«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

segunda-feira, novembro 01, 2010

Escola não é democrática nem deve sê-lo


"A escola não é democrática. Nem deve sê-lo. A escola é a preparação para a democracia. Uma aula é hierárquica. O professor está sempre acima dos alunos. A escola deve estar a preparar os jovens para ser cidadãos. A escola não tem os mecanismos da democracia nem deve ter."

(Fernando Savater, filósofo e professor de Ética, em entrevista a Cristina Margato in ATUAL, nº 1983, de 30 de Outubro de 2010)

domingo, outubro 31, 2010

«A derrocada do cimento»

Luís Calisto:  Desaba o betão levantado na 'Madeira nova'. Mas a argamassa mental resiste
Se as falências de empresas ocorressem com cerimónia fúnebre, a 'Madeira nova' andaria todos os dias de luto e os cangalheiros refulgiriam como novos-ricos da crise.

Já longe dos empreendimentos megalómanos inaugurados com muita espetada, americano e discursos a esmagar os 'inimigos do desenvolvimento', chefe e sagitários do regime deveriam comparecer agora ao funeral de cada 'obra feita'. Com obrigação de carpir o conhecido discurso verborreico no elogio fúnebre à 'obra' finada.

O eleiçoeirismo de 30 anos só poderia levar ao velório que serve de transição para um período de nojo financeiro capaz de deprimir várias gerações do futuro.

Por enterrar apodrecem entretanto projectos da 'Madeira nova' que não atingiram o estatuto de 'obra feita', tendo-se extinto antes da gloriosa inauguração.

O Minas Gerais vai abaixo. Aplausos. Insinua-se o derrube de um triste mamarracho. Mas o povo inocente que vá abrindo mais furos no cinto da miséria. Governo, câmara e promotores da obra planearam e fabricaram tal 'elefante'. Mas, depois de longa polémica, ei-los que agitam a demolição. Alguém prestará contas? O diabólico prédio não trepou com autorização oficial? Os promotores não construíram acima do estipulado? Bom, escuso cansar o raciocínio. Não há culpados. A sentença repete-se: tubarões erram, o povo paga.

A conta não poupará sequer os 'inimigos da Madeira' sempre críticos daquela preciosidade. Quanto aos 'amigos da Madeira' - governantes, autarcas e promotores -, saem incólumes do esbanjamento. Paira até sobre a estátua do Infante o espectro de uma depravada indemnização.

Peculiaridades do regime laranja, herdeiro de 1926. Os barões da nota arriscam. Se resultar, dilatam a fortuna. Se falhar, paga o povo.

Generaliza-se a derrocada do jardineirismo cimentado. Desponta à evidência o rotundo fracasso de políticas sociais, económicas e financeiras loucas, sem ponta de sustentação.

Hotéis inaugurados a preceito, com discursos politiqueiros, caem hoje nas mãos dos bancos credores. Rua das Pretas, Rua dos Tanoeiros, Carreira, tantas outras de passado comercial glorioso, desenham a carvão uma capital fantasmagórica de montras forradas a papel de jornal crestado. Máquinas e camiões pastam nos estaleiros desactivados e em baldios. Construções inacabadas de cavername exposto jazem morbidamente em plena zona hoteleira.

O apregoado esplendor desenvolvimentista dá lugar a um montão de vigas e jactâncias encarquilhadas. A marina lá para oeste. Fóruns megalómanos como o de Machico onde funciona talvez um cabeleireiro. Ou o da Boaventura-Santa Cruz, com meia dúzia de automóveis nos parques e, que se veja, um ou dois cafés às moscas. Paga o povo.

Centros cívicos desproporcionais penam inactivos. Paga o povo. Estádios e pavilhões em freguesias a dez minutos umas das outras - paga o povo. Paga o povo porque alguém já recebeu. E a factura mais dolorosa ainda vem a caminho. Quem se lembra de inaugurações pomposas em parques industriais lançados para pasto de cabras? Paga o povo.

Arrasa toda uma História a política errada para o desporto lançada com a usurpação governamental de dois grandes clubes, que com o suor dos seus sócios e o arrojo dos dirigentes haviam atingido brilhantemente o topo do futebol nacional. O regresso aos regionais de dezenas de clubes, depois de milhões deitados fora numa insípida III Divisão, é prova do malogro. Quem paga? O povo.

