«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

domingo, maio 29, 2011

Morreu Gil Scott-Heron

O mais recente disco de Gil Scott-Heron, de 2010, no qual vinha o conselho de como ouvir um disco pela primeira vez
I'm New Here, lançado no ano passado, foi o derradeiro disco do músico, poeta e spoken word performer Gil Scott-Heron, considerado o padrinho do Rap, embora não gostasse desse epíteto. O tema "The Revolution Will Not Be Televised" foi um marco.

Gil Scott-Heron foi um activista e ajudou a dar forma à emergente cultura hip hop. Gostava de descrever a sua obra como "bluesology", uma fusão de poesia, soul, blues e jazz, tudo disparado com uma acutilante consciência social e fortes mensagens políticas, abordando problemas como o apartheid ou as armas nucleares.

O seu último álbum foi o primeiro que comprei e a sua morte não passou despercebida nem indiferente. Há dezasseis anos que Gil Scott-Heron não lançava um novo disco de originais. Morreu em 27 de Maio, aos 62 anos.

O vídeo da sua versão do tema I'm New Here, um original de Bill Callahan, e The Revolution Will Not Be Televised, de 1971 (letra).

Tal como colocou Gil Scott-Heron, a revolução e a mudança não serão transmitidas na televisão porque começam na cabeça de cada um de nós (mentalidade, cultura, atitude), antes de se reflectirem nos nossos actos. Muito antes de aparecerem na televisão... Por isso, toca a mexer (e primeiro na nossa cabeça), porque a revolução e a mudança não chegam por via da televisão.

sexta-feira, maio 27, 2011

Em Portugal há alguns vendedores de ilusões, mas há ainda mais compradores

Mais do que as ilusões e as mentiras, o maior problema é haver quem as compre... por comodismo e conforto
«Em Portugal há alguns vendedores de ilusões, mas há ainda mais compradores» (Pedro Santos Guerreiro, Jornal de Negócios 26.05.2011).

E os portugueses, na sua endémica dificuldade de aderir à realidade, queriam ouvir as mentiras todas porque lhes eram confortáveis.

Agora vão pagar bem duro o facto de terem comprado demasiadas ilusões e mentiras que nos levaram à pré-bancarrota.

E nada de culpar só os políticos. Eles foram eleitos. Eles são o nosso reflexo. Nós pactuamos e eternizamos uma certa cultura, certas mentalidades e certas mentiras.

Recorde-se:
Vendilhões de ilusões

Vendilhões de ilusões

Clicar na imagem para leitura
Foi desta forma que intitulei um artigo de opinião no Jornal da FENPROF #245, de Setembro de 2010. Exemplifiquei com algumas ilusões e mentiras no sector da Educação, que o Governo da República, liderado por José Sócrates, vendeu aos portugueses. E que estes alegremente compraram.

Muitas outras mentiras e ilusões foram vendidas e compradas, ao ponto de nos encontrarmos numa situação gravíssima de pré-bancarrota, sujeitos a uma troika que nos vem dizer como nos devemos governar de forma a pagarmos o que devemos (gastámos acima das nossas possibilidades).

Não vale a pena nos andarmos a queixar dos maus políticos que escolhemos, quando não queremos olhar a realidade e assumir a mudança.

É preciso exigir e querer que nos falem verdade. A mentira não compensou.

domingo, maio 22, 2011

William Klein no Centro das Artes (Calheta)

William Klein, à esquerda, a fotografar, no Centro das Artes, na Calheta, ontem à tarde
O I Festival de Cinema Documental da Madeira faz uma homenagem e retrospectiva do trabalho de William Klein. Nos dias 19, 20 e 21 são mostrados sete filmes de um dos artistas mais influentes e controversos do século XX. É cineasta, fotógrafo, designer gráfico e pintor. É considerado entre a melhor dezena de fotógrafos de sempre.

O documentário, ou cinema da verdade, é um género cinematográfico caracterizado pelo compromisso com a exploração da realidade, embora seja sempre uma representação parcial e subjectiva da realidade. Contribui para a formação cívica e intelectual do espectador, conduzindo-o ao conhecimento, à reflexão e ao debate, e também ao prazer artístico proposto por cada autor.

