«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

quarta-feira, setembro 06, 2006

12. Jóia Perdida, Jóia Roubada

O mais recente edição da revista SURF Portugal, ainda não disponível na Madeira, dedica várias páginas ao filme Lost Jewel of the Atlantic. Um extenso artigo de Darin Pappas - Jóia Perdida, Jóia Roubada - fala sobre as transformações na ilha desde que a conheceu em 1995, surpreso e chocado pelo que viu no referido documentário. Citamos apenas algumas passagens sobre o filme Jóia Perdida do Atlântico, a estrear em breve na Madeira:

«Lost Jewel of the Atlantic é uma composição gráfica e musical que mistura arquivos vídeo de surfistas portugueses e internacionais nas ondas madeirenses com filmagens do próprio Jacob [Holcomb, realizador], recolhidas nas vezes em que ele esteve na ilha.

Há várias entrevistas a cidadãos locais, surfistas e não-surfistas, políticos madeirenses, vozes significativas do mundo do surf – atente-se nas sábias palavras de Yvon Chouinard, da Patagónia, uma das mentes mais esclarecidas do nosso meio – e alguns big wave riders que incluem: Orlando, Belmiro, Adriano (miúdos que tínhamos iniciado ao surf em 1995 e que se tinham tornado grandes surfistas).

A edição é escorreita, as imagens são de cortar a respiração e a banda sonora está bem ligada com as cenas em que aparece, incluindo nomes como Mermen, David Beaudry, Sambada, Crowsong, Ithaka e Gabriel O Pensador.

E apesar de compreensivelmente orientar-se segundo a visão ambientalista dos surfistas, Jewel não é uma peça de propaganda demagógica. Aborda os vários ângulos do problema e fá-lo de modo bem sucedido, incluindo uma comparação ilustrada com o Norte Shore havaiano. Realça, sobretudo, o essencial: Surfar e viajar é divertido, saudável, natural e bom para as economias locais. E, no caso da Madeira, este é um facto que muitos representantes oficiais desconheciam de todo.

Lost Jewel of the Atlantic é parte filme de surf, parte documentário ambiental; parte denúncia política. Talvez o título “Stolen (Roubada) Jewel of the Atlantic” fosse mais apropriado para o filme de Jacob. O sentimento desta série de eventos geográficos está encapsulado nesta produção como está um panorama geral da experiência de surf na Madeira, ontem e hoje. Se mais pessoas tivessem os tomates para ser assim tão pro-activos, o mundo seria um lugar bem melhor
(Darin Pappas in SURF Portugal)

terça-feira, setembro 05, 2006

11. Espectadores falam do "Lost Jewel" que viram na Ericeira (bilingual text)

Sobre o filme na estreia da Ericeira, em 1 de Setembro: «o filme é triste porque mostra o lugar que era a Madeira e naquilo que se tornou. Não é só sobre a questão da perda para os surfistas, mas também sobre aquilo que todos perderam.»

Num exclusivo do Olho de Fogo, as primeiras declarações de espectadores que assistiram à estreia, em Portugal, do Lost Jewel of the Atlantic. Recorde-se que foi mostrado no Surf and Beach Film Festival, um evento específico. Mesmo assim, algumas leituras e conclusões vão além das razões desportivas (surf).

«O filme mostra o que realmente aconteceu na Madeira e o que lá se perdeu. Três ondas foram danificadas e uma foi totalmente destruída. Penso que mostrará a toda a gente os erros que o governo cometeu.
É fácil compreender as alegações de que a onda no Jardim do Mar continua a mesma. Eles não compreendem as ondas, o que é "backwash", o que é uma ruptura na corrente marítima. Estive lá após a construção e a onda não é a mesma.
O filme constitui um demonstração positiva das razões segundo as quais deveríamos preservar todas as ondas do planeta.»
(Miguel Fortes, surfista profissional, Billabong Portugal)

