«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

segunda-feira, agosto 22, 2011

O que têm hormonas e orgasmos a ver com racionalidade e realismo?


Momentos «ensopados» em testosterona e «pré-coito» são inimigos da racionalidade e do realismo...

«Claro que, mais tarde, Joey percebeu que os primeiros dias ensopados em hormonas de um período de longa abstinência era uma altura menos do que ideal para tomar decisões importantes acerca do futuro», podemos ler no Liberdade de Jonathan Franzen, romance épico americano de 2010 (edição portuguesa de Abril de 2011).

Na mesma página 508 daquela obra monumental, sobretudo pelo conteúdo e não pelo número de páginas, claro, lemos ainda a propósito: «Percebeu que as decisões pós-coito eram mais realistas do que as pré-coito. No entanto, naquele momento, não houvera nenhum pós, fora tudo pré sobre pré sobre pré.»

Esta é uma verdade universal, inerente à condição humana, que afecta o ser humano nas suas decisões. E pode afectar mesmo as decisões mais importantes que se tomam no planeta.

Enfim, não vão ficar a especular se a célebre cena na Sala Oval da Casa Branca se deveu a pouca racionalidade do presidente por estar em estado pré-coital e não pós-coital... Ou qual seria o estado de um outro presidente quando decidiu atacar o Iraque...

Não vamos chegar ao ponto de receitar um coito (e orgasmo) antes da tomada de qualquer decisão, em que o realismo e a racionalidade são importantes para a melhor opção, mas ao estarmos conscientes disso poderemos então "dar o desconto"... e evitar a armadilha da insensatez, da irracionalidade ou do pensamento tomado pela testosterona, também denominado de raciocínio pré-orgásmico.

Tal como não se deve ir às compras no supermercado com fome, mas antes saciado, para não comprar o que não se quer, e evitar se arrepender depois, também não devemos tomar uma decisão com muita tensão hormonal («ensopados em hormonas», como se lê no romance citado), isto é, devemos estar saciados como no pós-coito e pós-orgasmo, para termos a certeza que decidimos o que realmente queremos, com lucidez, com racionalidade, com distanciamento, e não inebriados eroticamente.

Parece que estou a glosar e a decompor uma questão de menor importância, primitiva, mas não deixa de ser uma evidência e uma questão primordial. Necessidades primordiais como o erotismo, a sede ou a fome não são brincadeiras e podem toldar o raciocínio e a acção de quem não tem as necessidades minimamente saciadas ou, diria, aplacadas ou geridas.

A energia erótica é bela e tem um potencial enorme, mas se temos uma decisão importante a tomar e não há hipótese de a tomar numa situação de pós-coito (pós-orgásmica), não vamos entrar em pânico.

Mesmo que esteja num estado de testosterona imprudente... há a hipótese da auto-suficiência, há quem aprecie muito e tem enorme grau de viabilidade pela economia de recursos e ficar ali à mão, mas para os mais pudicos (e menos práticos) há formas místicas e espirituais de sublimar a tensão e as energias eróticas de forma a não nos perturbar ou toldar a racionalidade, seja num comportamento decisório ou de qualquer outro tipo. Isto é, a canalizar a energia para outras dimensões, mais elevadas, do nosso corpo e do nosso ser, com vantagem para nós, as nossas decisões, estabilidade e bem-estar.

(Não fique agora a pensar que, aquelas pessoas que, em momentos de decisão, dizem "vou ali e já venho" vão tratar de passar do perigoso, porque onírico, estado pré-orgásmisco a um estado pós-orgásmisco para fazer disparar os níveis de sensatez.)

No âmbito da religiosidade mais forte, um método de sublimar (aliviar) tais energias seria a auto-flagelação (umas vergastadas auto-infligidas nas costas), mas um bom jejum ou um retiro regado com muita culpa interior, também ajuda.

São meios de purificação que podem ser do seu agrado, desde que tenha o cuidado de o método da auto-flagelação não se tornar patológico ou, muito menos, ganhar contornos ou resvalar para o sadomasoquismo, porque, falando metaforicamente, aí então seria pior a cura do que a doença - ou pior a emenda do que o soneto, para meter alguma poesia nisto.

Importante: não tentar isto em casa.

domingo, agosto 21, 2011

THE LEGENDARY TIGERMAN rocks



THE LEGENDARY TIGERMAN, sozinho, derramou o seu blues rock primitivo, intenso, visceral no Funchal Music Fest 2011 (fotografias com câmara de telemóvel 3.2 megapixel)

Depois de abrir o concerto com "Life Ain't Enough For You" (2009), um dueto virtual via projecção vídeo com Asia Argento, o Tigerman dedicou "Walkin' Downtown" (2006) a Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, banda que se seguiria, no cartaz.

Rolou "Light Me Up Twice" (2009) tema em parceria com Cláudia Efe, que fala de Deus estar em toda a parte, mesmo nos sítios mais inesperados..., seguindo-se o blues primitivo de "Naked Blues" (2002), com a projecção simultânea do respectivo vídeo, nos dois écrans em pleno palco a ladear o one-man band, que declara então que há sempre algo de primitivo numa pessoa civilizada. E avisou que tinha um «humor seco», que o público não precisava de rir, que ele já estava habituado a isso...

