«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Segunda-feira, Setembro 26, 2011

Povo que mais ordena visto como rebanho a partir de qualquer púlpito


Se em 9 de Outubro o povo der a maioria ao partido governante é considerado ignorante e se a retirar deixa de ser ignorante?
Subestimar e desvalorizar as pessoas e os eleitores é um erro crasso. Tanta gente a votar num sentido é ignorância? Nem todos andam alucinados ou inconscientes. Por muito que custe, não é explicação. Quer-se dizer que os eleitores da Madeira são eleitores de segunda?

Não é o povo que mais ordena? Que sentido faz andar com o povo na boca e depois dizer que é míope, que se deixa enganar e coisas que tal?

É um erro a ideia desculpabilizante dos coitadinhos e indefesos, como se as pessoas fossem ingénuas, inaptas ou mesmo imbecis (rebanho) e não fossem capazes de ajuizar e escolher, em consciência e com lucidez... Como se nada pudessem fazer. Como se a mudança não estivesse nas suas mãos. Não gosto que se olhe o chamado povo a partir de um pedestal, de um palanque, de uma tribuna ou de um púlpito.

Isto ficou escrito no Madeirenses vão ter de assumir os prejuízos após os benefícios e mesmo no Medo intrínseco e não apenas extrínseco. Ora, depois de nos últimos dias ouvir cada vez mais gente a olhar de cima para baixo para esse povo, há que dizer mais alguma coisa. Porque até não me coloco à parte, elitisticamente, desse povo que, para com qualidades e defeitos, é o meu povo. Eu também sou povo.

Um ponto prévio, para evitar mal entendidos: neste blogue, desde sempre, há uns anitos a esta parte, se tem apontado a falta de massa crítica nos madeirenses e a pouca intervenção da sociedade civil na vida pública, entre outros males endémicos como a inveja ou a confusão entre o acessório e o principal. Há razões culturais, sociais e históricas que explicarão que assim seja, mas deixo isso para quem conhece mais do que eu.

Dito isto, há que esclarecer duas coisas:
a) A falta de massa crítica (ou ignorância como alguns preferem) faz-se sentir em todos os sectores da vida madeirense, sem excepção, não se pense que é apenas entre as massas populares, por mais que as elites gostem de pensar o contrário e de imaginar-se com muita qualidade;
b) Essa falta de massa crítica (e cultura política) não equivale a que as pessoas sejam ignorantes e não tenham consciência mínima do sentido do seu voto, isto é, que votem sem querer, telecomandados. Os condicionamentos democráticos (vasto emprego público, dependências numa terra pequena, etc) não explicam tudo.

Há quem procure justificar (e não aceitar) as opções eleitorais expressas pela maioria de um povo considerando-o ignorante. O tal que mais ordena... mas só quando faz o que a gente quer... Eu também tive essa tentação quando me bati por determinadas causas cívicas e a atitude/opção dos meus concidadãos não corresponderam às minhas expectativas (assim não colocava em causa o mérito das minhas estratégias e acções).

Foi e tem sido um erro de certa oposição política ou cívica na Madeira. Assim se justifica mais facilmente as próprias insuficiências dessa oposição. O problema é o povo e não as razões pelas quais esse povo toma certas opções eleitorais.

E se experimentassem descer dos púlpitos e dos palcos e compreender melhor as razões das escolhas eleitorais desse povo nos últimos 33 anos, que não seja a ignorância a justificação?

Serve de alguma coisa olhar os concidadãos como um rebanho (míope, que não quer ver, instrumentalizado, enganado, inapto ou ignorante), tenham os defeitos que tiverem? Como se a experiência e a sabedoria colhida da vida de nada valessem?

Não significa que concordo com as opções da maioria dos madeirenses. Há muito, mas sobretudo desde o ano 2000, que havia muitos sinais de saturação de determinado modelo de desenvolvimento (que bem evidenciou o Lost Jewel of the Atlantic, causa com a qual estive activamente comprometido) e de certos métodos de gestão e governação da res publica. Há muito que deveria ter havido condições para a alternância política na Região. A realidade, as circunstâncias e o voto secreto nas urnas não decidiram dessa forma.

Se em 9 de Outubro o povo der a maioria ao partido governante é considerado ignorante e se a retirar deixa de ser ignorante? Num quadro democrático, ou se aceita a vontade expressa pela maioria ou então procuramos impor a nossa vontade unilateralmente e à força sobre a maioria.

