«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

terça-feira, março 01, 2011

Estado Selvagem

Michael Hacker: Capitalismo (ou Estado Selvagem)
Parece que, à medida que Março se aproxima, com ministro das Finanças e Primeiro-Ministro já a admitir que vão ser precisas mais medidas de austeridade, os presentes sacrifícios dos portugueses de pouco estão a servir. Isto é, o Estado terá, em breve, de ser ainda mais Selvagem (assaltar mais os portugueses). Não deixa de ser ironia do destino que um partido de esquerda governe de forma tão selvagem como o (por eles) criticado Capitalismo Selvagem... O que será pior?

domingo, fevereiro 20, 2011

Cordão humano no aterro visto por alguém nele integrado

Cordão humano em protesto, no aterro do Funchal 20.2.2011

Um momento histórico no arquipélago da Madeira. Numa iniciativa da sociedade civil, a manifestação da opinião dos cidadãos no sentido de ser removido o aterro junto ao cais do Funchal, bem como recordar as vítimas do 20 de Fevereiro (minuto de silêncio às 18h30).

Não foi preciso gritar. Mais de um milhar de cidadãos presentes limitaram-se a dar as mãos, símbolo de união e acção pacífica. Foi tomada uma posição, democraticamente.

“O objectivo do cordão está alcançado, agora o verdadeiro objectivo é tentar tirar o aterro daqui”, afirmou o promotor da iniciativa, Miguel Sá, ao Diário de Notícias. Segundo os organizadores enquanto houver vontade dos cidadãos haverá protesto, noticia o referido jornal online.

Os decisores políticos têm agora a palavra. Não deverão com certeza, de algum modo ou em alguma escala, transformar o aterro numa espécie de Praça Tahir...

VÍDEO

No protesto no aterro junto ao cais do Funchal

Enquanto madeirense e membro do Advisory Board da Save the Waves, participarei no cordão humano de hoje à tarde, 18h00, no protesto no aterro junto ao cais do Funchal.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Hino contra a precariedade e o desemprego

Deolinda denunciam a triste realidade da precariedade e do desemprego, mas que não atinge apenas os licenciados ou uma geração.

Que Parva que Eu Sou

Sou da geração sem remuneração
E não me incomoda esta condição
Que parva que eu sou
Porque isto está mal e vai continuar
Já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Sou da geração "casinha dos pais"
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Sou da geração "vou queixar-me pra quê?"
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou
Sou da geração "eu já não posso mais!"
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Tema:
Audío
Vídeo

Artigos:
Diplomados precários mais do que duplicaram em dez anos
(sem esquecer os precários e desempregados não diplomados)




segunda-feira, janeiro 31, 2011

Aposta na Educação? É preciso ter lata...

cartoon: Anterozóide

É preciso ter uma grande lata, o Primeiro Ministro dizer que a «educação é o grande projecto para Portugal», que «esta época vai ficar marcada pela aposta na educação» ou que a «educação é o «investimento mais importante na afirmação de um país»... Lemos no Público (29.1.2011).

Quando se sabe que o Governo se prepara para mandar para o desemprego 30 a 40.000 docentes e faz os cortes que se conhecem no sector, colocando dificuldades ao funcionamento das escolas e pondo em causa a qualidade do ensino.

Haja vergonha com este tipo de marketing no discurso político.

Pior do que isto é não perspectivarmos alternativa, em termos político-partidários, a este estado de coisas. Não se vislumbra nem partido político nem líder que reestruture este País. Ou é preciso virem outros (FMI) fazê-lo?

domingo, janeiro 23, 2011

Madeira on Global Traveler (January 2011)


Budding Beauty
With an everlasting bounty of blooms, Madeira is a perennial favorite
by Barbara Radcliffe Rogers

April is the time to be in Madeira, when the jacaranda and flame trees are in bloom and Funchal’s main street is canopied in purple blossoms. I first strolled under Funchal’s jacarandas on a cruise stop. That one day on the volcanic island that rises almost straight out of the Atlantic 559 miles off the coast of Portugal was a long time ago, but the memory of Madeira’s flowers never faded. So when SATA airlines began flying there from Boston, I headed back.

This time the jacarandas were covered in bright green leaves instead of purple blossoms, but they were about the only thing that wasn’t in bloom. Brilliant red platter-sized poinsettias peered over garden fences at eye level, passion flowers and lilies bloomed, and the camellias were just bursting forth. Bougainvillea cascaded from every balcony, and morning glories climbed the walls. Bird of paradise, honeysuckle, hibiscus and a dozen varieties of lily painted the landscape. I realized then that any month is the time to be in Madeira.