À conta de práticas desovadas de um narcisismo fanático, a dívida insular atinge hoje uma cifra impossível de reproduzir nestas linhas, pelo tamanho. De provocar dores de cabeça ao mais libertino. Mas toda a gente sabe: questionar a dívida é ser 'inimigo da Região'; lamentar os 15 mil conterrâneos desempregados é pactuar com os 'comunas'; chorar os sem-abrigo que emborcam 'Ganita' à porta do Carmo e nas escadas do Anadia é 'ofender os madeirenses'; alertar para a galopante pobreza é 'trair a Autonomia'; criticar mordomias revela distorção psíquica.

Papagueiam a teoria do chefe uns mestres do oportunismo e da veniaga conglobados em redor do trono: 'bom madeirense' é o que "cala a desgraça". Como o vento denunciado por Alegre. Calar, dormitar, calar - eis a postura correcta de um patriota, diz 'a voz do dono'. Daí os vivas à IV República. A ânsia por um regime ainda menos livre. Daí o ódio à I República. Daí a tese escrita pelo chefe: a monarquia constitucional foi "mais liberal e mais tolerante do que a I República".

Já Guerra Junqueiro apontava o 'Único Importante' da monarquia: "O Estado é o rei. Cidadão há um único: D. Carlos. Os deveres são nossos, os direitos, dele. Estrangula-me as ideias, arromba-me a gaveta."

Saudar o esqueleto da realeza é o mais natural nas actuais mentes fossilizadas que aturamos. Belos tempos os do 'come e cala'. Poeta Junqueiro chorava, no tempo do rei, "um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de miséria, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que já nem com as orelhas é capaz de sacudir as moscas."

Acusa Junqueiro "uma burguesia cívica e politicamente corrupta até à medula, já incapaz de distinguir o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas". E a raiva do poeta ante um parlamento que não passava de "esfregão de cozinha" às mãos do governo que servia o rei.

Raio de cogitações comparativas com o parlamento de hoje...
O cimento! O cimento da 'Madeira Nova' e das suas minas gerais ruirá. Mais difícil, neste 'calar da desgraça', será resgatar a dignidade popular da argamassa de incultura e medo. Porém, "mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre ..."

Diário 30.10.2010

sábado, outubro 30, 2010

segunda-feira, outubro 25, 2010

«Madeira no topo do insucesso escolar»

«Região apresenta as taxas mais baixas de transição/ conclusão em todos os ciclos», noticiou o Diário

Segundo relatório apresentado pelo Conselho Nacional de Educação a Madeira tem os «piores resultados, no País, no que toca a transições de ano e conclusão de ciclo de estudo», noticiou o Diário. «Ou seja, por cá há mais chumbos e mais abandono escolar.»

O Diário recorda que «estas não foram as únicas más notícias para a educação madeirense nos últimos dias», referindo-se ao ranking de escolas. «O secretário regional da Educação Francisco Fernandes disse na altura que os rankings são uma maneira "redutora" e "enviesada" de avaliar a qualidade do ensino e as escolas da Madeira, já que ignoram, por exemplo, que na Jaime Moniz, 42 alunos entraram em Medicina.»

E o secretário Regional questionou: "Não seria mais justo avaliar-se quantos alunos concluem o 9º ano, quantos o 12º e quantos entram na Universidade? Ora, a «investigação da CNE prova que também aqui a Região está no topo da pirâmide de maus resultados.»

Segundo o mesmo documento, a «distância que separa os portugueses da média europeia vai continuar em 2013, ano em que as projecções da UE apontam para uma tendência de 60,8% da população portuguesa com baixas qualificações - valor que na Europa rondará os 23%. Em 2020, quase metade da população activa em Portugal terá baixas qualificações (49,8%), enquanto na Europa, o indicador vai situar-se nos 19,5%.»