«O filme é triste porque mostra o lugar que era a Madeira e naquilo que se tornou. Estes projectos de construção aconteceram, basicamente, porque há uma falta de informação e consciência, especialmente no Jardim do Mar, onde as pessoas pensaram que a muralha iria beneficiar os habitantes.
Este é um problema que já sucedeu em Portugal Continental e noutras partes do mundo, onde o ambiente natural foi destruído. Não é só sobre a questão da perda para os surfistas, mas também sobre aquilo que todos perderam. As pessoas que apreciavam a costa natural, que gostavam de nadar junto à praia de calhau não têm agora acesso ao mar, excepto através de uma rampa escorregadia para barcos.
O argumento do presidente [do Governo Regional] da Madeira de que as ondas do Jardim do Mar continuavam iguais está completamente errado. Ele não sabe do que está a falar. É como quando as pessoas vêm assistir a uma competição de surf: não sabem donde vem o "swell"; como as marés afectam o surf; o que é "backwash" e porque é mau para um surf spot. Não podem ajuizar sobre a qualidade do surf se não sabem nada sobre o mar.
O filme é justo para ambos os lados. Apresenta ambos os pontos de vista, como era a ilha antes e depois da construção e até o que os madeirenses pensavam antes da construção e pensam agora depois de concluída.
Parece que muita gente mudou de opinião depois de concluída a construção. As pessoas do Jardim do Mar perderam uma fonte de orgulho relativamente à sua freguesia, porque a sua onda deixou de ser a melhor da ilha e a aldeia perdeu alguma da sua beleza natural
(Nick Erikio, dono da Cemente Surf Shop)

Se ainda não viu o trailer do filme, clique aqui. Antes de poder ser visto na totalidade nos dias 15, 16 e 17 de Setembro, na estreia na Madeira, no Cinemax (Funchal).

ENGLISH version:

«The film shows what really happened in Madeira, and what was lost there. Three waves were damaged and one was completely destroyed. I think it will show everybody the mistakes that the government made.
Their claims that the wave in Jardim do Mar is still the same are easy to understand. They don't understand the waves, what backwash is, what a rip current is. I've been there after the construction and the wave is not the same.
The film makes a really positive statement about why we should preserve all the waves on the planet.»
(Miguel Fortes, surfista profissional, Billabong Portugal)


«The film was sad, because it showed me what kind of place Madeira once was, and what it has become. These construction projects happened mainly because of a lack of education of the people, especially in Jardim do Mar, where they thought that the seawall would be a benefit to the villagers. This is a problem that has happened in mainland Portugal and other parts of the world, where the natural environment has been destroyed. It's not just about what the surfers lost, but about what everyone lost. The people who enjoyed the natural coast, who liked to swim from the rocks of the shoreline, now they have nowhere to go into the water except a slippery boat ramp.
The claim that the President of Madeira made, that the wave is still the same in Jardim do Mar, is completely wrong. He doesn't know what he's talking about. It's the same when people come to watch a surfing competition; they don't understand where swell comes from, how tides effect the surf, what backwash is and why it's bad for a surf spot. They can't judge the quality of the surf if they know nothing about the ocean.
The film was fair to both sides of the argument. It presented both viewpoints, what the island looked like before and after the construction, and even how the residents of Madeira felt about the construction before and after. It seemed like many of the people did change their minds about the construction after it was completed. The people in Jardim do Mar lost a source of pride in their town, because their wave was no longer considered the best on the island, and because the village lost some of its natural beauty.»
(Nick Erikio, dono da Cemente Surf Shop)


If you still have not seen the film trailer click here. Before you come to see the whole movie on September 15, 16 and 17, in the Madeira premiere, in Cinemax, Funchal.

segunda-feira, setembro 04, 2006

10. Espirrar é um acto político na Madeira

A estreia do Lost Jewel of the Atlantic na Madeira é encarado, por alguns, como um acto de levantar ondas. É elucidativo de uma realidade social e cultural arreigada.

Falar baixo, abster-se de dizer e agir, calar, engolir, andar cabisbaixo, triste a olhar para o chão, com cautela e desconfiado, falar em surdina, guardar a ansiedade no peito, agir à socapa, não causar embaraços a ninguém faz tudo parte do modus vivendi nesta ilha.

Este viver reprimido, cauteloso e encarquilhado conduz à paz podre e à elevação do maldizer - bilhardice, intriga, inveja e até mau olhado - à maior actividade regional. É o escape encontrado. É uma drenagem para manter a sanidade. Vence quem dominar estas ferramentas e nortear-se pela satisfação do interesse pessoal (da barriga).