Fotografia captada com telemóvel Nokia com câmara 3.2 megapixel

segunda-feira, maio 16, 2011

História Rapidinha da Crise faz sucesso

Momento da entrada dos actores em cena na "História Rapidinha da Crise", que estará em cena entre 20 e 29 de Maio, na sala de congressos do CS Madeira. Vale a pena assistir
A História Rapidinha da Crise é uma «comédia bufa que tenta explicar, de um modo rápido e conciso, como é que chegámos ao estado em que estamos», diz-se sobre a comédia estreada no dia 12 de Maio, no Centro das Artes, com sessões esgotadas até Domingo passado.

Com um elenco composto por Nuno Morna, Pedro Ribeiro, Paulo Lopes, Pedro Afonseca, Rodolfo Sousa e Rui Rodrigues, o principal alvo deste novo trabalho é o sistema económico e financeiro, mas disparam para todos os lados e ai está a riqueza activista da peça, que denuncia uma série de realidades.

Entre elas, as críticas à esquerda política, irrealista e cristalizada no discurso, ou as subversões do Estado de Providência, que mimou muitos portugueses. Nem a Marina do Lugar de Baixo escapa... A rir se falam de realidades muito sérias e se incomodam e despertam consciências.

Claro que sabemos que falta regulação e moralidade na forma como funciona o criticado sistema financeiro, mas essa é mais uma razão para os políticos terem juízo quando endividam o País ao ponto de ficar dependente e nas mãos desse sistema que tanto criticamos. Metemo-nos na boca do lobo.

Enquanto não chega a revolução que alguns advogam para mudar esse sistema, aí está a Troika para assegurar que pagamos o que devemos. Se não conseguirmos pagar o que devemos, podemos ter a Troika ciclicamente por cá... Corremos o risco de uma tROIKA fOREVER...

No final a mensagem de que é hora de parar de "cagar nisso", atitude endémica, e tentar fazer alguma coisa. Primeiro, é preciso aderir à realidade, em lugar do deixa andar ou acreditar nas ilusões que nos vendem.

A História Rapidinha da Crise é ainda defnido como um «espectáculo catártico onde público e actores têm a oportunidade de deitar tudo, salvo seja, cá para fora.»

sábado, maio 14, 2011

Gosto pelo acessório, pela forma, pelo pitoresco

Os "piiiii..." do Catroga por Henrique Monteiro
Dar importância à expressão vernácula de Eduardo Catroga (entrevista na SIC Notícias na noite de quinta-feira passada) confirma o nosso gosto bem português de confundir o acessório com o essencial, e valorizar a forma em detrimento do conteúdo. Ninguém fala ou debate o que de certo ou errado disse Catroga sobre o futuro do País. Isso não interessa...

Gostamos dos faits divers, do pitoresco, do folclore, das curiosidades, do riso, do gozo, da distracção. Desde que nos garanta escapar da realidade. Assim não vamos lá.

Sinal de protesto


Se é um cidadão* cONSCIENTE e cRÍTICO relativamente à forma como Portugal tem sido dESGOVERNADO nos últimos seis anos, ao ponto de ficarmos na bancarrota, na sequência de erros graves, excessos eleitoralistas e satisfação da clientela partidária, sem esquecer as irresponsabilidades de governos anteriores, e deseja dar um sinal de pROTESTO, compre esta bela t-shirt por apenas nove euros. Campanha limitada ao stock.

*Não é o cidadão comum que é responsável pela vinda da tROIKA a Portugal (a não ser que tenha ido ou vá em cantigas e ilusões), para fazer aquilo que não conseguimos fazer: nos governarmos com racionalidade e realismo. É triste, é um enxovalho, mas é a realidade.

NOTAS:
1. tROIKA fOREVER", além do pROTESTO e da cRÍTICA, é um aLERTA para um perigo caso continuemos no mesmo caminho irracional e irrealista. Se não houver mudança de rumo arriscamo-nos a ter a troika ciclicamente por cá, no futuro, e a perder mais soberania. Perda de soberania por culpa própria por mais que se diabolize o mercado, o sistema financeiro e a tROIKA (não esquecer que a União Europeia faz parte da tROIKA, além do FMI e do BCE). Quem não queria a tROIKA e as suas consequências não nos tivesse arrastado para a bancarrota.

