«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Quarta-feira, Agosto 31, 2011

Quando em vez de pão há austeridade (actualizado)

"Cantinho do céu" também provará um bocado de inferno, com a falta de liquidez, as derrapagens e a crise agora a chegar e a fazer estragos no espaço insular
Cartoon origin

Até este momento, as regiões autónomas têm conseguido adiar a passagem da crise pelas ilhas, com algumas almofadas, como o endividamento ou a não aplicação de determinadas medidas de austeridade. Mas começam a dar de caras com a dura realidade... E quando em vez de pão há uma dura austeridade, é difícil manter tudo como está.

Depois de Alberto João Jardim ter, anteontem, declarado que a "Zona Franca [da Madeira] é tão decisiva para o futuro da Madeira e da sua população que uma situação de tentativa de anulação ia de certeza levantar de novo a questão da independência deste território", eis que chega a vez de o homólogo Carlos César acenar com os fantasmas do separatismo, ao afirmar ontem que  a "redução para quatro horas de emissão diária [da RTP Açores] é um caminho perigoso para a coesão nacional. O Estado não deve poupar com funções de soberania, de representatividade nas regiões autónomas".

No caso da RTP, sabemos que tem um passivo tremendo, que os contribuintes portugueses vão pagar. Como é possível a RTP Açores se tentar colocar de fora da contenção e redução desse passivo? Quer César fazer funcionários públicos passar ao lado desta medida de redução de despesa como já fez passar ao lado dos cortes salariais? Dará jeito a César manter a RTP Açores como está por ser um veículo de comunicação privilegiada para quem governa? E se o Algarve ou outra Região do País entender que ter um canal televisivo é fundamental para a coesão nacional e a identidade local?

Entretanto, o PS-Madeira segue as pisadas de Carlos César, ao defender que a "decisão da coligação PSD/CDS configura mais um ataque à Autonomia da Região Autónoma da Madeira", considerando que "a invocação dos elevados custos da emissão da RTP é um argumento injustificado", no sentido em que "diminuir custos nunca poderá significar reduzir um serviço público que garante aos Madeirenses o reconhecimento de uma identidade particular". Se fosse um governo socialista em Lisboa, já se está a ver que seria o PSD-Madeira a protestar e o PS-Madeira a aceitar a realidade... É uma questão de política clubística e não a ver com o interesse público e o interesse nacional.

No caso do offshore da Madeira, como é possível o Estado romper o compromisso a que está obrigado com a troika no que toca aos benefícios fiscais?

Quando há cortes (não há pão), evita-se que a realidade (austeridade) nos toque e os discursos são iguais (todos ralham).

De buraco em buraco até ao buraco final

Cartoon de Henrique Monteiro (SAPO.pt) de anteontem parece que adivinhava a notícia de novo buraco de 223 milhões, noticiado hoje pelo Diário de Notícias nacional

Novo buraco de 223 milhões (a juntar aos 277 milhões apontados pela troika recentemente, perfazendo 500 milhões), por via da empresa Estradas da Madeira, pode custar o incumprimento do défice por Portugal, na medida qme que «agravam o défice português em 0,3 por cento do PIB».

Bruxelas confirma buraco de 500 ME na Madeira é título hoje no Diário de Notícias de Lisboa, no dia em que o Governo da República apresentou um plano estratégico com vista ao equilíbrio orçamental que, em 2015, deverá apresentar um défice de 0%.

Em declarações à Lusa, o porta-voz da Comissão responsável pelos Assuntos Económicos e Monetários, Amadeu Altafaj Tardio, confirmou a notícia hoje veiculada pelo Diário de Notícias sobre a "duplicação" de dívidas e despesas do Governo Regional, inicialmente estimada em 277 milhões de euros, na avaliação da troika de meados de Agosto, mas que afinal atingem os 500 milhões. Isto é, mais 223 milhões.

O porta-voz apontou que os deslizes se devem a "dívidas de uma empresa do Governo Regional com problemas financeiros" (Estradas da Madeira) e a "um acordo abortado de Parceria Público-Privada". Diz o Diário de Notícias que os prejuízos dessa empresa “foram parar às contas do Estado”.

Recorde-se ainda que o défice madeirense é estimado andar pelos 7 ou 8 Mil Milhões de euros, pelo que tem sido difundido na comunicação social, mas nunca confirmado pelo Executivo regional.

Aliás, recentemente, o  secretário regional das Finanças descia a terreiro para negar que a dívida madeirense seja de 8 Mil Milhões de euros. Ventura Garcês é categórico: "Desminto, (...) não tem qualquer fundamento esse valor", contrapôs o responsável madeirense, mas sem o fazer com números.

Instado a clarificar a questão e revelar o montante da dívida, Ventura Garcês acabaria por recuar: "Não digo qual é o valor, mas de qualquer forma esse valor está muito, muito empolado (...). Mesmo considerando o setor público empresarial da Região Autónoma da Madeira, nunca chega a esse valor".

O secretário regional das Finanças deixaria a promessa de que o anúncio sobre o montante da dívida será feito “na altura certa”: “A dívida está conhecida e está inventariada na sua totalidade. Será apresentada em primeira instância à Assembleia Legislativa Regional, que é o órgão principal da Região Autónoma da Madeira. De acordo com a Lei (o executivo) tem que apresentar as contas da Região Autónoma da Madeira até ao dia 31 de Dezembro do ano seguinte. Portanto, ainda estamos perfeitamente dentro do prazo".

Será que terá de ser a Troika a revelar tudo e a colocar total transparência nas contas, como fez com os 277 milhões há dias e agora com a revelação de mais 223 milhões?

Como cidadão, que deseja o melhor desempenho possível do Governo Regional ou do Governo da República, independentemente da cor política desses governos (não tenho visão clubística: o meu clube, para além do Benfica..., é o melhor os cidadãos da Região e do País), fico muito preocupado com a defesa do interesse público. Porque parte disto me vai sair do bolso, bem como de todos os meus concidadãos, presentes e futuros - o "cantinho do céu" também provará um bom bocado de inferno.


MEMÓRIA
Outros sinais de preocupação:
Governo da República deixa cair Zona Franca da Madeira
Quando em vez de pão há austeridade
Dívida da Madeira
Madeira precisa urgentemente de liquidez

Que todos assumam a sua parte nas responsabilidades:
Medo intrínseco e extrínseco

Terça-feira, Agosto 30, 2011

Governo da República deixa cair Zona Franca da Madeira


Requerimento dos parlamentares do PSD Madeira à AR dirigido ao Ministro das Finanças (clicar nas imagens para leitura)

Resposta do Ministro das Finanças ao requerimento sobre Zona Franca da Madeira (clicar na imagem para leitura)

Vítor Gaspar, Ministro das Finanças, é taxativo quanto ao fim dos benefícios fiscais na Zona Franca da Madeira. Um primeiro sintoma decorrente da actual situação de extrema dificuldade da Madeira. Não ficam dúvidas absolutamente nenhumas na resposta ao requerimento dos deputados social-democratas insulares da Madeira no parlamento nacional (ver imagens):

"A abertura de um novo processo negocial nesta matéria está fortemente condicionada face às obrigações assumidas pelo Estado Português perante a União Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu no âmbito do Programa de Apoio Económico e Financeiro a Portugal celebrado em Maio de 2011. Nos termos do Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades de Política Económica, o Estado Português assumiu o compromisso perante aquelas três entidades de impor e cumprir «uma regra de congelamento em todos os benefícios fiscais, não permitindo a introdução de novos benefícios fiscais ou alargamento dos existentes. Esta regra aplicar-se-á a todos os benefícios fiscais, temporários ou permanentes, seja a nível das administrações central, regional ou local.»"

