes nunca nos desconpensam ou desequilibram. Dão estabilidade. Quando estamos fora dos valores ficamos muito dependentes.

Nós movemo-nos à volta de centros de existência. Os centros da existência quando são muito móveis (como o consumo) geram instabilidade, insegurança e arrastam as pessoas com eles. Os centros fora do centro dos valores, se falham, conduzem à queda. É mau centro todo aquele que, se falha, arrasta a pessoa.

Mais informação:
Comunicações da II Conferência Internacional do Funchal

Domingo, Novembro 08, 2009

Contraste

Prazeres, 3 de Novembro de 2009, 18h05.

Photo taken with a Nokia cellphone 3.2 megapixel camera : no editing : no flash : © neliodesousa : November 03, 2009

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Carlos Bica & AZUL (2)



Alguém olhará por ti do álbum Believer.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Professores de luto e em luta 174: questões dos professores continuam a ensombrar o governo

Avaliação de professores divide bancada PS e Governo, noticiou ontem o Diário de Notícias de Lisboa. As questões dos professores estão no centro do debate político.
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«A intransigência do Governo em manter em vigor o actual regime de avaliação dos professores até que seja negociado um novo criou mal estar na direcção da bancada do PS», desenvolve a notícia no Diário de Notícias. «Francisco Assis não entende a estratégia governamental e deixou-o claro. Dizendo que se "exige" ao Executivo que diga "o que quer fazer" porque "nada será possível sem o mínimo consenso"».

A entrevista à TSF do ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, no dia 2, «antagonizou as posições», lê-se ainda na mesma peça do Diário de Notícias. Na verdade, afirmou que "Faria muito pouco sentido que se viesse a suspender sem mais um determinado processo que já produziu efeitos e que já permitiu a avaliação de muitos professores". Não só o Governo se mostra indisponível para suspender o modelo de avaliação, como também, no caso de os partidos da oposição se unirem para suspender o actual modelo, Jorge Lacão considera que se abre uma “querela jurídico-constitucional”.

O senhor dá sinais de arrogância e de um "quero, posso e mando", que não augura o fim da tensão que se criou no sistema educativo ao longo do mandato do anterior Executivo socialista. O "ou queres ou morres", na sua própria expressão, serviu para acusar a oposição parlamentar, mas também encaixa a Jorge Lacão e ao Governo ao recusaram, unilateralmente, a hipótese da suspensão da avaliação e o «mínimo de consenso» defendido pelo líder parlamentar do PS.

Os temas relativos aos professores provocará ainda maior desgaste ao governo se este insistir na intransigência e pensar que pode pôr e dispor de forma absoluta, sem negociar e lançando curtinas de fumo na forma de conflitualidade e instransigência.

Os partidos da oposição perceberam as consequências eleitorais do tema da avaliação dos professores para o partido socialista e insistem, naturalmente, em meter o dedo na ferida aberta que o Governo não quer fechar. Sofrerá com isso.

Após mais de quatro anos de arrogância, prepotência e desconsideração dos professores, em particular pelo Ministério da Educação, os docentes esperam uma nova atitude por parte dos novos governantes.

A estratégia que desvalorização e esmagamento, na praça pública, dos profissionais da Educação, celebrada em expressões como o «quebrar a espinha», foi manifestamente errada e contraproducente. O que ganhou o sector da Educação com isso?

A estratégia de conflitualidade, que o anterior governo escolheu para lidar com os professores, continua a trazer consequências incómodas para o novo governo, depois do anterior ter sido penalizado nas últimas eleições europeias e legislativas.

Os docentes, reunidos em movimentos e sindicatos, souberam mobilizar-se e colocar na agenda algumas questões que estão a dominar ou a ensombrar os primeiros dias de governação, com todos os partidos da oposição a cavalgar temas como a divisão artificial da carreira em duas categorias ou a avaliação do desempenho «burocrática e complexa», como reconheceu o próprio José Sócrates após a derrota nas eleições europeias.

«A teimosia que este Governo tem em manter o conflito com os professores tira-lhe até a lucidez naquela que deveria ser uma atitude diferente em relação ao passado para permitir resolver problemas graves», defendeu Mário Nogueira, da Federação Nacional dos Professores.