Um certo caldo socio-cultural também ajuda a compreender o atraso, embora tenhamos de nos concentrar no presente, através de medidas claras e concretas, de forma a garantir as condições de trabalho (ensino e aprendizagem efectivos) nas salas de aula:

- Insucesso escolar vem de longe 4 (portugueses no Luxemburgo campeões do abandono escolar)
- Insucesso escolar vem de longe 3 (estudantes madeirenses na Madeira)
- Insucesso escolar vem de longe 2 (estudantes filhos de emigrantes portugueses na Suiça)
- Insucesso escolar vem de longe 1 (estudantes filhos de emigrantes portugueses no Canadá e Inglaterra)

quinta-feira, outubro 21, 2010

Viver é arriscar

image origin

Osho ao dizer que quem «quer escalar o pico mais alto tem que correr o risco de cair de algum lugar, de escorregar» sublinha a importância de relativizarmos o peso da segurança (o não correr riscos, o apego, o normativo, o convencional) na nossa vida. Crescer e evoluir implica arriscar a mudança em certos momentos. A vida é um risco de facto e não podemos ficar paralisados por essa realidade.

DEBATE REGISTADO NO FACEBOOK

quarta-feira, outubro 20, 2010

Crise não é para todos

Dois títulos na primeira página do Diário de hoje que dizem tudo: "Partidos com mais dinheiro em 2011" e "Aumento brutal da conta da água" .

Quem se lixa é o mexilhão mesmo. Os partidos deveriam dar o exemplo e fazer uma campanha eleitoral regional, no próximo ano, mais recatada e com menos festarolas pimba, que não melhoram em nada a vida dos madeirenses.

terça-feira, outubro 19, 2010

«Metro, trabalho, sepultura»

image origin

«Franceses contra vida de "metro, trabalho, sepultura"», diz uma notícia no Público. Deveríamos ser todos (e todos os dias) contra a vida estupidificante do "casa, trabalho, casa", em que muitos de nós aceitam viver em desalento e cómoda infelicidade, num automatismo de sobrevivência e não de vida nas suas vastas possibilidades.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Image origin

«Em cinco anos (entre 2004 e 2009), as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor aumentou em 16% na Região [Autónoma da Madeira] de 115.802 embalagens vendidas em 2004, para as 134.850 vendidas no ano passado», lê-se em notícia do Diário. A ministra da Saúde, Ana Jorge, defendeu que os médicos portugueses não fazem uma prescrição racional deste tipo de fármacos, aumentando assim o consumo. A indústria agradece o belo negócio... borrifando-se quanto às consequências para as pessoas do consumo de antidepressivos de forma prolongada e exagerada...

sábado, outubro 16, 2010

How to live before you die



«Remembering that I'll be dead soon is the most important tool I've encountered to help me make the big choices in life. (...) You are already naked. There is no reason not to follow your heart. (...) Have the courage to follow your heart and intuition. They somehow already know what you truly want to become. Everything else is secondary. (...) "Stay hungry. Stay foolish".» (Steve Jobs)

sexta-feira, outubro 15, 2010

O seio esquerdo de r.p.



"O Seio Esquerdo de R.P." é um dos meus temas favoritos do novo disco de Mão Morta, «Pesadelo em Peluche».

A cadência, a linha de baixo, a voz declamante de Adolfo, a letra: «reconheci o seio esquerdo de r.p., a que a velocidade imprimia convulsões orgásticas de desconhecida intensidade, e as pernas roliças de a.m., em pujantes tesouradas de feroz carnalidade.»

domingo, outubro 03, 2010

Sociedade portuguesa é uma sociedade montada na fachada


«O facilitismo começa desde o jardim de infância. Nós estamos a assistir à construção de uma debacle nacional. Estamos a mentir às pessoas»

Discursos dessassombrados como o recente discurso do Frei Fernando Ventura (aqui deixamos uma síntese da recente entrevista na SIC Notícias) são importantes pelo realismo que encerra, mas como são dolorosos para as consciências (a injecção de realidade é bem dura) tendem a ser vistos como algo próximo do demencial... E as pessoas desligam. Porque não interessa a realidade. É mais fácil continuar a acreditar na ilusão.

Um sociedade montada no faz de conta é uma mentira e nada se pode construir sem alicerces sólidos. A escola e a educação dos mais novos, das gerações futuras, assenta também sobre uma mentira. E criamos analfabetos, gente que não pensa, gente sem referências e valores, sem memória colectiva, sem capacidade de assumir as suas responsabilidades e de comandar o seu destino.

