Gostei desta preocupação de Gil Scott-Heron em escrever este conselho, no verso do booklet do seu CD mais recente, I'm New Here, de como ouvir um álbum numa primeira audição (clicar na imagem para melhor leitura).
Compreendo-o muito bem. E concordo. Ou não fosse semelhante o meu ritual.
Gosto de estar só, em silêncio, sem interrupções, sentado confortavelmente, com pouca luz, e ouvir na aparelhagem a sério (não num mp3 ou no carro) o novo disco com toda a concentração. Nessa primeira audição nem gosto de estar a ler as letras nem nada. Quanto muito a sentir o cheiro do papel do disco recém-desembrulhado.
A música tem todo o espaço para surgir e a mente e o corpo a disponibilidade para aborvê-la em todo o seu esplendor.
(Daí que a audição de música seja, na maioria das vezes, um acto solitário. Como ler um livro. Gil Scott-Heron não esquece a importância da partilha, se houver alguém com quem partilhar o disco e num momento posterior a esse sagrado primeiro contacto com a música.)
Como aconselha o músico, é assim que se tira toda a vantagem de um novo disco que se ouve. É ouvir nas melhores condições possíveis para tirar o máximo partido desse investimento.
O cantor diz ainda: «LISTEN all the way through», isto é, do princípio ao fim. É desta forma que um melómano deve ouvir um álbum. E pressionar Play logo que termina, para ouvir de novo, caso o disco seja arrebatador e nos impele a repetir a audição.
O novo álbum dos madeirenses Requiem Laus, As Long As Darkness Bleeds, está muito evoluído, consistente e coeso. Há boas dinâmicas entre as partes mais pesadas/rápidas e as ambiências (estão bem doseadas: não se prolongam mais do que o necessário). Há boas variações e transições. Os temas estão bem engendrados e montados, mantendo o interesse do ouvinte através de todo o disco.
Sem menosprezar o muito que está alcançado e o enorme passo dado neste As Long As Darkness Bleeds, com o produtor, o som e a editora certos os Requiem Laus podem fazer um álbum que os projecte para o topo mundial, como aconteceu com os Moonspell, por exemplo. É claro que o género que tocam os Requiem Laus é ainda mais underground do que o metal gótico dos criadores de Opium.
As Long As Darkness Bleeds seria favorecido por um maior kick (poder e corpo) nos bumbos da bateria, que tem a ver com amplitude sonora (extensão de agudos e graves, o que cria um bom constraste), importante para dar envolvência. Aliás, a grande vantagem de ouvir música ao vivo, além da presença física dos músicos, é a envolvência (visceral) proporcionada pelos graves.
Um apaixonado por graves como eu ainda é mais sensível a essa envolvência (calor) dado pelo baixo e a bateria. Não é por acaso que há produtores (como o americano Steve Albini) que são especialistas em gravar as frequências mais baixas, já que são difíceis de captar com todas as nuances, corpo e extensão.
A vocalização no álbum poderia estar gravada de forma a acompanhar mais as nuances da música, talvez com algumas passagens mais pausadas, arrastadas e dolentes. Mais uma vez, não é fácil captar essas nuances. É preciso condições atrás referidas.
A banda madeirense está de parabéns pelo excelente resultado, cujas letras são baseadas no conto do madeirense Jorge Ribeiro de Castro. O artwork, inclusive, tem muita qualidade. O álbum foi misturado e masterizado no Soundlodge Studio, na Alemanha, por Jörg Uken. Fica a faixa e vídeo Scarred Epiphany.
A banda pode ser contactada via myspace, facebook ou pelo email requiemlaus@hotmail.com. A venda do álbum é feita directamente pelos próprios elementos da banda. A t-shirt também é fixe e pode ser adquirida juntamente com o CD.
Swans em actuação na Aula Magna, Lisboa: intense as fuck (mais imagens)
O concerto de SWANS, ontem, 09 de Abril, na Aula Magna, em Lisboa, foi de uma intensidade invulgar, que mexeu com as vísceras. Das actuações ao vivo mais belas, electromagnetizantes, dark e demolidoras a que já assisti.
A banda entregou-se de corpo e alma, com uma precisão maquinal, a uma massagem sónica brutal ao público presente, tal como o líder Michael Gira terá dito uma vez que um concerto de Swans era, simultaneamente, «soul-uplifting and body-destroying».
Há uns meses descreveu bem a natureza do fenómeno: «Swans was never aggressive. I wanted to make sounds that were completely overwhelming, or sounds that just pummelled your body in a way that you might get pummelled by an especially brutal masseuse», disse Michael Gira à ROCK-A-ROLLA (oct/nov 2010). «It as a form of trying to experience something bigger than yourself».
O disco do regresso de Swans vem com o autocolante cujo texto corrobora o que já foi dito, o que poupa ao trabalho de andar aqui a "inventar" adjectivos: «Cataclysmic, pastoral, monotonal, bone-crushing, melodic, ever-ascending, dissonant, monstrous and joyful». Eu acrescentaria dois Ds: dark drone.