Nessa lógica do voto ignorante, teria de ser revisto o princípio democrático em que cada voto vale o mesmo. Arranjavamos um detector de ignorância ou falta de massa crítica e decidiamos que cidadãos teriam um voto que valesse mais do que o dos outros, que fosse um voto mais soberano...

O discurso anda radicalizado, com a ansiedade dos ajustes de contas e do confronto, mas é preciso saber se os radicalismos, de qualquer lado, é o que mais serve o futuro difícil que a Madeira vai enfrentar, pela situação financeira em que foi colocada (entalada) pelo Governo Regional.
Pois, eu sei. Os moderados correm riscos se não embarcam na acção radical e alucinada (e na euforia). Não basta ser crítico. A visão serena e plural da realidade é tomada como perigosa, intermitente ou situacionista.

Curioso é a mudança ter sido detonada pela troika e irá ser consumada pela troika, nos próximos tempos, à medida em quem o remédio (plano de reajustamento financeiro) começar a ser aplicado na Madeira (não há mão de ferro ou poder que um dia não caia ou povo que, de tanto aguentar, um dia não exploda). Da austeridade que aí vem brutará o sobressalto cívico. Uma verdadeira revolução. A troika é quem mais ordena neste momento...

Domingo, Setembro 25, 2011

Dívida brutal de quase 6 Mil Milhões de Euros


Ok, já sabemos a dívida. Importante é saber o que vai aumentar e quanto será esse aumento no custo de vida dos madeirenses

A Região tornou público, antes que fosse divulgado por outra via, que a dívida (directa e indirecta) se situa em cerca de 6 Mil Milhões de Euros, mais exactamente, 5,8 Mil Milhões de Euros.

Apesar de ficar um pouco abaixo do que tinha avançado o partido socialista, na casa dos 8 Mil Milhões de Euros, havendo mesmo quem colocasse a hipótese de chegar aos dois dígitos, é uma dívida brutal.

Brutal porque terá de ser paga por 260 mil madeirenses, na parte substancial que lhes vai caber, já que o Estado não pode pôr-se de fora. Tal como não pode ignorar os outros passivos que vão por esse País fora. O problema de base foi o sistema político ter permitido tanta indisciplina nas finanças públicas em Portugal, o que não desculpa as más gestões, inclusive a da Madeira.

Mais do que a divulgação dos números da dívida, é obter a informação por parte do Governo Regional quando vão acontecer os aumentos de impostos e no custo de vida dos madeirenses. O que vai aumentar e quanto será esse aumento.

O ex-presidente da República Mário Soares considerou hoje «importante» a divulgação pública da auditoria às contas da Madeira e do plano de consolidação orçamental para a Região antes das eleições de 9 de Outubro.

Já se percebeu que a governação regional está vulnerável e a perder o pé. Por isso, os ódios antigos contra Alberto João Jardim vieram todos a terreiro desferir os golpes, num ajuste de contas há muito sonhado.

Agora que há vulnerabilidade surgem à luz do dia alguns autoproclamados mártires do jardinismo a proferir diatribes e a exigir que Alberto João Jardim vá embora, quando estiveram quedos e mudos durante anos. Neste momento é «fácil» "bater no ceguinho", porque até é moda. Houve quem passasse uma vida a acumular rancor contra a governação madeirense personificada na figura do seu líder.

Pena que se confunda a governação com os madeirenses e a Madeira. Como dizia o leitor Rui Caires numa carta do leitor do Diário deste sábado, «já basta de confundir a Madeira com o Jardim, o défice democrático com inépcia da oposição política, a incontinência urinária com perseguição politica, o buraco financeiro com obra feita, o jornalismo com panfletos doutrinários, o ressabiamento político com projectos e ideias de liberdade, a madeira nova, com a madeira carunchosa.»

E terminava dizendo «devemos intervir civicamente» (mesmo que tarde, mais vale assim do que nunca...). «Essa é a principal dívida que os madeirenses de hoje têm para com as gerações vindouras, independentemente do espectro político, da matriz social em que estamos inseridos e do espartilho que nos amordaça.»

Sábado, Setembro 24, 2011

Ajustes de contas que penalizam os madeirenses



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As responsabilidades da governação madeirense não podem ser escamoteadas e desculpadas, mas não se faça crer que é caso único no País nem se confunda a governação (e o seu líder) com os governados.