Apesar de taxativa a resposta das Finanças, Guilherme Silva, parlamentar madeirense à Assembleia da República, defendeu ontem que o Executivo de Passos Coelho «não diz que não serão retomadas as negociações».

Para além de não haver dúvidas quanto à decisão, recorde-se que o Executivo de Passos Coelho assumiu a estratégia governativa de ir além (nunca ficar aquém) do que exigia o Memorando da Troika. Daí que o Jornal de Negócios (29.8.2011) tenha noticiado que o «Governo deixa cair Zona Franca da Madeira», cujo fim está anunciado para 31 de Dezembro, por causas dos prazos que se colocam, já que muitas das empresas sedeadas perdem os benefícios em Janeiro do próximo ano.

Violar ou romper o «compromisso» com a Troika é algo totalmente afastado pelas Finanças, certamente porque teria mais prejuízos para o País do que os prejuízos para a Madeira com a queda da Zona Franca. Como diz a citada notícia no Jornal de Negócios, «negociar benefícios fiscais com Bruxelas está fora de questão». Além do pouco emprego gerado, recorde-se que o offshore madeirense acabou por empolar o PIB da Madeira e conduzir à perda de fundos europeus, no actual quadro de apoio que termina em 2013,  e das transferências do Orçamento de Estado. Por estes factos, desempolar o PIB será bom.
O Governo de José Sócrates, face ao que tinha sido assinado com a Troika, no programa de resgate financeiro imposto ao nosso País, para poder aceder ao auxílio externo, nem tentou reabrir as negociações para o prolongamento e alargamento dos benefícios fiscais da Zona Franca da Madeira

Uma negociação abandonada já no ano passado, segundo o Gabinete do actual Ministro das Finanças, tendo o ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Sérgio Vasques, confirmado agora que as "negociações foram formalmente encerradas em Junho de 2010", acrescentando que o "tempo veio mostrar que com argumentos certeiros", para esse encerramento das negociações com a União Europeia.
Apesar do actual Governo de Passos Coelho ter inscrito no seu programa eleitoral o compromisso de «reabrir o processo negocial com a Comissão Europeia no que diz respeito ao actual regime do Centro Internacional de Negócios da Madeira», a resposta de Vítor Gaspar é peremptória e taxativa quanto à impossibilidade de isso acontecer, face aos compromissos assumidos com a Troika. Além disso, esta promessa eleitoral não integrou o Programa do actual Governo. É irónico ser um Governo da mesma cor a deixar cair a Zona Franca da Madeira.
Face às implicações que o assunto pode ter em termos políticos em período eleitoral na Região, Eleições Legislativas Regionais a 9 de Outubro, o Governo Regional empurra o assunto, apesar da sua enorme urgência, gravidade e dramatismo, para depois das eleições: "Provavelmente só depois das eleições", afirmou Guilherme Silva, ontem, contrariando o tom de urgência, em termos de tempo, do citado requerimento a Vítor Gaspar de 22 de Julho último (ver imagem).

Os deputados do PSD-M à AR requereram ao Governo a República, em 22.07.2011, informação «se já foram adoptados os procedimentos necessários junto da União Europeia (...), para que se reabram e concluam, antes do final do ano, por motivo de prazos imperativos, as negociações anteriormente interrompidas, de forma injustificada».

"Infelizmente, andámos largos anos a avisar que o modelo de gestão do CINM estava errado, conduzia ao desperdício de benefícios fiscais sem contrapartidas significativas de criação de emprego", defendeu Maximiano Martins, actual candidato pelo PS-M à presidência do Governo Regional, como é citado hoje no Diário.

À agência Lusa, Alberto João Jardim sublinhou que "a Zona Franca é tão decisiva para o futuro da Madeira e da sua população que uma situação de tentativa de anulação ia de certeza levantar de novo a questão da independência deste território".

Segunda-feira, Agosto 29, 2011

Medo intrínseco e não apenas extrínseco

O poder tem a sua culpa mas isso não desculpabiliza a responsabilidade dos madeirenses, que se colocaram e acomodaram nas mãos de um destino 

«cada homem tem, de modo telegráfico, as duas faces:
tem medo e mete medo.
Um homem unilateralmente corajoso não existe,
a não ser que seja unilateralmente pouco inteligente.
É que o raciocínio começa no abc de estar vivo:
quando vês o abismo alto, deves afastar-te cuidadosamente.
Eis tudo. Ou quase.»
[Gonçalo M. Tavares in "Uma Viagem à Índia" (2010) p266]

 

Tendo em conta as Leis da natureza humana, não se pense que anda toda a gente desejosa de libertação e incomodada com medos. É preciso ver outras dimensões do problema do medo. O poder, que não pode tudo, também reflecte as pessoas e as sociedades. Há uma simbiose, um engajamento mútuo de conveniência, que só será quebrado quando uma das partes se ver perante o «abismo alto», isto é, tiver pouco ganhar e pouco interesse na situação.

Isto para contrariar a tese que foi avançada pelo Padre José Luís Rodrigues, ontem no Diário (28.8.2011), de que o medo na sociedade madeirense «resultou de anos e anos de um trabalho muito bem pensado para dominar e tomar conta de toda a realidade», como se o medo dentro da cabeça dos madeirenses fosse resultado apenas (ou até sobretudo) da acção de entidades exteriores ao indivíduo. Embora refira que há «quem se deixa intimidar».

O poder democrático é eleito, não tem toda a culpa. Diria mesmo que há quem nasça já intimidado... há medo endémico... vem nos genes, na cultura, tem raízes profundas e remotas. Os madeirenses não são apenas vítimas do poder. Não gosto desta ideia desculpabilizante dos coitadinhos e indefesos, como se as pessoas fossem ingénuas, inaptas ou mesmo imbecis (rebanho) e não fossem capazes de ajuizar e escolher, em consciência e com lucidez... Como se nada pudessem fazer. Como se a mudança não estivesse nas suas mãos.

(Já concordo em pleno com o Padre José Luís Rodrigues quando diz que «sem esta libertação [do medo], não ganharemos dignidade». Porque «deixar-se dominar por este medo acarreta sempre a embriaguez das obsessões e complexos que conduzem à indignidade.» E a «dignidade perante todos os interesses é o bem maior que a vida nos deu. Assim, amemos a dignidade com todas as nossas forças e não permitamos que nos verguem ao medo.»)

Como já tinha alertado em Submissos não são inocentes, a opressão não pode ser justificada apenas pelo carácter e características dos opressores. O carácter e características dos oprimidos, com múltiplas origens, também criam o terreno propício para o surgimento de dominadores. São os tais mecanismos de submissão, entre eles a falta de massa crítica e inacção cívica, que propiciam o exercício do domínio por outrem.

