«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

terça-feira, abril 16, 2019

«A filha da mãe»: memórias da passagem à idade adulta


O relato de memórias anterior, História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar (Chiado Editora, 2016), deixou em aberto uma sequela, cobrindo a fase mais pulsante e vibrante da vida do narrador-personagem, ou de qualquer pessoa, que é a juventude e a entrada na idade adulta.

A continuação da história faz-se com A filha da mãe - os pedacinhos que faltavam (Chiado Editora, 2018), que traça a memória de uma época, de uma viagem iniciática, de um retorno às origens e da passagem à vida adulta. E do primeiro grande amor. São ingredientes que permitem a construção de uma narrativa fluída e estimulante. Há vidas que dão um livro. O relato pelo narrador-personagem faz-se na primeira pessoa, em coerência com o facto de ser um testemunho pessoal com sensibilidade e ternura.

«Esta era, sobretudo, uma viagem de reconhecimento, um afundar dentro de mim para descobrir quem era ou queria ser» (p.50). Portanto, um processo de auto-indagação, de escolhas e definição de uma identidade. A viagem no mundo remete para um percurso interno: «tinha necessidade de ser eu, autêntica, honesta comigo mesma sem incomodar o resto do mundo» (p.76). Ainda por cima sem as figuras tutelares (pais) presentes: «agora estava por minha conta» (p.64).

Depressa percebeu que a liberdade e a autonomia tinham um preço. «Compreendi que estava só, finalmente era dona do meu nariz, mas essa liberdade tinha os seus custos. Habituada a andar de "muletas", agora devia aprender a andar solta e suportar os tropeções e quedas que fossem necessárias, esconder as nódoas negras e enxugar as lágrimas sem ajuda» (p.67).

A protagonista tinha outras ambições, era um espírito livre e inquieto, não queria viver segundo uma receita. «[P]recisava ver algo mais do mundo. Precisava conhecer outras pessoas, outros modos de vida»; «queria ver mais, a vida não se podia resumir a crescer, casar e ter filhos» (p.58). «Agora, na ilha, convivia com rapazes, mas não pensava neles como futuros maridos, éramos amigos e divertíamo-nos juntos» (p.63).

Maria Cecília, recorde-se, viajara para a Venezuela aos seis anos de idade, em 1955, deixando para trás o Jardim do Mar, uma ilha dentro de outra ilha, a Madeira. Em 1973, nas vésperas da Revolução em Portugal, regressou à terra de origem. É este o ponto cronológico em que arranca a nova narrativa, que contém algumas analepses, que dão conta de episódios anteriores à viagem, como a recusa dos pretendentes ou a experiência de trabalho, que são importantes para moldar a personagem e compreender o presente.

Embora as suas raízes estivessem na Ilha, tinha crescido na América do Sul, noutra cultura. Por isso, o choque com algumas formas de ser e estar da aldeia é inevitável. «Eu era um híbrido, tinha a rudeza da ilha por herança e a alegria e o ritmo da terra tropical recebida de graça» (p.27). Por conseguinte, não era fácil lidar com esses dois pólos antagónicos, entre os quais a protagonista vai «encontrar o seu rumo» e identidade, com os seus dilemas e dores.

No entanto, na aldeia, dançava-se ao som das músicas modernas como o Je T'aime,...Moi Non Plus, na versão de Serge Gainsbourg com Jane Birkin (1969), que foi proibida em Portugal na época. Era um sinal de abertura aos novos tempos, em contraponto com o conservadorismo de valores e costumes dominante naquela localidade e no país. Essa abertura seria potenciada pela Revolução de 1974. E a chegada da televisão.

Com a revolução, a abertura ao conhecimento através da organização da biblioteca, a criação de uma cooperativa e o trabalho voluntário de serviço social. A casa da protagonista tornou-se um centro de encontro, baile e convívio. As circunstâncias vieram ditar também mudanças internas. «Os ventos de Abril não trouxeram apenas a liberdade para o país, acompanhando essas mudanças, eu própria mudava também» (p.112).

O relato das mudanças na aldeia e no interior da protagonista culminam com a vivência do primeiro grande amor, numa «noite de Setembro, com a lua em quarto crescente»: «e atirei-me como se atira um equilibrista, sem rede», porque «não me podia permitir deixar de viver essa felicidade» (p.145). E a felicidade daquela paixão foi vivida (confieso que viví) precisamente porque houve entrega.

A filha da mãe termina como um novo desejo de mudança e a saída: «o tempo passado na ilha foi necessário para o meu crescimento», mas a «ilha maravilhosa parecia-me pequena, as altas rochas me asfixiavam, tornavam-se redutoras» (p148).

Cá esperamos pelos «pedacinhos» que ainda faltam.

domingo, janeiro 27, 2019

Da inveja e da Gratidão

Gratidão é o oposto da inveja. Esta é uma «admiração transtornada» em que o invejoso julga o outro a «salvo da fadiga de viver, da sua turbulência e da sua dor», o que suscita uma «ânsia irreversível de destruição do outro», da alegria do outro.

Sendo a inveja um sentimento cada um será livre de o sentir. No entanto, não é um questão de liberdade do próprio, face ao carácter destrutivo da inveja para o outro (choca com a liberdade deste). «O problema é quando a inveja se operacionaliza», como referiu Alberto Vieira, historiador madeirense.

Luís Peixoto (Notícias Magazine 8.5.2016) defende que a «inveja só chega ao invejado se este permitir, se estiver vulnerável, se não estiver preparado», mas pode não ser assim quando o sentimento se traduz em acções práticas deliberadas de bloqueio ou ruína do outro.