After drinking in the ocean view from the balcony of my room at Reid’s Palace Hotel, I stopped at the bar for the island’s most famous drink, a glass of amber Madeira wine. It was still a bit early in the day to sample Reid’s take on the martini, the Madeirini, which replaces the vermouth with local dry Madeira.

I began my garden tour by strolling through the hotel’s own 10-acre subtropical paradise, where trees from all over the world punctuate flowering shrubs and vines and native flowers. The scene has changed very little since Winston Churchill painted here and George Bernard Shaw perfected his tango on the lawns. I resisted the temptation to do either and headed into town.

Every tourist’s first stop is the Mercado dos Lavradores, a bustling Art Deco market designed by Portuguese architect Edmundo Tavares and — along with Oscar Niemeyer’s Casino Park Hotel — one of the island’s most important architectural works. In front of the market, women in traditional dress sell flowers.

The market sits in Funchal’s historic heart, where a surprising number of buildings have survived from its 15th- and 16th-century heyday as a sugar town. In sharp contrast to the market’s architecture, Santa Clara Convent and São Pedro Church recall Portugal’s golden age. Both are lined with azulejos, the glazed tiles so common in mainland Portugal, and the convent has a magnificent silver tabernacle. The 15th-century cathedral’s ceiling is inlaid with ivory and cedar.

Madeira has a total of 14 public gardens, and I took a cable car to the biggest of them, the Monte Palace Tropical Garden. Here Portuguese businessman José Berardo has displayed his vast collection of decorative tiles from palaces, churches and private houses in a stunning garden. Alongside it an art-filled Japanese garden explores the long commercial and cultural relationship between Portugal and Japan.

Monte, the attractive village 1,800 feet above Funchal where the gardens are located, is known to generations of cruise-ship passengers for the ride into Funchal on wooden toboggans. These two-seater sleds originated in the 1850s as a way for Monte residents to descend more quickly into the city. The 10-minute ride through the winding cobbled streets reaches speeds of 30 mph, the sled guided by straw-hatted men whose thick-soled boots act as brakes.

It’s quite a contrast to the high-tech cable car I ascended on, but having passed up the ride before, I saw no reason to take it now and opted instead for another cable car. It links Monte to Funchal’s Botanical Gardens on a panoramic ride with views over the bay and the João Gomes River ravine, an area covered in a rare Laurissilva forest.

I’d seen only the capital of Funchal on my first trip, so until the ride to Monte I had little idea of what spectacular landscapes lay beyond it. Now I was hungry for more than a glimpse of the steep and soaring mountains that fill the rest of the island. Beyond the natural amphitheater in which Funchal nestles, mountains rise in deeply cut ridges to the island’s central peaks, over 6,000 feet in elevation.

This wild and ragged landscape is made even more dramatic by lakes and rushing rivers, rock outcrops and soaring cliffs that end abruptly at the sea. Most of the island is carpeted in subtropical greenery, 20 percent of it UNESCO World Heritage laurel forests now long extinct in mainland Europe. Where this land has been tamed, its steep slopes are covered in vineyards and terraced farms and orchards.

To irrigate it, in the early 1500s Madeira farmers began building waterways that bring water from mountain springs. More than 1,200 miles of these levadas carry water in nearly horizontal lines along the mountainsides, sometimes carved into cliff faces at dizzying heights. Alongside the levadas, their maintenance paths have become very popular walking trails.

The notion of exploring the inland mountains on these paths was irresistible, and I reached the first of them from a winding road that climbed out of the pretty fishing village of Camara de Lobos. The Levada do Norte led me through terraced farms into the valley of the Caixa River, and the two-hour walk whetted my appetite for more. So I signed on with Madeira Explorers to walk the Levada das 25 Fontes and discover the Risco Waterfall and a cliff from which 25 natural springs cascade into a lake.

I retired my weary legs to my hotel’s spa for the last day, where a new Reid’s Palace Signature Treatment uses locally produced aloe vera balsam and Madeira wine grape seed oil. Before dining on a locally sourced dinner of beef cubes rubbed in garlic and salt, skewered onto a bay leaf stick and wood-grilled, I sipped another local herb in the form of Reid’s Funchal Tonic. This gin and tonic perfumed with fresh fennel juice is inspired by Funchal’s name, which derives from the Portuguese word for the fennel that once covered the ground here.