Esses mecanismos de submissão fazem parte da antropologia madeirense, um povo que se fundiu com as próprias cangas que carrega às costas há séculos. É um estado comatoso. O madeirense, que é capaz de matar por causa da água de rega, mantém-se cego, surdo e mudo perante o resto. Toca a bailar o Baile Pesado. Uma triste forma de vida... Tristes e cautelosos a olhar para o chão como nas procissões.

Nem as consequências para a sobrevivência, nem a pobreza e as condições de vida levam as pessoas a a agir para defender o presente e futuro dos próprios filhos. Descem à rua apenas para ver barcos, aviões acrobáticos e fogo-de-artifício na baía do Funchal.

Será o medo que está na origem da ausência de massa crítica e inércia cívica na sociedade madeirense ou será a ausência destas que origina o medo? Há muitos mecanismos de submissão voluntária na sociedade madeirense, que é terreno propício para o exercício do poder de forma musculada.

Rosa Montero, no romance "A Louca da Casa", escreve que «ir contra a corrente geral é uma coisa bastante incómoda. É possível que a maior parte das misérias morais e intelectuais se cometam por isso, para não contradizer as ideias dos nossos patronos, vizinhos, amigos. Um pensamento independente é um lugar solitário e ventoso.»

Diz ainda que «estar de bem ou de mal com o poder nos pode facilitar ou dificultar a vida.» E acrescenta: «pode-se vender a alma ao poder por tantas coisas! E, o que é pior, por um preço tão baixo.» Citamos outra passagem do mesmo romance: «Não pensar. Entorpecer por dentro. É isso que procuravam os maoistas: asfixiar até essa pequena liberdade, o pulsar mínimo de um pensamento próprio sepultado no interior da cabeça.»

Monteiro Diniz, ex-Representante da República para a Madeira (Diário 23.7.2011) defende que «há ausência de espírito crítico» e «insuficiência de intervenção da sociedade civil» madeirense.

O juiz conselheiro considera que os madeirenses não querem ouvir «coisas, que dentro de um certo condicionalismo, constituem matéria de silenciamento no plano global da colectividade madeirense.» E, segundo ele, «não é só no plano político, do poder e da oposição, nem da sociedade civil, nem das instituições.» Conclui que «há um sentimento global que traduz uma espécie de tabu sobre as realidades da Madeira, que não são aprofundadas.» Isto para além da «ausência de espírito crítico por parte da sociedade civil.»

Monteiro Diniz promete, no seu livro, «tentar fazer uma escalpelização do porquê desta insuficiência de intervenção da sociedade civil», que tem, a seu ver, «várias causas, umas históricas, outras mais remotas

No seu artigo, o Padre José Luís Rodrigues deixa, por fim, o caminho para vencer o medo: «Assim, deixe que a razão fale mais alto e deixe-se conduzir pelo amor-próprio, concentre-se no desejo de libertação, aquilo que é o oposto dos nossos medos. Este é o amor que há-de expulsar todo o medo. Vamos acender a luz da razão e aprender a sorrir dos temores. Este é o melhor remédio para a mudança de vida na nossa terra e da vida pessoal de cada um individualmente. O melhor remédio está aí, não temerei o que virá e venha o que vier, não virá por mal. E se eventualmente vier o mal, logo encontraremos forças para o vencer, porque o medo deixou de nos ensombrar a razão.»

Algumas lucubrações, em 2006, a respeito do famoso medo:
Raízes do medo: contexto socio-mental e medo de ideias diferentes;
Tristes a olhar para o chão;
Madeira endémica espezinha tolerância e respeito
This is the state of [Madeira] address, motherf*****

Terça-feira, Agosto 23, 2011

Nova estrada e protecção marítima no Paul do Mar vai afectar zona de surf / New road and seawall in Paul do Mar will affect surf spot

A estrada/muralha anunciada, a julgar pela imagem, afectará o surf spot que leva muitos surfistas ao Paulo do Mar (the road and seawall, according to the image, is going to affect the surf break that brings many surfers to Paul do Mar)

Part of Save The Waves Advisory Board

PORTUGUESE VERSION:
(actualizado 20h00 23.8.2011)
Nota importante:
Litoral: acção cívica e ambiental em balanço - não cometer os mesmos erros cometidos no caso do Jardim do Mar

Governo Regional anunciou a construção de uma estrada com um prolongamento da muralha de protecção da freguesia do Paul do Mar, que vai desde o cemitério até à zona de acesso ao cais, com o argumento de garantir a segurança de cerca de noventa famílias face ao avanço do mar da zona, noticiou o Diário (13.8.2011). Soa como o caso da promenade e muralha do Jardim do Mar, parte 2, sem que agora se chame promenade. A protecção das habitações pode ser conciliada com a manutenção do surf break. Na zona da onda não há casas em risco por causa do mar.

Como se nota na imagem, a nova estrada e muralha (verde), além de irem mar adentro muito mais do que a actual muralha (cor-de-rosa/vermelho), também se prolonga mais para Oeste, indo além da cemitério. Essa expansão coloca em perigo o surf spot naquela zona, que pode ser aniquilado porque a estrutura cai mesmo em cima da onda, a julgar pela imagem divulgada pelo Diário.

Surf break in Paul do Mar

Se a estutura começasse na zona em frente ao cemitério poderia não afectar muito a onda, mas como se estende mais para Oeste, para lá do cemitério, os danos serão enormes, numa onda que é muito apreciada por ter uma grande regularidade, frequência, espectacularidade, ser de fácil acesso e radical. Por isso têm acontecido competições ali. Seria uma perda grave em termos desportivos e tudo o que daí decorre em termos turísticos e de perservação do património natural.

Como podem as autoridades públicas, ao mesmo tempo, defender o surf, utilizá-lo até como imagem de promoção turística pela Madeira, patrocinar competições no Paul do Mar e destruir mais zonas com as condições naturais que permitem a prática desse desporto? Já basta o muito e precioso que foi destruído noutros locais, como no Jardim do Mar, ali mesmo ao lado.

No entanto, estamos num período em que se tende a anunciar muita coisa, sem esquecer que, em época de crise, em que se anuncia que a Madeira está «sem liquidez», isto é, sem dinheiro, as populações terão necessidades mais prementes e urgentes, e não se sabe quando (e se) esta obra irá ser concretizada no terreno. No curto e médio prazo dificilmente terá financiamento regional para andar já que a situação de dificuldade financeira continuará nos próximos anos.

A obra foi a concurso por 7 milhões de euros, como se lê na notícia do Diário (20.8.2011) e envolve fundos da União Europeia (por via do PIDDAR), mas a Região tem de entrar com uma percentagem da verba no que toca à chamada contrapartida regional. Mais informação em breve sobre este aspecto.

O concurso foi autorizado recentemente (resolução 1134/2011 do Conselho de Governo de 11 de Agosto, publicado a 17 de Agosto no Jornal Oficial da Região - Joram). Assim se cumpre o prazo do ano de 2011 para lançamento da obra, neste caso o lançamento para concurso. Como diz o Diário, a «resolução baseou-se no Plano e Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da RAM (PIDDAR) para 2011, em consonância com o PDES - Plano de Desenvolvimento Económico e Social 2007/2013 e, ainda, no já referido Programa de Governo que iniciou funções em 2007 e termina agora em Outubro. Anos depois da 'primeira fase' da protecção, esta pode ser considerada a segunda fase e é denominada oficialmente "Ligação Marginal entre o Cemitério e o Cais do Paul do Mar".»