Por julgar o outro a salvo da fadiga de viver

Citado por José Tolentino Mendonça, no seu Elogio da Sede (2018), o filósofo Soren Kieakegaard explicava a inveja como uma «admiração transtornada». Significa que aquele que inveja «reveste o seu objeto de uma admiração que tem a ver pouco com a realidadeImagina que aquilo que o outro possui (inteligência, sucesso, beleza, bens, o que seja) lhe confere uma espécie de omnipotência, o coloca a salvo da fadiga de viver, da sua turbulência e da sua dor, coisas inteiramente falsas.» E aqui o escritor madeirense tocou no cerne da motivação do sentimento da inveja e do invejoso. Que, afinal, se baseia num equívoco («ele é que está bem»; «ele está como quer», ouve-se dizer).

Fernando Pessoa disse-o, poética e filosoficamente, nuns versos de 2 de Julho de 1931: «Ser feliz é ser aquele./E aquele não é feliz,/Porque pensa dentro dele/E não dentro do que eu quis.» Um poema magistralmente cantado/interpretado por Camané no álbum Sempre de Mim, no tema «Ser Aquele».

Tolentino Mendonça explica que a «desproporcionada felicidade que sonhamos que há nos outros obsidia-nos e essa admiração adoecida é experimentada como uma perda pessoal e uma injustiça, numa modalidade tão avassaladora que suscita uma ânsia irreversível de destruição, de cancelamento do outro.»

Invejoso quer eliminar a alegria que supõe no outro

Assim, a «inveja é um sentimento disruptivo em relação a outra pessoa que possui algo de desejável— e o impulso do invejoso é eliminar ou estragar o que pensa ser a fonte daquela alegria. O outro deixa de ser um parceiro e torna-se um rival. Deixa de ser uma existência autónoma e diferenciada para andar, na maior parte dos casos sem saber, enredado nos dramas, ficções e combates fantasmagóricos do eu. Deixa de constituir a possibilidade criativa de um encontro, para viver capturado num ressentimento que alaga tudo de mesquinhez e sombra.» E acrescentaria: de violência.

O madeirense José Tolentino Mendonça escreveu que «não é, por acaso, que a psicologia falará, por exemplo, da inveja como dimensão muito presente no desejo humano onde se acolhem os nossos fantasmas de medo e destruição mais arcaicos.» «Perante o objeto real ou imaginário do desejo nós desatamos a gritar,«é meu, é meu».

E explica que o «desejo invejoso não experimenta satisfação em si mesmo, na sua existência, naquilo que é. Extrai, antes, a sua força em impedir o outro, num jogo de rivalidade destrutiva que não olha a meios

Obsessão em prejudicar e destruir o outro

O mesmo autor cita a psicanalista Melanie Klein, que faz recuar o «objeto primário de toda a inveja ao seio nutridor materno» («ainda não falava, e já olhava pálido e com rosto amargurado para o irmãozinho de leite» — Santo Agostinho em Confissões VII) e conta uma história ilustrativa:

«Era uma vez um homem que vivia a invejar o vizinho. Certo dia foi visitado por uma fada, que lhe ofereceu a extraordinária possibilidade de realizar naquele momento um desejo, por maior que fosse, mas com uma condição: "Poderás pedir o que quiseres, desde que o teu vizinho receba o mesmo a dobrar." O invejoso respondeu, então: "O meu desejo é que me arranques imediatamente um dos olhos." A obsessão de ver o outro prejudicado prevaleceu sobre qualquer vontade na ordem do bem, mesmo em relação a si próprio.» E comenta Tolentino Mendonça: «Estranho sentimento, a inveja. E, contudo, tão infiltrado nas relações humanas, tão abrasivo da vida interior, tão capaz de fazer em cacos ambientes».

Sociedade fechada é mais permeável à inveja

Para o filósofo José Gil, a inveja, que tem imensas estratégias, não é uma relação puramente psicológica, é mais do que isso: trata-se de um sistema que tem autonomia e vive em meios fechados, que cria entraves àqueles que têm ideias, iniciativas e empreendimentos. Admite que «não é uma característica portuguesa, antes um dos sentimentos mais espalhados pelo mundo. Simplesmente acontece que em Portugal a inveja tem uma força tal porque nós somos uma sociedade fechada. E quando as sociedades se fecham, tudo se concentra, tudo se paralisa, tudo se adensa e não respira. Uma universidade é um antro de inveja em qualquer parte do mundo, seja nos Estados Unidos, em França ou na Inglaterra. Mas vimos cá para fora e respiramos ar puro. Em Portugal não, sai-se cá para dentro e não para fora.»

A inveja é inerente à condição humana, mas em meios mais pequenos e sociedades mais fechadas (quem está mais próximo é passível de maior proximidade e de fazer mais sombra) poderá, quem sabe, assumir uma presença mais intensa.

Invejidade é o termo popular para inveja

Segundo Alberto Arthur Sarmento, a invejidade significa a «inveja mal reprimida, encapotada, que moe e ginga, repiza e muito gira, a lançar mão de todos os meios para se alastrar, procurando anular a sombra que a escurece e molesta, húmida e fria, infiltrante, deprimindo o que é alheio, a roçar-se a esquina, para realização dos seus fins. É a inveja dinâmica, sem sentido, nem direcção, impando uma coragem embexigada pela vacina do medo.» Será uma cobiça refinada e destrutiva, que limita o progresso e o convívio social.

Numa conferência no Teatro Baltazar Dias, em 6.11.2018, o historiador Alberto Vieira referiu a «cultura popular» que valoriza a questão da inveja, tendo processos e mecanismos para a sua «cura». Explicou que a inveja parte sempre da existência e proximidade do outro («a prática de forte contacto, convívio, relação, que perdura no tempo, potencia a inveja»). Contudo, não tem dúvida que o mundo de invejosos é de «intolerância e violência.» Porque a inveja é um sentimento «destrutivo, negativo». Considerada um «pecado», que a religião, por exemplo, condena e combate.

Inveja não é ciúme, porque ela é destrutiva: implica a destruição do outro e a perda para esse outro. Assim, «alguém que se esforça por ter como o outro» não constitui inveja, porque é algo construtivo, embora partindo de uma comparação com o outro. Comparar-se com os outros, dizem os manuais do bem-estar, é uma atitude a evitar pelos sentimentos negativos passíveis de serem gerados, como o sentir-se aquém ou ressentido. Neste contexto, para nós, é mais no sentido ver o outro como um referencial positivo, numa admiração sadia, benévola. A inveja é uma admiração doente, «transtornada».

