«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Nevermind vinte anos depois





Em Setembro de 1991, há 20 anos, era posto à venda um dos discos mais marcantes da história do rock: Nevermind de NIRVANA. Duas décadas não fizeram erosão nenhuma. Poderia ter sido editado hoje. O que é genuíno resiste à passagem inexorável do tempo.

Tenho bem presente a excitação, a novidade e as emoções sentidas na primeira audição do álbum em CD (e nessa época os discos compactos custavam três contos - 15 euros... - uma roubalheira... era estudante e amealhava para comprar um disco num mês...).

Andava na altura mais apanhado pelo Heavy Metal mas o Nevermind dos NIRVANA tinha uma grande intensidade, soava como nada até então (viria a chamar-se Grunge), adorei a conjugação entre a melodia e as passagens pesadas (elemento Hardcore), não tinha solos de guitarra petulantes e vibrei com a densidade e poder dos graves. Em duas palavras: enchia as medidas :)

Lembro-me de dar a novidade ao irmão mais novo como sendo o disco rock mais arrebatador dos últimos tempos de que meio mundo falava e ouvia.

Vinte anos depois, porque discos destes devem ouvir-se em vinil, eis que não resisti, em mês de aniversário, uma boa desculpa para esquecer a crise, a deitar mãos e ouvidos ao Nevermind, numa edição com lados B e outros extras para os mais ávidos :)

Conclusão: duas décadas volvidas soa tão excitante como então e não há um tema de que não goste. Um álbum muito forte no seu todo, sonicamente poderoso e sem nenhum momento menos interessante. Trouxe o rock alternativo, com passagens intensas e ruidosas, a uma audiência mais vasta, tendo vendido mais de 30 milhões de cópias. Duas por minha conta.

Kurt Cobain teria hoje a minha idade se não tivesse acontecido o que aconteceu em 1994... Ficou o legado.

Domingo, Outubro 23, 2011

Risco elevado de emergência social


"A crise com pessoas dentro", uma reportagem do Diário

Baseado em declarações do presidente da Cáritas no Funchal, José Manuel Barbeito, o Diário refere na edição deste Domingo que, «com a austeridade anunciada, as perspectivas são muito, muito reservadas e, em consciência, não se pode, nem se deve colocar de parte a possibilidade de uma situação de emergência social.»

Como já tínhamos referido no post Endividamento das famílias, o colapso social que é imperioso evitar, os sinais são deveras preocupantes, confirmados pelo responsável da Cáritas na Madeira e as reportagens que vão sendo publicadas nos jornais sobre a situação das famílias. É uma situação com ingredientes para uma emergência social. Quando não há pão o desespero pode tomar conta das pessoas.

"O desemprego, o divórcio e o endividamento são os principais problemas dos que nos contactam", explica José Manuel Barbeito ao Diário.

São anos de enorme dificuldade que estão à nossa frente, ainda por cima com uma dívida brutal em cima dos madeirenses - fez aqui o governo de Alberto João Jardim o que fez o governo de José Sócrates lá.

E o problema não é apenas a dívida pública portuguesa, calculada em 25% da dívida total do País. É a dívida privada (75%), a descapitalização da banca (insolvente ou sem dinheiro para injectar na economia - o que acontece a uma plantação sem água?) e a conjuntura de recessão europeia/internacional, decorrente da crise do subprime em 2006-2007.

Numa ilha pequena, no meio do Atlântico, em que são escassos os recursos e a economia é frágil, as oportunidades são escassas. A Madeira não tem condições para empregar duas a quatro dezenas de milhares de desempregados. A construção civil acabou. O mercado imobiliário congelou. O turismo está como está, mas continua a ser a nossa tábua de salvação. A Zona Franca e o offshore podem desaparecer. E os destinos da emigração não são os de antigamente.

Trabalhar para pagar dívidas ou, ainda pior, não ter emprego é suficientemente duro para lhe juntarmos desesperança, desespero e depressão. Aí o drama social agudiza-se. Conduz ao baixar dos braços, a actos irreflectidos e custa dinheiro recuperar a saúde mental e física. Na Grécia, a esperança de vida terá baixado pelo menos uma dezena de anos, devido ao impacto do stress nas pessoas.

As redes de solidariedade e apoio às pessoas, a começar nas famílias, terão de estar bem oleadas para amortecer as dificuldades. Tempo de os madeirenses se concentrarem no que os une, no que é essencial. Há valores que devem e têm de falar mais alto.

Haverá sempre alguns privilegiados, com tempo e dinheiro, que se entretêm em demandas no âmbito do pequeno interesse individual. Contudo, numa grave crise, a tendência é virar-se para a coesão do colectivo, recuperando-se laços sociais e familiares em detrimento do individualismo reinante nas últimas décadas. Menos consumo, melhores relacionamentos sociais, eis um aspecto positivo.

Sábado, Outubro 22, 2011

«Conservadorismo da Madeira profunda» - elementar, meu caro Watson

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«Teve [o PTP] cerca de sete por cento dos votos, mais do dobro do PND, o seu antigo partido proveta, superou o PCP e fez desaparecer de cena o Bloco. Ora, o Bloco é o herdeiro da UDP, a força mais activista nos primeiros tempos pós 25 de Abril: com a sua irresponsável retórica esquerdista assustou o conservadorismo entranhado da Madeira profunda e favoreceu a irresistível ascensão de Jardim. Nada do que agora aconteceu, com a fragmentação das oposições, foi fruto do acaso (até o partido dos Animais elegeu um deputado…).»