Apesar das actuais dificuldades financeiras, os surfistas, incluindo os surfistas do Paulo do Mar, e cidadãos em geral, têm de estar informados, atentos, fazer uso da sua massa crítica e fazer tudo para valorizar e promover a onda do Paul do Mar, de forma a prevenir danos ou a destruição da onda.

Segundo o anúncio do Conselho de Governo de quinta-feira última, o objectivo é ter uma ligação marginal com uma "extensão total de 445 metros, que se desenvolverá desde a praça fronteiriça ao cemitério do Paul do Mar, que coincide com o extremo nascente da via marginal já existente, até entroncar, a nascente, no arruamento de acesso ao Cais do Paul do Mar".

E acrescenta: "A nova estrada será constituída por duas faixas de rodagem com 3,5 metros de largura cada e por um passeio de cada lado, com 1,5 e 1,2 metros de largura, respectivamente, do lado do mar e do lado da terra. Em toda a sua extensão este arruamento ficará implantado numa plataforma conquistada ao mar ao longo da frente litoral urbana, totalmente ocupada por construções. Ao longo da nova ligação será construída uma protecção marítima, com um comprimento total da ordem dos 500 metros".

ENGLISH VERSION:
(updated at 20h00, August 23, 2011)
Important notice:
Do not make the same mistakes as before - with Jardim do Mar in mind (now text also available in English, step by step)

Madeiran Government announced the decision to move on with the project of a road and seawall protection on the shoreline in Paul do Mar, from the road leading to the wharf at East until the graveyard area at West. The topic is the security of ninety families living in the area because of the sea advancement, said local newspaper Diário (13.8.2011). It sounds like Jardim do Mar promenade and seawall in Jardim do Mar, part 2. Protecting the houses and keeping intact the surf break is possible. Both goals can be achieved. In front of the surf break there are no houses in danger because of the sea.

As you can check on the picture presented, the new road and seawall (green), go much further out than the existing seawall (red/pink colour) and further West too, passing the graveyard area. This expansion endangers the surf spot in front of the graveyard area as the seawall will be built in the surf break.

The wave in Paul do Mar is very much appreciated for its frequency, regularity, access and it offers intense and extreme surfing experiences. That is why competitions have taken place there. Damaging or destroying it would be a tremendous loss for surf and for the tourism and natural heritage of the island.

How can local authorities defend surf, using its images to promote Madeira as a tourism destination, support surf competitions in that surf spot in Paul do Mar, and at the same time keep destroying the natural conditions for surfing? It's more than enough what has already been damaged and destroyed in other places like Ponta Delgada or Jardim do Mar, just nearby.

However, we are living in a period before elections in October with lots of announcements, without forgetting that in the present economical and social crisis in Portugal, people will have more urgent concerns and needs than concrete seawalls, and we do not know (and if) this construction will be done in the near future. Madeira has no money, as recently announced by its Government. And the situation is not going to change anytime soon.

The construtction project is now on public tender for the estimated price of 7 Million Euros as Diário informs (20.8.2011), and it is funded by the European Union but Madeira has to put in some percentage of that sum. More information soon on this matter.

The public tender was authorized recently (resolution 1134/2011 of Conselho de Governo on the 11th of August, published on the 17th of August in the Oficial Madeira Journal Jornal - Joram). This way the Government "launches" the new road/seawall within the limit of 2011. As Diário says, the «resolution was based in Plano e Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da RAM (PIDDAR) for 2011, in line with PDES - Plano de Desenvolvimento Económico e Social 2007/2013, and also in the Program of Government that started ruling in 2007 and ends now next October. Some years after de first part of Paul do Mar protection, this second part is oficially entitled "Ligação Marginal entre o Cemitério e o Cais do Paul do Mar" (Connection of the coastal road between the Graveyard and Wharf of Paul do Mar.»

In spite of the present economical problems, surfers and citizens in general must be aware and do everything they can to value that surf spot in Paul do Mar and prevent any damage or desctrution.

According to the Government announcement last Thursday (August 11), the goal is to have a 445 meters long road by (actually in) the sea connecting the square area of the graveyard at West with the road that leads to the wharf area at East.

And Government adds: "the new road will have two lines measuring 3.5 meters each one, adding a 1.5 meters sidewallk (South/sea) and 1.2 meters (North/shore). The road will be on a platform conquered to the sea along the shoreline already occupied by houses. Along the new road will be built a seawall and protection from the sea that will be about 500 meters long."

Segunda-feira, Agosto 22, 2011

O que têm hormonas e orgasmos a ver com racionalidade e realismo?


Momentos «ensopados» em testosterona e «pré-coito» são inimigos da racionalidade e do realismo...

«Claro que, mais tarde, Joey percebeu que os primeiros dias ensopados em hormonas de um período de longa abstinência era uma altura menos do que ideal para tomar decisões importantes acerca do futuro», podemos ler no Liberdade de Jonathan Franzen, romance épico americano de 2010 (edição portuguesa de Abril de 2011).

Na mesma página 508 daquela obra monumental, sobretudo pelo conteúdo e não pelo número de páginas, claro, lemos ainda a propósito: «Percebeu que as decisões pós-coito eram mais realistas do que as pré-coito. No entanto, naquele momento, não houvera nenhum pós, fora tudo pré sobre pré sobre pré.»

Esta é uma verdade universal, inerente à condição humana, que afecta o ser humano nas suas decisões. E pode afectar mesmo as decisões mais importantes que se tomam no planeta.

Enfim, não vão ficar a especular se a célebre cena na Sala Oval da Casa Branca se deveu a pouca racionalidade do presidente por estar em estado pré-coital e não pós-coital... Ou qual seria o estado de um outro presidente quando decidiu atacar o Iraque...

Não vamos chegar ao ponto de receitar um coito (e orgasmo) antes da tomada de qualquer decisão, em que o realismo e a racionalidade são importantes para a melhor opção, mas ao estarmos conscientes disso poderemos então "dar o desconto"... e evitar a armadilha da insensatez, da irracionalidade ou do pensamento tomado pela testosterona, também denominado de raciocínio pré-orgásmico.

Tal como não se deve ir às compras no supermercado com fome, mas antes saciado, para não comprar o que não se quer, e evitar se arrepender depois, também não devemos tomar uma decisão com muita tensão hormonal («ensopados em hormonas», como se lê no romance citado), isto é, devemos estar saciados como no pós-coito e pós-orgasmo, para termos a certeza que decidimos o que realmente queremos, com lucidez, com racionalidade, com distanciamento, e não inebriados eroticamente.

Parece que estou a glosar e a decompor uma questão de menor importância, primitiva, mas não deixa de ser uma evidência e uma questão primordial. Necessidades primordiais como o erotismo, a sede ou a fome não são brincadeiras e podem toldar o raciocínio e a acção de quem não tem as necessidades minimamente saciadas ou, diria, aplacadas ou geridas.

A energia erótica é bela e tem um potencial enorme, mas se temos uma decisão importante a tomar e não há hipótese de a tomar numa situação de pós-coito (pós-orgásmica), não vamos entrar em pânico.