A componente visual, seja em palco seja em disco, é uma vertende muito cuidada por parte de Paulo Furtado, com uma intenção, sabendo quem o que quer, atento à linguagem multimédia enquanto reforço da música em si e do espectáculo ao vivo. É um espectáculo multi-arte, que abarca várias vertentes e modalidades. A música tem determinado envolvimento, criando um imaginário interessante.

O grave do pedal de bateria soava forte e radical, criando envolvimento e conferindo impacto, nas vísceras de cada um, literalemente. Esta base primordial (primário ao ponto de acompanhar a batida do coração) tem de ser forte para dar o ritmo e o one-man show ficar liberto para gerir o resto. Aliás, o som dos Xutos & Pontapés não estaria tão in your face e radical, no que concerne aos graves, como na actuação de Tigerman. Xutos era Pop.

"Radio & TV Blues", em que criticou o pouco espaço que a música concedido à música nas rádios e televisões, antecedeu o dueto com Rita Redshoes para "Hey, Sister Ray" (2009), um momento alto da actuação, mas cada tema acabou por ser um momento alto. "The Saddest Thing to Say", com Lisa Kekaula (ela projectada a cantar nos écrans no palco) antecedeu os quatro temas rock a abrir, como fez questão de avisar o one-man band.

Entre esses temas, o primeiro deles com travo punk, que não identifiquei o título, ainda não conheço bem os dois primeiros álbuns, seguiu-se "I Got My Night Off" (2009) («mas hoje estou a trabalhar para o rock and roll», declarou Paulo Furtado), ao que sucedeu um tema rápido, outro que não identifiquei, fechando com "Big Black Boat" (2003), que teve o cuidado de avisar não ser para meninos.

Apesar do travo rock alternativo e visceral, o público, pelo menos ali junto ao palco, mostrou que digeriu bem aquela música «primitiva» e gritou por um encore - não sabemos se por hábito... O Tigerman voltou a afiar as garras e debitou então o selgavem "She Said" (2002). Outro momento de destaque, com humor à misturam conhecendo-se o tema.

Brilhante. Tigerman fucking rocks! Não vejo a hora de o apanhar outra vez ao vivo. Mas desta feita  num ambiente mais intimista, numa sala fechada, com público mais específico e reduzido. E, já agora, sem pedir encore, porque é sinónimo que nos arrasou.

Foi THE LEGENDARY TIGERMAN que me levou ontem ao segundo dia do Funchal Music Fest 2011. Vi antes Rita Redshoes, interessante mas não a minha cena, fiquei para os Xutos & Pontapés e também gostei, mas depois do one-man band, o grupo de Zé Pedro soou Pop...

Nota biográfica e discográfica:

Paulo Furtado (ex-Tédio Boys e líder dos WrayGunn) é o talento por detrás da one-man band THE LEGENDARY TIGERMAN, que conta com os álbuns Naked Blues (2002), Fuck Christmas, I Got the Blues (2003), Masquerade (2006) e Femina (2009). Sem esquecer "In Cold Blood" (2004), álbum fotográfico + CD, e a Banda Sonora Original do Filme Tebas (2009), de Rodrigo Areias, que aproveitei para comprar no concerto em vinil (a estética visual do LP é soberba, além do principal: a música).

Tigerman é um rock'n'roller ao estilo do velho contador de histórias de amor, sexo, crime e perdição. A passagem pelo Mississipi, nas múltiplas digressões da lendária banda de Coimbra em terras do tio Sam, serviu de inspiração para este projecto onde Paulo Furtado, munido de guitarra, kazoo, bombo e pratos de choque reinventa a tradição dos bluesman do Delta. The guy is for real. Ele bebeu a cultura e, mais do que isso, a atitude, na sua fonte.

quinta-feira, agosto 18, 2011

Razões para ir ao Porto Santo

Exotismo da praia ao Porto Santo exerce enorme poder de atracção, mas Porto Santo não deve ser vendido como destino de sol e praia, que são "apenas" complementos ao destino
imagem nelio de sousa 2011 (telemóvel 3.2 megapixel camera)

Depois do post polémico de há três anos em que avancei razões para não ir ao Porto Santo, chegou a hora que avançar as razões para ir à idílica Ilha Dourada.

Continuo a ser crítico ao preço muito "dourado" dos transportes para a ilha vizinha, comparado com o que acontece em Canárias, por exemplo, ou nos Açores. Continuo a considerar excessivo o tempo de 2h30m de viagem de barco. O tempo é muitas vezes instável e ventoso, natural na posição geográfica em que se situa (daí o erro de vender o destino como sol e praia, gerador de expectativas que desiludem os turistas e condicionam regresso). Sendo a ilha pequena, vêem-se as mesmas caras que se vêem durante o ano na Madeira (evitar os circuitos mais habituais). Custos em estadia e alimentação elevados. Há ainda a demasiada construção em algumas zonas.