Poio: a especificidade madeirense

Em termos da especificidade madeirense, Alberto Vieira identifica a «poiozação do quotidiano» como a «expressão mínima da inveja.» Uma outra forma da sua expressão. Poiozação a ver com o «poio», relativo à posse, à propriedade, fruto da divisão da terra. É uma propriedade diminuta («nesga de terra»), mas que «significa muito» para a família. Para o madeirense, o «poio é tudo». Daí gerar «muitas situações de atrito e conflito».

O poio «marcou muito a história dos madeirenses», como «fonte fundamental de sustento», e marcou a noção de «espaço e território», nomeadamente a dificuldade em «partilhar» esse espaço com os outros. Mais do que a inveja universal, tal marcou a «maneira de ser madeirense». O que não contribui tanto para uma «visão mais ampla» como para o «desenvolvimento do próprio espaço». Porque o poio, além de territorial ou físico, é um «espaço mental». E marcou a mentalidade madeirense.

Sobre a inveja e o poio no Arquipélago da Madeira ver ainda os seguintes artigos do historiador citado: Invejidade e O verso e o reverso da imagem da ilha e do madeirense (Cadernos de divulgação do CEHA; Projeto “Memória-Nona Ilha”/DRC/SRETC, N.º 01, 2016).

Gratidão, o antídoto para a inveja

Quem é grato, quem expressa gratidão interiormente, quem vive a «experiência da gratificação que o outro constitui torna-se então», essa experiência, «uma escola de generosidade: passamos a ser capazes de compartilhar com os outros o nosso dom», salienta José Tolentino Mendonça, no livro já citado. Enquanto a «inveja é uma reivindicação estéril e infeliz», a «gratidão constrói e reconstrói o mundo, dentro e fora de nós.»

Por isso, defende que o «contrário da inveja é a gratidão e esta está intimamente ligada à confiança no bem que se desenvolve nos outros, no bem que o outro é sem si mesmo (independente de mim) e no bem que eu recebo dele.»

E acrescenta: «Cada um traz em si um quinhão de falhas de amor e a questão é como as reconhece, integra e transfigura. A própria criança tem de aprender a ver a mãe não apenas como fonte de alimento para seu uso exclusivo e a controlar a sua voracidade. Quando a boa relação se estabelece, predomina o desejo de preservar em vez de destruir. A não sei quantas braças de profundidade situa-se uma dor nunca reparada, mas que condiciona toda a superfície. Identificar e cuidar dessa dor é a condição para sermos nós próprios e podermos entender também a dor que os outros transportam, tocando a nossa e a sua verdade. O momento de aceitação de si, com lacunas e vulnerabilidades, é uma etapa crítica, dilacerante até, mas abre-nos à transformação e à fecundidade

domingo, dezembro 16, 2018

Ana da Silva no Mudas


Ana da Silva (Madeira Dig 1.12.2018, MUDAS, Calheta), com o projecto Island, com a japonesa Phew. Fotografia de Rui Pinheiro (com exposição na Galeria dos Prazeres até 2.2.2019).

Capazes de matar a própria morte

El Petó de la Mort (O Beijo da Morte), por Jaume Barba ou Joan Fontbernal, 1930, que se encontra num bairro de Barcelona
«Éramos capazes de matar a própria morte», dizia-me pouco um camarada de tropa, erguendo os braços com veemência. Isto é, capazes de derrotar o absurdo existencial. O que é ir à Lua ou a Marte comparado com isso?

photo: SantiMB

domingo, setembro 09, 2018

Entre o profundo e o raso



Nesta nossa Ilha grande em beleza, mas ainda com limitações em termos de mentalidade, ter profundidade é ser pedante; atender a detalhes, qualidade e ser preciso é ser pedante; ser estruturado, consciente, crítico e argumentativo é ser pedante; ter preferências culturais menos comuns é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); ter alguma sofisticação é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); articular uma ideia é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); ser discreto ou introvertido é ser pedante; trabalhar com dedicação e brio é ser pedante; ter auto-estima e confiança é ser pedante...

Isto mesmo que haja discrição e humildade às toneladas, porque tudo aquilo se destaque é tomado como exibicionismo pretensioso. Leitura que resulta do endémico complexo de inferioridade madeirense (adubo para a inveja e a maledicência), do negativismo em nivelar por baixo, vulgarizar o outro (quanto mais vulgaridade houver à minha volta mais dissimuladas ficam as minhas vulgaridades e limitações - um contexto social que não puxa para cima nem estimula as pessoas a darem o seu melhor e a evoluir) e de existências funcionais (automatismo quotidiano de sobrevivência).

Na cerimónia de tomada de posse de um novo Governo Regional (16.11.2004), Alberto João Jardim referiu a necessidade de «expurgar, de vez, males endémicos da sociedade madeirense, como sejam a inveja, o gosto por maldizer, a não distinção entre qualidade e mediocridade, entre o principal e o acessório.»

Passada uma década, afirmou: «Há outra coisa que me preocupa. Dá-me a impressão que a evolução das mentalidades não foi tão rápida como a evolução material, isto é, da qualidade de vida. Acho que as pessoas estão muitos presas à bilhardice, à inveja, a uma certa subserviência a tudo o que é de fora; há aqui ainda umas coisas a corrigir» (entrevista à RTP Madeira, 1.7.2014? e Jornal da Madeira 2.7.2014?).

BlacKkKlansman, a wake up call about the struggle between love and hate



Já tinha lido a entrevista a Spike Lee, que faz capa na revista inglesa Sight & Sound, pelo que fui logo ver o seu novo filme, BlacKkKlansman, acabadinho de estrear num dos cinemas da Madeira. Ao preço que está o cinema, 7 euros, só quando é algo de substancial (mais do que um filme funcional e ligeiro de entretenimento).