Mesmo que esteja num estado de testosterona imprudente... há a hipótese da auto-suficiência, há quem aprecie muito e tem enorme grau de viabilidade pela economia de recursos e ficar ali à mão, mas para os mais pudicos (e menos práticos) há formas místicas e espirituais de sublimar a tensão e as energias eróticas de forma a não nos perturbar ou toldar a racionalidade, seja num comportamento decisório ou de qualquer outro tipo. Isto é, a canalizar a energia para outras dimensões, mais elevadas, do nosso corpo e do nosso ser, com vantagem para nós, as nossas decisões, estabilidade e bem-estar.

(Não fique agora a pensar que, aquelas pessoas que, em momentos de decisão, dizem "vou ali e já venho" vão tratar de passar do perigoso, porque onírico, estado pré-orgásmisco a um estado pós-orgásmisco para fazer disparar os níveis de sensatez.)

No âmbito da religiosidade mais forte, um método de sublimar (aliviar) tais energias seria a auto-flagelação (umas vergastadas auto-infligidas nas costas), mas um bom jejum ou um retiro regado com muita culpa interior, também ajuda.

São meios de purificação que podem ser do seu agrado, desde que tenha o cuidado de o método da auto-flagelação não se tornar patológico ou, muito menos, ganhar contornos ou resvalar para o sadomasoquismo, porque, falando metaforicamente, aí então seria pior a cura do que a doença - ou pior a emenda do que o soneto, para meter alguma poesia nisto.

Importante: não tentar isto em casa.

Domingo, Agosto 21, 2011

THE LEGENDARY TIGERMAN rocks



THE LEGENDARY TIGERMAN, sozinho, derramou o seu blues rock primitivo, intenso, visceral no Funchal Music Fest 2011 (fotografias com câmara de telemóvel 3.2 megapixel)

Depois de abrir o concerto com "Life Ain't Enough For You" (2009), um dueto virtual via projecção vídeo com Asia Argento, o Tigerman dedicou "Walkin' Downtown" (2006) a Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, banda que se seguiria, no cartaz.

Rolou "Light Me Up Twice" (2009) tema em parceria com Cláudia Efe, que fala de Deus estar em toda a parte, mesmo nos sítios mais inesperados..., seguindo-se o blues primitivo de "Naked Blues" (2002), com a projecção simultânea do respectivo vídeo, nos dois écrans em pleno palco a ladear o one-man band, que declara então que há sempre algo de primitivo numa pessoa civilizada. E avisou que tinha um «humor seco», que o público não precisava de rir, que ele já estava habituado a isso...

A componente visual, seja em palco seja em disco, é uma vertende muito cuidada por parte de Paulo Furtado, com uma intenção, sabendo quem o que quer, atento à linguagem multimédia enquanto reforço da música em si e do espectáculo ao vivo. É um espectáculo multi-arte, que abarca várias vertentes e modalidades. A música tem determinado envolvimento, criando um imaginário interessante.

O grave do pedal de bateria soava forte e radical, criando envolvimento e conferindo impacto, nas vísceras de cada um, literalemente. Esta base primordial (primário ao ponto de acompanhar a batida do coração) tem de ser forte para dar o ritmo e o one-man show ficar liberto para gerir o resto. Aliás, o som dos Xutos & Pontapés não estaria tão in your face e radical, no que concerne aos graves, como na actuação de Tigerman. Xutos era Pop.

"Radio & TV Blues", em que criticou o pouco espaço que a música concedido à música nas rádios e televisões, antecedeu o dueto com Rita Redshoes para "Hey, Sister Ray" (2009), um momento alto da actuação, mas cada tema acabou por ser um momento alto. "The Saddest Thing to Say", com Lisa Kekaula (ela projectada a cantar nos écrans no palco) antecedeu os quatro temas rock a abrir, como fez questão de avisar o one-man band.

Entre esses temas, o primeiro deles com travo punk, que não identifiquei o título, ainda não conheço bem os dois primeiros álbuns, seguiu-se "I Got My Night Off" (2009) («mas hoje estou a trabalhar para o rock and roll», declarou Paulo Furtado), ao que sucedeu um tema rápido, outro que não identifiquei, fechando com "Big Black Boat" (2003), que teve o cuidado de avisar não ser para meninos.

Apesar do travo rock alternativo e visceral, o público, pelo menos ali junto ao palco, mostrou que digeriu bem aquela música «primitiva» e gritou por um encore - não sabemos se por hábito... O Tigerman voltou a afiar as garras e debitou então o selgavem "She Said" (2002). Outro momento de destaque, com humor à misturam conhecendo-se o tema.

Brilhante. Tigerman fucking rocks! Não vejo a hora de o apanhar outra vez ao vivo. Mas desta feita  num ambiente mais intimista, numa sala fechada, com público mais específico e reduzido. E, já agora, sem pedir encore, porque é sinónimo que nos arrasou.

Foi THE LEGENDARY TIGERMAN que me levou ontem ao segundo dia do Funchal Music Fest 2011. Vi antes Rita Redshoes, interessante mas não a minha cena, fiquei para os Xutos & Pontapés e também gostei, mas depois do one-man band, o grupo de Zé Pedro soou Pop...

Nota biográfica e discográfica:

Paulo Furtado (ex-Tédio Boys e líder dos WrayGunn) é o talento por detrás da one-man band THE LEGENDARY TIGERMAN, que conta com os álbuns Naked Blues (2002), Fuck Christmas, I Got the Blues (2003), Masquerade (2006) e Femina (2009). Sem esquecer "In Cold Blood" (2004), álbum fotográfico + CD, e a Banda Sonora Original do Filme Tebas (2009), de Rodrigo Areias, que aproveitei para comprar no concerto em vinil (a estética visual do LP é soberba, além do principal: a música).

Tigerman é um rock'n'roller ao estilo do velho contador de histórias de amor, sexo, crime e perdição. A passagem pelo Mississipi, nas múltiplas digressões da lendária banda de Coimbra em terras do tio Sam, serviu de inspiração para este projecto onde Paulo Furtado, munido de guitarra, kazoo, bombo e pratos de choque reinventa a tradição dos bluesman do Delta. The guy is for real. Ele bebeu a cultura e, mais do que isso, a atitude, na sua fonte.

Quinta-feira, Agosto 18, 2011

Razões para ir ao Porto Santo

Exotismo da praia ao Porto Santo exerce enorme poder de atracção, mas Porto Santo não deve ser vendido como destino de sol e praia, que são "apenas" complementos ao destino
imagem nelio de sousa 2011 (telemóvel 3.2 megapixel camera)

Depois do post polémico de há três anos em que avancei razões para não ir ao Porto Santo, chegou a hora que avançar as razões para ir à idílica Ilha Dourada.

Continuo a ser crítico ao preço muito "dourado" dos transportes para a ilha vizinha, comparado com o que acontece em Canárias, por exemplo, ou nos Açores. Continuo a considerar excessivo o tempo de 2h30m de viagem de barco. O tempo é muitas vezes instável e ventoso, natural na posição geográfica em que se situa (daí o erro de vender o destino como sol e praia, gerador de expectativas que desiludem os turistas e condicionam regresso). Sendo a ilha pequena, vêem-se as mesmas caras que se vêem durante o ano na Madeira (evitar os circuitos mais habituais). Custos em estadia e alimentação elevados. Há ainda a demasiada construção em algumas zonas.