O Porto Santo é argumento para evitar praias artificiais de areia na Madeira, umas ilhas minúsculas e caras de areia amarela rodeadas de cimento por todos os lados. Quem quer areia amarela autêntica que vá ao Porto Santo, em lugar de destruir a autenticidade da costa madeirense.

Que razões levam as pessoas ao Porto Santo?

1. Segurança.
2. Tranquilidade.
3. Exotismo e qualidade onírica da ilha.
4. Terapias (areias).
5. Actividades: em terra (caminhadas, passeios a cavalo, golf, etc.) e no mar (mergulho, pesca, etc).
6. Sol e praia (em complemento a tudo o resto).
7. Estar perto da Europa central.

Vender o Porto Santo, prioritariamente, como sol e praia, apenas aprofunda a sua sazonalidade, e enveredar pela construção massiva de hotéis, quando há um grande hotel ainda por acabar e viabilizar, demonstra uma estratégia baseada em equívocos. Não há condições para a massificação turística. Os governantes podem estar bem intencionados, mas poderão estar equivocados. Por mais que dê jeito a construção, no imediato.

A questão do Porto Santo como destino turístico está muito bem situada pelo artigo de opinião de Catanho Fernandes (Diário 18.8.2011).

____
Fui ao Porto Santo, pela primeira vez, aos 7 ou 8 anos de idade. No Pirata Azul. Na altura, após o comum enjoo no barco, logo que pus os pés em terra, virei-me para meus pais e disse algo como «ao Porto Santo nem mais um pingo». Ou seja, nunca mais. Mas nunca se deve dizer nunca, aprendi depois...

Ficou então uma memória de paraíso: na acostagem ao cais do Porto Santo nos anos 70 ficou gravado o exótico azul-esverdeado da água e o dourado da areia, que exercem um decisivo poder de atracção, no meu caso.

A qualidade onírica que tem a ilha induz o escape, o distanciamento do quotidiano e permite o descanso. Para mim, o principal atractivo.

«Ausência de espírito crítico» e «insuficiência de intervenção da sociedade civil»

Monteiro Diniz foi uma personalidade que deixou marca pela acutilância da sua análise sobre a sociedade e cultura madeirenses

«Há ausência de espírito crítico» e «insuficiência de intervenção da sociedade civil», constata Monteiro Diniz, ex-Representante da República para a Madeira (Diário 23.7.2011).

O juiz conselheiro considera que os madeirenses não querem ouvir «coisas, que dentro de um certo condicionalismo, constituem matéria de silenciamento no plano global da colectividade madeirense.» E, segundo ele, «não é só no plano político, do poder e da oposição, nem da sociedade civil, nem das instituições.» Conclui que «há um sentimento global que traduz uma espécie de tabu sobre as realidades da Madeira, que não são aprofundadas.» Isto para além da «ausência de espírito crítico por parte da sociedade civil.»

Monteiro Diniz promete, no seu livro, «tentar fazer uma escalpelização do porquê desta insuficiência de intervenção da sociedade civil», que tem, a seu ver, «várias causas, umas históricas, outras mais remotas.»

Espero com grande interesse o livro que está a escrever, onde, promete, dirá aquilo que os madeirenses não querem ouvir. O ex-inquilino do Palácio de São Lourenço cita George Orwell: «se a palavra liberdade significa alguma coisa, significa acima de tudo a liberdade de dizer às pessoas aquilo que elas não querem ouvir.» Um olhar do exterior por vezes é mais incisivo e lúcido. E também porque até santos da casa não fazem milagres, isto é, não lhes é dada credibilidade.

Na citada entrevista ao Diário, diz ainda que «em determinadas áreas podia dizer que era mais autonomista que muitos autonomistas, porque tinha uma visão racionalizada e não emotiva da autonomia.»
Memória:
A excelente e marcante entrevista-lição de 12.11.2008, na qual Monteiro Diniz explicou determinado comportamento endémico:

Lição de Monteiro Diniz (intro)
Lição de Monteiro Diniz (parte 1)
Lição de Monteiro Diniz (parte 2)
Lição de Monteiro Diniz (parte 3)

«É uma cultura cívica. O problema é de civismo, de cidadania, de cultura, de qualidade da cidadania.» «Comportamento de harmonia com as altas funções que exercem».

Outras lições:
A lição de Monteiro Diniz
Regiões usam pouco a autonomia
Anormalidade comportamental e democrática continuará
Anormalidade comportamental e democrática continua(rá) 2

quarta-feira, agosto 17, 2011

Marina do Lugar de Baixo já leva 105 milhões (actualizado 17.8.2011)

«Quatro novas facturas fazem preço final subir em mais 26 milhões de euros», noticia o Diário
Por dizer tudo, limito-me a reproduzir, com a devida vénia, a notícia do Diário de 16 de Agosto de 2011, para memória futura, assinada pelo jornalista Miguel Fernandes Luís, mas com fotografia aqui do rapaz (22 de Dezembro de 2010):

«O custo total da Marina do Lugar de Baixo já deverá rondar os 105 milhões de euros, após sucessivos contratos de construção e reparação daquela infraestrutura e obras em fase de adjudicação.