E de nada serve o Primeiro-Minsitro ficar exaltado quando se abordam as questões relativas aos docentes. O que tem José Sócrates contra os professores portugueses?

Os professores estão cá para a luta que for necessária.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Carlos Bica & AZUL (1)


Azul é o mar do álbum Azul.

Dave Lombardo & his kit

World Painted Blood já está a caminho do leitor de CDs. Alguém escreveu: «it's the sound of a band effortlessly earning their relevance in 2010.»

Reveja-se:
Kerry King

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Natureza e Arte, regeneração e transcendência

Ferrari 1999, de Augusto Alves da Silva.

Sem Saída / Ensaio sobre o Optimismo, a exposição do fotógrafo Augusto Alves da Silva, em Serralves, põe a nu alguns dos absurdos que atravessam a sociedade actual, lê-se no Público. «São imagens de um mundo sem futuro, mas onde se procura manter a vontade de viver», escreve o jornalista.

O artista, a respeito de uma situação difícil que atravessou na sua vida, diz a dado momento o seguinte: «consegui recuperar a alegria de viver através de duas coisas. Uma delas foi a natureza, a ideia de que há uma coisa que não é construída por nós; a outra, a arte [dos outros]: a actividade humana que acaba por nos transcender

E acrescenta: «O optimismo presente no título relaciona-se com a nossa capacidade de nos regenerarmos das situações mais difíceis e conseguirmos continuar a viver».

Domingo, Novembro 01, 2009

Morreu o radialista António Sérgio

Considerado o John Peel português, pelo seu trabalho de divulgação da música nova e alternativa, António Sérgio - radialista, divulgador de música, símbolo para as gerações do pós-25 Abril - morreu aos 59 anos.
photo copyright: Miguel Madeira/Público

Além dos diversos testemunhos recolhidos, o Público destaca hoje os programas que marcaram a carreira de António Sérgio, que não só fizeram o seu percurso e formaram a sua identidade enquanto radialista, mas que marcaram várias gerações de ouvintes e melómanos:

Rotação (entre 1977-1980): Foi o seu primeiro programa de autor, ainda na Rádio Renascença. Foi através deste programa que ajudou a lançar nomes cimeiros da música portuguesa, incluindo os Xutos&Pontapés.

Rolls Rock: o primeiro programa que fez na Rádio Comercial, que na altura ainda dava pelo nome de RDP – Canal 4. O conceito por detrás do programa - nas palavras de João David Nunes - era ser “uma coisa especial, edições muito específicas e muito boas”.

Som da Frente (1982 -1993): Como o próprio nome indica, tinha como missão estar na linha da frente das novidades; trazer até aos ouvintes portugueses o que de novo se fazia em Portugal e no Mundo e estar na vanguarda das novas sonoridades.

Lança-Chamas: programa dedicado à chamada música pesada e ao heavy metal.

Loiras, Ruivas ou Morenas: programa realizado pela mulher de António Sérgio, Ana Cristina Ferrão, em que António Sérgio passava apenas música interpretada por mulheres. De Ellis Regina a Janis Joplin.

Grande Delta: Entre 1993 e 1997, durante o interregno que o levou à XFM.

Hora do Lobo (1997-2007): O programa esteve no ar dez anos, entre a Comercial e a Best Rock FM, e dedicava-se a dar a conhecer as franjas menos conhecidas do pop-rock. Foi cancelado porque tinha deixado (segundo a direcção assumida pelo grupo Prisa) de se enquadrar na grelha. O fim do programa originou reacções e protestos. “Serviu como uma espécie de resumo de carreira. Porque o António Sérgio sempre foi um lobo solitário, mas de olhar penetrante”, define João David Nunes.

Viriato 25: O seu mais recente programa, na Radar FM, em cujos estúdios ainda ontem tinha estado a gravar.