Estas declarações de Vicente Jorge Silva (semanário SOL 18.10.2011) após o acto eleitoral de 9 de Outubro, na Madeira, são muito realistas.

Daí não ter compreendido ainda as razões para a euforia oposicionista que se instalou relativamente às recentes Legislativas Regionais, como se o eleitorado conservador e cristalizado fosse mudar num estalo de dedos. Penso que falaram mais alto os desejos e as emoções do que a razão e o realismo. Não acredito que se desconheça o próprio eleitorado...

A dívida não tira votos. São as consequências dessa dívida pública que irão fazer a sua corrosão no partido mais votado na Madeira desde 1976, em sucessivas maiorias absolutas, tendo a última sido a menos expressiva com os seus 48,56%. Mas uma maioria absoluta na mesma.

O eleitorado madeirense deu provas, nestas eleições, que é sobretudo conservador, de direita. Desde logo aqui assinalámos esse dado ao dar conta da votação conjunta de social-democratas e centristas: 66,19%. E dificilmente saímos deste mapa ou genética político-ideológica madeirense.

Há quem tenha dificuldade em aceitar esta realidade sociopolítica e cultural e queira levar isto à força, num confronto generalizado, num tumulto radical, talvez novamente por via de uma «irresponsável» e irrealista «retórica esquerdista», como refere Vicente Jorge Silva a propósito dos anos 70, ou qualquer outra retórica, que os madeirenses já recusaram.

O povo é quem mais ordena, goste-se ou não se goste, coincida ou não coincida com as convicções de cada qual. Para quem não consegue aceitar a realidade (o que ordena o povo nas eleições) e não se contenta com pequenas mudanças a muito longo prazo, arrisca frustração e desilusão face às altas expectativas criadas.

Ou então muda de povo. Sobretudo quando este é encarado como ignorante e medroso ou então como rebanho (arrebanhável) do alto de um qualquer púlpito, incluindo o da superior intelectualidade.

Como por aqui já se disse, umas injecções de realidade e umas curas de humildade fazem bem. Tornam-nos mais sábios, democráticos e menos intelectualmente petulantes. Um bom antídoto face ao aburguesamento de muitos de nós, fruto de melhores condições de vida e acesso ao saber e à cultura.

Vou continuar a gostar do povo madeirense tal como é, sem me privar de criticar aquilo que considero ser menos positivo. Vote o povo como votar. Direita, centro, esquerda ou outra variante qualquer.

Apesar do desgaste de 35 anos de governação, da mudança de líder que um dia desses terá de ocorrer no actual partido que suporta o Governo Regional e do desgaste na governação nos anos que se seguem face à austeridade que irá cair violentamente sobre a Madeira e os madeirenses, o PSD poderá continuar a ganhar, com maioria relativa, mesmo que para isso tenha de se coligar com o CDS-PP.

Nas recentes legislativas, saiu reforçado o CDS-PP, o PTP e o PAN. A esquerda tradicional, PS, CDU e BE, caíram na votação. Mais do que isso, desde há 11 anos que o PSD mantém um núcleo ou base leitoral cristalizada na casa dos 70 mil votos.

Se a esquerda continuar a fragmentar-se, a dar tiros nos pés com as crónicas guerrinhas de paróquia - há quem não saiba viver de outro modo -, a perder credibilidade e a ser irrealista, não convencerá o eleitorado a abraçar outro projecto e outro caminho político para a Região. Continuará a não haver alternativa e alternância à esquerda, como deveria haver numa democracia, para não se cair num único pensamento, doutrina, visão e rotina de governação.

A Madeira não tem condições para empregar duas ou quatro dezenas de milhares de desempregados. A construção civil acabou. O turismo está como está. A Zona Franca e o offshore podem desaparecer. Os destinos da emigração não são os de antigamente. São dias de enorme dificuldade que estão à nossa frente, com uma dívida brutal em cima do lombo, que nos vai curvar ainda mais no tradicional baile pesado.

Há uma grande maioria que não está ainda ciente do grau das consequências que aí vêm. Por isso, acabo como comecei, com uma passagem do artigo de opinião já citado: «A Madeira mergulhou num poço tão fundo e tão negro que, para sair dele, terá literalmente de reinventar o seu destino.»

Fosso entre PSD-M e abstenção aumentou significativamente


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Nas eleições legislativas madeirenses anteriores ao ano 2000, o partido vencedor ultrapassou sempre, em número de votos, os números da abstenção.

Em 2011, o fosso entre o PSD Madeira e a abstenção bateu o recorde. Porém, aquele partido mantém-se na casa dos 70 mil votos em 2000, 2004 e 2011, um núcleo duro ou cristalizado de votantes, mas com a percentagem a cair nestas três eleições (2007 é um caso à parte) de 55,95% para 48,56%.

Em 2000:
79.807 abstencionistas (38,09%)
72.588 votos no PSD (55,95%)
Vantagem para a abstenção: 7.219

Em 2004:
90.040 abstencionistas (39,53%)
73.973 votos no PSD (53,71%)
Vantagem para a abstenção: 16.067

Em 2007:
90.909 abstencionistas (39,25%)
90.377 votos no PSD (64,24%)
Vantagem para a abstenção: 532

Em 2011:
109.418 abstencionistas (42,62%)
71.561 votos no PSD (48,56%)
Vantagem para a abstenção: 37.857

Os abstencionistas teriam uma palavra importante a dizer se decidissem ir votar, mas a este nível não houve nenhuma surpresa em 9 de Outubro último. Os abstencionaistas bateram o recorde com a percentagem de 42,62%, a mais elevada de sempre.