No final de Março, o DIÁRIO fez o balanço dos custos desta marina localizada no concelho da Ponta do Sol. Na altura, a estimativa apontava para um custo global que rondava os 78,9 milhões de euros. Mas desde então quatro novas facturas, num valor conjunto de 26 milhões de euros, vieram agravar o preço da obra. A factura mais recente foi conhecida há pouco mais de uma semana: 1,1 milhões de euros para o "reperfilamento dos fundos marítimos da baía do Lugar de Baixo", uma empreitada adjudicada por ajuste directo à 'Afavias - Engenharia e Construções', do empresário Avelino Farinha. O 'reperfilamento' consiste no desassoreamento da entrada da marina e zonas adjacentes.

Além deste contrato, houve outro ajuste directo à 'Afavias - Engenharia e Construções' para a reabilitação das infraestruturas terrestres e da bacia de estacionamento (poente), no montante de 1,3 milhões de euros e ainda um ajuste directo de 20 mil euros para a fiscalização desta última obra. Neste último caso, os trabalhos ficaram a cargo da empresa 'Moura & Moura Lda'.

A quarta e última factura é a mais cara. Trata-se da empreitada de 'reconstrução dos paredões da Marina do Lugar de Baixo (obras marítimas)', cujo concurso foi lançado em Fevereiro, com o valor base de 23,6 milhões de euros. O DIÁRIO procurou saber a situação deste contrato, ao qual concorreram seis empresas/consórcios mas a Sociedade Ponta do Oeste e a Vice-Presidência do Governo não responderam ao pedido de informações que lhes foi endereçado na última quarta-feira.

Todos os montantes acima citados incluem a taxa de IVA, a qual integra necessariamente o preço final da obra.»

Nota (17.8.2011):
O Diário hoje traz notícia em que a Sociedade de Desenvolvimento Ponta Oeste (SDPO) desmente os números do custo associado à Marina do Lugar de Baixo avançados pela notícia do dia anterior, sem avançar o valor global da infraestrutura, alegando que os trabalhos da escarpa sobranceira e o depósito dos materiais no aterro de protecção da marina não lhe podem ser imputados. Como se nada tivessem a ver com a marina. Constituiu, sim, objecto de uma nova notícia: a «Lei de Meios custeia a marina». A obra de reconstrução dos paredões da marina, cujo concurso teve um valor-base de 23,5 milhões de euros (IVA incluído), é "financiada pela Lei de Meios, na medida que se trata de um aproveitamento dos materiais das limpezas do temporal de Fevereiro de 2010", confirmou a SPDO.

Memória:
Marina do Lugar de Baixo com viabilidade à vista cerca de 50 milhões depois? (2)
Marina do Lugar de Baixo com viabilidade à vista cerca de 50 milhões depois? (1)

terça-feira, agosto 16, 2011

Dão-lhes estrada com muralha mas Paul do Mar quer túnel

O desejo maior do Paul do Mar é o túnel que ligará Jardim do Mar ao Estreito da Calheta, pela enorme insegurança do troço

Paul do Mar foi presenteado, no dia 12 de Agosto, com a decisão do Governo em avançar com a construção do prolongamento da muralha de protecção e nova estrada, desde o cemitério até ao cais, mas, a prioridade das prioridades, ao que apurou o Diário (14.8.2011) «junto das 'forças vivas' da freguesia e do concelho, dois dos quais ligados ao PSD-Madeira», continua a ser o «túnel que ligará o Jardim do Mar ao Estreito da Calheta e, consequentemente, garantirá a toda a população, visitantes e turistas, uma passagem segura que a actual estrada que tem sido um perigo constante, principalmente nos últimos tempos.»

Significa que, antes da prioridade da segurança no troço de acesso ao Jardim do Mar e Paul do Mar, se avançou com muitas obras não tão prioritárias nas duas freguesias à beira-mar, entre elas promenades para passear. Primeiro, as obras na costa, como se as populações estivessem para ser engolidas pelo mar de um momento para o outro, só depois se pensou em proteger as vidas em risco pelas frequentes derrocadas do penhasco sobranceiro no acesso ao Estreito da Calheta.

Tanto Governo, como as populações acríticas, deram outras prioridades no passado. Só mais recentemente acordaram para a necessidade do túnel quando viram muitas pedras a rolar nos últimos dois invernos... Esquecendo que, em 1999, outros já se preocupavam com o problema e reivindicavam o túnel. Mais vale tarde do que nunca, esperemos apenas que não tenha sido demasiado tarde - haverá dinheiro?

«Em conversa com o DIÁRIO, tanto o presidente da Junta de Freguesia do Paul do Mar, José Gonçalves, e o deputado regional social-democrata Agostinho Gouveia, acreditam que esta obra satisfaz plenamente as aspirações do povo pauleiro, cuja ligação ao mar sempre esteve sujeita à sua natureza incontrolável, mas também dizem que não será esquecida a urgência do túnel rodoviário, que está prometido para o próximo programa de governo do PSD. Aliás, o deputado afirma convictamente que entre as duas obras, preferiria o túnel, mas que esta, por ter o projecto bem mais avançado, tinha que ir para a frente agora, mesmo não estando pronto a tempo de eleições.»