E que filme. A narrativa tem lugar em 1973, mas faz a ponte com o momento actual da «America greater again» de Trump e tudo o que ele representa, trazendo ao de cima dores que a grande América nunca resolveu no seu seio.

Spike Lee alia entretenimento, humor e reflexão. Inclui imagens reais no final do filme, de incidentes a ver com o ressurgimento dos neo-nazis (Charlottesville, Agosto de 2017), em que foram pessoas atropeladas, prova de que há coisas que quase não mudaram desde 1973. E tais fenómenos extremistas estão a ter lugar também na Europa.

Há também inclusão de cenas de Birth of a Nation (de 1915, por D. W. Griffith, com pendor racista e exaltação do Klu Klux Klan, adaptado do romance "The Clansman"—já agora, convém ver o outro Birth of a Nation, de 2016, de Nate Parker) e Gone with Wind (de 1939, por Victor Fleming, que condescende sobre a escravatura e minimiza a violência do grupo racista Ku Klux Klan).

«So me being a filmmaker, a scholar and a cinephile, if you go through my body of work it's no secret that it's a critique of Hollywood cinema and it's not a great history», diz Spike Lee à já citada revista. «What Hollywood did to Native Americans is a disgrace: fuck John Wayne, fuck John Ford. I know they tried to make up for it with The Searchers [1956], in the same way D. W. Griffith did with Intolerance [1916], but too damn late, all of them. Hollywood has historically been about white supremacy, the superman.»

E é essa supremacia branca, tão Trump, que é exposta, denunciada e ridicularizada em BlacKkKlansman. O realizador não tem dúvidas sobre as consequências: «with this kind of White House it's not just affecting black people, it's affecting the world.» E situa as coisas desta forma: «People have got to understand that this is not a black and white issue, it is an issue about love versus hatred. These guys are gansgters—they don't give a fuck. Politicians are politicians, but at least back in the day they would lie about it [laughs], or at least give you a smile, whereas now this is straight-up: "We don't give a fuck".»

Refere ainda que o "Agente Laranja", para não mencionar o nome de baptismo do presidente americano, só honra o dinheiro, perante a falta de ética e noção do certo e do errado.

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Conexões:
Entrevista à Rolling Stone (2.8.2018)

sábado, setembro 08, 2018

Nós da contradição

Horizonte na Calheta, Verão de 2018

Já sentiram Felicidade, Paz, Contentamento (por tudo o que já é e pelo que se perspectiva no horizonte) e, ao mesmo tempo, uma doce Nostalgia de algo que poderia ter sido (ou Melancolia das coisas perdidas)?

Se eu tivesse dúvidas quanto à minha profunda portuguesidade, tal sentimento contraditório dissipá-las-ia.

Afinal, «os nós da contradição / são os mistérios do Fado», como canta Paulo Bragança no EP "Cativo" (2018). 

sábado, setembro 01, 2018

Às elites interessa que o país não passe de uma choldra

Os portugueses ficam entregues a si próprios, enquanto as elites tratam de servir-se, a si e aos seus amigos (foto: Maria João Gala/Global Imagens)

O artigo Lições de Pedrógão do economista Daniel Bessa (Expresso 2392, caderno de Economia, 1.9.2018), é de uma lucidez cristalina sobre a inépcia das elites em Portugal, que trabalham para que «tudo fique na mesma, sem correção», mantendo o país atrasado e uma sociedade bloqueada, corrupta e ineficaz, com um fosso acentuado entre ricos e pobres. Seja elite de direita, centro ou esquerda, é indiferente. Pena que a generalidade do povo português tolere este estado de coisas e essa corja. Como o texto fala por si, ilustrativo da realidade, aqui o replicamos:

«Dirigi, em tempos uma escola de negócios. Alunos adultos, pagando a sua formação. Uma experiência de que me orgulhava e orgulho. Em determinado dia, um professor vindo dos Estados Unidos iniciava a sua lecionação anual. Impossibilitado de estar presente, telefonei-lhe no final da aula: "Então, professor, correu bem, a aula?"; "Correu, correu bem; o que correu menos bem é que você disse-me que os alunos eram vinte mas nunca tive na sala mais de dez; e os que estavam no início não eram os que estavam no fim."

Uma humilhação. Julgava dirigir uma escola; dirigia uma choldra. Pretextei com "a cultura". "Não me fale em cultura*. Nos Estados Unidos seria igual. Só não é igual porque eu entro na sala e fecho a porta, só voltando a abri-la no final da aula." Uma lição que me ficou para sempre. Passámos a proceder desse modo, e a escola tornou-se exemplar, desse ponto de vista.

O que viemos a saber sobre o que se passou em Pedrógão fez-me recordar esta lição. A tragédia convocou a generosidade de milhares de portugueses, pessoas e empresas, que se empenharam em doar a soma necessária à reconstrução das habitações destruídas. Dois trabalhos jornalísticos recentes acabam de revelar que, sob alegada orientação do poder político local, muito do dinheiro foi mal gasto. Motivo de indignação, uma vez mais, ainda que sem surpresa. É "a cultura"; "somos assim."

Dói, isso dói, que, ao mais alto nível político, leis e sistema de justiça sejam desenhados para que tudo continue na mesma, sem correção.»


* não é a cultura, é a natureza humana
(Esta nota e o negrito de «choldra» são sublinhados nossos)

quinta-feira, junho 14, 2018

Dentro


“Se queres ver o Mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora sem esquecer que dentro é que é o teu lugar”

Jorge Palma
«Terra dos Sonhos»

photo origin

domingo, junho 10, 2018

Sr. rock 'n' roll

Nick Cave pela lente de Rita Carmo, no Primavera Sound, Porto, 9.6.2018.

sexta-feira, junho 08, 2018

Imunodeficiência face aos prazeres da música

David Scott Holloway (photo origin)

«Como se pode ter uma relação, seja de que tipo for, com alguém assim, que não gosta de música?»