Terça-feira, Outubro 18, 2011

Endividamento das famílias, o colapso social que é imperioso evitar


Francisco Louçã terá dado hoje na Sic Notícias uma das entrevistas mais lúcidas, realistas e proactivas: falou mais o economista e menos os dogmas doutrinários
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A entrevista a Francisco Louçã hoje na SIC Notícias, jornal das 21h00, deixou-me ainda mais preocupado do que estava quanto à situação do endividamento (privado) dos portugueses.

O que me aflige, mais do que a subida de impostos e a perda de salário (empobrecimento), é as famílias ficarem sem liquidez, entrarem em falência por causa dos compromissos de crédito, sobretudo no que toca à habitação própria. Uma coisa é viver pior, outra coisa é não ter para viver, além do pagar ao banco as dívidas.

E aqui pode estar um enorme drama social, já que metade das famílias portuguesas está endividada por várias dezenas de anos e boa parte com mensalidades demasiado altas. Boa parte delas pode entrar em falência face ao elevado grau da presente austeridade. E aqui é preciso os cidadãos fazerem a pressão sobre quem decide, aqui e na Europa. É preciso evitar um colapso social. Mesmo sabendo que as pessoas facilitaram nas decisões no acesso ao crédito e a banca foi agressiva.

«Os bancos portugueses alimentaram um mercado gigantesco que foi forçar as pessoas a comprar casas, numa estrutura de mercado habitacional em que não havia boas alternativas de arrendamento, [e] metade das famílias portuguesas está endividada por 30 anos aos bancos por comprar a sua casa», disse Francisco Louçã há pouco na SIC Notícias. E conclui: «Isto é absurdo. É o país da Europa em que há mais proprietários e menos pessoas que escolhem arrendar por preços melhores.»

Uma nota a propósito: diz-se que a dívida portuguesa é 75% privada e 25% pública.

A maturidade do consumidor é algo que «se tem de exigir a todos», continuou Louçã, quando confrontado com a oferta agressiva de crédito (carro, plasmas e outras coisas inseridas no crédito à habitação a que muitos acederam).

«Isso é uma responsabilidade de cada pessoa e eu não a diminuo nunca», não facilita o líder bloquista quanto à quota parte da responsabilidade individual. «Mas é também uma responsabilidade do regulador», alerta. E não esqueçamos que o próprio Estado fomentou a corrida ao crédito para habitação com os créditos bonificados e abatimento no IRS, que o economista nem referiu.

E Louçã explica o poder impositivo sobre as pessoas, quanto ao nível elevado dos juros exigidos, em que se criou um «crédito ao consumo violentíssimo».

Refere a esse propósito que o «sistema financeiro teve um poder sobre as pessoas e um poder sobre quem queria comprar casa em que a pessoa não podia negociar. Ou aceitava ou ficava sem a possibilidade do crédito. Portanto, eles [bancos] tiveram a faca e o queijo na mão e endividaram-se imenso no estrangeiro. Os bancos portugueses devem mais do que o Estado português. Essa é uma das grandes pressões sobre Portugal é a dívida do sector financeiro. E que é uma dívida das famílias também. Daí que tenhamos que olhar para o sistema do crédito como um contrato muito responsável

Redireccionar as capacidades de crédito não para consumo («só prejudica a economia») ou habitação («só cria dívida externa»), mas para a indústria, a produção e criação de emprego foi a receita dada por Francisco Louçã para sair da crise e faz muito sentido. Crédito para a economia. E contas certas no orçamento e na economia.

Mas é preciso assegurar que esse crédito chega. Uns dizem que é preciso pôr as contas em ordem primeiro para termos crédito exterior. Outros que os 12 Mil Milhões que vêm para recapitalizar a banca deveriam ser usados para injectar na economia.

Continue-se o debate e a manifestação da opinião, nos media ou na rua.

Memória:
O consumo não foi inventado pelo capitalismo

Domingo, Outubro 16, 2011

O consumo não é invenção do capitalismo

"Eu expulsei os vendilhões por alguma razão", diz o cartaz de um manifestante em Londres, 15 de Outubro de 2011
photo copyright: Leon Neal - AFP

«O consumo,
por mais que o repitam, não é invenção do capitalismo:
os deuses formaram homens incompletos,
com estômago, frio e vaidade, como queriam outro resultado?»

«E o dinheiro (...)
Torna os homens previsíveis, (...)
Destrói reis, carpinteiros e santos. (E quando não há,
ainda destrói mais.)»

Gonçalo M. Tavares
"Uma Viagem à Índia" (2010)
p 305, p 363

“Nunca gasto mais do que ganho” (jornal Económico 16.10.2011) é um princípio que saiu da nossa cultura e até parece algo demasiado conservador e antiquado na sociedade em que vivemos. O autor da frase é Júlio Machado Vaz, recordando um lema herdado da mãe. E ele próprio fez excepção na aquisição de uma casa, lê-se na entrevista...

Na nossa cultura, ter dívidas era algo muito censurável e herdei, pessoalmente, da família, esse valor de "não dever nada a ninguém", condição para a tranquilidade da consciência. Nunca acreditei que me dessem nada. Ainda hoje sinto-me incomodado com créditos, mesmo aqueles de curto prazo e sem juros. Prefiro esperar do que aceder a bens por via do crédito. Excepção feita à aquisição de habitação própria (e fi-lo de forma conservadora pelo valor mais baixo possível e no mais curto espaço de tempo possível, para pagar menos no final).