Recordar:
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 8 (Pedras em 25.11.2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 7 (acção do CDS-PP em Julho de 2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 6 (capa do Diário em 11.03.2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 5 (Pedras em 6 e 9 de Março 2010)
- Em 1999, abaixo-assinado reivindicara túnel (lembrar-se de Santa Bárbara apenas quando dá trovões)
- Ganha força a reivindicação de um túnel para acesso seguro ao Jardim do Mar e Paúl do Mar (posição da Câmara da Calheta)

- Derrocadas
- Segurança das pessoas deveria estar em primeiro lugar (Pedras em 10.07.2009)
- Jardim do Mar «mais seguro»?
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 4 (Pedras início Fevereiro 2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 3 (Diário aborda problema em 14.02.2008)
-Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 2 (Pedras em 04.10.2009)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 1 (Pedras em 15.12.2009)

segunda-feira, agosto 15, 2011

Dívida da Madeira

Os opositores da actual governação regional certamente bendizem (abençoam e louvam) a Troika por ter detectado a derrapagem de 277 milhões nas contas da Região...

Cada madeirense "deve" 27 mil euros, segundo as contas que o Diário (14.8.2011) fez com base na dívida pública da Madeira, dividida por cada um dos 260 mil habitantes, nos números apurados pela oposição: uma dívida acumulada de 7 mil milhões de euros.

Na versão do Governo Regional, a dívida é pouco mais de 2 mil milhões, sem incluir as dívidas das empresas Vialitoral, ViaExpresso, ViaMadeira, sociedades de desenvolvimento e Sector Público Empresarial.

Seja como for, a ilação do Diário vai no sentido de que «é incontornável que há valores exorbitantes a pagar», situação que certamente vai condicionar o presente e o futuro da vida nesta Região Autónoma

Recorde-se que são pedidos ajustamentos pela Troika para a Madeira devido a buraco ou derrapagem de 277 milhões de euros detectado nas contas da Madeira. O Governo Regional alega que o aumento da dívida foi a saída para as restrições «financeiras político-partidárias do anterior Governo socialista que visavam parar a vida do arquipélago», mesmo que «à custa do aumento da dívida pública». Justificações à parte, na prática os madeirenses vão sentir apertos dolorosos.

A derrapagem deve-se ao facto de os pagamentos à Vialitoral e Viaexpresso e aos compromissos das empresas do sector público empresarial SESARAM e Viamadeira, cujos financiamentos passaram a integrar as contas da Região Autónoma.

Como escreveu o Diário (13.8.2011), a derrapagem nas contas regionais «colocou a Madeira ao lado do BPN, nas preocupações dos portugueses.» O Público chamava a atenção para a «advertência feita pela missão da troika ao Governo da Madeira de que é preciso fazer mais pela disciplina das contas públicas e de que vai preparar um programa de ajustamento próprio para a Madeira.»

Segundo o Diário, os compromissos da Viamadeira foram «integralmente assumidos pelo Governo Regional», na sequência das «dificuldades daquela empresa (integrada pela Tâmega, Zagope, AFA, Somague e Tecnovia) em conseguir financiamento bancário para a construção de várias vias-expresso.»

Vítor Gaspar, Ministro das Finanças, deixou uma porta aberta a um acerto contabilístico dos governos das regiões autónomas e as medidas que a 'troika' impôs a Portugal, em entrevista à TVI (12.8.2011).

Inquirido sobre o recurso, pelo Governo, de quase 600 milhões de euros de receitas extraordinárias para cobrir novos buracos com o BPN e a Região Autónoma da Madeira, este disse que "existe um processo de integração progressiva e faseada dos funcionários bancários na segurança social (...) no contexto desse processo é normal que haja uma transferência gradual de responsabilidades e de activos dos fundos de pensões dos bancos para a segurança social", declarou, dando a entender que será por aí que o Estado conseguirá pagar as contas do Governo Regional.

Declarou ainda que "sendo a nossa crise relevante para o todo nacional poderá fazer sentido se os governos regionais dos Açores e da Madeira que, à semelhança da República, possam pedir para que se constitua um programa que permita resolver e fasear o ajustamento nessas regiões".

Protecting Madeira shorline from massive construction

Project for beach area in Funchal: there is (was) a surfable wave in the area where stands now the big deposit of soil and rock, but it is not a relevant or an important surf spot like many others in Madeira. Many surfers do not even consider that spot

The protest was the idea of a Madeiran citizen, Miguel Sá, who promoted it. The protest aimed to make the Government of the Autonomous Region of Madeira remove a big deposit of soil and rock on Funchal bay. This damping ground was created one year ago, after the big storm and flood in Funchal, in February 20. It was a quick solution for getting rid of all the soil and rocks that came down from the mountains, in three rivers, reaching Funchal downtown and causing destruction and death. Forty people died then on the island.