By then I’d realized that I was still far short of seeing all 14 gardens but decided I didn’t really need to. With all the vineyards, banana plantations, herbs, laurel forests, wild flowers, overgrown balconies, dooryards and parks, the whole island was one big garden. I could eat and drink it as well as walk my way through it.

Global Traveler
January 2011

terça-feira, janeiro 18, 2011

Dois temas irmãos de Nancy Sinatra (1966) e Isobel Campbell (2010)



Bang Bang (My Baby Shot Me Down), integrado na banda sonora do filme Kill Bill: vol. 1 (2003)



Sunrise, integrado no álbum Hawk (2010)

Ao ouvir Sunrise lembrei-me de Bang Bang (My Baby Shot Me Down). Encontrei ainda esta crítica que confirma as proximidades: «It is easy to see them [Isobel Campbell & Mark Lanegan] as an update of the similarly-toned duo Lee Hazlewood and Nancy Sinatra.»

domingo, janeiro 16, 2011

Diz-me o que lês e dir-te-ei quem és


Sou dos que pensam que as maiorias, muitas das vezes, não têm razão e avanço com cautela para um livro, um disco ou um filme que mereça, em cima do momento da publicação, uma adesão generalizada do grande público. Investigo antes de consumir.

Decorre, além de uma atitude de rebeldia, do critério e gosto pessoais. Procuro e gosto de consumir manifestações e produtos artísticos mais alternativos, independentes, desafiantes e exigentes, que não se fiquem apenas pelo entretenimento, implicando um maior esforço na adesão (muitas vezes implica estranhar antes de entranhar). Tem de me surpreender e desafiar. Em detrimento do gosto massificado e produtos mais imediatos, difundidos e comuns, para basicamente passar o tempo e distrair.

Isto não significa que não goste de algumas manifestações artísticas que têm a adesão do grande público. Encontro exemplos na literatura, na música ou no cinema de que gosto. Há manifestações popularizadas que têm enorme qualidade e são obras-primas. E sabe bem, por vezes, ler, ouvir e ver algo mais imediato, mais leve, menos profundo e menos intelectualizado, de fácil adesão e consumo, embora tenda a perdurar menos tempo na nossa mente, no nosso coração e no tempo.

Para mim arte é vida. A arte tem de acrescentar algo de novo à minha existência e me oferecer novas sensações e abrir novas janelas sobre a forma como vejo o mundo e a vida. Tem de ser pertinente e ter um potencial transformador, para além da experiência estética e de Belo que nos provoca. Tem de marcar a diferença face à maioria dos livros, dos discos e dos filmes.

No que toca aos livros, li por exemplo The Da Vinci Code e estou a ler Eat Prey Love, muito populares ao ponto de serem adaptados ao cinema e destinados ao grande público. Estão muito bem escritos, bem engendrados, mas não é literatura de topo.
Aqueles livros citados são criativos, interessantes e proporcionam uma leitura escorreita e uma adesão imediata. Mas falta-lhes a densidade literária dos escritores de maior relevo e das melhores obras, aquelas que perduram no tempo (intemporalidade), que inovam, que utilizam recursos estilísticos e literários que tornam único o modo de contar uma história (a tal experiência do Belo), que são universais, que têm densidade de conteúdo ao ponto de acrescentar algo sobre a Vida, o Homem, a Existência Humana.

Depois de ler The Da Vinci Code não tive interesse em ver o filme. Popularizou-se o filme Eat Pray Love mas bastou ver o trailer para perceber que estava muito longe de ser a minha cena. Mais pela abordagem, pela forma como estava contada a história. Percebe-se logo quando se trata de uma abordagem mais leve para ir ao encontro do gosto do grande público. Mais para entreter do que para fazer pensar e marcar a existência.

Não fui ver o filme e pensei antes em rever Sideways, que poderia ter-se intitulado algo como Drink Write Love... Lembrei-me deste filme por analogia. Não há lugar a piadas ou romantismos fáceis e, em lugar do domínio do enredo, há a densidade das personagens, dos seus dilemas existenciais e o modo especial como tudo é contado.