Quem nos ensinou a todos a não saber esperar e a esquecer as virtudes da paciência?

As pessoas estão indignadas com o estado do mundo actual, recusam-se a empobrecer (perder poder de compra e de acesso a bens como a saúde) e têm a sua razão. Mas há uma parte de responsabilidade individual que não podemos esquecer.

As pessoas tomaram decisões de endividamento pessoal, para aproveitar o conforto e benefícios "oferecidos" pelo mercado e pelo capitalismo, por mais que o marketing fosse agressivo por parte da banca ou o Estado incentivasse a aquisição de casa própria, através de benesses em sede de IRS ou do crédito bonificado aos jovens. A dívida portuguesa parece ser, dizem, 75% privada e 25% pública...

Sem nunca relativizar a irresponsabilidade nos mercados financeiros, que levaram ao colapso do sistema e estão a fazer pagar todos por erros e ganância de alguns, os bancos ou o Estado, por mais selvagens que sejam, não obrigaram as pessoas a consumirem ou a viverem acima das suas posses. Ficou a prudência à conta da massa crítica de cada um. A liberdade de escolha e decisão exige mais dos indivíduos.

Até alguns países se endividaram acima das suas posses. Portugal é um exemplo. A Madeira é outro exemplo dentro do País. Entrámos num jogo de alto risco. Um dia iria colapsar. Aí está a factura. E sempre podemos dizer "não pagamos".

Enfim, não foi invenção do capitalismo, mas o consumo foi potenciado por esse sistema tão conhecedor da natureza humana e das suas "necessidades", reais ou criadas... Quem nos manda ser eternos ambiciosos/insatisfeitos?

Indignação sai à rua

Porque é preciso indignar-se e expressar as preocupações sobre o estado actual do mundo
 photo copyright: Nuno Galopim


"This is the state of the world address, motherf****rs" é a frase berrada no início do álbum de Biohazard intitulado State of the World Address (1994), que ouvi muito na época e voltou a ecoar em força aqui em casa.

O 15 de Outubro de 2011 poderá ficar para a história como o começo de uma mudança. As pessoas expressaram as suas críticas, preocupações e medos. Veremos as respostas dos decisores políticos nos próximos tempos. Sim, porque a crise passou além das dimensões financeira, económica e social.

Trata-se de um movimento popular, baptizado de marcha dos indignados, contra o sistema económico mundial (liberalismo selvagem) que, desde 2008, tem gerado uma série de descalabros financeiros, conduzindo a uma austeridade crescente para as populações. Com a meta de chegar a 85 países, milhares de pessoas saíram à rua nas principais cidades, de forma pacífica, exceptuando-se o caso de Roma.

O mercado é importante, permitiu-nos uma série de comodidades (agora incomodidades...) materiais, mas é importante que esteja regulado e produza mais justiça social, no sentido de haver uma distribuição da riqueza de forma mais equitativa. E para os cidadãos não terem de pagar as asneiras da especulação financeira ou a má gestão dos governos.

Como disse o presidente da Comissão Europeia, em 28 de Setembro último, «the roots of this crisis are clear: we have given in to the temptation of living beyond our means. We have let financial markets develop in unsustainable ways.»

Pois é hora de arrepiar caminho, encontrar saídas e permitir a esperança e o futuro.

Quarta-feira, Outubro 12, 2011

E os burros são os madeirenses?

Não se ganha o povo chamando-o de burro nem dando-lhe sermões do pedestal da intelectualidade (fotografia: Funchal em 1937)
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Toda a gente contava com nova maioria absoluta, as sondagens confirmavam-na, mas, mesmo assim, foram muitos aqueles que, subestimando a realidade e o eleitorado madeirense, para nem falar da máquina laranja e de Alberto João Jardim, mesmo depois de um ataque cardíaco, deixaram-se levar numa certa euforia e esperança de retirar a maioria absoluta ao partido social-democrata.

Compreendo a decepção e a frustração, inclusive a zanga, mas o povo é quem mais ordena, goste-se ou não se goste, coincida ou não coincida com as convicções de cada qual. À excepção do CDS-PP, PTP e PAN, todos os outros partidos foram castigados pelo eleitorado e perderam votos. Atente-se àquilo que os madeirenses recusaram nas urnas.

É claro que alguns chamam o povo soberano de burro, ignorante, míope, telecomandado, entre outros adjectivos, mas quem se recusar a ver, do alto da intelectualidade, a realidade passada e presente e as características do eleitorado madeirense, nunca conseguirá a adesão alargada a um projecto político. Podem-se arranjar as justificações que se quiserem.

E algumas dessas justificações são factos, como a pouca massa crítica (atinge todos os sectores), sociedade civil pouco activa ou a pequenez da ilha que permite conhecer todos e confundirem-se planos e esferas da vida pessoal e pública. A questão do medo, essa, tem dois gumes.

Para além disso, a alternância acontecerá quando Alberto João Jardim não der a cara pelo partido e se fizerem sentir as consequências das medidas de austeridade que aí vêm. E daqui não se sai. Relativamente ao que nos ultrapassa, aplique-se a aceitação judaico-cristã. E lute-se pelo que se pode alterar com argúcia e eficácia.