2. É claro que o fOREVER é uma provocação. Uma grande provocação... É preciso manter o sentido de humor no meio disto tudo... através da mais fina ironia.

3. O fOREVER é pura ironia, deixando-se ao leitor a possibilidade de perceber a distância intencional entre aquilo que é dito e aquilo que realmente se pensa, para obter desse leitor uma reacção. Quem percebe a ironia diverte-se, quem se fica pelo sentido literal incomoda-se e até se zanga... Como já se disse, o objectivo é a denúncia, a crítica e o protesto (em várias frentes), bem como o alerta, a leitura activa e posicionamento da parte de quem lê. Com a aparente valorização da realidade descrita, a chamada tROIKA, se desvaloriza (e contesta) essa mesma realidade (mas valorizando-se outras realidades, como a situação do País e a desgovernação que nos fez chegar a este estado).

domingo, maio 01, 2011

The most powerful band in the world live

Michael Gira diz adeus no final do último concerto de SWANS, em Londres, em 15 de Março de 1997 (fotografia de Twomberly Canale). Regressariam com novo disco em 2010, dando um concerto memorável em Lisboa (9 de Abril do corrente) provando que «they were, are, and will always be the most powerful band in the world live» (Drew West, Ink #19 04/01/1998).

sexta-feira, abril 22, 2011

Como ouvir um disco pela primeira vez


Gostei desta preocupação de Gil Scott-Heron em escrever este conselho, no verso do booklet do seu CD mais recente, I'm New Here, de como ouvir um álbum numa primeira audição (clicar na imagem para melhor leitura).

Compreendo-o muito bem. E concordo. Ou não fosse semelhante o meu ritual.

Gosto de estar só, em silêncio, sem interrupções, sentado confortavelmente, com pouca luz, e ouvir na aparelhagem a sério (não num mp3 ou no carro) o novo disco com toda a concentração. Nessa primeira audição nem gosto de estar a ler as letras nem nada. Quanto muito a sentir o cheiro do papel do disco recém-desembrulhado.

A música tem todo o espaço para surgir e a mente e o corpo a disponibilidade para aborvê-la em todo o seu esplendor.

(Daí que a audição de música seja, na maioria das vezes, um acto solitário. Como ler um livro. Gil Scott-Heron não esquece a importância da partilha, se houver alguém com quem partilhar o disco e num momento posterior a esse sagrado primeiro contacto com a música.)

Como aconselha o músico, é assim que se tira toda a vantagem de um novo disco que se ouve. É ouvir nas melhores condições possíveis para tirar o máximo partido desse investimento.

O cantor diz ainda: «LISTEN all the way through», isto é, do princípio ao fim. É desta forma que um melómano deve ouvir um álbum. E pressionar Play logo que termina, para ouvir de novo, caso o disco seja arrebatador e nos impele a repetir a audição.

quarta-feira, abril 20, 2011

Requiem Laus dão grande salto


O novo álbum dos madeirenses Requiem Laus, As Long As Darkness Bleeds, está muito evoluído,  consistente e coeso. Há boas dinâmicas entre as partes mais pesadas/rápidas e as ambiências (estão bem doseadas: não se prolongam mais do que o necessário). Há boas variações e transições. Os temas estão bem engendrados e montados, mantendo o interesse do ouvinte através de todo o disco.

Sem menosprezar o muito que está alcançado e o enorme passo dado neste As Long As Darkness Bleeds, com o produtor, o som e a editora certos os Requiem Laus podem fazer um álbum que os projecte para o topo mundial, como aconteceu com os Moonspell, por exemplo. É claro que o género que tocam os Requiem Laus é ainda mais underground do que o metal gótico dos criadores de Opium.

As Long As Darkness Bleeds seria favorecido por um maior kick (poder e corpo) nos bumbos da bateria, que tem a ver com amplitude sonora (extensão de agudos e graves, o que cria um bom constraste), importante para dar envolvência. Aliás, a grande vantagem de ouvir música ao vivo, além da presença física dos músicos, é a envolvência (visceral) proporcionada pelos graves.