Como disse Augusto Mateus há dias na SIC Notícias, este tipo de situação «não é exclusiva da Madeira» e tem a ver com a «crise do Estado português». São regras que não são cumpridas e transparência que não existe. Daí defender que, «antes das ilações político-partidárias», há um «problema da governação, de democracia e de cidadania».

O ajuste de contas relativamente a Alberto João Jardim fizeram alguns embarcar na ideia do "quanto pior, melhor", confundindo a Madeira e os madeirenses com o líder do Governo.

Isso serve a estratégia de combate eleitoral do partido do poder, já que Alberto João Jardim veio argumentar, ontem, que um «povo em circunstância alguma se pode deixar humilhar», porque «essa é a nossa dignidade, é a nossa identidade».

Ninguém coloca em causa a gravidade das contas. A má gestão, as ocultações, passivos e endividamentos de outros pelos País fora não justifica que a Madeira tenha feito o mesmo. Os erros dos outros não justificam os nossos.

A questão é o passivo da Madeira ter sido tratado da forma que outros passivos não têm sido. Por ser Alberto João Jardim? Por ser uma região autónoma? Por as entidades fiscalizadoras deste País nunca terem querido tirar tudo a limpo mais cedo e ter sido preciso a troika cá vir ? (O Governo da República já anunciou que irá apresentar legislação para que omissões e situações similares não se possam repetir em outras entidades do perímetro do sector público).

Um deputado madeirense do PS à Assembleia da República, Rui Caetano, insurgiu-se contra o «estigma que está a cair sobre a Madeira e os madeirenses», dizendo que é madeirense e considera que «se está a usar a dívida, os buracos e os erros de governação na Madeira para fazer esquecer os erros colossais que o País fez ao longo do tempo.»

O problema da governação regional foi não ter sabido parar. Se a primeira fase de desenvolvimento da Madeira foi importante, sensivelmente até final do século XX, para tirar este território do atraso infraestrutural a que tinha sido votado pela ditadura, os últimos dez anos mostraram uma saturação da estratégia baseada nas obras públicas. Dizer que está tudo à vista e a população beneficia desses equipamentos não é argumento suficiente. A ideia de fazer obras para benefício eleitoral deve ser ajuízada criticamente pelos cidadãos.

Quinta-feira, Setembro 22, 2011

Abstencionistas ultrapassam o partido mais votado na Madeira desde 2000


Nas últimas Eleições Legislativas Regionais na Madeira, em 2007, a abstenção foi de 39,25%, isto é, dos 231.606 eleitores inscritos votaram 140.697 e não foram votar 90.909 (39,25%).

O partido mais votado, o PSD, contou com 90.377 votos, significando que foi vencido pela abstenção, isto é, por 532 abstencionistas. Apesar de ter vencido as eleições por 64,24%, uma percentagem muito elevada.

Se recuarmos a 2004, o PSD obteve 73.973 votos (53,71%) contra 90.040 abstencionistas (39,53%). Uma diferença de 16.067 a favor da abstenção.

Em 2000, o partido mais votado, o PSD, contou com 72.588 votos (55,95%) contra 79.807 abstencionistas (38,09%). Uma vantagem de novo para a abstenção de 7.219 votos.

Nas eleições legislativas anteriores a 2000 o partido vencedor ultrapassou sempre, em número de votos, os números da abstenção.

Os abstencionistas têm ou teriam uma palavra importante a dizer se decidissem ir votar, mas não é provável nenhuma surpresa em 9 de Outubro próximo.

Teremos cultura cívica para uma convergência?

Era bom, era...
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Os actores políticos precisam de estar ao nível da responsabilidade dos cargos que ocupam e não adicionar instabilidade política e social ao descalabro financeiro.

O empresário António Trindade defende hoje, através do Diário, que é importante encontrar um ambiente de convergência entre os partidos da "área da governação como o PS o PSD e o CDS". Para que "haja por parte da representatividade política uma abrangência muito grande de base social".

Está a pensar na estabilidade. Está a pensar no plano de resgaste financeiro que convém reunir o maior consenso possível. Tudo terá efeitos sobre a economia, nomeadamente o turismo, muito sensível a turbulências sociais e insegurança.

Precisamos de produtividade para conseguir pagar as dívidas e não passarmos fome.