Eat Prey Love é um livro de viagens, autobiográfico, de leitura fácil e agradável, que é enriquecido e ganha alguma densidade pelo facto de dar conta de uma caminhada interior e de vida, a da própria autora. Muitos dos seus problemas e dilemas são comuns a muitos de nós mortais. Mas é basicamente descritivo de uma experiência e percurso pessoais. Não tem a tal densidade literária na forma como são narrados os acontecimentos. Há ainda o aspecto informativo, sobre os locais, a cultura e as pessoas dos países por onde vai passando, que é relevante.

E tem o seu lugar. E estou a ler com interesse, embora não me provoque o êxtase de certas obras literárias de referência, porque neste momento da vida apetece-me literatura menos densa e há aspectos do percurso existencial da protagonista com os quais me identifico (nem que fosse por ter passado por intensas experiências, em 2010, na Índia, um dos três países por que passou Elizabeth Gilbert) e provoca alguma reflexão pessoal. Ainda estou a ler o livro. Irei dando notícias.

domingo, janeiro 09, 2011

Virgem de costas voltada para o povo em obra de Rigo


Obra de Rigo, em Serralves, inspirada em episódios da igreja da Ribeira Seca, em Machico
Virgem de costas voltadas integra a obra de Rigo Isto, o Povo Não Esquece, patente em Serralves, parte da exposição Às Artes, Cidadãos! (associada à celebração do centenário da República Portuguesa).

Esta obra do artista madeirense é inspirada em episódios na igreja da Ribeira Seca: a ocupação policial, pela PSP, em 1985, e a circunstância da imagem peregrina da Virgem Maria, de visita à Madeira em Maio de 2010, não ter visitado a igreja em Machico, ao contrário das expectativas do povo e do Pe. Martins Júnior. O sacerdote está suspenso 'a divinis', mas continua a oficiar naquele templo.

Mais informação:

Vídeo com Rigo a explicar a obra Isto, o Povo Não Esquece, em Serralves.

Exposição Às Artes, Cidadãos!

No Díário: 9.1.2011 e ainda 16.7.2006

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Todos sabemos do problema, mas quem decide prefere deixar andar e esconder

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«A indisciplina na sala de aula transformou-se num sério problema que, em muitas escolas do país, parece tender a agravar-se», escreve hoje o Público. Problema que «dificulta o trabalho de elevado número de professores, que os afecta psicologicamente e, em muitos casos, os leva a meter baixa médica.»

Em Março deste ano, em Valência, o filósofo Fernando Savatar alertou para a «situação de professores “psicologicamente esgotados” que se tranformam “em autênticas vítimas nas mãos dos alunos”. E salienta: “A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara”, diz não se referindo apenas ao aspecto económico do problema mas a todas as consequências que podem resultar da indisciplina. Savater recomenda aos pais a necessidade de transmitirem aos seus filhos a ideia de que receber uma educação é “uma oportunidade e um privilégio”.»

Além disso, na escola, é a instituição que tem de disciplinar os alunos e não estar sempre a pedir aos pais para o fazerem. O incidente na escola tem de merecer actuação imediata. O estudante falhou, pagou. Mas também é verdade que  a escola prefere, muitas vezes, refugiar-se na burocracia para não agir e ser condescendente com a indisciplina (empurrando para os professores desautorizados e para pais permissivos a resolução) e as conseguências para a aprendizagem e rendimento académico dos estudantes.

A propósito:
Indisciplina escolar parte da degradação profissional
Medidas propostas pela FENPROF
Medidas de combate à indisciplina e violência escolares: será a sério?
62: violência camuflada XIV
59: violência camuflada XI
56: violência camuflada VIII
15: violência (des)camuflada IV
13: violência camuflada III
12: violência camuflada II
7: violência camuflada I
38: Bandalheira instalada na pública favorece a privada
30: Onde falhamos nós no público
29: Regras e responsabilização das crianças
27: Responsabilização
23: Leste arrasa postura desculpabilizante
CDS-PP defende restauração da autoridade do professor

Outros:
10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação
Brincamos mesmo
País de brincalhões
Fomentos da indisciplina [quando o exemplo nem vem de cima]

Coelho a presidente, uma pedrada no pântano em que o País se atolou?