Temos demasiados denunciadores e não temos anunciadores
«Em nome da defesa do povo, em nome da defesa dos direitos dos trabalhadores vamos ouvindo grandes discursos inflamados, mas estamos a assistir simplesmente a jogos de poder que não vão resolver a vida dos pobres. Que não vão criar, sobretudo, aquilo que é urgente criar no sentido de solidariedade e coesão nacional. O que se apela é sempre à fractura, é sempre e só à explosão social.»

«A greve geral [já anunciada para 24 de Novembro] é uma catarse colectiva mas não vai mudar nada porque não há volta a dar. O caminho é só para a frente. E para a frente sempre a subir. Temos demasiados denunciadores e não temos anunciadores. Os que temos mentem. O caminho tem de ser a o da construção de uma consciência social e de uma consciência colectiva de co-responsabilidade social. […] Este é o momento, não da aparição de nenhum messias, mas da aparição de gente capaz de formar opinião, gente capaz de formar consciência, gente capaz de gritar que o rei vau nu por muito engravatado que esteja. Que a altura é de mudar e de mudar as estruturas podres que nos conduziram até aqui.» Para mudarmos de modelo as pessoas terão de fazer a discussão das garantias do Estado que nos trouxeram até aqui. Mas assustam-se e temem as alternativas.

Sonhar espaços novos
«Crise é momento de começar a sonhar espaços novos. Estamos a enfrentar desafios novos com soluções velhas. Estamos a enfrentar situações terrivelmente complicadas para tantíssima gente com os mesmo profissionais da política, que nos trouxeram até aqui. Seria este o tempo de despedirmos os políticos profissionais para colocarmos profissionais na política. […] Não temos líderes em Portugal. Não temos gente para galvanizar para um projecto de construção social e para um projecto de consciência comunitária da vida.»

Escola: cultura de fachada e excesso de facilitismo
«Houve excesso de garantismo e facilitismo. E o facilitismo começa desde o jardim de infância. Nós estamos a assistir às construção de uma debacle nacional. Nós estamos a montar uma escola que, teoricamente e por ironia da estupidez, é possível chegar à universidade sem quase saber escrever. Estamos a mentir às pessoas, não estamos a dar um futuro aos nossos jovens. Pior do que isso, estamos a construir uma sociedade montada na fachada. Vivemos para o penacho, vivemos para o exterior. Estamos a formar ou a deformar gerações que vão ser o futuro. Desta nossa terra. Estão a crescer sem bases, sem valores. […] Estamos a criar gerações de monstros. Gerações de gente sem memória e sem história. Quando a memória e a história não se encontram temos os cataclismos sociais. É a partir da educação que esta estrutura tem de mudar por dentro.»

«Temos esta cultura que alguém há-de resolver. É este fatalismo nosso, tinha que ser assim. Não posso fazer nada para mudar o meu destino. E isto metido numa situação de um país de um nível cultural baixíssimo… Estamos outra vez nesta espécie de mentira colectiva das Novas Oportunidades. Novas Oportunidades de quê? De coisa nenhuma. Vamos dar um canudo às pessoas mas não vamos construir uma consciência social. Esta é outra das desgraças nacionais. Vivemos para a fachada.»

Duas notas pessoais:

1. Frei Fernando Ventura diz que nos falta líder. Todavia, é preciso ter cuidado para não cair no sebastianismo que o próprio critica. Não podemos ficar à espera de um messias, de um líder que nos resgaste da crise e nos salve. Temos de fazer, ca um de nós, o que nos cabe e não responsabilizar apenas os líderes por tudo.

2. Sobre a incapacidade de reacção é bom fazer notar que a capacidade de aceitação é importante para lidarmos com as dificuldades que não controlamos, mas o problema é abdicarmos de assumirmos a nossa quota parte de responsabilidade na construção do País. Deixamo-nos governar mal.

Meu olhar sobre a Índia (37)

Espectáculo de dança e música clássica indianas, em Delhi, que tive o gosto de assistir em Abril findo.