Após 33 anos de controlo unificador por parte de um líder e de um partido, acumularam-se muitos anti-corpos e ódios de estimação, que podem dificultar a convergência entre as principais forças políticas.

Alguns podem acordar estremonhados depois do longo sono. Há depois os traços culturais como a «inveja» e o «gosto pelo maldizer», a «não distinção entre qualidade e mediocridade, entre o essencial e o acessório», o colocar o interesse pessoal à frente do interesse colectivo, a dificuldade de entendimento quando há diferentes visões e interesses em jogo - geralmente acaba tudo à bulha.

Como certa vez salientou Monteiro Diniz, há uma «certa caracterização comportamental» insular madeirense. «Aqui na Madeira são as flores, as festas, o vinho, a alegria e, portanto, tudo isso comporta depois estas emanações que ultrapassam os limites minimamente razoáveis.» Como ainda referiu o ex-Representante da República, «é uma cultura cívica. O problema é de civismo, de cidadania, de cultura».

Desculpem, não queria beliscar o optimismo sobre uma possível convergência a partir de 9 de Outubro, seja qual for o resultado eleitoral... A juntar à grave crise financeira, só falta mesmo andar tudo à bulha...

Segunda-feira, Setembro 19, 2011

Sem título


Fica para a história a capa do jornal I de hoje, mas além de a expressão inglesa poder estar em português, PROCURA-SE, o conteúdo que figura na capa permite apontar duas ou três coisas.

A euforia  patente nas frases "Fim do jardinismo a 9 de Outubro?" e "Oposição já sonha com a mudança política" é prematura e contraproducente. Denuncia ansiedade, depois de três décadas de jejum de poder, subestimação ou desconhecimento do perfil do eleitorado que tem votado PSD há 33 anos, a máquina eleitoral desse partido e o fôlego político de Alberto João Jardim.

Enquanto Alberto João Jardim parte para o acto eleitoral como se o fosse perder, nunca subestimando os adversários na luta eleitoral, despreza-os apenas para os desmoralizar, a oposição parte como se fosse ganhar. As expectativas, ainda para mais as expectativas elevadas, geram desilusões.

Alberto João Jardim está "cercado por todos os lados", sim, mas é pelo Oceano Atlântico (mar de dívidas) e pela troika. E para ser PROCURADO teria de estar escondido. Tem dado a cara, reconheça-se, mostrando que gosta mesmo do cheiro a pólvora.

Os ataques do exterior, ainda por cima confundindo a Madeira e os madeirenses com Alberto João Jardim, mostrando os aspectos mais boçais e caricaturais, como se este povo fosse um rebanho de carneiros e ignorante, ridicularizando-o, tem o efeito contrário ao pretendido: leva muitas pessoas a unirem-se à volta do líder, por mais defeitos que tenha e por mais erros e pecados que tenha cometido.

Além do mais, como já disse aqui, quem vai derrotar o PSD-Madeira é a troika. Bem depois de 9 de Outubro. As fortes medidas de austeridade decorrentes do plano de resgate financeiro induzirão o desgaste que mais ninguém conseguiu induzir. As enormes dívidas acumuladas, e aparentemente com uma contabilidade oculta (mais se saberá), vão condicionar profundamente a vida dos madeirenses por muitos anos.

Domingo, Setembro 18, 2011

Não subestimar o eleitorado e a capacidade de sobrevivência política de Alberto João Jardim

Eleitorado madeirense está cristalizado: quem vai (continuar a) derrotar Alberto João Jardim e o PSD-Madeira, nos próximos anos, não em 9 de Outubro próximo, é a troika
photo copyright: Mike Sergeant

As notícias da grave omissão de 1,6 mil milhões de euros deixaram alguns eufóricos mas há quem não conheça (ou esqueça como é) o eleitorado madeirense. Uma coisa é a opinião pública e os comentadores outra coisa é o que pensa esse eleitorado, cuja maioria só quer saber de Alberto João Jardim e não quer saber de política e dessas questões de dívidas e défices... Política é uma palavra com conotação negativa. Não se vê o cidadão comum madeirense a falar destes assuntos no Facebook ou nos blogues...

É contraproducente deitar foguetes atrás dos buracos indentificados pela troika e subestimar as qualidades (no meio dos defeitos) do actual líder regional e a sua capacidade de sobrevivência política. E não se esqueça ainda da máquina infernal de campanha do PSD-Madeira, que está aí no terreno.