Há duas gerações de políticos que tiveram o azar histórico de terem vivido no tempo dominado por aquele líder carismático, com todas as virtudes e defeitos que se apontam e que bem conhecemos. Mesmo a minha geração, que cresceu e amadureceu com esta governação em mais de 30 anos, começa a ficar velha para pegar nisto. E conte-se com mais quatro anos. Estará a minha geração nos 50 anos... uns velhotes :)

«Jardim ganha porque oprime, gritam os adversários. Jardim ganha porque torna possível, responde o povo», terá dito ou escrito um jornalista da TVI 24 (Filipe Mendonça?). Dizia mais: «A gratidão esquece a opressão, seja lá o que isso for para gente que há 35 anos vivia na segunda região mais pobre do país». Quem sempre teve água, luz, estradas e outras comodidades das zonas urbanas e litorais não compreende essa gratidão.

A Madeira foi colocada no mapa, com muita reivindicação (estilos à parte), por quem continua a repetir «o meu partido é a Madeira.» Por isso, muitos dos ataques exagerados e manipulados de uma boa parte da comunicação social continental sobre a Região e os madeirenses criaram as condições para o clássico «nós contra eles». Tenho a convicção que a maioria absoluta, à tangente, se deveu a esse facto. E parte do eleitorado viu no actual presidente do Governo o interlocutor para se bater nas negociações com a República e a troika.

É claro que nada desculpa a gestão que nos levou a uma dívida brutal e comprometerá o futuro por muitos anos. A partir do ano 2000, perdeu-se as rédeas da despesa pública e optou-se por expedientes para ultrapassar os limites do endividamento colocados pelo Estado, numa euforia de obras. Nos dois anos que precederam as eleições de 2004, a Madeira era um estaleiro. Mas a dívida não tira muitos votos. As consequências da dívida fá-lo-ão, sim, no futuro próximo.

Não vejo o povo como rebanho porque não o vejo de um qualquer pedestal. E chamem-me à atenção se um dia cair nessa tentação. Eu sou do povo, com todos os seus defeitos, limitações e virtudes. É uma ligação de sangue numa terra bela, insular e agreste como a Madeira.

No passado, quando precisei da adesão de mais população a algumas causas cívico-ambientais em que andei envolvido, precisamente por causa de obras no litoral perfeitamente supérfluas ou, no mínimo, sobredimensionadas e caras para manter, caí na tentação de recriminar o povo, mas não era justo nem sensato fazê-lo. É preciso fazer o balanço e admitir os erros.

Umas injecções de realidade e umas curas de humildade fazem bem. Tornam-nos mais sábios, democráticos e menos intelectualmente petulantes. Um bom antídoto face ao aburguesamento de muitos de nós, fruto de melhores condições de vida e acesso ao saber e à cultura.

Os madeirenses não quiseram mudar a página em 9 de Outubro de 2011 - estava nas suas mãos fazê-lo. Meteram na Assembleia Legislativa da Madeira oito dos nove partidos concorrentes às eleições, penalizando uns (incluindo o PSD, embora desse para a maioria absoluta - será prémio governar sob a troika e a República e o descontentamento social que aí vem?) e premiando outros.

Domingo, Outubro 09, 2011

O povo é ainda quem mais ordena


As várias sondagens não preveram a força do PTP de José Manuel Coelho, que elegeu 3 deputados para a Assembleia Legislativa da Madeira, a surpresa da noite eleitoral

Os dois partidos mais votados, PSD e CDS-PP, somam juntos 66,19%, 25 mais 9 deputados, respectivamente. O PTP de José Manuel Coelho foi outro vencedor desta noite eleitoral com  6,8%, correspondente a três deputados.

Foi a sondagem da Católica que ficou mais próxima dos resultados finais, acertando em cheio no resultado do PSD, próximo nos resultados de CDS-PP, PS e CDU (o CDS-PP para cima e o PS e CDU para baixo face à projecção), mas não prevendo que o PTP passasse a terceira força política e o BE desaparecesse do parlamento.

aqui tínhamos dito que a dívida não tira votos a ninguém, ainda por cima quando se alega que ela está à vista, na obra feita (bem ou mal, essencial ou supérflua, é outra discussão).

O que vai tirar votos a quem governa, no desgaste nos anos que se seguem, são as consequências concretas dessa dívida (não só a pública mas também a privada, não se esqueça), no dia-a-dia de cada madeirense. Consequências que serão muito duras.

Quem vai (continuar a) derrotar Alberto João Jardim e o PSD-Madeira, nos próximos anos, não hoje 9 de Outubro de 2011, é a troika, também já tínhamos alertado. E o PSD nacional, pelos vistos, tendo em conta a declaração de hoje à noite... Foi preciso um deus ex machina intervir, leia-se troika, para fazer o que a oposição nunca conseguiu fazer.

Subestimar o conhecimento sobre o eleitorado, a máquina do maior partido da Região e a capacidade política de Alberto João Jardim criou elevadas expectativas e agora a desilusão em muitos sectores da oposição, em especial a esquerda que foi remetida para um canto da Assembleia Legislativa da Madeira.

Sábado, Outubro 08, 2011

Madeira dentro de Lisboa (roteiro)


“O Madeirense” é dos restaurantes típicos mais antigos em Lisboa
Este "Roteiro madeirense. Deixa passar esta linda brincadeira em Lisboa" escrito por Maria Catarina Nunes para o jornal I (publicado em 8 Out 2011 - 03:00) foi uma boa ideia e mostra o que de bom tem a Madeira. Depois de semanas a zurzir na Madeira e a passar uma péssima imagem dos madeirenses, este tipo de reportagem faz justiça à realidade e ao que de positivo tem a Região Autónoma.