O Porto Santo é argumento para evitar praias artificiais de areia na Madeira, umas ilhas minúsculas e caras de areia amarela rodeadas de cimento por todos os lados. Quem quer areia amarela autêntica que vá ao Porto Santo, em lugar de destruir a autenticidade da costa madeirense.

Que razões levam as pessoas ao Porto Santo?

1. Segurança.
2. Tranquilidade.
3. Exotismo e qualidade onírica da ilha.
4. Terapias (areias).
5. Actividades: em terra (caminhadas, passeios a cavalo, golf, etc.) e no mar (mergulho, pesca, etc).
6. Sol e praia (em complemento a tudo o resto).
7. Estar perto da Europa central.

Vender o Porto Santo, prioritariamente, como sol e praia, apenas aprofunda a sua sazonalidade, e enveredar pela construção massiva de hotéis, quando há um grande hotel ainda por acabar e viabilizar, demonstra uma estratégia baseada em equívocos. Não há condições para a massificação turística. Os governantes podem estar bem intencionados, mas poderão estar equivocados. Por mais que dê jeito a construção, no imediato.

A questão do Porto Santo como destino turístico está muito bem situada pelo artigo de opinião de Catanho Fernandes (Diário 18.8.2011).

____
Fui ao Porto Santo, pela primeira vez, aos 7 ou 8 anos de idade. No Pirata Azul. Na altura, após o comum enjoo no barco, logo que pus os pés em terra, virei-me para meus pais e disse algo como «ao Porto Santo nem mais um pingo». Ou seja, nunca mais. Mas nunca se deve dizer nunca, aprendi depois...

Ficou então uma memória de paraíso: na acostagem ao cais do Porto Santo nos anos 70 ficou gravado o exótico azul-esverdeado da água e o dourado da areia, que exercem um decisivo poder de atracção, no meu caso.

A qualidade onírica que tem a ilha induz o escape, o distanciamento do quotidiano e permite o descanso. Para mim, o principal atractivo.

«Ausência de espírito crítico» e «insuficiência de intervenção da sociedade civil»

Monteiro Diniz foi uma personalidade que deixou marca pela acutilância da sua análise sobre a sociedade e cultura madeirenses

«Há ausência de espírito crítico» e «insuficiência de intervenção da sociedade civil», constata Monteiro Diniz, ex-Representante da República para a Madeira (Diário 23.7.2011).

O juiz conselheiro considera que os madeirenses não querem ouvir «coisas, que dentro de um certo condicionalismo, constituem matéria de silenciamento no plano global da colectividade madeirense.» E, segundo ele, «não é só no plano político, do poder e da oposição, nem da sociedade civil, nem das instituições.» Conclui que «há um sentimento global que traduz uma espécie de tabu sobre as realidades da Madeira, que não são aprofundadas.» Isto para além da «ausência de espírito crítico por parte da sociedade civil.»

Monteiro Diniz promete, no seu livro, «tentar fazer uma escalpelização do porquê desta insuficiência de intervenção da sociedade civil», que tem, a seu ver, «várias causas, umas históricas, outras mais remotas.»

Espero com grande interesse o livro que está a escrever, onde, promete, dirá aquilo que os madeirenses não querem ouvir. O ex-inquilino do Palácio de São Lourenço cita George Orwell: «se a palavra liberdade significa alguma coisa, significa acima de tudo a liberdade de dizer às pessoas aquilo que elas não querem ouvir.» Um olhar do exterior por vezes é mais incisivo e lúcido. E também porque até santos da casa não fazem milagres, isto é, não lhes é dada credibilidade.

Na citada entrevista ao Diário, diz ainda que «em determinadas áreas podia dizer que era mais autonomista que muitos autonomistas, porque tinha uma visão racionalizada e não emotiva da autonomia.»
Memória:
A excelente e marcante entrevista-lição de 12.11.2008, na qual Monteiro Diniz explicou determinado comportamento endémico:

Lição de Monteiro Diniz (intro)
Lição de Monteiro Diniz (parte 1)
Lição de Monteiro Diniz (parte 2)
Lição de Monteiro Diniz (parte 3)

«É uma cultura cívica. O problema é de civismo, de cidadania, de cultura, de qualidade da cidadania.» «Comportamento de harmonia com as altas funções que exercem».

Outras lições:
A lição de Monteiro Diniz
Regiões usam pouco a autonomia
Anormalidade comportamental e democrática continuará
Anormalidade comportamental e democrática continua(rá) 2

Quarta-feira, Agosto 17, 2011

Marina do Lugar de Baixo já leva 105 milhões (actualizado 17.8.2011)

«Quatro novas facturas fazem preço final subir em mais 26 milhões de euros», noticia o Diário
Por dizer tudo, limito-me a reproduzir, com a devida vénia, a notícia do Diário de 16 de Agosto de 2011, para memória futura, assinada pelo jornalista Miguel Fernandes Luís, mas com fotografia aqui do rapaz (22 de Dezembro de 2010):

«O custo total da Marina do Lugar de Baixo já deverá rondar os 105 milhões de euros, após sucessivos contratos de construção e reparação daquela infraestrutura e obras em fase de adjudicação.

No final de Março, o DIÁRIO fez o balanço dos custos desta marina localizada no concelho da Ponta do Sol. Na altura, a estimativa apontava para um custo global que rondava os 78,9 milhões de euros. Mas desde então quatro novas facturas, num valor conjunto de 26 milhões de euros, vieram agravar o preço da obra. A factura mais recente foi conhecida há pouco mais de uma semana: 1,1 milhões de euros para o "reperfilamento dos fundos marítimos da baía do Lugar de Baixo", uma empreitada adjudicada por ajuste directo à 'Afavias - Engenharia e Construções', do empresário Avelino Farinha. O 'reperfilamento' consiste no desassoreamento da entrada da marina e zonas adjacentes.

Além deste contrato, houve outro ajuste directo à 'Afavias - Engenharia e Construções' para a reabilitação das infraestruturas terrestres e da bacia de estacionamento (poente), no montante de 1,3 milhões de euros e ainda um ajuste directo de 20 mil euros para a fiscalização desta última obra. Neste último caso, os trabalhos ficaram a cargo da empresa 'Moura & Moura Lda'.

A quarta e última factura é a mais cara. Trata-se da empreitada de 'reconstrução dos paredões da Marina do Lugar de Baixo (obras marítimas)', cujo concurso foi lançado em Fevereiro, com o valor base de 23,6 milhões de euros. O DIÁRIO procurou saber a situação deste contrato, ao qual concorreram seis empresas/consórcios mas a Sociedade Ponta do Oeste e a Vice-Presidência do Governo não responderam ao pedido de informações que lhes foi endereçado na última quarta-feira.

Todos os montantes acima citados incluem a taxa de IVA, a qual integra necessariamente o preço final da obra.»

