«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Quarta-feira, Dezembro 28, 2011

Euforia antes e durante o jogo? José Mourinho sabe que é fatal, mas alguns políticos não


José Mourinho sabe muito bem que a euforia antes ou durante o jogo é fatal. Há políticos que não o sabem.

O recorte acima reproduzido, da revista VISÃO de 29 de Setembro de 2011, a semana e meia das eleições legislativas regionais, é ilucidativo da prematura euforia: "Alberto João Jardim: Chegou ao fim?" Isto num artigo que dava conta d'Os mais influentes dos primeiros 100 dias da governação de Passos Coelho. Jardim era das figuras mais em baixa.

A euforia oposicionista foi ajudada pela euforia em muita comunicação social e comentadores nacionais que, para atacar e ajustar contas com Jardim, confundiram o líder regional com os madeirenses e a Madeira, tratando algumas vezes estes últimos de forma injusta e destrutiva, não através de notícias isentas, mas de delírios, bocas e manipulações à mistura.

Uma semana e meia depois do esperado fim de Alberto João Jardim segundo a nota na VISÃO, o protagonista supostamente moribundo ganha as eleições com nova maioria absoluta.

Nem o desgaste de mais de 30 anos na liderança do Governo Regional, o seu estado fragilizado de saúde, a intervenção da Troika, a dívida colossal da Madeira desocultada (erros, excessos e esbanjamentos na gestão financeira da Região) ou a campanha de porrada com que foi brindado nessas semanas o derrubou.

Uma coisa é certa, Alberto João Jardim faz na política o que José Mourinho faz no futebol: parte para um jogo (e joga o jogo) como se o fosse perder. Mesmo que seja o favorito, mesmo que conte com vantagens, mesmo que as sondagens indiquem a vitória.

Esta atitude, de não achar que são favas contadas, é um dos factores que ajuda a explicar a capacidade de ganhar eleições. É sempre acelerador no fundo. Não substima nem desvaloriza os adversários. Deprecia-os publicamente como estratégia para os diminuir e desmoralizar.

Carta de intenções reveladora, presidente não assume erros

Presidente do GR e secretário regional do Plano e das Finanças anunciam as principais medidas de austeridade,, na tarde de 27 de Dezembro

Clareza e revelação estonteantes para uma carta de intenções, firmada em encontro entre o presidente do Governo Regional e o ministro das Finanças, no passado dia 23 à noite. Muito foi dito, assumiram-se as dificuldades mas faltou o essencial: assumir os erros políticos com toda a frontalidade, no sentido em que nem tudo o que se fez foi bom.

Na verdade, não há muito para negociar, como reconheceu o presidente do Governo Regional, ao referir as presentes condições em que se encontram a República e a Região. O arquipélago teve de estender a mão à assistência financeira face à situação de «necessidade». De urgente necessidade, já que a Madeira parece precisar de 80 milhões de euros até final da semana para ter liquidez.

É o «acordo possível», que alegadamente evita o enterro da Autonomia, nem que seja por uma unha negra. Sem este acordo «seria pior», mas melhor mesmo seria não haver necessidade de tal acordo...

O esforço e a penalização dos madeirenses são brutais e duríssimos:

Aumento do IRS e IRC para níveis nacionais, imposto sobre produtos petrolíferos (ISP) agravado em 15% (em lugar das portagens) e subida da taxa máxima de IVA em mais de um terço - equivalente a trinta e sete e meio por cento - (passa de 16% para 22%) ou aumentos dos transportes públicos em 15% são medidas concretas anunciadas esta tarde, do lado da receita.

Mas o esforço maior, segundo o anunciado, logo veremos se assim se concretiza, é do lado da despesa. O limite do investimento público fixa-se em 150 milhões e avança a redução dos custos operacionais da administração (incluindo saúde e educação com menos 15%) e empresas públicas.

Não se esqueça ainda que a condição de insularidade já penaliza a economia regional (duplamente). Mesmo que a austeridade seja igual à nacional, será sempre pior na Madeira. Passos Coelho fez essa observação com essa consciência, não porque a austeridade seria a dobrar. Porque isso seria simplesmente insustentável.