Não fazer ondas para manter a água estagnada, a paz podre. Para as criaturas que habitam e se alimentam do lodo não serem incomodadas. Deixar tudo como está. Não tentar mudar nada para melhor. Não interessa as ideias, mas sim quem tem as ideias.

Equiparar (nem dizemos elevar) qualquer acto cívico a um acto político-partidário é uma forma de criar ainda mais restrições à acção dos cidadãos. Ao ponto do sentido crítico ser um ataque. Ao ponto de um espirro ser um acto político. Alguém pode incomodar-se, declarar-se ofendido e esmagado pela onda levantada pelo espirro. Um simples espirro pode dar direito a ser declarado comunista, formiga branca, anti-autonomista, inimigo da Madeira e do desenvolvimento. Há que não fazer ondas para não colher tempestades.

Há que descartar-se da consciência pessoal e dos valores de um Estado de Direito e Democrático. Isso só atrapalha. Pior, pode meter qualquer um em problemas. Basta um espirro. É preciso não correr riscos.

É o chamado efeito borboleta: um qualquer bater de asas é entendido como capaz de influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um "tufão" num qualquer lugar da ilha.

Recorde-se, a propósito:
- «Estado de direito posto em causa» na Madeira
- Não amoleças, não tenhas medo
- Não há contradição: sempre fomos pelo silêncio e pela acomodação
- Raízes do medo: contexto socio-mental e medo de ideias diferentes
- O medo, mais uma vez
- Estado de medo
- Blogosfera madeirense: comentários anónimos e/ou ofensivos
- Tristes a olhar para o chão
- This is the state of [Madeira] address, motherf******

E ainda:
- A propósito de Abril, o estado de coisas na Madeira e o papel da comunicação social independente
- ... «resta combater»
- Good Night, and Good Luck
- Revoltas de 1931
- Mais silêncio
- Madeirenses revoltosos, onde? 2
- Madeirenses revoltosos, onde?
- Coragem para dizer a verdade (realidade) e dizer basta a certos métodos
- "Red-baiting" I (EUA década de 50 - Madeira últimos 30 anos)
- "Red-baiting" II (reveja o trailer de "Good Night, and Good Luck")

E até mesmo:
- Anti-ninguém I (Tratar temas e não pessoas)
- Anti-ninguém II ( ilustrada uma mentalidade)
- Anti-ninguém III («Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz»)

9. Comunicado emitido pela Save the Waves

Documentário "Lost Jewel of the Atlantic" estreia em Portugal e na Madeira apesar das ameaças do Governo

A “Jóia Perdida do Atlântico”, um documentário produzido pela organização ambientalista “Save the Waves Coalition”, estreia em Lisboa e na ilha da Madeira, apesar das ameaças dos líderes políticos de Madeira de processar criminalmente aquela organização. O documentário centra-se na luta travada pelos surfistas locais e estrangeiros, para evitar que as obras no litoral da Madeira destruíssem locais importantes para a prática do surf. Alguns destes “surf spots” eram considerados entre os melhores do mundo.

O documentário foi exibido em Santa Cruz, Califórnia, no dia 8 de Maio de 2006, facto que motivou reacções iradas por parte de membros do partido governante da Madeira durante os dias seguintes. Manuel Santos Costa, o porta-voz do [conselho de Governo Regional da Madeira anunciou a decisão] de “processar judicialmente, inclusive nos aspectos criminais” os responsáveis pela produção do documentário, acrescentando que fora ainda deliberado tomar as “demais providências adequadas à defesa da honra e do bom nome da Região, do seu Executivo e da sua população.”

Apesar das ameaças, Will Henry, director executivo da Save the Waves Coalition, decidiu divulgar o documentário na ilha. “O documentário é sobre a Madeira e a população deve ter o direito de ver o filme e julgar por si mesma,” explicou Will Henry. “É um documentário no qual tentámos apresentar todos os pontos de vista, incluindo a posição do governo, que considerou estarem justificadas todas as construções no litoral.”