Eu até vou citar alguém da área socialista, outro "animal político", para quem não reconheça credibilidade às minhas palavras. Mário Soares, que não é propriamente um amigo do presidente do Governo Regional, disse à SIC Notícias (16.9.2011): «ele [Alberto João Jardim] tem qualidades e não meteu o dinheiro ao bolso» já que deixou obra na Madeira. Por isso, a «sanção política pode não vir». «Os madeirenses têm esta ideia: este homem trouxe-nos até aqui. Se calhar ainda vai ganhar outra. Se calhar eles têm razão

Não se pode, pois, subestimar a razão dos madeirenses mesmo que não coincida com outras razões, nem antecipar o julgamento que irá ser feito pelo eleitorado no próximo dia 9 de Outubro, dia das Eleições Legislativas Regionais. Em democracia a razão do eleitorado é aquela que mais ordena. Não vale a pena olhar o povo de cima para baixo. Quem tem um palco tende a ver o povo como um rebanho.

«Se eles não querem aliviar-nos da sua [de Alberto João Jardim] indesejável companhia, só há uma solução: vender a Madeira a quem der mais!», disse Vital Moreira, cujos ódios e guerrinhas pessoais com Alberto João Jardim toldam a análise. Vital Moreira faz aquilo que critica no inimigo de estimação. Este tipo de posição não pode ser levada a sério e ofende o povo madeirense (votem ou não em Alberto João Jardim).

Por mais que dê jeito a quem se opõe, ofender os madeirenses não é o caminho. E ainda há quem fique contente cá por se dizer mal da Madeira lá fora... Jardim e Madeira são coisas diferentes. Não podemos cair no "quanto pior, melhor". O combate ao jardinismo não pode, por tabela, denegrir a Madeira e os madeirenses, cada vez mais conotados com o gregos, na forma como gerem o dinheiro e se endividam...

Sou crítico face à falta de massa crítica na população e a governação de 33 anos tem responsabilidade por não ter concedido espaço para que a sociedade civil se emancipasse, mas não gosto que confundam a Madeira, a Autonomia e os madeirenses com os aspectos negativos do actual líder. Não gosto que mostrem apenas o lado caricatural e boçal da Madeira e o generalizemos. Este arquipélago tem muito para mostrar de positivo.

Sabe-se que a sociedade madeirense tem falta de massa crítica, mas não se tomem as pessoas por ingénuas ou inaptas. Se têm pactuado com o estado de coisas é porque também lhes tem interessado e servido. Falta de consciência crítica não é o mesmo que falta de consciência nas opções eleitorais. O eleitorado (o colectivo madeirense) terá depois de assumir os prejuízos e responsabilidades das suas opções. Não há fuga possível.

Não se deve esquecer que, em tempo de grave crise, as pessoas tendem a unir-se à volta da liderança que lhes tem garantido o pão e o bem-estar, crendo que, mais uma vez, essa liderança será capaz de ultrapassar as dificuldades e continuará a vencer. As pessoas têm um forte sentido de gratidão pelo muito que lhes foi providenciado. As consequências a doer apenas chegarão depois das eleições.

Além de tudo o mais, quem vai (continuar a) vencer Alberto João Jardim é a troika. Não é a oposição nem mais ninguém. Isto não é uma questão de opinião: é a realidade. Domesticamente, Alberto João Jardim é invencível. O PSD será vencível com o líder que se seguir, quando Alberto João Jardim já não der a cara pelo partido e pela governação.

Teve azar uma geração que viveu, dentro e fora do seu partido, este período histórico, já que Alberto João Jardim secou tudo à sua volta durante todas estas décadas e não deu oportunidade a mais ninguém de liderar os destinos da Região e haver alternância na governação.

Eleger Alberto João Jardim para um novo mandato, para governar em austeridade, sem dinheiro, será o maior castigo, pelo enorme endividamento na última década. Não é a lógica comum ou natural, mas faz o seu sentido. Porque independentemente do partido e do candidato que ganhe as eleições de 9 de Outubro, quem vai governar a Madeira é a troika.

Alberto João Jardim ficou cheio de medo...

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A Procuradoria Geral da República vai analisar caso de omissão da dívida da Madeira, noticia-se desde ontem.