Anthony Bourdain
Expresso, Dezembro de 2010


terça-feira, março 27, 2018

Colheita

Calheta 2018


Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

[Eugénio de Andrade]

terça-feira, março 20, 2018

Jack White deita mão a vários pratos e condimentos

Capa de Boarding House Reach (Março de 2018)

«The new album sees Jack White expanding his musical palate with perhaps his most ambitious work thus far, a collection of songs that are simultaneously timeless and modern», é o que a informação da editora refere, que confirmamos já depois de ouvir o disco.

E diz mais: «The album explores a remarkable range of sonic terrain -- crunching rock 'n' roll, electro and hard funk, proto punk, hip hop, gospel blues, and even country -- all remapped and born anew to fit White's matchless vision and sense of restless experimentation. Boarding House Reach is a testament to the breadth of Jack White's creative power and his bold artistic ambition.»

É um disco super criativo, surpreendente e desafiante para o ouvinte. Não é tão directo como outros álbuns mais rock 'n' roll de Jack White porque Boarding House Reach é mais experimental e elaborado, com muitas nuances. Jack White deita mão a vários pratos e condimentos com a ajuda de vários colaboradores (ver lista aqui). Adoro o som retro conjugado com as sonoridades actuais.

sexta-feira, março 09, 2018

Brumas

Prazeres, 9 de Março de 2018: o encanto gótico e o aconchego do nevoeiro espesso

terça-feira, março 06, 2018

A story of freedom and awakening

A biographical book about true and intense life experiences and personal awakening: "The more of the real we truly see, the closer we are to being free" (p.157)

Uau... it is like Torsten E. Klimmer (aka Omananda) has already lived many lives "driven by a burning desire for freedom". And intense lives have been lived. A collection of so many rich and "unique" life experiences and wisdom obtained from his personal "spiritual journey" that has taken place over twenty-eight years.

Most of the time was spent "traveling the world". "Traveling can be of irreplaceable value to any person who truly wants to understand" (p.156). Life lessons, discovery of wisdom and one's purpose, life contemplation, getting new perspectives/insights and exploring inner universes.

One can travel the world "touring the planet" or one can do it in one space, in his/her room, that is, "travel astral - as an inter-dimensional time-traveler that can also be the way of the shaman. The two [different ways] go well in combination, but one is much more effective, because it breaks though the limitations of time and space, thus enabling us to reach our destination much faster and furthering us on the path to nowhere, toward the here and now" (p.158).

India, for instance, "had taken us through some fascinating inner and outer places." "I learned a great deal about myself during that trip to India, which was the first of many to come. I appreciate the vast spectrum of experiences available in India, where a profound spiritual understanding seems to be deeply embedded into everyday life. In India I understood we need to pass through darkness before we can find light and that we must take time to develop techniques that allow us to look inwards for answers to personal questions" (p.89).

There are clues for other people to inspire themselves looking for inner peace, their true self and a meaningful life. "This book is dedicated to all light-warriors who make it their life's mission to catalyze the process of conscious awakening", it is said.

"For individuals who are unprepared or willing to receive insights into the deeper meaning of life that often goes hand in hand with a spiritual awakening, a strong psychedelic trip can be traumatizing" (p.98) Omananda warns. "My intention of opening my third eye had given me powerful insights into a reality I did not even know existed" (p.128).

One needs to get ego free. "Awakening comes in many forms, and the most natural process for achieving it involves being loving and kind. When guided by the wisdom of our intuition we learn to delevop compassion. One simply becomes love as the ego steps out of the way to allow a complete merger with the experience in the present moment" (p.305).

Less allows us to be more and free. "The total silence, nakedness, and isolation in the jungle left its mark on my psyche. I was stripping myself methodically of any possible comforts and distractions." "For the first time, I was content and filled with love that came from inside me, as if there was an endless source of it" (p.140).

"I suddenly became weary of life and found little purpose in it since self-gratifying and surviving was all I seemed to be doing - still! I needed a higher purpose to live for" (p.151). We know that chemistry of our brain makes we run after new goals all the time - we are not programmed to sit and enjoy what we have achieved. That chemistry aims to make sure we never stop. Life is movement.

Last, but not least, I wish all good luck with the action plans for the future concerning life on the planet and "unlocking a higher human potential" (p.321). "It is crucial that we ALL focus on a beautiful and peaceful world together while we can still preserve nature on this planet" (p.244). This means shifting "our consciousness to a higher level" (p.308) and "experience ourselves fully conscious with a present awareness as life unfolds in our waking lives" (p.309).

After all, "love and sharing it has always been, and always will be, the final solution and answer to all of our problems" (p.318).

I really enjoyed the book, not only the narrative about the travels to many different places in the world, but also, and especially, the philosophical and deeper dimensions: self development, exploration, awakening, transformation and growth as a person, and a new/higher purpose of life that unfolds.

Omananda is also the producer of the psychedelic film Liquid Crystal Vision.

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Transcendental Journeys – A Visionary Quest for Freedom was made in the USA, Columbia, SC, 17 December 2017.

Liberal

Mario Vargas Llosa por Ximena Garrigues e Sergio Moya (photo copyright)

«El fascismo, el comunismo han atacado tremendamente al liberalismo, sobre todo caricaturizándolo y asociándolo a los conservadores. En sus primeras épocas el liberalismo fue asediado sobre todo por la derecha. Ahí están las encíclicas papales, los ataques desde todos los púlpitos a una doctrina que se consideraba enemiga de la religión, enemiga de los valores morales. Creo que estos adversarios definen muy bien la estrecha relación que existe entre el liberalismo y la democracia. La democracia ha avanzado y los derechos humanos han sido reconocidos fundamentalmente gracias a los pensadores liberales.»

«Esta semana [final de Fevereiro de 2018] publica su ensayo La llamada de la tribu (Alfaguara), un alegato a favor del pensamiento liberal a través de siete autores que le influyeron y a los que rinde homenaje: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin y Jean-François Revel. Voces de una corriente que reivindica al individuo como ser soberano y responsable, y a la libertad como valor supremo; que defiende la democracia y la separación de poderes como el sistema que mejor concilia los valores contradictorios de la sociedad. Una doctrina que reacciona frente al “espíritu tribal” que han alimentado históricamente el fascismo, el comunismo, el nacionalismo o el fanatismo religioso.»