Foi precisamente tudo isto de que foi feito o furacão eléctrico-sónico que sacudiu o caruncho da Aula Magna, em cerca de duas horas e oito temas (os dois últimos já no encore):
No Words, No Thoughts (2010: My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky)
Jim (2010, idem)
Sex, God, Sex (1987: Children Of God)*
The Apostate (?) (novo)
I Crawled (1984: Cop)
Avatar (novo)
Eden Prison (2010: idem)
Little Mouth (2010: idem)
* durante Sex, God, Sex Michael Gira vai além da letra original e emite com veemência e autoridade intimidante, num tom evangélico e dramático: “JESUS CHRIST! SAY HIS NAME! JESUS! COME DOWN! COME DOWN NOW!”
Está tudo dito.
Podes ser visto aqui o encore em Lisboa, embora a gravação amadora não capte a magnitude do som, claro, vale pelas imagens. Para bom ver e ouvir é melhor esta gravação em Dublin, esta em França, esta em Itália (novo tema Avatar), esta em Manchester. O sincopado Jim é dos meus temas preferidos do mais recente disco de Swans. Outra gravação de Jim, em que se ouve bem o grave.
Fotografias neste álbum, da minha autoria via telemóvel e da autoria de outros, sobretudo do concerto de Lisboa, mas também de outros momentos da actual digressão de Swans.
Não se trata da factura final, mas a Marina do Lugar de Baixo continua a encarecer. Neste momento, segundo o Diário, a factura ronda os 80 milhões de euros:
«O custo do projecto da marina do Lugar de Baixo não pára de subir, sendo que o montante global dos investimentos já realizados ou em fase de concurso deverá ascender a cerca de 78,9 milhões de euros. A última factura desta obra foi conhecida segunda-feira: quase 256 mil euros (IVA incluído) para a empresa Kplano realizar a revisão do projecto e a fiscalização da empreitada de reconstrução dos paredões da marina.
Recorde-se que, no início do corrente mês, o DIÁRIO revelou que a Sociedade de Desenvolvimento Ponta Oeste (SDPO) lançou um concurso público para a construção de um novo enrocamento exterior de protecção daquela infraestrutura marítima, cujo preço-base é de 23,78 milhões de euros (IVA incluído). Entretanto, foi também publicado que a sociedade Abreu Advogados vai receber 5.800 euros para a prestação de assessoria jurídica ao lançamento deste concurso.
A fazer os últimos arranjos antes de ir embora, pá?
Um novo decreto-lei, publicado no dia anterior à reprovação do PEC IV, autoriza o Estado a gastar mais dinheiro, aumentando os limites dos contratos por ajuste directo sem concurso público, escreveu o Diário de Notícias no fim de semana.
Falta de sentido de Estado. É aumentar o despesismo, um incentivo à corrupção e, como já alguém já fez notar, uma forma de financiar campanhas eleitorais.
Os presidentes de câmara, por exemplo, podem agora fazer contratos por ajuste directo até aos 900 mil euros, quando o máximo era 150 mil.
O Governo dá um claro incentivo ao aumento de despesa em toda a administração pública ao mesmo tempo que vai ao bolso dos portugueses, de forma selvagem e por todas as vias.
Tenham vergonha e o mínimo de decência no momento em que estamos na bancarrota.
Os Mono são uma banda japonesa de rock instrumental (influenciados pelo rock experimental, música erudita e contemporânea, noise e minimalismo). Depois dos recentes acontecimentos trágicos no seu País, perguntaram-lhes "What can music do in this difficult time?"
O guitarrista Takaakira Goto respondeu: "I hope music can change our energy from darkness to hope. I feel like people turn to music when times are difficult so I hope they can find some peace in our songs. Our music always has both sides, dark and light, like a coin."
Cada ser humano tem os seus métodos de garantir o seu equilíbrio. Cada ser humano tem um estonteamento qualquer para suportar melhor as dificuldades da vida. A música tem um forte efeito terapêutico para alguns desses mortais.
"Music has the potential other arts don't have, which is to utterly change you within three minutes. Your whole body chemistry can change, your mood, your perspective..." Said Nick Cave [Mojo magazine, 2005]
Sábado de manhã, no âmbito do 1º Festival de Arte Sequencial da Madeira, teve lugar o workshop desenho de BD orientado por Roberto Gomes, muito interessante para quem gosta destas coisas, de experimentar ou de simplesmente conhecer mais sobre o processo de desenho de Banda Desenhada.
Aos participantes foi dada a oportunidade de desenhar elementos até criar um personagem de corpo inteiro. Primeiro, desenharam-se diversas cabeças a partir de fotografias de pessoas. O tempo sempre cronometrado. É importante a rapidez com que se encontram os traços essenciais. É desse processo que dá conta a imagem, em que o monitor exemplifica como transpor para desenho uma figura humana.
David Lloyd autografando o V For Vendetta que aqui o rapaz tinha por casa :)
David Lloyd esteve ontem na inauguração de uma exposição no Centro das Artes, na Calheta, sobre o famoso álbum (graphic novel) de banda desenhada V For Vendetta, que criou conjuntamente com o argumentista Alan Moore. A obra originou o filme com o mesmo nome, de 2006, que teve exibição na noite de sexta-feira, após a sessão de autógrafos.
Esta inesperada presença, na Região, mais especificamente na Calheta, de uma figura tão destacada do mundo dos comic books como David Lloyd, acontece no 1º Festival de Arte Sequencial, no Centro das Artes, que decorre até domingo, 27 de Março.
De crise em crise até à queda final. Segurem-se porque a queda vai doer a sério daqui a nada. Quem ainda não viu circunstâncias verdadeiramente selvagens, prepare-se.