Isto é para levar a sério tendo em conta o estado de descrédito a que chegou a Justiça em Portugal?... Mais vale a PGR estar quieta para não provar, na prática, mais ineficácias e sofrer descredibilizações na praça pública.

Mesmo que viesse a ser condenado, depois de não sei quantos anos de processo judicial, estaria sujeito a uma multa máxima de 25 mil euros. Isto é, no máximo a montanha pare um rato.

Recorde-se que muita gente andou a apregoar a prisão de José Sócrates, por ter colocado Portugal num buraco orçamental sem precedentes, mas sabe-se que não tinha pés para andar.

Sexta-feira, Setembro 16, 2011

Troika vai fazer o que nenhum partido da oposição conseguiu fazer na Madeira



Governar a Madeira sem dinheiro e debaixo da troika, em profunda austeridade, será um castigo para o novo Governo Regional após 9 de Outubro: impostos a subir, desemprego a duplicar, portagens na via rápida, fim de monopólios, fim dos subsídios ao futebol e por aí adiante.
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Intitulei há dias um post de De buraco em buraco até ao buraco final. Hoje o Instituto Nacional de Estatística e o Banco de Portugal acusaram hoje a Administração Regional da Madeira de ter omitido informação relativa às suas contas públicas.

Em causa estão vários encargos que a Madeira assumiu desde 2003, tendo escondido das autoridades estatísticas mais de mil milhões de euros nos últimos três anos: 140 em 2008, 58 em 2009 e 915 em 2010, perfazendo um total de 1113 milhões de euros.

Somando 1113 milhões aos já detectados 500 milhões pela troika relativos a 2011 são 1600 milhões, com impacto na dívida pública portuguesa. Teme-se a reacção dos mercados.

A governação madeirense ignorou a referida nova Lei de Finanças das Regiões Autónomas com o argumento de assegurar a continuidade dos investimentos em curso. Agora o Governo Regional atribui a culpa a essa Lei de Finanças aprovada pela governação de José Sócrates, de 2008, que cortou financiamento, embora estejam em causa encargos que remontam a 2003, ainda durante o Governo de Durão Barroso.

A situação já foi apelidada de «grave» e «sem compreensão» pelo Primeiro-Ministro, remetendo para o eleitorado madeirense a responsabilidade de fazer o julgamento no quadro democrático, desafiado que foi por José Seguro para retirar a confiança política em Alberto João Jardim.

Como já disse antes, depois dos benefícios, é hora de os madeirenses assumirem os prejuízos e responsabilidades.

Quinta-feira, Setembro 15, 2011

"Duelo" Passos Coelho/Mário Nogueira

Primeiro-Ministro e Secretário-Geral da FENPROF em diálogo democrático fluído e bem disposto - ver o VÍDEO
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Passos Coelho encontrou-se, em Viseu, com o líder da mais representativa federação de professores do País, a Fenprof, em 12 de Setembro. A conversa entre os dois durou oito minutos.

Segundo a Lusa, «ao chegar ao segundo centro educativo que hoje inaugurou em Viseu, Passos Coelho tinha à espera responsáveis da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), nomeadamente o seu secretário-geral, Mário Nogueira.

Segundo Mário Nogueira, os professores estão "extremamente preocupados, não tanto pela forma como abre" o ano lectivo, mas "pela forma como decorre e vai terminar".

Isto porque, explicou, "ao corte de 800 milhões deste ano, se juntará um novo corte de 500 milhões no próximo ano", sendo "1.300 milhões um quarto do orçamento total" no sector da Educação.

"E isto tem consequências. Não é apenas a questão do emprego dos professores. É o funcionamento das escolas, a qualidade do ensino, os apoios sociais às famílias. Enfim, é a escola que fica em causa", considerou.

Passos Coelho entrou em diálogo com Mário Nogueira, lembrando que as exigências de Portugal do ponto de vista financeiro "são muito grandes" e que "a despesa pública na área da Educação, da Saúde, da Segurança Social são as que mais relevância têm" no Estado.

"Portanto, não é possível cumprir as metas que temos para o orçamento do Estado, para o défice e para a dívida sem, também na Educação, fazer pelo menos tão bem ou melhor gastando menos", defendeu, dizendo contar com a colaboração dos professores neste processo.