One year after those tragic natural events, more than one thousand people answered to the call for the civic protest and participated last February, 20, 2011, at 18h00, in forming the human chain around the whole soil deposit by the sea, claiming for its removal and also paying respect to the victims of the floods one year ago. The president of the Government, Alberto Joao Jardim, simply said a week before that people "can scream" but the project would move on anyway.

Cordão humano em protesto, no aterro do Funchal 20.2.2011

People want to have their shoreline and beach back. That is why they demand the removal of soil and rock still there and are against a marina and port project presented recently by the Government (please, see image attached). Some experts claim that the project is NOT technically sustained and that is not the best solution for the area by the sea. And it would cost more than 40 Million Euros.

As many others Madeirans, and also as a member of Save the Waves, I could not sit still watching more works of massive construction trashing the coastline of the island. A lot of damage has been to Madeiran shoreline and some important surf spots, hurting the Island's tourism, the main economical activity in Madeira. So, it is important all the action to protect the exotic and authentic landscapes in Madeira, including the shoreline, for sport, leisure, adventure, tourism, eco-tourism and simple contemplation purposes.

There is (was) a surfable wave in the area where stands now the big deposit of soil and rock, but it is not a relevant or an important surf spot like many others in Madeira. Many surfers do not even consider that spot.

People fear that this new project becomes something like Marina in Lugar de Baixo. Save The Waves at some point did some efforts to help finding a solution for the protection of that marina from the waves that hit it so hard and are destroying it. Tons and tons of rock have been carried from the rivers and put outside the construction in order to build a massive protection. Last Winter storms washed most of that material away. Hope that one day the problem is solved.

Video of the citizen protest on the bay of Funchal town, in Madeira
Cordão humano no aterro visto por alguém nele participante

quinta-feira, agosto 11, 2011

Pink Floyd reedita discografia (já) remasterizada

Let music in, not else
Os discos (originais) de Pink Floyd foram já remasterizados, em 1992, 1994 e 1996. Até os primeiros, de 1967 e 1968, The Piper At The Gates of Dawn e A Saucerful of Secrets, passaram pela remasterização digital. A edição remasterizada de Final Cut, o 12º álbum da banda (para mim o último - não me interessa nada daí em diante sem Roger Waters) data de 2004.

Por isso, não percebo como a banda redefine, na nova reedição da sua discografia, o seu legado. A não ser o financeiro... Alterando as cores do artwork original? Não acredito que tenham remasterizado novamente os discos originais para as reedições que aí vêm em Setembro, embora os meios tecnológicos hoje sejam outros bem diferentes comparado com há 15 anos. Por isso, cuidado para os apreciadores (sobretudo antigos apreciadores) da música da banda não voltem a comprar o que já têm. Apesar de dizerem que é "newly remastered", convém mesmo verificar, porque o "newly" a que se referem são as remasterizações de 1992, 1994 e 1996...

Para os coleccionadores podem ser apelativas as edições Experience e Immersion com material extra dos discos mais populares da década de 70 ("Wish", "Dark" e "Wall"). A versão alargada Immersion custa mais de cem euros e dedica-se, além dos extras, a outros formatos como DVD ou Blu-Ray, que não interessa, para mim. Dark Side of the Moon, por exemplo, na edição Experience, traz um disco extra com o álbum integralmente tocado ao vivo, em 1974. É um documento interessante. Wish Your Were Here traz um segundo CD com alguns temas ao vivo remasterizados. Não muito relevante. The Wall traz versões demo dos temas. Mais relevante.

Não será melhor optar pelas edições em vinil, originais ou mais recentes? Dark Side of the Moon, por exemplo, até tem uma remasterização de 2003.

Dito isto, as remasterizações são sempre um pau de dois bicos, porque pode alterar a "verdade" da música tal como foi editada originalmente. Nos anos 80, no advento do CD, ainda quando ouvia Pink Floyd a sério (antes de conhecer outros rocks), não por mera nostalgia como hoje praticamente acontece, comprei nesse formato os quatro álbuns mais populares dos anos 70. Entretanto, ofereci dois deles. Mantenho o The Wall e o Animals dessa primeira transposição AAD para CD. Nunca as substituí pelas remasterizações. Repus há tempos o Wish You Were Here, na versão remasterizada, porque não tinha o disco em casa há cerca de dez anos e tive um ataque nostálgico.

Um dia que faça a análise comparativa entre a primeira edição em CD e as remasterizações, direi se vale a pena, se a obra manteve a sua integridade original e se o melhor som (supostamente) ainda nos faz gostar mais da música em si.

Há remasterizações mal feitas que tornam o som falsamente limpo, cristalino, fininho, artificial. Espero que não seja o caso das remasterizações dos Pink Floyd, que nada têm a ver com a tendência assassina, para a musicalidade, dos últimos anos, em puxar pela gama média para impressionar os ouvintes de leitores de mp3, o chamado loudness (compressão do som que o torna menos natural, real e musical, sem a devida dinâmica de frequência, com perda sobretudo para as frequências graves, sem sublinhar as nuances, os contrastes, as transições, a diferença entre a sombra e a luz, entre os sons mais altos e os mais baixos, sem espaço entre instrumentos, som mais duro r ser uma parede compacta de som, o que e induz cansaço precoce no ouvinte, também pelo maior volume e distorção).