«El liberalismo no solo admite, sino que estimula la divergencia. Reconoce que una sociedad está compuesta por seres humanos muy distintos y que es importante preservarla así. Es la única doctrina que acepta la posibilidad de error. Por eso insisto mucho: no es una ideología; una ideología es una religión laica. El liberalismo defiende algunas ideas básicas: la libertad, el individualismo, el rechazo del colectivismo, del nacionalismo; es decir, de todas las ideologías o doctrinas que limitan o cancelan la libertad en la vida social

Excertos da entrevista de Mario Vargas Llosa ao El País em 25.2.2018.

domingo, março 04, 2018

Eternidade: chama-me pelo teu nome e chamar-te-ei pelo meu

Elio, em frente à lareira, digere a tristeza funda, silenciosa, serena, agridoce, que é ao mesmo tempo sentir-se a Morrer (perda) e sentir-se mais Vivo (êxtase) do que nunca

Consta que Sufjan Stevens, singer/songwriter indie pop que compôs temas centrais da banda sonora de Call Me By Your Name, já andava há muito tempo a trabalhar em “Mistery of Love”, mas ainda não tinha encontrado forma de a terminar até a ligar ao filme. Um tema que faz referência a pássaros e a Hephaestion, a amante de Alexandre, o Grande. Valeu ao cantor uma nomeação para os Óscares 2018 e irá actuar na cerimónia.

«I wasn't really trying to get too literal with the film," diz ele. "I wanted the songs to stand on their own — partly because I hadn't seen the film, and didn't really know what the vibe was going to be. So I just did what I do, which is just write, you know, the typical forlorn love song that's based on these concepts from the film like first love, summer love, transcendence, but also deep sensations, deep feelings, sorrow — just that relationship between passion and confusion."

Este convite para entregar-se, ao que Luca Guadagnino chamou de «melancolia das coisas perdidas», estende-se a qualquer pessoa com um caso de amor no passado que valha a pena recordar, como nota o artigo no The Guardian que explica por que esta longa metragem deve ganhar o Óscar de melhor filme.

Ora, foi precisamente esse efeito "melancólico" que teve em mim (o nome do protagonista acrescentou ainda um efeito espelho: [n]Elio), além da beleza e sensualidade do filme, que é muito sensitivo, emotivo, com rara sensibilidade e vulnerabilidade. Percebo agora porque senti que tinha de ver este filme (independente da orientação sexual ser diversa: é uma história universal de amor). Percebi que ainda acredito. Eu já sabia, mas o filme fez-me voltar a confirmar quanta sorte tive em me apaixonar, e amar, como aconteceu num dado momento. Já nessa idade tinha a consciência da raridade de algo assim. Se calhar irrepetível.

Há muita gente que nunca vive esse sentimento de paixão a toda a largura do espectro da frequência emocional. O importante não era o "para sempre", sabia de antemão que não seria. O essencial era Viver o Momento, era Viver algo Raro e Único. Nem hesitei. Larguei tudo. Segui apenas o coração. Eu sabia que poderia ser uma oportunidade de uma vida. Um dez em dez. E até hoje a vida continua a confirmá-lo.

O autor de "Mystery of Love" referiu ainda: "Part of the reason why it was really difficult for me to finish it, lyrically and compositionally, until I had engaged with this project was because it's all about a kind of universal first love," disse. "And also knowing the finite nature of things, that nothing's forever. That's what's so amazing about this film, it's such a fully immersive engagement with a fleeting experience. It's a once in a lifetime event, and that's what first love is for most of us. It's unparalleled."

Por tudo isto, ao ver Call Me By Your Name senti o que um dos protagonistas estava a sentir quando da ausência ou partida do outro. É uma dor dilacerante, parece que mata. Ele olha a lareira na cena final, eu olhava o mar de Setembro e as primeiras chuvas, que me impediam de estar com o meu amor. Essa dor e essa tristeza não é estar chateado nem revoltado. Muito menos com o nosso amor. É uma tristeza funda, silenciosa, serena, agridoce. É sentir-se Vivo, é sentir êxtase. E pode isso alguma vez ser triste?

Não quis mal a essa tristeza feliz, pelo muito que me tinha sido dado e não queria mal à felicidade que senti. Nunca matei esse amor, essa alegria. O romance do filme, como o meu, foi no Verão. Foi esse contexto, e o impacto do primeiro grande amor, que inspirou, como se viu, Sufjan Stevens na composição do tema “Mistery of Love”. Sol e água como elementos centrais. Fui um filho da mãe com sorte, mas também soube responder à chamada, de corpo e alma (entrega incondicional). Só assim se transcende e eternizamos o momento.

Penso que tem muito a ver com as sensibilidades que se encontram. A vibração, a frequência, a entrega, a admiração. O amor é livre e selvagem. Gera-se ou não se gera a intensidade do sentimento. Há fogo ou não há fogo para alimentar o sentimento.

O pai do protagonista diz-lhe: "We rip out so much of ourselves to be cured of things faster than we should that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to feel nothing so as not to feel anything — what a waste!"

É isto: a maioria perde-se na desilusão e deixa de investir, de arriscar, de entregar-se, de ir ao encontro do outro, com medo da rejeição, com medo de sofrer, com medo de morrer de amor, mas em troca ficam com uma mão cheia de nada: nada sentem. Há quem defenda que precisamos de morrer de amor para percebermos o que queremos da outra pessoa e o que temos para lhe dar. Faz parte da viagem existencial.

«Todos fugimos do amor [romântico]. Quando nos cruzamos com alguém que acende muitas luzes — e que sentimos que, de alguma forma, pode ser o nosso amor —, o nosso impulso não é correr atrás dela, mas sim fugir, como se as pessoas com quem sonhamos só existissem no nosso desejo e não fossem palpáveis, não tivessem um rosto e não fossem como nós.»