Mário Nogueira lamentou que mais professores tenham ficado sem colocação, não "porque de repente as escolas ficaram a precisar de menos professores", mas "porque foram tomadas medidas nesse sentido, nomeadamente ainda no final da governação anterior" e que foram adoptadas pela actual equipa do ministério.

"Lendo o documento estratégico para o orçamento até 2015, preocupa-nos quando vemos lá o aumento do número de alunos por turma, que faz perder qualidade ao ensino, o continuar a encerrar escolas ou continuarem os mega-agrupamentos", explicou.

Mário Nogueira admitiu ser preciso racionalizar, mas fez votos para que nesse processo "não se esmaguem aqueles que não podem ser esmagados e que não fique o país de rastos no fim".

Passos Coelho argumentou que o Governo não deve criar ilusões aos portugueses, exemplificando que, se os ministros da Saúde e da Educação não cumprirem bem a sua missão de gastar centenas de milhões de euros a menos, o Serviço Nacional de Saúde e o sistema educativo podem "ficar em causa, porque deixará de haver meios financeiros para poder acudir".»

Domingo, Setembro 11, 2011

Diálogo cívico com contributo de Rigo 23


Rigo poderia ter incluído, por exemplo, um gráfico comparativo com os sindicalistas há mais tempo na liderança
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O conceituado artista madeirense, Rigo 23, diz que é um simples constatar de factos e dados que compilou em gráficos para tornar mais fácil a compreensão, mas a publicação desta obra de intervenção na edição do Diário de hoje, não é alheia à actualidade. Mas, será abusivo confundi-lo com política partidária.

Declarou ao Diário ser a sua "maneira de participar no processo cívico", através da [sua] arte. Elegi a minha 'arma', a minha forma de contribuir para um diálogo cívico", justificou, explicando que a inclusão no Diário pareceu-lhe uma forma "bastante democrática, bastante acessível" de fazer chegar a sua "obra de arte em múltiplos" às pessoas. "Uma característica da condição de ilhéu é as pessoas confundirem a ilha com a totalidade do mundo. Este trabalho é um pouco para 'reconectar' o contexto político da ilha com contextos mais latos".

São quatro gráficos: no primeiro, compara os cinco líderes há mais tempo no governo do continente africano e arredores; no segundo, compara o tempo de governação dos líderes na Europa; no terceiro, compara ao tempo no activo dos bispos do Funchal; quarto, compara ao tempo de liderança dos papas.

"Esta é uma história que se conta a si própria, não é de facto uma questão de opinião", afirma Rigo 23, realçando a descrição de factos.

Madeirenses vão ter de assumir os prejuízos após os benefícios


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"As pessoas esquecem-se que os madeirenses reagem de forma diferente dos continentais, porque efectivamente beneficiaram com a dívida, e na sua maioria prefere Jardim", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, figura cimeira do PSD nacional (JM 6SET2011).

Só quando chegar a hora de assumirem os prejuízos (sacrifícios) a atitude dos madeirenses é passível de se alterar. Apesar de muita da obra ter sido necessária (sobretudo entre 1978 e 2000) para a Madeira atingir o patamar de desenvolvimento social equiparado ao resto do país, nesse momento de assumir os prejuízos, os madeirenses condenarão a opção política de fazer obra que subscreveram no passado, mesmo que à custa de endividamento. E passarão as culpas (morderão a mão) a quem lhes providenciou os benefícios durante mais de três décadas.

"Mas a culpa não é apenas de Jardim", escreveu o comentador Daniel Oliveira (Expresso 8SET2011). «É, obviamente, antes de mais, dos madeirenses. São eles que o elegem. É natural que o façam quando percebem que o circo jardinista rende à Madeira uma folga orçamental.»

Como ficou expresso noutro texto, Medo intrínseco e não apenas extrínseco, o poder democrático é eleito, não tem toda a culpa. Daí que os madeirenses não sejam apenas vítimas do poder.

Não gosto desta ideia desculpabilizante dos coitadinhos e indefesos, como se as pessoas fossem ingénuas, inaptas ou mesmo imbecis (rebanho) e não fossem capazes de ajuizar e escolher, em consciência e com lucidez... Como se nada pudessem fazer. Como se a mudança não estivesse nas suas mãos. Não gosto de olhar o chamado povo a partir de um pedestal, de um palanque, de uma tribuna ou de um púlpito.