Mais medida, menos medida, o cenário está traçado, embora estejamos no início das dificuldades a sério. Vamos então a dois conjuntos de ILAÇÕES:

UM: DE OPORTUNO A INOPORTUNO
Tinha sido oportuno, com a mesma frontalidade e capacidade de encaixe que o presidente do Governo Regional já teve em outras ocasiões, ter-se admitido e reconhecido os erros na conferência de hoje, para comunicação da carta de intenções ou linhas mestras para o resgate financeiro.

Todos cometemos erros. Nem tudo o que o Governo Regional fez foi bom. Seria importante falar verdade, com transparência e frontalidade, reconhecendo as políticas erradas que conduziram a Região a uma situação financeira insustentável e a uma crise que será particularmente profunda e prolongada neste território insular.

A partir do ano 2000 insistiu-se num modelo de desenvolvimento com base no endividamento e construção civil que vieram trazer mais encargos para o futuro do que mais valias, fruto de megalomanias. Nem todas as obras foram oportunas: exemplo 1 (pavilhão), exemplo 2 (promenade gigante Jardim do Mar), exemplo 3 (enroncamentos), exemplo 4 (marina), exemplo 5 (estádios).

Por isso, tem muito que se diga o argumento que se fez obras para combater os governos socialistas no Continente ou aproveitar oportunidades de financiamento. Será que não houve esbanjamento em tempo oportuno?

E o financiamento ao futebol? É porventura normal e sustentável a Madeira ter dois clubes na Primeira Liga? Para nem falar nas restantes modalidades profissionais altamente onerosas e além da nossa dimensão económica. Se foi para tirar os jovens da droga e da criminalidade então falhou essa política. O argumento da promoção da Madeira no exterior também é fraco. Existem formas muito mais eficazes de promoção turística.

Construiram-se estádios, pavilhões, marinas, entre outras obras "oportunas", mas o novo hospital ficou pelo caminho...

Enfim, opções que também se tomaram no restante território nacional, não é uma invenção ou originalidade na Madeira, mas os erros dos outros não justificam os nossos.

DOIS: QUANTO PIOR, (NÃO É) MELHOR
Dito isto, bem como o que foi sendo dito ao longo dos últimos anos neste blogue de crítica relativamente a algumas opções, é preciso referir que nada resolve a estratégia do castigo (ajuste de contas) a Alberto João Jardim sacrificando pelo caminho todos os madeirenses.

O "quanto pior, melhor" pode satisfazer egos, ódios pessoais e desejos de vingança contra Jardim e o Jardinismo, mas não constrói nem se afirma como alternativa. É preciso mais desgraça e dramatismo do que já existe?

E é muito deprimente não haver alternativa depois de erros e desgaste de um Governo Regional com mais de 30 anos de mandato... E depois acha-se estranho que os madeirenses continuem a votar em Alberto João Jardim.

Confundir o pessoal com o institucional na luta política não produz bons resultados para a oposição e para quem se quer afirmar como alternativa. O radicalismo, a berraria ou a palhaçada pode servir em dado momento para pressionar, denunciar e alertar, mas é preciso mais. Nem se trata de um vale tudo.

Há quem tenha dificuldade em aceitar a realidade sociopolítica e cultural da Região e queira levar isto à força, num confronto generalizado, num tumulto radical, talvez novamente por via de uma «irresponsável» e irrealista «retórica esquerdista», como referiu em Outubro Vicente Jorge Silva a propósito dos anos 70, ou qualquer outra retórica, que os madeirenses já recusaram.

Não vejo o povo como rebanho porque não o vejo de um qualquer pedestal. E chamem-me à atenção se um dia cair nessa tentação.

O povo é quem mais ordena, goste-se ou não se goste, coincida ou não coincida com as convicções de cada qual. Não cair no erro de considerar o povo soberano eleitor de ignorante, telecomandado ou inconsciente. Arrebanhável de um qualquer púlpito.