«Foi eternizado pelo Max e gravado pela Sinfónica de Londres. Hoje, o Bailinho da Madeira continua a fazer sentido: “Deixa passar esta linda brincadeira / que a gente vamos bailar à gentinha da Madeira”. Depois das notícias estrondosas, este é o fim-de-semana de eleições. O bailinho continua, mas não sugerimos que dance. Pare o carro, dê andar às pernas e conheça a Madeira dentro de Lisboa. Não é tão bom como um bilhete de avião, mas não ficará mal servido. Palavra de madeirense.

08h00: Pequeno-almoço em Telheiras
Quase podemos arriscar dizer que é a zona de Lisboa onde se concentram mais madeirenses por metro quadrado. Saem dos apartamentos, lêem nos cafés, na biblioteca Orlando Ribeiro, ou correm nos jardins com os cães. Os comerciantes da zona aproveitam a avalanche e é raro passar pelas esplanadas sem ouvir um típico “lh”, próprio de ilhéu, nas palavras que juntam as letras i e l: “Fui ao cinema ontem. Ah paz! Adorei o filhme”. O Melkia Spirit tem vários produtos típicos – Vasco Loja, o proprietário, é madeirense. Há vários pratos inspirados na gastronomia do arquipélago, mas para começar o dia sugerimos um ligeiro: tosta de queijo em bolo do caco, e brisa de maracujá. Para quem não sabe, brisa é um refrigerante produzido na Madeira. Se preferir algo mais substancial, e for Domingo, opte pelo Melkia Wake Up - pequeno-almoço inglês, em homenagem à história britânica que existe na ilha.
(Morada: Melkia Spirit, Rua Maria Dionísio 4ª, Telheiras Tel. 217 524 841)

10h00: Bordados da Madeira
Só não vai encontrar as artesãs, sentadas em cestos de vime, como é tradicional, ou a bordar dentro das lojas. De resto há de tudo o que seja souvenir madeirense. Os bordados são os que enchem mais o olho (e esvaziam os bolsos). Hoje já existem várias lojas que vendem bordados madeirenses com o selo original, mas as que têm mais variedade de produtos concentram-se na baixa lisboeta. Se a carteira estiver virada para isso, lembre-se que comprar uma toalha com grandes dimensões pode estragar a sua tarde, a menos que esteja a pensar fazer uma paragem num local onde possa guardá-la: São muito pesadas. Mas não desanime, há lembranças de outro aprumo.
(Morada: Casa de Bordados da Madeira, Rua 1º de Dezembro Lj. 137; Madeira House, Rua Augusta, nº 133; Madeira Shop, Prof. D. Pedro IV, 44)

11h00: Compotas no Supermercado Sá
Depois dos bordados madeirenses, basta subir a Avenida da Liberdade e entrar na estação de metro do Marquês de Pombal. Linha amarela, direcção Campo Grande, sair na estação do Campo Pequeno. À superfície, seguir para o Centro Comercial (do Campo Pequeno, pois). O Supermercado Sá é uma cadeia que existe há vários anos no arquipélago, mas em Portugal Continental é único. Lembra-se do bolo do caco do pequeno-almoço? Sim, vendem. Também há produtos da Fábrica Santo António (muito conhecida na ilha), como o bolo de mel, broas de mel, doces e compotas de encher o carrinho de frascos. A de pitanga é obrigatória. Caso esteja inspirado para cozinhar também há lapas e atum, gaiado ou peixe espada preta. Tudo vindo da ilha. Leve bananas da Madeira, banana maracujá – e o próprio maracujá – anonas e perâs-abacate. Por fim, basta pesquisar por receitas madeirenses na internet e percebe que consegue utilizar todos os frutos nos pratos principais.
(Morada: Supermercado Sá, Centro Comercial do Campo Pequeno)

12h00: Almoço nas Amoreiras
Temos noção que ir almoçar a um Centro Comercial não é o mais apelativo, mas o roteiro assim o exige. Ao contrário do que esperávamos, não existem assim tantos restaurantes madeirenses na capital. Pelo menos onde se confeccione o prato, tal qual ele é servido na ilha. “O Madeirense” é dos restaurantes típicos mais antigos na capital. A decoração é a conhecida: tecidos de barras vermelhas, amarelas, verdes e azuis, e há diversos objectos a aludir à cultura da ilha. Quanto a pratos, há para todos os gostos. Isto, claro, se for adepto da gastronomia madeirense - que cá entre nós, não é uma coisa difícil. Sugerimos vários: cocktail de gambas em abacate; açorda madeirense; espetada madeirense de lombo em pau de louro acompanhada de milho frito; ou filete de espada com banana e molho de maracujá. A carne de vinho e alhos com laranja também é típica. Para entrada não pode faltar o tradicional bolo do caco com manteiga de alho. Acompanhe com uma Coral, a cerveja da Madeira.
(Morada: “O Madeirense” Avenida Engenheiro Duarte Pacheco, Amoreiras Shopping Center, Loja 3027; Tel. 213 830 827)

15h00: Flores e golos de poncha
Há alguém que visite a ilha da Madeira e não se encha de flores de todos os tipos e feitios? Sim, mas não é o nosso caso. As flores são uma marca da ilha e devem entrar no cabaz. Ficámos a saber que também as há em Lisboa. A loja Flores Romeira Roma vende estrelícias, antúrios e sapatinhos durante todo o ano. Depois das flores, corra a uma loja de música e compre o último CD da cantora madeirense, Joana Machado, “Travessia dos Poetas - Rosa Peixe”. E só não sugerimos um concerto, porque a artista está a actuar em Cáceres, no Festival Internacional de Jazz. Se estiver mais virado para as leituras, Herberto Hélder é sempre uma boa opção e existe em várias livrarias. Para descansar das compras, visite o bar Number Two e beba uma poncha, há de vários sabores. A menos que seja fã de música de carrinhos de choque, não queira ficar muito tempo.
(Morada: Flores Romeira Roma, Avenida de Roma, 50 C; Number Two, Av. 24 de Julho 82)