O documentário argumenta que os projectos de construção como muralhas e marinas destruíram ou danificaram severamente os melhores pontos de surf. Sugere também que as leis ambientais do UE não foram estritamente seguidas, e que os direitos dos surfistas foram completamente ignorados para que mais dinheiro fosse derramado nas estruturas massivas de betão, que agora cercam a ilha. “O clima político em Madeira não é muito democrático,” adicionou Will Henry, cuja experiência de negociação com os políticos da ilha nem sempre foi bem sucedida. “O mesmo presidente e partido político estão no poder há quase trinta anos, e quando eles decidem que algo tem de ser feito, é feito. A parte triste desta situação é que muitos madeirenses estão descontentes com muita da construção, que destruiu a beleza natural da ilha. Na época da construção, muitos deles estavam com medo de dizer algo contra o governo. Agora é demasiado tarde.”

Durante 2002 e 2003, a “Save the Waves”, juntamente com a Quercus e a Cosmos, organizou muitos protestos públicos contra a muralha proposta na pequena vila de Jardim do Mar, pedindo que os construtores redesenhassem essa muralha, com menor tamanho (largura), para que não fosse tão invasivo para a costa natural. O projecto da muralha era tão grande que os surfistas temeram o dano da onda de surf na Ponta Jardim, que é considerada como uma das ondas mais originais do planeta. Foi considerada pela revista “Surfer” como “o melhor point break do mundo com onda grande.” O presidente do Governo da Madeira reagiu de uma maneira muito forte, dizendo que os trabalhos estavam em curso e não iriam parar devido aos protestos de “uns tontos que dizem que a obra estraga as ondas”. "

O documentário argumenta que os projectos de construção como muralhas e marinas destruíram ou danificaram severamente os melhores pontos de surf. Sugere também que as leis ambientais do UE não foram estritamente seguidas, e que os direitos dos surfistas foram completamente ignorados para que mais dinheiro fosse derramado nas estruturas massivas de betão, que agora cercam a ilha.

“O clima político em Madeira não é muito democrático,” adicionou Will Henry, cuja experiência de negociação com os políticos da ilha nem sempre foi bem sucedida. “O mesmo presidente e partido político estão no poder há quase trinta anos, e quando eles decidem que algo tem de ser feito, é feito. A parte triste desta situação é que muitos madeirenses estão descontentes com muita da construção, que destruiu a beleza natural da ilha. Na época da construção, muitos deles estavam com medo de dizer algo contra o governo. Agora é demasiado tarde.”

Durante 2002 e 2003, a “Save the Waves”, juntamente com a Quercus e a Cosmos, organizou muitos protestos públicos contra a muralha proposta na pequena vila de Jardim do Mar, pedindo que os construtores redesenhassem essa muralha, com menor tamanho (largura), para que não fosse tão invasivo para a costa natural. O projecto da muralha era tão grande que os surfistas temeram o dano da onda de surf na Ponta Jardim, que é considerada como uma das ondas mais originais do planeta. Foi considerada pela revista “Surfer” como “o melhor point break do mundo com onda grande.” O presidente do Governo da Madeira reagiu de uma maneira muito forte, dizendo que os trabalhos estavam em curso e não iriam parar devido aos protestos de “uns tontos que dizem que a obra estraga as ondas”.

Mesmo assim, o presidente de Madeira insiste no oposto: “As ondas vêm do mar para terra. Temos aqui uma largura de doze ou quinze metros de protecção ao Jardim do Mar, mas as ondas continuam a se formar no mar. Em vez de se fazer surf quinze metros atrás faz-se o surf com as mesmas ondas quinze metros mais à frente.”“Somente um surfista sabe dizer o que aconteceu à qualidade da onda,” Henry comentou. “O que é que o Sr. Alberto João Jardim sabe sobre o surf? Nada. Isto foi um crime contra a natureza. Não só foi danificada uma das melhores ondas do mundo, como todo o local se converteu num monumento ao betão.”

O filme documentário [foi] divulgado na Ericeira no dia 1 de Setembro, durante a Competição de surf da Buondi e Billabong Pro, e [será] na Madeira nos dias 15, 16, e 17 de Setembro, no Cinemax, sala de cinema na capital da ilha. Para a programação completa e mais informação sobre a divulgação visite por favor www.lostjewel.org.

domingo, setembro 03, 2006

8. "Lost Jewel" com dificuldades para ser exibido na Madeira?

A atenção volta-se para qualquer tentativa de impedir a estreia do filme nos próximos dias.