Além de a melhoria de som ser pouca, muitas vezes aproveitam para mexer na música em si, limar algumas coisas e adulterar o que inicialmente foi editado. E aperfeiçoar nem sempre significa ficar melhor. Melhor pode ser pior nestas coisas do som.

Tenho vasta experiência dessa realidade em algumas incursões audiófilas - sempre para servir melhor a melomania, a paixão primeira, mesmo que fosse ilusório muitas das vezes esse ideal: apesar de tudo, entre upgrades e downgrades, e muito stress, tenha chegado a um ponto de conciliação e bem-estar, o meu Santo Graal, com colunas Monitor Audio Silver RS6 Black, amplificador de potência Myryad MA240, pré-amplificador Rega Cursa, leitor de CDs Rega Planet, giradiscos Rega Planar 2, subwoofer REL Strata III, cabos de coluna Straightwire Duet para o grave e Waveguide para o treble e cabos de interligação Straightwire Symphony II + Audioquest Sidewinder.

As novas edições dos álbuns de Pink Floyd, para sacar mais uns trocos ao pessoal, não é Santo Graal nenhum. O Final Cut no velho vinil já está a rodar... e que som. Tal como no Pros and Cons of Hitch Hiking, álbum a solo de Roger Waters, adoro as transições/contraste entre os momentos sussurrantes e os momentos explosivos.

segunda-feira, junho 13, 2011

West is refugees' home. Wanna be one?

image origin

O tema Refugees de Van Der Graaf Generator, de 1970, é único pela melodia, pela atmosfera, pela melancolia, pela vocalização, pelos arranjos, pela forma como progride e, claro, pela letra de Peter Hammill.

Como vivo (e adoro viver) na zona Oeste, onde há luz do sol até este desaparecer no horizonte, muitas vezes num retinto alaranjado que torna douradas as paisagens ao pôr-do-sol, o texto (versão em português) desta faixa diz-me muito: "West is where the colours turn from grey to gold, and you can be with the friends. And light flakes the golden clouds above all; West is where I love."

Além da reunião com os amigos, "Refugees" fala dos que se rebelam e seguem um caminho próprio, alternativo (para Oeste e não para Norte, Sul ou Este), de despojamento e de esperança em direcção ao essencial da vida e do bem-estar ou felicidade:

"We're refugees, walking away from the life that we've known and loved; nothing to do or say, nowhere to stay; now we are alone. We're refugees, carrying all we own in brown bags, tied up with string; nothing to think, it doesn't mean a thing, but we'll be happy on our own."

E diz mais: "Smiling very peacefully, we began to notice that we could be free, and we moved together to the West." "Into the West, smiles on our faces, we'll go; oh, yes, and our apologies to those who'll never really know the way. West is refugees' home." "There we shall spend our final days of our lives; tell the same old stories: yeah well, at least we tried."

De acordo com um artigo publicado na revista MOJO em Maio de 2002, a "Susie" referida em "Refugees" é a actriz Susan Penhaligon.

No livro Killers, Angels, Refugees (1974), o próprio Peter Hammill fala do contexto ou história por detrás do tema:

"For six months I shared a flat with Mike and Susie, who are among my oldest friends. When the time for departure came, I was washed with the melancholia which normally attends moving from 'home' and the physical memories it retains, heightened in this instance by the knowledge that, from being the closest of triads, we were committing ourselves to a separation in which months could easily slide into years. In this knowledge, the last vestiges of hope lay only in a future Utopia and re-joining of the hands."

E diz mais :"In the writing, however, the song developed a life of its own (as is always the best way), and the hope becomes much more than that for reunion with my friends."

terça-feira, junho 07, 2011

O mínimo que podemos fazer é acenarmos uns aos outros


Ouvir um állbum é diferente de ouvir uma compilação de faixas de vários álbuns. A coerênia é outra. Ainda mais num género como o rock progressivo, que tende para a conceptualização. Foi isso que senti de imediato ao ouvir The Least We Can Do is Wave to Each Other, que colocou Van Der Graaf Generator entre os melhores. Tem já lugar entre os meus discos preferidos.

Francamente inovador e consistente ainda hoje, 42 anos depois. Há discos acabados de editar que são bem mais datados e menos inovadores... Há inventividade, genialidade e experimentalismo. Com bom gosto e justa medida (para evitar cair no pretensiosimo ou no exibicionismo técnico...), na criação de temas longos, com estruturas musicais intrincadas com novos padrões intrumentais, texturas e atmosferas, combinando a linguagem e base instrumental do rock (guitarra, bateria, baixo, voz) com a linguagem e instrumentos da área do jazz (saxofones) e da música erudita (flauta, piano e mais tarde violino).

Os temas existencialistas, a atmosfera sombria e melancólica, a vocalização característica de Peter Hammill e os raros solos de guitarra ajudaram a distinguir pela positiva Van Der Graaf Generator das outras bandas de rock progressivo.