Isto sem escamotear a pouca massa crítica existente (atinge todos os sectores), uma sociedade civil pouco activa ou a pequenez da ilha que permite conhecer todos e confundirem-se planos e esferas da vida pessoal e pública e cair-se no acessório, na pequena intriga e na maledicência.

Para desgraça, já basta a austeridade a que estão sujeitos os madeirenses. Não é preciso confundir a Madeira e os seus habitantes com o Governo Regional e o seu líder. A não ser que se queira ajustar contas com o próprio eleitorado...

Os fins políticos e os ajustes de contas com o presidente do Governo não deveriam justificar a penalização das populações. Mesmo quando se sabe que o PSD-M teve atitudes discriminatórias e penalizadoras para as populações que não votavam PSD.

Guerras de paróquia e de egos conduz a quê? É preciso as oposições concentrarem-se no trabalho político com credibilidade, com sentido de Estado e formar uma alternativa porque o desgaste do actual Governo Regional, com as medidas brutais de austeridade, será uma realidade.

A dívida não tirou votos. São as consequências dessa dívida pública que irão fazer a sua corrosão no partido mais votado na Madeira desde 1976, em sucessivas maiorias absolutas.

É tempo de extinguir os efeitos da euforia oposicionista nas últimas eleições legislativas regionais, de aceitar os resultados das eleições e o facto de terem de aturar Alberto João Jardim por mais quatro anos («se Deus me der vida e saúde», como tem repetido). Humildade, unidade, credibilidade e realismo recomendam-se. É preciso semear para colher. E colhe-se consoante o que se semeia.

Sem invalidar a luta política, é preciso haver espaço para defender os Madeirenses, a Região e a Autonomia acima de tudo.

Caso contrário, quem vai (continuar a) derrotar Alberto João Jardim e o PSD-Madeira, nos próximos anos, não apenas em 9 de Outubro de 2011, é a Troika, como também já tínhamos alertado.

Há duas gerações de políticos que tiveram o azar histórico de terem vivido no tempo dominado pelo referido líder carismático e avassalador (nas mãos do qual os madeirenses colocaram o seu destino), com todas as virtudes e defeitos que se apontam e que bem conhecemos.

Terça-feira, Dezembro 27, 2011

«Pequeno pavilhão» custou 9,5 milhões

Fazer obra não justifica toda e qualquer obra

O Diário noticiara em 20.4.2011 e o Público de hoje recupera o assunto:

«Em 2026 acabará o orçamento [regional] de pagar as prestações anuais de 500 mil euros pela construção do pequeno pavilhão desportivo do Arco da Calheta. A obra custou 9,5 milhões - o dobro do previsto e pouco mais que o Pavilhão do Porto Santo, o maior do arquipélago -, encargo inicialmente da Sociedade de Desenvolvimento Ponta Oeste, assumido pelo governo regional.»

As sociedades de desenvolvimento seriam auto-suficientes e não custariam um cêntimo aos contribuintes, mas a realidade veio a ser outra.

Inaugurado em 25 de Fevereiro de 2011, este pavilhão é um exemplo de uma obra que não cobre uma necessidade básica da população, sobretudo quando se vivem momentos de grave crise financeira. Além disso, o mesmo concelho da Calheta, nas freguesias da Calheta e dos Prazeres, possui outros pavilhões e zonas desportivas sem utilização esgotada.

Outro aspecto importante é a utilização e rentabilização da infraestrutura, bem como a sua manutenção. Sem esquecer o investimento realizado na construção. Sem esquecer as alegadas anomalias que o Diário de 20 de Outubro último dava conta.

Refira-se ainda que esta obra destoa, na volumetria e na cor, na paisagem. O contraste do azul do mar e o verde das encostas da ilha é belíssimo, mas a cobertura azul do pavilhão no meio do verde do Arco da Calheta não produz um efeito visual favorável.

