«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Segunda-feira, Junho 13, 2011

West is refugees' home. Wanna be one?

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O tema Refugees de Van Der Graaf Generator, de 1970, é único pela melodia, pela atmosfera, pela melancolia, pela vocalização, pelos arranjos, pela forma como progride e, claro, pela letra de Peter Hammill.

Como vivo (e adoro viver) na zona Oeste, onde há luz do sol até este desaparecer no horizonte, muitas vezes num retinto alaranjado que torna douradas as paisagens ao pôr-do-sol, o texto (versão em português) desta faixa diz-me muito: "West is where the colours turn from grey to gold, and you can be with the friends. And light flakes the golden clouds above all; West is where I love."

Além da reunião com os amigos, "Refugees" fala dos que se rebelam e seguem um caminho próprio, alternativo (para Oeste e não para Norte, Sul ou Este), de despojamento e de esperança em direcção ao essencial da vida e do bem-estar ou felicidade:

"We're refugees, walking away from the life that we've known and loved; nothing to do or say, nowhere to stay; now we are alone. We're refugees, carrying all we own in brown bags, tied up with string; nothing to think, it doesn't mean a thing, but we'll be happy on our own."

E diz mais: "Smiling very peacefully, we began to notice that we could be free, and we moved together to the West." "Into the West, smiles on our faces, we'll go; oh, yes, and our apologies to those who'll never really know the way. West is refugees' home." "There we shall spend our final days of our lives; tell the same old stories: yeah well, at least we tried."

De acordo com um artigo publicado na revista MOJO em Maio de 2002, a "Susie" referida em "Refugees" é a actriz Susan Penhaligon.

No livro Killers, Angels, Refugees (1974), o próprio Peter Hammill fala do contexto ou história por detrás do tema:

"For six months I shared a flat with Mike and Susie, who are among my oldest friends. When the time for departure came, I was washed with the melancholia which normally attends moving from 'home' and the physical memories it retains, heightened in this instance by the knowledge that, from being the closest of triads, we were committing ourselves to a separation in which months could easily slide into years. In this knowledge, the last vestiges of hope lay only in a future Utopia and re-joining of the hands."

E diz mais :"In the writing, however, the song developed a life of its own (as is always the best way), and the hope becomes much more than that for reunion with my friends."

Terça-feira, Junho 07, 2011

O mínimo que podemos fazer é acenarmos uns aos outros


Ouvir um állbum é diferente de ouvir uma compilação de faixas de vários álbuns. A coerênia é outra. Ainda mais num género como o rock progressivo, que tende para a conceptualização. Foi isso que senti de imediato ao ouvir The Least We Can Do is Wave to Each Other, que colocou Van Der Graaf Generator entre os melhores. Tem já lugar entre os meus discos preferidos.

Francamente inovador e consistente ainda hoje, 42 anos depois. Há discos acabados de editar que são bem mais datados e menos inovadores... Há inventividade, genialidade e experimentalismo. Com bom gosto e justa medida (para evitar cair no pretensiosimo ou no exibicionismo técnico...), na criação de temas longos, com estruturas musicais intrincadas com novos padrões intrumentais, texturas e atmosferas, combinando a linguagem e base instrumental do rock (guitarra, bateria, baixo, voz) com a linguagem e instrumentos da área do jazz (saxofones) e da música erudita (flauta, piano e mais tarde violino).

Os temas existencialistas, a atmosfera sombria e melancólica, a vocalização característica de Peter Hammill e os raros solos de guitarra ajudaram a distinguir pela positiva Van Der Graaf Generator das outras bandas de rock progressivo.

A alma levitou nesta primeira audição de The Least We Can Do is Wave to Each Other, o segundo disco destes britânicos, mas que o líder Peter Hammill gosta de considerar como o primeiro, já que foi resultado de um esforço colectivo. O título do disco foi adoptado de uma frase de John Milton: "We're all awash in a sea of blood, and the least we can do is wave to each other".

Peter Hammill, na edição original de 1970, escreveu sobre a abordagem do disco pelo ouvinte: «Don't listen when you're hustling, because it won't get in your head. Don't listen when you're angry, because you'll smash something. Don't listen when you're depressed, because you'll get more so. Don't listen with any preoccupations, because you'll blow it. And if you're a perpetually angry, depressed hustler with set ideas, don't bother, it wasn't meant for you in the first place.» Não é para pessoas com ideias fixas ou gosto musical alinhado pelo mainstream.