«Tiveram algum tipo de dificuldades para programar a exibição do filme na Região?» Esta foi uma pergunta colocada pelo Tribuna da Madeira, na entrevista a Will Henry, o director da Save the Waves, publicada no dia 1 de Setembro último. O interlocutor respondeu: «muitas salas tiveram medo de o exibir. Por essa razão, escolhemos uma que é gerida de forma independente e [que] tem proprietários corajosos.»

Na mesma entrevista, numa caixa, o semanário publica declarações do empresário que alugou a sala de cinema à Save the Waves para exibição do documentário Jóia perdida do Atlântico. «“Fizeram-nos uma proposta comercial que foi aceite. Estamos numa economia de mercado, o aluguer da sala é um negócio. Só não o poderíamos fazer se houvesse algum impedimento legal relativamente à exibição do documentário, como sejam o incitamento à violência, ao racismo ou à xenofobia”, salienta Maurício Marques, da empresa gestora do espaço.»

Leitura reflexiva:

1. A pergunta do jornalista existe por alguma razão. Que razões tornarão pertinente a realização de tal pergunta? É obrigatório surgirem dificuldades para exibir um filme-documentário na Madeira? O filme em causa produz razões para que se levante a possibilidade de lhe serem colocadas dificuldades de exibição? Porquê e por quem?

2. «Muitas salas tiveram medo de o exibir», respondeu o produtor, acrescentando que foi escolhida uma sala «gerida de forma independente e [que] tem proprietários corajosos.» O documentário é razão para alguém colocar dificuldades à exibição? Qual é a razão do «medo de algumas salas o exibir»?

3. O empresário coloca as coisas num plano racional. Só «se houvesse algum impedimento legal».

4. A razão da pergunta do jornal Tribuna da Madeira e do «medo» de alguns em o exibir, como refere Will Henry, será o clima de ameaça lançado sobre o filme: o Governo Regional anunciou a intenção, em Maio passado, de processar judicialmente, inclusive nos aspectos criminais, os responsáveis pela autoria e pela divulgação de um documentário. Porque, supostamente, nesse documentário que ninguém vira, são utilizados termos pouco abonatórios para o Governo, que entre outras coisas é acusado de ser corrupto.

5. Mesmo assim, essa ameaça de acção judicial seria razão suficiente para as salas da Madeira terem «medo» de exibir o filme? A responsabilidade legal recairia sempre sobre os produtores e nunca sobre a sala de cinema. Não queremos pensar que há outras razões que provocam esse medo além da questão legal.

6. Conclusão: impedir a exibição do Lost Jewel of the Atlantic só poderá ser feita com fundamento legal. Prova disso é ter sido tomada a referida decisão de processar, judicialmente, os produtores do filme.

7. O filme foi já exibido em Portugal Continental. Não houve notícia da invocação de qualquer razão legal para que não tivesse sido exibido. Se é legal para ser exibido em Portugal Continental não seria legal para ser exibido na Madeira?

8. A atenção volta-se para qualquer tentativa de impedir a estreia do filme nos próximos dias.
Se a exibição fosse impedida, por alguém e de algum modo, com fundamento legal, depressa essas razões legais (objectivas) seriam conhecidas e dadas a conhecer.
Se, pelo contrário, o documentário acabasse por ser impedido de estrear-se na Madeira, de uma forma ou de outra, sem que fossem adiantadas razões legais e objectivas, outras leituras seriam passíveis de serem feitas.
Porque as pessoas quereriam conhecer essas razões, como é normal num Estado de Direito e Democrático. Caso contrário, poder-se-ia até pensar que estava colocado um problema de Liberdade de Expressão, que estava em causa o Direito de Informar e Ser Informado, proclamado na Declaração Universal dos Direitos do Homem:

Artigo 19º - «Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão

7. Antes, depois

ANTES
(View from West)

Toda praia de calhau desapareceu. A protecção e a promenade, como defenderam as associações ambientalistas, poderiam ter sido construídas sem entrar em confronto com o mar, com muito menos custos de construção e menos danos para a paisagem, ambiente, apanha da lapa e condições desportivas para o surf.

Todos os interesses (incluindo a protecção e espaço de lazer-promenade) teriam sido conciliados e obtidos com uma construção mais pequena.