Como disse ainda Ângelo Correia, do PSD, a "Madeira, parte de Portugal, vai assumir seguramente uma grande quota de responsabilidade e de solidariedade nossa" (Diário de Notícias da Madeira 1SET2011).

Não há outra alternativa. A República não pode dizer que nada tem a ver com a situação financeira da Madeira, um passivo entre muitos outros passivos públicos que existem no país, nem os madeirenses podem esperar que a República lhes resolva todos os problemas. Temos de assumir as responsabilidades pelas opções que fizemos, maioritariamente, isto é, enquanto sociedade.

Por isso, não me venham com discursos desresponsabilizantes, seja de uma parte (Governo Regional) ou de outra parte (população madeirense). Sobretudo quem defende a consciência crítica, a responsabilidade cívica ou a autodeterminação por parte dos cidadãos não pode cair na tentação de concentrar a culpa num único lado, num único homem. Se as pessoas são capazes para exercer direitos, são igualmente capazes para exercer opções, deveres e responsabilidades.

Os sacrifícios por cá vão doer, depois de 33 anos sem saber o que é crise: diversos impostos a subir, serviços públicos mais caros, portagens na via rápida (nossas auto-estradas SCUT), subsídios a desaparecer e desemprego a aumentar consideravalmente.

Não é para desanimar ou dramatizar. É para olhar a realidade de frente e enfrentar os problemas como melhor formos capazes.

Sexta-feira, Setembro 02, 2011

Madeira espelho do que se passa no país ou mais do que isso?

Diário destaca o adjectivo "insustentável" usado pelo ministro das Finanças quando se referia à situação das contas da Madeira

O Primeiro-Ministro e o presidente do Governo Regional declaram saber da derrapagem dos 500 milhões, mas nada disseram quando foi revelada a primeira fatia de 277 milhões em meados de Agosto.

Quanto a Passos Coelho, perdeu toda a autoridade política e moral para exigir transparência e ordem nas contas a outros. Será que conhece ou conhecerá outros buracos e nada diz ou dirá? Se não fosse a troika, alguma vez se saberia da derrapagem no presente ou no futuro próximo? Ocultar é faltar à verdade. Não era de ocultação que criticava José Sócrates?

O Bloco de Esquerda nacional acusou hoje Passos Coelho de esconder a informação em "claro favor partidário". Parece que dificilmente se conhecerão outras más notícias antes de 9 de Outubro, data em que os madeirenses vão às urnas.

Vítor Gaspar, ministro das Finanças, considerou a situação na Madeira "de crise" e "insustentável" e garantiu que é "importante que se actue já". Informou ter "defendido a desejabilidade de que as Regiões Autónomas por sua própria iniciativa se disponibilizem para um programa de ajustamento financeiro (…) com a República portuguesa e os parceiros internacionais, semelhante ao que existe para a própria República".

O presidente do Governo Regional disse hoje que a situação da Madeira é um "espelho" do que se passa no País, mas, e já na qualidade de presidente do PSD-M, "com mais razão" por cá porque o Partido Socialista "roubou" o povo madeirense, assumindo que arquipélago se endividou num atitude de resistência.

Na SIC Notícias, no jornal das 22h00 de hoje, alguém alegava que a situação da Madeira não era um espelho da situação nacional porque "é mais parecida com a Grécia" face à percentagem da dívida (a conhecida) ser, alegadamente, 150% do PIB regional. O comentador alegou ainda que o regime é "pouco transparente perante os madeirenses" e instituições nacionais como o Tribunal de Contas. Daí alguns já terem pedido uma auditoria externa às contas da Região.

Resumindo, a Madeira terá agora de sujeitar-se a um plano de resgate com o País e a troika, com grande impacto na vida dos madeirenses. Só agora a crise chegará a este espaço insular, no seguimento das medidas de austeridade que serão impostas, à semelhança do que já está a acontecer ao nivel nacional.

Mas, como disse ontem José Luís Arnaud, do PSD, na SIC Notícias, sobre o caso das contas da Madeira, «há eleições, há democracia, há representatividade partidária, portanto, se essa é a escolha dos madeirenses temos de a respeitar. Tal como respeito a escolha dos açoreanos.» E nisto tem razão: é a escolha da grande maioria há 33 anos. E não me venham com a conversa que essa grande maioria de madeirenses é ingénua ou inapta.

MEMÓRIA
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Dívida da Madeira
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Medo intrínseco e extrínseco