Candidato que se assume como apartidário e anti-sistema, embora apoiado por um partido, José Manuel Coelho promete alertar para e combater vários problemas genéticos, como se leu no Diário (1.11.2010 e 2.1.2010):

1. «Os ordenados escandalosos e privilégios dos políticos profissionais que vão para o poder para instalarem a família e os amigos nas empresas e instituições do Estado» (“quero denunciar e corrigir os salários dos ‘boys’ políticos, pois os dois grandes partidos do bloco central – PSD e PS – vão-se alternando no poder e distribuindo entre si esses cargos com remunerações imorais”);

2. «A corrupção, porque sem isso não teremos um país moderno e próspero» (“sem um combate eficaz à corrupção, não há medidas de austeridade que resistam e que salvem o país”);

3. «Lutar pela reforma da justiça em Portugal, porque a maioria dos magistrados do Ministério Público não defende o Estado Português e a justiça» (“a justiça portuguesa, em vez de defender o interesse do país, está ao serviço das máfias que roubam o povo português“).

De forma realista, são problemas de difícil intervenção e solução, porque fazem parte da genética portuguesa. Está entranhado na cultura. Mas é preciso denunciar e pressionar para que um dia acabem certas poucas-vergonhas e entraves ao desenvolvimento do País.

Mudar a cultura, a mentalidade e práticas ancestrais (endémicas) é algo complicado e demorado. Se calhar vamos precisar de bater bem no fundo, a nossa sobrevivência como colectivo estar em causa, para então esse mesmo colectivo entregar-se à evidência da necessidade de reformas profundas, para responsabilização de todos, sem excepção, e pôr o País a funcionar de forma civilizada e justa.

domingo, janeiro 02, 2011

Pôr a Madeira «em marcha» no século XXI vão ser elas

A entrevista a Miguel Albuquerque de hoje ao Diário, numa altura em que o seu partido se movimenta em direcção ao congresso em Abril e às Legislativas Regionais no Outono, é sintetizada na manchete com palavras perigosíssimas: «Novo ciclo, novas pessoas, novas políticas.» Sobretudo o «novas pessoas» deve ter arrepiado quase todo o PSD.

Bem como essa ideia de o partido não ser uma «central de distribuição de mordomias para meninos e meninas»...

Só quando as «dificuldades ao nível da economia, do turismo, dos serviços, do ambiente e do nosso tecido empresarial» entram pela casa dentro, com um elevado número de desempregados, é que nos lembramos de novos ciclos, mudança, quebra de rotinas e renovação? Não deveria haver um maior esforço de antecipação e prevenção dos problemas?

 «[O]lhar para o turismo como o vector estratégico e fundamental para o desenvolvimento da Região»? Antes de 1978 já era o sector fundamental da economia regional. Neste momento está no estado que sabemos.

Quem subestimou o peso do turismo e o geriu nos últimos 30 anos? Quem fala agora tanto em mar para captar mais turistas e nichos de turismo e se deu ao luxo de, por exemplo, destruir condições naturais na costa da ilha, ainda por cima com obras de duvidosa rentabilidade e com custos económicos, paisagísticos e ambientais?

Alguns surf breaks foram destruídos ou comprometidos quanto às suas condições excepcionais, em que o Jardim do Mar é um exemplo flagrante, ignorando-se o seu peso económico multiplicador, em determinadas localidades da Madeira. E agora é preciso «alargar a promoção», «melhorar os fluxos turísticos», quando se despreza a promoção de borla que o nicho do surf, por exemplo, fazia da ilha... da ilha autêntica, natural e exótica. A que atrai e interessa aos turistas.

Sem qualquer visão de futuro, cegos pelo eleitoralismo e pela construção desenfreada pela costa, o turismo ligado ao mar e de natureza como o surf foi apelidado de «pata-rapada»... Agora, em tempo de crise e vacas magras, bem que faria jeito ter esses «pata-rapada» a fazer turismo na Madeira... Pois, a Miguel Albuquerbe interessa é o «turismo das regatas», explicita na entrevista. O nicho do surf, que nem é preciso pagar para vir cá, bastaria não destruir as condições naturais, não interessa... É ignorado.

Agora, falta um plano estratégico para o turismo na Madeira, como tem colocado João Welsh, citado por Miguel Albuquerque na entrevista... Ver ainda opinião daquele empresário sobre a sua visão estratégica para o Destino Madeira. Se não for tarde demais. Se não tivermos ficado presos no século XX...

O governante afirma ainda que os «desafios [actuais] não são compatíveis com posturas acríticas relativamente ao que tem de ser mudado» e que «vivemos numa sociedade democrática, portanto não pode haver problema nenhum» quanto à crítica... Deveria já saber que crítica na nossa cultura é ser contra. Nem precisa de ser destrutiva...

Na Madeira nada muda. Ou muda tão lentamente que equivale a não mudar. Equivale a estar inerte.