O que tem, afinal, maior potencial turístico e económico para a Madeira: construções moderadas que salvaguardam e se integram na paisagem natural ou construções em que o betão invade, altera, destrói e domina a paisagem de forma radical?

A massiva estrutura de betão, construída em toda a extensão da considerada pitoresca e característica freguesia do Jardim do Mar, tem por acaso alguma coisa de pitoresco, característico, exótico e autêntico?

DEPOIS

Uma massiva cintura de betão em toda a linha de costa do Jardim do Mar, com uma largura apreciável, entra mar adentro. Enterrado com os 800 metros de costa e calhau foi enterrado, além da fauna marítima, da paisagem exótica/autêntica e das condições únicas da onda do surf, um bocado da alma de cada habitante do Jardim do Mar e de todos os que usufruiram da beleza natural daquela linha de costa.

Não se consegue, por exemplo, olhar o mar sem a invasão do campo visual por um mar de cubos de cimento. Olhar o mar sem obstáculos não é relevante para o dinheiro mas é importante para a qualidade de vida, o bem-estar e felicidade das pessoas. Isto faz parte do conjunto alargado das perdas sofridas.

This is the story of Jardim do Mar, anuncia o filme-documentário Lost Jewel of the Atlantic. Embora aborde outros casos noutros pontos da ilha, o Jardim do Mar é o foco principal, o caso paradigmático. Pelas razões evidentes.

Photo credit (c) film Lost Jewel of the Atlantic

Note-se que a luminosidade, momento da maré e estado do mar variam nas duas fotografias. Tendo em conta esses aspectos, o essencial da leitura comparativa pode ser feita. Aliás, eles em nada ferem e não condicionam a leitura feita neste post.

sábado, setembro 02, 2006

6. "Lost Jewel" impressionou na Ericeira, diz Will Henry

Will Henry, director da Save the Waves, muito satisfeito com a adesão do público na estreia do documentário, na Ericeira.
Sobre a estreia do Lost Jewel of the Atlantic na Ericeira, numa sala esgotada, Will Henry, director da Save the Waves, disse-nos que as «reacções foram muito boas» e que as «pessoas estavam impressionadas com o filme.»
Mais informou que antes da exibição do documentário fez uma introdução ao tema e, após a exibição, teve lugar uma «sessão de perguntas e respostas» com Will Henry sobre aquilo que os espectadores tinham acabado de ver.
Apesar das ameaças do Governo Regional da Madeira de processar criminalmente os produtores, Lost Jewel of the Atlantic, um documentário sobre a destruição de surf spots na Madeira, devido a polémicas construções na costa, estreou em solo português e é exibido naquela ilha atlântica nos dias 15, 16 e 17 de Setembro.

5. Lotação esgotada na estreia do "Lost Jewel"

A estreia nacional da Jóia perdida do Atlântico mereceu lotação esgotada na Ericeira, ontem à noite, no âmbito do Beach and Surf Film Festival, como refere hoje o Diário de Notícias. As expectativas e as atenções direccionam-se agora para a exibição na Madeira nos dias 15, 16 e 17 do corrente mês.

sexta-feira, setembro 01, 2006

4. "Lost Jewel" estreia daqui a pouco na Ericeira

A "Jóia perdida do Atlântico" estreia hoje na Ericeira antes de chegar à Madeira no dia 15. Alguns não imaginavam que os "pata rapada" fossem empreendedores e tivessem meios ao ponto de colocar um filme-documentário a correr o mundo.

Apesar das ameaças do Governo Regional da Madeira de processar criminalmente os produtores, Lost Jewel of the Atlantic conhece hoje a sua estreia em solo português, dia 1 de Setembro, no Centro Cultural da Ericeira às 21h, integrado no Beach and Surf Film Festival da Ericeira (descubra mais sobre esta vila aqui):

«Entre estes filmes, alguns são mesmo estreias em solo português, caso de [...] Lost Jewel of the Atlantic, película à qual a Surftotal deu o devido destaque no dia de ontem, pelas razões bem conhecidas de todos
Alguns dados:
Lost Jewel of the Atlantic é um filme sem fins lucrativos realizado por Jacob Holcomb e produzido pela Save the Waves Coalition.
Financiado, em parte, por donativos de Newman's Own Organics, SIMA, and Patagonia, Inc.
Banda sonora: Mermen, Ithaka, David Beaudry, Sambad Crowsong, Supaclean, Faldo's Toy, Cole Marquis, and Culver City Dub Collective.