No filme Call Me By Your Name conta-se a seguinte história: «Farris is a young man fond of a princess. She is also fond of him. Although she does not seem to be fully aware of it and against friendship which flourish between them, or perhaps because of this strong friendship, the young knight finds himself very much unable to speak. Because he is totally incapable of addressing his love until one day the princess asked frankly: is it better to speak or die?»

Felizmente, mantenho em mim o meu ser do Primeiro Grande Amor: a mesma liberdade, a mesma sensibilidade, mas muito mais auto-conhecimento. Espero que maior capacidade amar. E que esteja disposto a falar, para não morrer e poder morrer de amor.

O pai do protagonista diz ainda: "How you live your life is your business, just remember, our hearts and our bodies are given to us only once. And before you know it, your heart is worn out, and, as for your body, there comes a point when no one looks at it, much less wants to come near it. Right now, there's sorrow, pain. Don't kill it and with it the joy you've felt."

É a melancolia (valor, felicidade?) das coisas perdidas (ou serão eternas?) e das coisas que são finitas (ou serão infinitas?). E se calhar é assim mesmo que tem de ser. É assim que tudo faz sentido. Ser efémero não significa ser menos ou ter menor valor. Na peça Salome, Oscar Wilde escreve: "The mystery of love is greater than the mystery of death."

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"Visions of Gideon" e "Futile Devices", outros temas de Sufjan Stevens em Call Me By Your Name.

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"Mystery of Love" builds from Sufjan Stevens fingerpicking an acoustic guitar up an octave to the uncredited mandolin acrobatics of Chris Thile — "the greatest living mandolin player on the planet," according to Stevens — then adding piano and shimmering synth as well as some female backup singers, in a constant motion of hopeful and dreamlike ascent.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

Essa outra coisa é que é linda

Prazeres, Calheta, 31.12.2017

«Um texto pode ser lido em dois níveis diferentes: o nível da história, acessível a qualquer um, e o nível filosófico. Esta duplicidade explica o funcionamento de O Nome da Rosa, a tal ponto que foi feito um filme que assenta apenas no primeiro nível»—Umberto Eco (Expresso 20.2.2016).

É esse nível denominado de filosófico que permite aceder a outra dimensão, a outra profundidade, a outra riqueza do texto e da vida. Que tem algo para desocultar, descodificar, que nos dá a contemplar algo mais, mais especial e subtil, que constitui uma ponte para a aventura do pensamento, isto é, para uma vastidão de liberdade e estímulo para a mente.

Pessoalmente, um texto tem de me provocar e catapultar para o filosófico e o poético. Tem de ter o poder de me enriquecer e transformar e não apenas me entreter (prazer estético). Tem de me conceder horizontes. Tem de me transportar além do imediato e fazer transcender a mesmice quotidiana. Tem de possibilitar transcender-me. Como escreveu Pessoa, «Tudo o que sonho ou passo,/ O que me falha ou finda,/ É como que um terraço/ Sobre outra coisa ainda./ Essa coisa é que é linda.»

Essa outra coisa, mais além, é que é linda. Isto sem menosprezar o valor do entretenimento e do interesse ao «nível da história» (enredo), que também sei reconhecer e valorizar. Contudo, o que a história possibilita e como é contada faz (toda) a diferença.

domingo, fevereiro 25, 2018

«Gregarismo é opcional»: há outras vias para a felicidade

Há a «omnipotente convicção de que o ser ideal é gregário, alfa, e se sente confortável sob as luzes da ribalta» (photo: Leonardo DiCaprio num still do filme The Wolf of Wall Street)

Uma pessoa pode ser gregária em alguns momentos ou em círculos mais restritos, ou mesmo em certas fases da vida, e ser não-gregária nos restantes ou maioria dos momentos/fases da sua vida. Não é uma questão de preto ou branco. O contraste estabelecido entre gregário e não-gregário visa tornar clara a análise. Obviamente, a defesa da via não-gregária, ou maioritariamente não-gregária, é contra-corrente e minoritária, e é a tese que defendemos aqui, para quem opta por esse caminho, por se sentir mais livre e feliz desse modo.

Susan Cain afirma que o «amor é essencial, o gregarismo é opcional» (p.355: Silêncio, o Poder dos Introvertidos num Mundo que Não Pára de Falar - 1.ª edição: 2012), isto é, há vida para além do gregarismo. No arranque da referida obra, escreve: «disseram-nos que ser [...] feliz é ser sociável» e «vivemos com um sistema de valores a que chamo o Ideal Extrovertido - a omnipotente convicção de que o ser ideal é gregário, alfa, e se sente confortável sob as luzes da ribalta» (pp.18-19).

Gregarismo é a tendência para desejar sempre a companhia de outras pessoas. É algo apelativo (notado, glamoroso) e estimulante, mas tido como o ideal, superior e garante de sucesso e popularidade (os outros beneficiam). Até nos locais de trabalho se passou, em dado momento, nos anos 70, a organizar os trabalhadores em equipas/grupos (New Groupthink), como chave para o sucesso: como se a criatividade e o desempenho intelectual se devessem só ou sobretudo ao gregarismo. Pelo contrário, como afirmou Agustina Bessa-Luís, a «solidão favorece a intensidade do pensamento.»

Nas escolas, impõe-se a aprendizagem cooperativa, em grupo, como caminho para o sucesso e como preparação para a cultura de equipa da maioria das empresas. A inspiração e criatividade individuais/solitárias perdem valor, quando se sabe que muitas vezes o desempenho é pior em contexto de grupo: o benefício maior é social ("sozinho, um homem ganha espessura, / em grupo perde-a — e ganha apenas companheiros", escreveu Gonçalo M. Tavares em Uma Viagem à Índia, p.268, Canto VI - 56, Editorial Caminho 2010, 1.ª edição) e não ao nível da criatividade, pensamento, eficiência ou produtividade. Seja nas escolas ou nas empresas. Contudo, a criatividade acaba por resultar muitas vezes de um vai-vem entre o tempo não-gregário e gregário (que pode ser a interacção apenas com uma outra pessoa, uma pessoa que faça a diferença).