Reprise (02.11.2009):

Filipe Pestana, em artigo de opinião no Diário de hoje, salienta que António Sérgio é um «homem que ensinou toda uma geração a querer muito mais do que a banalidade musical que viria a tomar conta de muitas rádios em Portugal. E foi este homem, em entrevista ao Blitz em 2007, que fez algumas das mais interessantes reflexões dos últimos anos sobre o futuro da rádio: "Nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. E esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: 'Ouve isto, que não te maça, não te assusta, não te provoca, não te faz comprar discos'. Outra verdade: a rádio de hoje não te faz comprar discos - as rádios de autor conseguiam fazer as pessoas ter paixão por comprar música". Silenciou-se a voz do 'lobo'. Para sempre, fica o seu 'som da frente'. Para ouvir e reflectir.»

No jornal I:
A playlist de António Sérgio

Operação Armas ilegal?

Enquanto não põem a concorrência espanhola a andar não descansam. Independentemente do expediente utilizado. Mas saberão que têm a oposição da população madeirense. Veja a notícia no Diário.

Photo taken with a Nokia cellphone 3.2 megapixel camera : no editing : no flash : © neliodesousa : August 2009

PS Madeira propõe revolução no sistema educativo

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«Uma revolução total, que até poderá levar à construção de um novo parque escolar, é o que o PS-M pretende com o projecto de decreto legislativo que aprova um novo regime jurídico para o sistema educativo regional e deverá dar entrada, na Assembleia Legislativa, esta semana», noticia hoje o Diário.

Por mais meritória que seja a proposta, o actual período histórico não admite protagonismos para além da própria maioria absoluta. E muito menos é admitido qualquer sonho de revolucionar seja o que for, ainda por cima de forma «total». Revolução só pela mão de quem governa e, note-se, de forma tranquila... Neste sentido, o PS-M lançou-se numa utopia.

No entanto, já será importante debater determinados assuntos relativos à Educação na Madeira. Estou curioso para conhecer, por exemplo, as propostas para o combate à indisciplina, violência e má atitude perante o trabalho escolar/intelectual de boa parte dos estudantes madeirenses, um dos factores que mais causam insucesso escolar e mantêm a Madeira no fundo da tabela nacional no que toca aos resultados escolares. Veremos se será diferente da postura complacente e desculpabilizante de uma certa esquerda e de uma certa direita.

«O diploma, com 82 páginas, elaborado por André Escórcio ao longo de quase um ano, propõe uma política de ensino para a Região que corta com quase todos os pressupostos actuais. Desde a estrutura física da escola, ao modelo organizacional e aos currículos. Uma proposta que deverá motivar muita discussão, dentro e fora do parlamento.»

Silêncio, que agora vou ouvir o Believer

O projecto AZUL de Carlos Bica, com o guitarrista Frank Möbus e o baterista Jim Black, tornou-se na imagem de marca do contrabaixista e compositor português, que só agora se atravessou na minha existência melómana.

«Quando se fala da música de Carlos Bica a crítica costuma salientar a forma como nela se interpenetram referências de diferentes universos, da música erudita contemporânea à folk, ao rock, ao jazz, às músicas improvisadas.»

João Paulo e Carlos Bica


Momento da actuação - da esquerda para a direita - de João Paulo (teclados vários, mas sobretudo piano), Carlos Bica (contrabaixo), João Lobo (bateria) e Júlio Resende (teclados vários, mas também sobretudo piano). Ontem no Centro das Artes - Casa das Mudas, na Calheta.

Na primeira parte João Paulo tocou ao piano temas escritos por Carlos Bica, integrados no álbum White Works. A segunda parte consistiu em temas cozinhados na hora para o público, o que equivale a dizer que foi preenchida por improvisação. Excelente concerto.

Confesso que fui atraído, sobretudo, por Carlos Bica, o nome de que tinha maiores indicações. Diz-se que é um dos poucos músicos portugueses que alcançou projecção internacional, tendo-se tornado uma referência no panorama do Jazz europeu. E para um basshead, o som do contrabaixo é ouro sobre azul.

Benfica começa a patinar

De que servem as goleadas se depois o Benfica falha nos momentos (jogos) decisivos? Neste caso o primeiro grande teste da temporada, de acesso à liderança do campeonato. A derrota em Braga é um sinal de fragilidade e inconsistência. O tempo o dirá.
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