3. Entrevista com William Henry da Save the Waves

Com a devida vénia ao Tribuna da Madeira, aqui deixamos um link para a entrevista ao director da Save the Waves publicada na edição de hoje, dia em que o filme estreia em Lisboa.

É uma entrevista serena, ponderada, racional, factual e não politizada. Nesse aspecto o título de capa, Surfistas dão "pranchada" no Governo, pode ser enganador, mas percebe-se a intenção de colocar alguma pimenta para captar a atenção dos leitores. Há uma dose de humor subjacente à expressão "pranchada" que alivia a tensão e confere mais leveza ao título.

Alguns destaques:

«A nossa intenção nunca foi fazer um retrato da Madeira de uma forma negativa. Pelo contrário, é um dos meus lugares favoritos no planeta. Alguns dos meus melhores amigos vivem na ilha e, de forma geral, é um lugar fantástico habitado por pessoas fantásticas. O nosso filme pretende, apenas, mostrar a verdade sobre o que aconteceu à linha de costa madeirense, procurando explicar as razões que terão levado a essa mudança. Alguns homens ricos ficaram ainda mais ricos, enquanto os cidadãos comuns da Madeira perderam algo que é importante para a sua identidade, para o seu modo de vida, perderam a possibilidade de usufruir da beleza natural da ilha.»

«O Governo [Regional] devia ter envolvido a sociedade local no planeamento dos projectos, em vez de manter os debates públicos estrategicamente escondidos. Deviam também ter ouvido os habitantes da freguesia e os surfistas. Ninguém estava contra a construção de uma «promenade» ao longo da costa do Jardim do Mar – foi contra a largura da mesma que todos nos opusemos. Se a tivessem feito mais pequena, não haveria qualquer problema. O lugar de «surf» teria ficado sem estragos, e o muro de protecção teria sido construído. Em vez disso, o Governo recusou estabelecer um compromisso, e agora a freguesia perdeu muita da sua beleza e o seu mais importante recurso turístico – a onda.»

«A Madeira é um exemplo de um problema que tem vindo a acontecer em todo o mundo. De uma forma geral, o ambiente está a ser destruído de maneira a que algumas pessoas possam obter riqueza rápida, à custa de prejuízos duradouros para a generalidade das pessoas. Mais especificamente, o Governo da Madeira desrespeitou completamente as maravilhas que a ilha possui: zonas de «surf» esculpidas por Deus, das melhores que existem. É um dos piores exemplos de gestão ambiental que eu já vi em todo o mundo. O presidente [Alberto João Jardim] chegou a chamar os surfistas de “turistas de «pé descalço»”. Ao dizer isto, provou não estar em contacto com a realidade do mundo moderno. O futuro do turismo não depende de grandes hotéis e campos de golfe, mas de desportos de aventura e de natureza, que dependem da preservação do meio ambiente. O «surf» é uma industria que gera milhões de dólares por todo o mundo. Os turistas do «surf» actuais já não fazem parte do estereótipo que existia no passado. Muitos viajam com as suas famílias e hospedam-se em bons hotéis, alugam carros, etc. Por descurar esta vertente do turismo para a Madeira, e por acabar com ele ainda antes que tivéssemos possibilidades de ver o seu potencial, o Governo [Regional] cometeu um erro grave, que irá certamente ter implicações no futuro do turismo na ilha.»

«Penso que, no futuro, o turismo em geral também irá sofrer, porque as pessoas vão para a Madeira para desfrutar das suas belezas naturais, não para ver blocos de betão. É claro que isto não é resultado da nossa campanha. A culpa está completamente aos ombros dos responsáveis governamentais que permitiram que isto acontecesse.»