Um apaixonado por graves como eu ainda é mais sensível a essa envolvência (calor) dado pelo baixo e a bateria. Não é por acaso que há produtores (como o americano Steve Albini) que são especialistas em gravar as frequências mais baixas, já que são difíceis de captar com todas as nuances, corpo e extensão.

A vocalização no álbum poderia estar gravada de forma a acompanhar mais as nuances da música, talvez com algumas passagens mais pausadas, arrastadas e dolentes. Mais uma vez, não é fácil captar essas nuances. É preciso condições atrás referidas.

A banda madeirense está de parabéns pelo excelente resultado, cujas letras são baseadas no conto do madeirense Jorge Ribeiro de Castro. O artwork, inclusive, tem muita qualidade. O álbum foi misturado e masterizado no Soundlodge Studio, na Alemanha, por Jörg Uken. Fica a faixa e vídeo Scarred Epiphany.

A banda pode ser contactada via myspace, facebook ou pelo email requiemlaus@hotmail.com. A venda do álbum é feita directamente pelos próprios elementos da banda. A t-shirt também é fixe e pode ser adquirida juntamente com o CD.

É pensar agora no próximo salto.

domingo, abril 10, 2011

Swans, a terrible beauty beast (a)live


Swans em actuação na Aula Magna, Lisboa: intense as fuck (mais imagens)

O concerto de SWANS, ontem, 09 de Abril, na Aula Magna, em Lisboa, foi de uma intensidade invulgar, que mexeu com as vísceras. Das actuações ao vivo mais belas, electromagnetizantes, dark e demolidoras a que já assisti.

A banda entregou-se de corpo e alma, com uma precisão maquinal, a uma massagem sónica brutal ao público presente, tal como o líder Michael Gira terá dito uma vez que um concerto de Swans era, simultaneamente, «soul-uplifting and body-destroying».

Há uns meses descreveu bem a natureza do fenómeno: «Swans was never aggressive. I wanted to make sounds that were completely overwhelming, or sounds that just pummelled your body in a way that you might get pummelled by an especially brutal masseuse», disse Michael Gira à ROCK-A-ROLLA (oct/nov 2010). «It as a form of trying to experience something bigger than yourself».

O disco do regresso de Swans vem com o autocolante cujo texto corrobora o que já foi dito, o que poupa ao trabalho de andar aqui a "inventar" adjectivos: «Cataclysmic, pastoral, monotonal, bone-crushing, melodic, ever-ascending, dissonant, monstrous and joyful». Eu acrescentaria dois Ds: dark drone.

Foi precisamente tudo isto de que foi feito o furacão eléctrico-sónico que sacudiu o caruncho da Aula Magna, em cerca de duas horas e oito temas (os dois últimos já no encore):

No Words, No Thoughts (2010: My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky)
Jim (2010, idem)
Sex, God, Sex (1987: Children Of God)*
The Apostate (?) (novo)
I Crawled (1984: Cop)
Avatar (novo)
Eden Prison (2010: idem)
Little Mouth (2010: idem)

* durante Sex, God, Sex Michael Gira vai além da letra original e emite com veemência e autoridade intimidante, num tom evangélico e dramático: “JESUS CHRIST! SAY HIS NAME! JESUS! COME DOWN! COME DOWN NOW!”

Está tudo dito.

Podes ser visto aqui o encore em Lisboa, embora a gravação amadora não capte a magnitude do som, claro, vale pelas imagens. Para bom ver e ouvir é melhor esta gravação em Dublin, esta em França, esta em Itália (novo tema Avatar), esta em Manchester. O sincopado Jim é dos meus temas preferidos do mais recente disco de Swans. Outra gravação de Jim, em que se ouve bem o grave.

Fotografias neste álbum, da minha autoria via telemóvel e da autoria de outros, sobretudo do concerto de Lisboa, mas também de outros momentos da actual digressão de Swans.

Ainda notas sobre a actual digressão:
Porto Casa da Música April 2011
Portland March 2011
Londres November 2010

Documentário sobre Swans

(Actualizado 22 de Abril de 2011)

segunda-feira, abril 04, 2011

Oh doce realidade...

Não há motivos para sorrir, pá
A realidade está a trocidar este homem, juntamente com os portugueses que foram atrás das ilusões que ele lhes vendeu nos últimos anos.