20h00: Vistas, jantar e Maria Caxuxa
Antes do jantar, e no caso de querer ouvir mais falares da ilha, rume até ao Miradouro São Pedro de Alcântara. É outro dos sítios preferidos dos madeirenses para beber um copo de fim de tarde. Às 20h, com as pernas a latejar de tanto passeio, é natural que o bolo do caco com manteiga de alho não saia da cabeça. Apesar de antigo e de ter uma decoração peculiar, o restaurante “Ilha da Madeira” é dos mais concorridos, talvez pelo seu ambiente acolhedor e informal. A cozinha é, claro, regional madeirense. As espetadas em pau de louro e o bolo do caco são muito pedidas. Para acompanhar a refeição, a cerveja Coral, da empresa de cervejas da Madeira, é para ser bebida fresca. Para sobremesa, aconselhamos o pudim de maracujá ou o bolo de banana. Ambos de fazer repetir. Acabado o jantar é tempo de o digerir com um passeio a pé até ao Bairro Alto. No bar Maria Caxuxa não vai encontrar produtos tradicionais da Madeira, a não ser os próprios dos ilhéus. É outro dos lugares de concentração de madeirenses. E a música é boa. (Morada: Miradouro São Pedro de Alcântara, Rua São Pedro de Alcântara; Restaurante Ilha da Madeira, Rua Campo de Ourique 33-35; Maria Caxuxa, Rua da Barroca 6-12)

03h00: Cantinho da Madeira no Lux
É certo que os madeirenses gostam de noite e frequentam vários sítios em Portugal Continental. Mas é no Lux que o encontro é certeiro. O bar mais pequeno do segundo andar da discoteca, próximo da varanda, é dos lugares preferido dos madeirenses para conversar e beber copos a altas horas. Com algumas danças pelo meio, claro. Mesmo que não tenham combinado, os ilhéus sabem que frequentar o canto esquerdo do Lux, é uma boa opção se estiverem com saudades de casa e quiserem encontrar conterrâneos durante o fim de semana da grande Lisboa.
(Morada: Lux, Avenida Infante Dom Henrique Armazém A Cais da Pedra)

Sexta-feira, Outubro 07, 2011

Madeira e madeirenses tratados injustamente





O bom que tem a Madeira foi nas últimas semanas deliberadamente esquecido pela comunicação social continental

Os factos que aqui quero abordar não desculpam os erros da longa governação de Alberto João Jardim e do seu partido, que não se resumem à questão da dívida e ao exercício musculado da democracia. É pesquisar por este blogue.

Como os ajustes de contas são muitos, como interessa fazer da Madeira um bode expiatório, fizeram-se manipulações na comunicação social que não esperava ver. Realmente destrutivo.

Não gostei de ver este arquipélago e o seu povo humilhados como foram em reportagens arrepiantes do ponto de vista jornalístico, nem falo da ética, muitas vezes delirantes e manipuladas, com opinião e bocas à mistura.

Não gostei de ver este povo a que pertenço, com qualidades e defeitos, não importa, ser mostrado nos aspectos mais caricaturais e boçais, atingindo-o na dignidade.

Usaram-se pessoas humildes para passar uma imagem de ignorância e fazer crer que os madeirenses se vendem por um prato de comida num comício qualquer, não importa o partido. Como se os madeirenses fossem idiotas bajuladores de Alberto João Jardim. Como se fossem todos arrebanhados e inconscientes.

O mínimo era que fizessem os ataques que entendessem à governação madeirense mas com notícias e factos. O mínimo era que não confundissem a Madeira e os madeirenses com a governação.

Enfim, esse tipo de trabalho jornalístico e os fazedores de opinião sectários dominados pela ansiedade do ajuste de contas, num vale tudo, dificultaram muito o papel da oposição neste acto eleitoral (alguma oposição também errou ao não acautelar mais a imagem da Madeira e dos seus habitantes no tentador "quanto pior, melhor"). Esclarecer e manipular o público são coisas diferentes. E não gosto de campanhas de ódio, venham de onde vierem.

No jornalismo tem de haver esforço de interpretação, de contextualização, de aprofundamento, de memória, de descodificação e desmontagem (rigorosa e objectiva) dos factos - diferente de opinar - com os olhos postos na salvaguarda do direito que tem o público à informação, sem subterfúgios. O cidadão tem de ficar ao corrente de tudo o que está subjacente aos assuntos, mas com factos. Não com manipulações.

Sem desculpar a gestão da res publica cá na Região, os erros de outros não justificam os nossos, por que razão os Sócrates, Valentins Loureiros, Fátimas Felgueiras, Isaltinos Morais, entre outros, não merecem o mesmo tratamento que Alberto João Jardim tem tido? Viver numa Região Autónoma faz a diferença? Qual é o critério?

Por que razão as dívidas das autarquias entram na dívida da Madeira, mas no Continente a dívida das autarquias não entra na dívida do País? Qual é o critério?