(Tribuna da Madeira 01.09.2006)

2. Presidente do Governo não combate estreia do "Lost Jewel" na Madeira, pelo menos para já

Um dos méritos do presidente do Governo Regional, que apanha por vezes alguns desprevenidos, é este: quando os factos o demonstram tem a clarividência e coragem para alterar a sua posição inicial, se necessário e justificado, sobre um dado assunto. A serenidade com que reagiu à estreia do filme será já uma prova disso mesmo? Se as circunstâncias se alteram, as posições também podem alterar-se. As primeiras declarações sobre a estreia do documentário Jóia perdida do Atlântico indiciam isso. Ou aparentemente indiciam isso. Mesmo que não se dê o braço a torcer, ao menos deixe-se os outros exprimir livre e democraticamente o seu ponto de vista e os seus argumentos.

Embora o presidente do Governo insista que o paredão/promenade do Jardim do Mar não afectou as ondas (aqui o presidente do Governo estará mal informado e aconselhado) talvez se comece a prestar mais atenção aos recursos que, afinal, a Madeira poderá ter e tem. As ondas podem constituir um pequeno filão de ouro já que podem ser exploradas economicamente. Podem constituir um cartaz de promoção da imagem exótica e autêntica da Madeira. Os desportos náuticos como o surf ou o bodyboard poderão ser um nicho de mercado interessante, pelo menos localmente, para algumas localidades da ilha, como São Vicente ou o Jardim do Mar. Não atrapalha os outros turismos - senior, de luxo, de golf -, promove o turismo de natureza ou ecológico e, sobretudo em tempo de crise, o dinheiro que os surfistas deixam tem o seu peso.

Além do mais, embora o presidente do Governo deixe uma suspeição («se repararem gasta-se muito dinheiro que, à primeira vista, a pequenez e riqueza do território não o justificava. Portanto, agora as pessoas que pensem porque é») já deve ter percebido que não existe nenhuma motivação ou estratégia político-partidária, maçónica ou comunista contra o Governo Regional ou a Madeira por detrás da causa desportivo-ambiental do filme da Save the Waves. Não há nada encoberto.

A causa ambiental vale por si mesma. Não precisa ser politizada. Não é a Save the Waves que tem politizado a questão, se analisarmos os factos. Agora, se há partidos ou quem utilize a causa ambiental do filme, para justificar ataques políticos contra a Save the Waves ou então como arma de arremesso contra o Governo Regional, é algo que ultrapassa a própria associação americana. Esta tem procurado evitar a politização. Mas, a Madeira parece ser um lugar demasiado politizado...

JORNAL DA MADEIRA
"Já sobre o documentário Save de Waves, cuja exibição se prevê na Madeira durante o mês de Setembro e que consiste num trabalho crítico à muralha que se fez na freguesia do Jardim do Mar e que, alegadamente, veio estragar o surf que ali se praticava, o presidente do Governo Regional está calmo e sereno.

«Quem for ao Jardim do Mar, vê que lá está um trabalho bem feito e que continua a haver ondas de surf», sublinhou Alberto João Jardim, para logo adiantar que começa a pensar «que a Madeira tem mais recursos do que a gente sabe. Esses recursos estão a uma grande profundidade e, neste momento, não é rentável explorá-los». «Se repararem», prosseguiu o seu raciocínio, «gasta-se muito dinheiro que, à primeira vista, a pequenez e riqueza do território não o justificava. Portanto, agora as pessoas que pensem porque é»."

DIÁRIO DE NOTÍCIAS
"No areal da Ilha Dourada, o líder do Governo Regional pronunciou-se ainda sobre o documentário da organização internacional Save The Waves, que conforme avançou o DIÁRIO vai estrear-se na Região, no próximo mês.
«Começo a pensar que a Madeira tem recursos do que a gente não sabe. Ou melhor, sabemos, só que estão a grande profundidade e, por enquanto, não é rentável explora-los», afirmou Jardim, estranhando o facto de gastar-se «tanto dinheiro na Madeira», sendo que, à primeira vista, «a pequenez e a pobreza do território não o justifica».

Sem querer tecer mais comentários sobre este assunto, o presidente do Governo desafiou as pessoas a se deslocarem ao Jardim do Mar para constatarem "in loco" que a obra está bem feita e não derrubou as ondas. «Têm dinheiro para alugar uma sala, bom proveito», concluiu."
(30.08.2006)

1. Madeira & República IV: Lei de Finanças Regionais

Dívidas das regiões [autónomas] perdem aval do Estado: manchete no Jornal de Negócios de 31 de Agosto de 2006.