Nota (17.8.2011):
O Diário hoje traz notícia em que a Sociedade de Desenvolvimento Ponta Oeste (SDPO) desmente os números do custo associado à Marina do Lugar de Baixo avançados pela notícia do dia anterior, sem avançar o valor global da infraestrutura, alegando que os trabalhos da escarpa sobranceira e o depósito dos materiais no aterro de protecção da marina não lhe podem ser imputados. Como se nada tivessem a ver com a marina. Constituiu, sim, objecto de uma nova notícia: a «Lei de Meios custeia a marina». A obra de reconstrução dos paredões da marina, cujo concurso teve um valor-base de 23,5 milhões de euros (IVA incluído), é "financiada pela Lei de Meios, na medida que se trata de um aproveitamento dos materiais das limpezas do temporal de Fevereiro de 2010", confirmou a SPDO.

Memória:
Marina do Lugar de Baixo com viabilidade à vista cerca de 50 milhões depois? (2)
Marina do Lugar de Baixo com viabilidade à vista cerca de 50 milhões depois? (1)

Terça-feira, Agosto 16, 2011

Dão-lhes estrada com muralha mas Paul do Mar quer túnel

O desejo maior do Paul do Mar é o túnel que ligará Jardim do Mar ao Estreito da Calheta, pela enorme insegurança do troço

Paul do Mar foi presenteado, no dia 12 de Agosto, com a decisão do Governo em avançar com a construção do prolongamento da muralha de protecção e nova estrada, desde o cemitério até ao cais, mas, a prioridade das prioridades, ao que apurou o Diário (14.8.2011) «junto das 'forças vivas' da freguesia e do concelho, dois dos quais ligados ao PSD-Madeira», continua a ser o «túnel que ligará o Jardim do Mar ao Estreito da Calheta e, consequentemente, garantirá a toda a população, visitantes e turistas, uma passagem segura que a actual estrada que tem sido um perigo constante, principalmente nos últimos tempos.»

Significa que, antes da prioridade da segurança no troço de acesso ao Jardim do Mar e Paul do Mar, se avançou com muitas obras não tão prioritárias nas duas freguesias à beira-mar, entre elas promenades para passear. Primeiro, as obras na costa, como se as populações estivessem para ser engolidas pelo mar de um momento para o outro, só depois se pensou em proteger as vidas em risco pelas frequentes derrocadas do penhasco sobranceiro no acesso ao Estreito da Calheta.

Tanto Governo, como as populações acríticas, deram outras prioridades no passado. Só mais recentemente acordaram para a necessidade do túnel quando viram muitas pedras a rolar nos últimos dois invernos... Esquecendo que, em 1999, outros já se preocupavam com o problema e reivindicavam o túnel. Mais vale tarde do que nunca, esperemos apenas que não tenha sido demasiado tarde - haverá dinheiro?

«Em conversa com o DIÁRIO, tanto o presidente da Junta de Freguesia do Paul do Mar, José Gonçalves, e o deputado regional social-democrata Agostinho Gouveia, acreditam que esta obra satisfaz plenamente as aspirações do povo pauleiro, cuja ligação ao mar sempre esteve sujeita à sua natureza incontrolável, mas também dizem que não será esquecida a urgência do túnel rodoviário, que está prometido para o próximo programa de governo do PSD. Aliás, o deputado afirma convictamente que entre as duas obras, preferiria o túnel, mas que esta, por ter o projecto bem mais avançado, tinha que ir para a frente agora, mesmo não estando pronto a tempo de eleições.»

Recordar:
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 8 (Pedras em 25.11.2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 7 (acção do CDS-PP em Julho de 2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 6 (capa do Diário em 11.03.2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 5 (Pedras em 6 e 9 de Março 2010)
- Em 1999, abaixo-assinado reivindicara túnel (lembrar-se de Santa Bárbara apenas quando dá trovões)
- Ganha força a reivindicação de um túnel para acesso seguro ao Jardim do Mar e Paúl do Mar (posição da Câmara da Calheta)

- Derrocadas
- Segurança das pessoas deveria estar em primeiro lugar (Pedras em 10.07.2009)
- Jardim do Mar «mais seguro»?
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 4 (Pedras início Fevereiro 2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 3 (Diário aborda problema em 14.02.2008)
-Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 2 (Pedras em 04.10.2009)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 1 (Pedras em 15.12.2009)

Segunda-feira, Agosto 15, 2011

Dívida da Madeira

Os opositores da actual governação regional certamente bendizem (abençoam e louvam) a Troika por ter detectado a derrapagem de 277 milhões nas contas da Região...

Cada madeirense "deve" 27 mil euros, segundo as contas que o Diário (14.8.2011) fez com base na dívida pública da Madeira, dividida por cada um dos 260 mil habitantes, nos números apurados pela oposição: uma dívida acumulada de 7 mil milhões de euros.

Na versão do Governo Regional, a dívida é pouco mais de 2 mil milhões, sem incluir as dívidas das empresas Vialitoral, ViaExpresso, ViaMadeira, sociedades de desenvolvimento e Sector Público Empresarial.

Seja como for, a ilação do Diário vai no sentido de que «é incontornável que há valores exorbitantes a pagar», situação que certamente vai condicionar o presente e o futuro da vida nesta Região Autónoma

Recorde-se que são pedidos ajustamentos pela Troika para a Madeira devido a buraco ou derrapagem de 277 milhões de euros detectado nas contas da Madeira. O Governo Regional alega que o aumento da dívida foi a saída para as restrições «financeiras político-partidárias do anterior Governo socialista que visavam parar a vida do arquipélago», mesmo que «à custa do aumento da dívida pública». Justificações à parte, na prática os madeirenses vão sentir apertos dolorosos.

A derrapagem deve-se ao facto de os pagamentos à Vialitoral e Viaexpresso e aos compromissos das empresas do sector público empresarial SESARAM e Viamadeira, cujos financiamentos passaram a integrar as contas da Região Autónoma.

Como escreveu o Diário (13.8.2011), a derrapagem nas contas regionais «colocou a Madeira ao lado do BPN, nas preocupações dos portugueses.» O Público chamava a atenção para a «advertência feita pela missão da troika ao Governo da Madeira de que é preciso fazer mais pela disciplina das contas públicas e de que vai preparar um programa de ajustamento próprio para a Madeira.»

Segundo o Diário, os compromissos da Viamadeira foram «integralmente assumidos pelo Governo Regional», na sequência das «dificuldades daquela empresa (integrada pela Tâmega, Zagope, AFA, Somague e Tecnovia) em conseguir financiamento bancário para a construção de várias vias-expresso.»

Vítor Gaspar, Ministro das Finanças, deixou uma porta aberta a um acerto contabilístico dos governos das regiões autónomas e as medidas que a 'troika' impôs a Portugal, em entrevista à TVI (12.8.2011).

Inquirido sobre o recurso, pelo Governo, de quase 600 milhões de euros de receitas extraordinárias para cobrir novos buracos com o BPN e a Região Autónoma da Madeira, este disse que "existe um processo de integração progressiva e faseada dos funcionários bancários na segurança social (...) no contexto desse processo é normal que haja uma transferência gradual de responsabilidades e de activos dos fundos de pensões dos bancos para a segurança social", declarou, dando a entender que será por aí que o Estado conseguirá pagar as contas do Governo Regional.

Declarou ainda que "sendo a nossa crise relevante para o todo nacional poderá fazer sentido se os governos regionais dos Açores e da Madeira que, à semelhança da República, possam pedir para que se constitua um programa que permita resolver e fasear o ajustamento nessas regiões".