Por que razão se faz um debate na Assembleia da República em vésperas das Eleições Legislativas Regionais para discutir a situação da Madeira, com o candidato a presidente do Governo Regional do CDS-PP, por quem tenho respeito, a ter uma intervenção nesse debate, num aproveitamento eleitoralista  a partir do palco privilegiado da Casa da Democracia? Que critério ou ética democrática é essa?

Pelos vistos vivemos tempos de relativização...

Sondagem da RTP-RDP coloca Jardim no limite da maioria absoluta



Na sondagem RTP-RDP/Católica, o PSD Madeira obtém 48% dos votos. O CDS/PP, com 16% da votação, ultrapassa o PS (14%). Depois surge a CDU (5%), o PTP (5%), o PND (4%), o BE (2%), MPT (2%) e PAN (2%).

A margem de erro (2,4%) é menor relativamente à projecção do Diário/Eurosondagem (3,5%) e à sondagem TVI/Intercampus (3.97%).

Mesmo assim, porque a Madeira tem os seus micro-eleitorados, há particularidades que escapam a sondagens feitas como se fosse no território continental. Basta inquirir-se mais em zona urbana do que rural ou não estar ao corrente de diferenças em concelhos rurais vizinhos, como a Calheta e Porto Moniz (aquele concelho registou, em 2007, 75% no PSD e 06% no PS e este 67% no PSD e 24% no PS), para fazer diferença.

Quinta-feira, Outubro 06, 2011

Sondagem do Diário dá maioria absoluta a Jardim


Segundo a projecção do Diário/Eurosondagem, o PSD-M manterá a «maioria absoluta» embora com «muito menos folga» porque «perderia, no mínimo, sete deputados dos 33 que tem neste momento.»

O referido jornal refere que, «tendo em conta a margem de erro, que é de 3,5% (demasiado elevada), os social-democratas podem obter uma votação situada no intervalo 49%-52%, aquém do pior resultado alcançado até hoje, os 53,7% de 2004.»

O PS anda pelos 17% e o CDS-PP surge com 10,5%. Os restantes partidos: CDU 5,5%, BE 3,5%, MPT 3,3%, PTP 2,7%, PAN 2,5% e PND 2%.

Quarta-feira, Outubro 05, 2011

Sondagem da TVI dá maioria absoluta a Jardim


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Segundo a sondagem da TVI/Intercampus, Alberto João Jardim «deverá manter a maioria absoluta» nas Eleições Legislativas Regionais, com 53,5% nas intenções de voto.

Embora o PSD desça quase 11 por cento em relação a 2007 (64,24%), um resultado histórico depois da demissão face à Lei de Finanças das Regiões Autónomas, a projecção de 53,5% ronda os valores das eleições de 2004 (53,71%) e 2000 (55,95%).

Podemos verificar ainda que a maioria das eleições nos anos 80 e 90 anda perto dos 60 por cento: 1996 (56,87%), 1992 (56,86%), 1988 (62,36%), 1984 (59,79%), 1980 (65,33%), 1976 (59,63%).

Com quase 40 por cento de diferença, está o PS, com 16,9% das preferências. O CDS-PP surge em terceiro lugar, com 11,8% das intenções de voto. CDU 3,9%, PND 2,8%, BE 2,5%.

Segunda-feira, Outubro 03, 2011

Como quem manda agora é a troika...



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Assim termina José Gil o artigo "O descaramento" na Visão desta semana: «Como quem manda agora é a troika e não os «cubanos», será que esta situação [na Madeira] terá um fim?»

Já o tínhamos dito: «quem vai (continuar a) derrotar Alberto João Jardim e o PSD-Madeira, nos próximos anos, não em 9 de Outubro próximo, é a troika».

Sem a troika, nada disto se saberia preto no branco. Pois, consigo perceber quanto agradecidos estão alguns concidadãos pelo trabalhinho da troika na Madeira, que a oposição nunca conseguiu fazer, sem desmerecer o esforço. É apenas a realidade.

A dívida não tira votos a ninguém, ainda por cima quando se alega que está à vista, na obra feita (bem ou mal, essencial ou supérflua, é outra discussão). O que vai tirar votos, no desgaste nos anos que se seguem, são as consequências concretas dessa dívida (não só a pública mas também a privada, não se esqueça), no dia-a-dia de cada madeirense. Por agora, está por provar que existem consequências, por mais que elas sejam evidentes pelos sinais que aí estão.

A natureza humana é assim: só quando sente na pele tem a real noção das coisas. Apenas o eleitorado que de algum modo antevê e antecipa as consequências poderá penalizar os responsáveis pelo endividamento brutal da Madeira (uma factura que se calcula de 23.500 euros por cada madeirense).

Além disso, uma coisa é a opinião pública e os comentadores outra coisa é o que pensa o eleitorado, cuja maioria não quer saber de política e dessas questões de dívidas e défices... e aposta tudo no carisma de um líder.

Há quem ainda avise que, se tivermos em conta os avales do Governo Regional às empresas públicas, a dívida ultrapassará os 7 mil milhões. A Região poderá ter de assumir os passivos de algumas empresas, dependendo da evolução da situação económica...

A crise internacional (subprime), os passivos nacionais, a dívida indirecta na República ou o ajuste de contas de Sócrates com Jardim por via da Lei de Finanças das Regiões Autónomas (o deputado do PCP António Filipe disse na passada sexta-feira que tal lei «muito particularmente prejudicou a Madeira») não servem, contudo, para justificar o endividamento excessivo e o não reporte dessa situação. Afinal, fez-se cá o que tanto se criticava lá em matéria de endividamento.

Não havia necessidade...