São opções e prioridades de quem governa, como foi prioridade no início da década construir uma promenade no Jardim do Mar, com elevados custos e pouca utilização/rentabilização, antes ou em lugar de construir um acesso rodoviário seguro para aquela freguesia e para o Paúl do Mar.

Os portugueses e madeirenses são melhores a criticar e a deitar-abaixo do que a construir, mas fazer obra não justifica toda e qualquer obra, toda e qualquer prioridade.

É por estas e por outras que a Região acumulou uma dívida de quase 6 Mil Milhões de euros, que poderia ser menor e a qualidade de vida dos madeirenses ser basicamente a mesma.

Neste momento estaríamos em melhor posição de negociar com a República o plano de resgate financeiro e não teríamos de fazer tantos sacrifícios em matéria de impostos e restantes medidas de austeridade.
---
Photo taken with a Nokia cellphone 3.2 megapixel camera : no editing : no flash : © neliodesousa March 8, 2009

Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

Madeira recua no número de residentes com instrução


«Na última década, já em plena Madeira contemporânea, o número de residentes sem qualquer tipo de instrução cresceu de 42.700 para 58.200, segundo os censos deste ano», noticia o Diário de hoje.

(Note-se que o «total inclui também as crianças com menos 9 anos, que ainda não concluíram qualquer grau de ensino» - não sei se nos Censos de 2001 a contabilização foi feita com as mesmas variáveis.)

Além de haver políticas que falharam, que não chegaram a uma parte da população, há ainda um caldo socio-cultural que tem o seu peso.

O enorme avanço verificado nas condições materiais dos madeirenses não teve o mesmo paralelo na sua instrução, isto para nem falar nos níveis de literacia.

A mudança de mentalidades é mesmo a mais difícil de fazer...

Diria mesmo que o acentuado progresso no conforto material terá feito alguns madeirenses descorarem e desvalorizarem a importância da escola e do saber. O materialismo provoca deslumbramento. Quem governa tem de identificar as realidades, os obstáculos e tomar as melhores medidas para os ultrapassar.

Para além de dever recuperar do atraso endémico na qualificação dos madeirenses de uma forma mais célere e eficaz, a Madeira tem de inverter em tendência de dar passos atrás, que os Censos 2011, embora ainda em resultados provisórios, vêm alertar.

Uma coisa é recuperar do atraso de uma forma lenta, outra coisa pior é regressar ao atraso de outros tempos. E com as dificuldades financeiras e sociais actuais e nos próximos anos este quadro tenderá a agravar-se.

Por outro lado, há aspectos positivos no capítulo da escolarização: aumentou a instrução média ou pós-Secundário (de 1.159 em 2001 para 3.759 neste ano) e a instrução superior (18.871 indivíduos em 2001 para os actuais 26.525). Não vamos cair no radicalismo inverosímil de dizer que nada foi feito ou que está tudo errado na Educação.

Ainda segundo a notícia, mais de metade dos madeirenses (55,5%) têm instrução ao nível do Ensino Básico . Destas 148.552 pessoas, perto de metade (70.114) completou apenas o 1º Ciclo do Ensino Básico.

Enfim, fazer diagnósticos e criticar (nem falo no deitar-abaixo...) é bem mais fácil do que avançar com medidas e soluções concretas para construir. Será que o ensino pré-escolar e do ensino básico não deveriam ser totalmente gratuitos (mas exigindo em troca trabalho e responsabilidade aos estudantes e famílias)? Não deveria haver uma forte e generalizada campanha de escolarização dos adultos? Será que quem governa não deveria dar mais sinais de valorização da escola, da instrução e do saber?

Recorde-se:
- Insucesso escolar vem de longe 4 (portugueses no Luxemburgo campeões do abandono escolar)
- Insucesso escolar vem de longe 3 (estudantes madeirenses na Madeira)
- Insucesso escolar vem de longe 2 (estudantes filhos de emigrantes portugueses na Suiça)
- Insucesso escolar vem de longe 1 (estudantes filhos de emigrantes portugueses no Canadá e Inglaterra)