(Eu juntava a estas palavras a forma como se deve ouvir um disco pela primeira vez, como o recentemente desaparecido Gil-Scott Heron colocou por escrito, de forma a tirarmos o máximo partido da música.)

Esta é uma versão digitalmente remasterizada, com faixas extras. Nestas coisas nunca se sabe se a remasterização traz prejuízos juntamente com os ganhos na qualidade de som, ao nível dos graves por exemplo. Muitas vezes acontece que se torna tudo demasiado limpo e clínico (perfeito no sentido de artificial), na ânsia de limpar "imperfeições".

Neste caso, sem ter como referência edições anteriores do disco, fiquei mais descansado quando nos créditos surge o nome do líder da banda nesse trabalho de remasterização: «Digital remastering by Peter Hammill in consultation with Hugh Banton, Guy Evans and David Jackson.» Estes três também elementos da banda: teclados, bateria/percussão e saxofone/flauta, respectivamente.

Segunda-feira, Junho 06, 2011

Aderir à realidade, desde já

«Mas quem suporta olhar para essa realidade que se aproxima e quem se atreve a falar dela? Nem os partidos, nem os portugueses», escreveu Vasco Pulido Valente este domingo
No meio da mais elevada abstenção de sempre (41,1% ao nível nacional e 45,7% na Madeira e Porto Santo: números que ultrapassam o score do partido mais votado no País e na Região), que deve fazer o sistema e os partidos políticos reflectirem e agirem, a esquerda sofre uma derrota pesada, muito por culpa própria, dada a sua fragmentação. Louça apesar de se declarar o «primeiro responsável» pelo muito mau resultado do BE, não se demitiu como Sócrates teve a humildade de fazer («não me escondo atrás das circunstâncias»).

Sintomático que, à esquerda, só José Sócrates saudou Passos Coelho pela vitória nas eleições. Há uma esquerda que parece encaixar mal a vontade democrática expressa pelo povo, como se ela estivesse na posse da verdade e a maioria dos portugueses estivesse enganada. É preciso humildade democrática e menos arrogância.

Na Madeira, o PS passa a força residual (com o pior resultado de todo o País), a um ponto percentual apenas à frente do CDS-PP. O PSD esmaga, colocando 4 deputados em São Bento, contra 1 do PS e outro do CDS-PP. Longe vão os tempos de 3 para o PS e 3 para o PSD.

O partido de José Manuel Rodrigues ficou à frente do PS em mais de metade dos concelhos, incluindo o Funchal, mas também Câmara de Lobos, Santa Cruz, Santana, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta. Neste concelho o PS obteve apenas 5,6%. Um descalabro inadmissível há uns tempos, mas bem real. Será que se vai tentar iludir mais esta realidade? Pensar apenas nos projectos pessoais de poder?

«Será admissível que o Portugal próspero e contente de Cavaco e Guterres, que organizava a "Expo" e o "Europeu", caia em quatro ou cinco anos numa aflitiva miséria?», escreveu este domingo, no Público, Vasco Pulido Valente.

Será admissível «que se percam hoje a segurança e os privilégios de anteontem?», continua o articulista, para depois concluir: «Admissível é. E, mais do que admissível, fatal.» E finalmente a pergunta que nos põe a nu: «Mas quem suporta olhar para essa realidade que se aproxima e quem se atreve a falar dela? Nem os partidos, nem os portugueses.»

Como dizia Pedro Santos Guerreiro (Jornal de Negócios 26.05.2011), «em Portugal há alguns vendedores de ilusões, mas há ainda mais compradores».

Esperemos que Passos Coelho pense primeiro no País e não seja um vendedor de ilusões. Que enfrente e fale da realidade, mesmo que isso tenha custos eleitorais para si e o partido que lidera.

Esperemos que os portugueses, apesar da sua endémica dificuldade de aderir à realidade, e preferência em ouvir as mentiras e ficar pelas ilusões, porque lhes são mais confortáveis, não acordem sobressaltados e muito menos estremunhados, nos próximos tempos.

Não vale a pena nos andarmos a queixar dos maus políticos que escolhemos, quando não queremos olhar a realidade e assumir a nossa responsabilidade na mudança e no crescimento do País.