Protecting Madeira shorline from massive construction

Project for beach area in Funchal: there is (was) a surfable wave in the area where stands now the big deposit of soil and rock, but it is not a relevant or an important surf spot like many others in Madeira. Many surfers do not even consider that spot

The protest was the idea of a Madeiran citizen, Miguel Sá, who promoted it. The protest aimed to make the Government of the Autonomous Region of Madeira remove a big deposit of soil and rock on Funchal bay. This damping ground was created one year ago, after the big storm and flood in Funchal, in February 20. It was a quick solution for getting rid of all the soil and rocks that came down from the mountains, in three rivers, reaching Funchal downtown and causing destruction and death. Forty people died then on the island.

One year after those tragic natural events, more than one thousand people answered to the call for the civic protest and participated last February, 20, 2011, at 18h00, in forming the human chain around the whole soil deposit by the sea, claiming for its removal and also paying respect to the victims of the floods one year ago. The president of the Government, Alberto Joao Jardim, simply said a week before that people "can scream" but the project would move on anyway.

Cordão humano em protesto, no aterro do Funchal 20.2.2011

People want to have their shoreline and beach back. That is why they demand the removal of soil and rock still there and are against a marina and port project presented recently by the Government (please, see image attached). Some experts claim that the project is NOT technically sustained and that is not the best solution for the area by the sea. And it would cost more than 40 Million Euros.

As many others Madeirans, and also as a member of Save the Waves, I could not sit still watching more works of massive construction trashing the coastline of the island. A lot of damage has been to Madeiran shoreline and some important surf spots, hurting the Island's tourism, the main economical activity in Madeira. So, it is important all the action to protect the exotic and authentic landscapes in Madeira, including the shoreline, for sport, leisure, adventure, tourism, eco-tourism and simple contemplation purposes.

There is (was) a surfable wave in the area where stands now the big deposit of soil and rock, but it is not a relevant or an important surf spot like many others in Madeira. Many surfers do not even consider that spot.

People fear that this new project becomes something like Marina in Lugar de Baixo. Save The Waves at some point did some efforts to help finding a solution for the protection of that marina from the waves that hit it so hard and are destroying it. Tons and tons of rock have been carried from the rivers and put outside the construction in order to build a massive protection. Last Winter storms washed most of that material away. Hope that one day the problem is solved.

Video of the citizen protest on the bay of Funchal town, in Madeira
Cordão humano no aterro visto por alguém nele participante

Quinta-feira, Agosto 11, 2011

Pink Floyd reedita discografia (já) remasterizada

Let music in, not else
Os discos (originais) de Pink Floyd foram já remasterizados, em 1992, 1994 e 1996. Até os primeiros, de 1967 e 1968, The Piper At The Gates of Dawn e A Saucerful of Secrets, passaram pela remasterização digital. A edição remasterizada de Final Cut, o 12º álbum da banda (para mim o último - não me interessa nada daí em diante sem Roger Waters) data de 2004.

Por isso, não percebo como a banda redefine, na nova reedição da sua discografia, o seu legado. A não ser o financeiro... Alterando as cores do artwork original? Não acredito que tenham remasterizado novamente os discos originais para as reedições que aí vêm em Setembro, embora os meios tecnológicos hoje sejam outros bem diferentes comparado com há 15 anos. Por isso, cuidado para os apreciadores (sobretudo antigos apreciadores) da música da banda não voltem a comprar o que já têm. Apesar de dizerem que é "newly remastered", convém mesmo verificar, porque o "newly" a que se referem são as remasterizações de 1992, 1994 e 1996...

Para os coleccionadores podem ser apelativas as edições Experience e Immersion com material extra dos discos mais populares da década de 70 ("Wish", "Dark" e "Wall"). A versão alargada Immersion custa mais de cem euros e dedica-se, além dos extras, a outros formatos como DVD ou Blu-Ray, que não interessa, para mim. Dark Side of the Moon, por exemplo, na edição Experience, traz um disco extra com o álbum integralmente tocado ao vivo, em 1974. É um documento interessante. Wish Your Were Here traz um segundo CD com alguns temas ao vivo remasterizados. Não muito relevante. The Wall traz versões demo dos temas. Mais relevante.

Não será melhor optar pelas edições em vinil, originais ou mais recentes? Dark Side of the Moon, por exemplo, até tem uma remasterização de 2003.

Dito isto, as remasterizações são sempre um pau de dois bicos, porque pode alterar a "verdade" da música tal como foi editada originalmente. Nos anos 80, no advento do CD, ainda quando ouvia Pink Floyd a sério (antes de conhecer outros rocks), não por mera nostalgia como hoje praticamente acontece, comprei nesse formato os quatro álbuns mais populares dos anos 70. Entretanto, ofereci dois deles. Mantenho o The Wall e o Animals dessa primeira transposição AAD para CD. Nunca as substituí pelas remasterizações. Repus há tempos o Wish You Were Here, na versão remasterizada, porque não tinha o disco em casa há cerca de dez anos e tive um ataque nostálgico.

Um dia que faça a análise comparativa entre a primeira edição em CD e as remasterizações, direi se vale a pena, se a obra manteve a sua integridade original e se o melhor som (supostamente) ainda nos faz gostar mais da música em si.

Há remasterizações mal feitas que tornam o som falsamente limpo, cristalino, fininho, artificial. Espero que não seja o caso das remasterizações dos Pink Floyd, que nada têm a ver com a tendência assassina, para a musicalidade, dos últimos anos, em puxar pela gama média para impressionar os ouvintes de leitores de mp3, o chamado loudness (compressão do som que o torna menos natural, real e musical, sem a devida dinâmica de frequência, com perda sobretudo para as frequências graves, sem sublinhar as nuances, os contrastes, as transições, a diferença entre a sombra e a luz, entre os sons mais altos e os mais baixos, sem espaço entre instrumentos, som mais duro r ser uma parede compacta de som, o que e induz cansaço precoce no ouvinte, também pelo maior volume e distorção).

Além de a melhoria de som ser pouca, muitas vezes aproveitam para mexer na música em si, limar algumas coisas e adulterar o que inicialmente foi editado. E aperfeiçoar nem sempre significa ficar melhor. Melhor pode ser pior nestas coisas do som.

Tenho vasta experiência dessa realidade em algumas incursões audiófilas - sempre para servir melhor a melomania, a paixão primeira, mesmo que fosse ilusório muitas das vezes esse ideal: apesar de tudo, entre upgrades e downgrades, e muito stress, tenha chegado a um ponto de conciliação e bem-estar, o meu Santo Graal, com colunas Monitor Audio Silver RS6 Black, amplificador de potência Myryad MA240, pré-amplificador Rega Cursa, leitor de CDs Rega Planet, giradiscos Rega Planar 2, subwoofer REL Strata III, cabos de coluna Straightwire Duet para o grave e Waveguide para o treble e cabos de interligação Straightwire Symphony II + Audioquest Sidewinder.

As novas edições dos álbuns de Pink Floyd, para sacar mais uns trocos ao pessoal, não é Santo Graal nenhum. O Final Cut no velho vinil já está a rodar... e que som. Tal como no Pros and Cons of Hitch Hiking, álbum a solo de Roger Waters, adoro as transições/contraste entre os momentos sussurrantes e os momentos explosivos.