A alma levitou nesta primeira audição de The Least We Can Do is Wave to Each Other, o segundo disco destes britânicos, mas que o líder Peter Hammill gosta de considerar como o primeiro, já que foi resultado de um esforço colectivo. O título do disco foi adoptado de uma frase de John Milton: "We're all awash in a sea of blood, and the least we can do is wave to each other".

Peter Hammill, na edição original de 1970, escreveu sobre a abordagem do disco pelo ouvinte: «Don't listen when you're hustling, because it won't get in your head. Don't listen when you're angry, because you'll smash something. Don't listen when you're depressed, because you'll get more so. Don't listen with any preoccupations, because you'll blow it. And if you're a perpetually angry, depressed hustler with set ideas, don't bother, it wasn't meant for you in the first place.» Não é para pessoas com ideias fixas ou gosto musical alinhado pelo mainstream.

(Eu juntava a estas palavras a forma como se deve ouvir um disco pela primeira vez, como o recentemente desaparecido Gil-Scott Heron colocou por escrito, de forma a tirarmos o máximo partido da música.)

Esta é uma versão digitalmente remasterizada, com faixas extras. Nestas coisas nunca se sabe se a remasterização traz prejuízos juntamente com os ganhos na qualidade de som, ao nível dos graves por exemplo. Muitas vezes acontece que se torna tudo demasiado limpo e clínico (perfeito no sentido de artificial), na ânsia de limpar "imperfeições".

Neste caso, sem ter como referência edições anteriores do disco, fiquei mais descansado quando nos créditos surge o nome do líder da banda nesse trabalho de remasterização: «Digital remastering by Peter Hammill in consultation with Hugh Banton, Guy Evans and David Jackson.» Estes três também elementos da banda: teclados, bateria/percussão e saxofone/flauta, respectivamente.

segunda-feira, junho 06, 2011

Aderir à realidade, desde já

«Mas quem suporta olhar para essa realidade que se aproxima e quem se atreve a falar dela? Nem os partidos, nem os portugueses», escreveu Vasco Pulido Valente este domingo
No meio da mais elevada abstenção de sempre (41,1% ao nível nacional e 45,7% na Madeira e Porto Santo: números que ultrapassam o score do partido mais votado no País e na Região), que deve fazer o sistema e os partidos políticos reflectirem e agirem, a esquerda sofre uma derrota pesada, muito por culpa própria, dada a sua fragmentação. Louça apesar de se declarar o «primeiro responsável» pelo muito mau resultado do BE, não se demitiu como Sócrates teve a humildade de fazer («não me escondo atrás das circunstâncias»).

Sintomático que, à esquerda, só José Sócrates saudou Passos Coelho pela vitória nas eleições. Há uma esquerda que parece encaixar mal a vontade democrática expressa pelo povo, como se ela estivesse na posse da verdade e a maioria dos portugueses estivesse enganada. É preciso humildade democrática e menos arrogância.

Na Madeira, o PS passa a força residual (com o pior resultado de todo o País), a um ponto percentual apenas à frente do CDS-PP. O PSD esmaga, colocando 4 deputados em São Bento, contra 1 do PS e outro do CDS-PP. Longe vão os tempos de 3 para o PS e 3 para o PSD.

O partido de José Manuel Rodrigues ficou à frente do PS em mais de metade dos concelhos, incluindo o Funchal, mas também Câmara de Lobos, Santa Cruz, Santana, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta. Neste concelho o PS obteve apenas 5,6%. Um descalabro inadmissível há uns tempos, mas bem real. Será que se vai tentar iludir mais esta realidade? Pensar apenas nos projectos pessoais de poder?

«Será admissível que o Portugal próspero e contente de Cavaco e Guterres, que organizava a "Expo" e o "Europeu", caia em quatro ou cinco anos numa aflitiva miséria?», escreveu este domingo, no Público, Vasco Pulido Valente.

Será admissível «que se percam hoje a segurança e os privilégios de anteontem?», continua o articulista, para depois concluir: «Admissível é. E, mais do que admissível, fatal.» E finalmente a pergunta que nos põe a nu: «Mas quem suporta olhar para essa realidade que se aproxima e quem se atreve a falar dela? Nem os partidos, nem os portugueses.»

Como dizia Pedro Santos Guerreiro (Jornal de Negócios 26.05.2011), «em Portugal há alguns vendedores de ilusões, mas há ainda mais compradores».

Esperemos que Passos Coelho pense primeiro no País e não seja um vendedor de ilusões. Que enfrente e fale da realidade, mesmo que isso tenha custos eleitorais para si e o partido que lidera.

Esperemos que os portugueses, apesar da sua endémica dificuldade de aderir à realidade, e preferência em ouvir as mentiras e ficar pelas ilusões, porque lhes são mais confortáveis, não acordem sobressaltados e muito menos estremunhados, nos próximos tempos.

Não vale a pena nos andarmos a queixar dos maus políticos que escolhemos, quando não queremos olhar a realidade e assumir a nossa responsabilidade na mudança e no crescimento do País.