O gregarismo pode tornar o grupo mais forte (capacidade de sobrevivência), mas não necessariamente mais inteligente, sensível ou altruísta (na hora do aperto, cada um acaba por buscar a sobrevivência individual). Por isso, preferimos a livre colaboração entre indivíduos, livres, em alternativa ao contexto de pressão do grupo, quando é uma formatação e uma imposição. Não será por acaso que os regimes ditatoriais apostam no colectivismo e no gregarismo.

Estamos formatados para o convívio (e a procriação) como a razão da existência humana e o caminho para a felicidade. A recusa desta imposição ou dependência não significa não gostar de estar com as pessoas. Bem pelo contrário, o gosto de estar com os outros é maior quando resulta de ser livre (genuíno, honesto), e não de uma carência, formalismo, modelo ou obrigação. «A harmonia do comportamento social requer, todos o sabemos, tanto o isolamento como o convívio», lembra Agustina Bessa-Luís. Uns preferem uma maior dose de isolamento, outros de convívio. Importa que tantos uns como outros sejam respeitados na sua opção.

Mais importante ainda, sentir empatia (conectar com o outro, compreender os sentimentos de outrem, ser capaz de colocar-se no lugar do outro), compaixão (sentir o desejo de ajudar quando confrontado com o sofrimento de outra pessoa) ou amor incondicional (amor pleno que não impõe condições ou limites para se amar) não depende de ser mais ou menos gregário, de direita ou de esquerda, religioso ou não religioso, rico ou remediado.

É preciso ainda não esquecer o prazer da própria companhia, bem como o encontro com o universo interior, a criação de espaço para si próprio, para estar consigo mesmo, para balanço, updates e ajustamentos pessoais. Para ainda afinar a sintonia interna/externa, para cultivar a mente e ter uma vida mental activa e culta, para o desenvolvimento pessoal, para o despertar face a outras dimensões da existência, para a transformação e crescimento pessoais. "Estar sozinho não tem de ser o mesmo que estar em solidão", refere Amy Morin, psicoterapeuta. "Pode ser essencial para nos conhecermos melhor a nós próprios". Pode ajudar a criatividade, a produtividade, além de contribuir para uma maior liberdade.

Há quem não queira estar em silêncio perante si mesmo e busque o ruído constante do gregarismo, ou qualquer outra coisa, como fuga. Por lhes ser insuportável o confronto consigo próprio, com a sua realidade, com a sua essência, tal como é, com as suas luzes e sombras, virtudes e insuficiências. Estar consigo próprio e ouvir a sua voz interior, voz essa que não é condicionada e não tem filtros. A solitude é toda eu: há demasiado eu e demasiado espaço. A auto-crítica pode ser implacável. Nem todos aguentam conhecer-se, estar face a face consigo mesmo, apreciar a sua companhia, estar em paz consigo ou gostar de si. O próprio cérebro precisa ajustar-se e adaptar-se ao espaço da solitude, da liberdade, e, por sua vez, à presença do eu, ao face a face com o eu.

Há um preconceito activo contra as vias silenciosas, não-gregárias para a felicidade, impondo-se o gregarismo como via única, como um padrão que muitos se sentem obrigados a aceitar, para se sentirem aceites e enquadrados. O grupo tem um poder de conformismo sobre os indivíduos, que pensam menos por si próprios face à pressão do grupo. Por outras palavras, em grupo corremos maior risco de seguir a manada. Porque ser voz discordante e ficar sozinho, além de ser mais difícil e doloroso, é «activar os primitivos, poderosos e inconscientes sentimentos de rejeição» (p.132), alerta Susan Cain no livro citado.

Ainda a este respeito, as palavras de Fernando Pessoa: «tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. [...] Portugal precisa de um indisciplinador. Todos os indisciplinados que temos tido, ou que queremos ter tido, nos têm falhado. Como não acontecer assim se é da nossa raça que eles saem?»

Para os gregários, observa-se a tendência para não verem felicidade nem sucesso em qualquer outra opção, que não implique uma grande necessidade e prática de companhia. Têm medo da solidão e, eventualmente, da liberdade, da individualidade e da independência. O gregarismo e a socialização estão associadas a uma recompensa, à qual os gregários são mais sensíveis do que os não-gregários, que subestimam e são menos dependentes de estímulos e recompensas (socialização, sucesso, estatuto, dinheiro, reconhecimento, entre outros). O gregarismo é tido como natural e positivo, o não-gregarismo como não natural, negativo e, pior, como algo que precisa ser tratado...

Os gregários dirigem, pois, a atenção para fora. Sociável é tido como elogioso, gratificante e recompensador; privado e individual é tido como problemático e abordado como crítica. O tempo ou a opção (tendencial ou dominantemente) não-gregária, de isolamento/solitude, são encarados como incómodo, infelicidade ou uma atitude anti-social. A recusa do padrão dominante do gregarismo é então entendido, por parte dos gregários, como um acto hostil. Os não-gregários tendem a apreciar atributos mais profundos do que os atributos associados à sociabilidade (extroversão, entusiasmo, audácia, arrojo, acção).

As opções não-gregárias são caracterizadas como se lhes faltassem qualidades, como a sociabilidade, e não por qualidades como autonomia, auto-sustentabilidade, independência, liberdade, individualidade, discrição, recato, privacidade, sossego, pausa, silêncio, reflexão, introspecção, contemplação, observação, profundidade, criatividade, cultivo de talentos pessoais, mente activa, concentração, foco, disciplina, intimidade, espaço pessoal, controlo do seu ambiente/tarefas. Com interessantes potencialidades e riquezas, mesmo que mais subtis e menos visíveis, glamorosas, populares ou ruidosas.

Aceita-se a opção não-gregária, excepcionalmente, quando se trata de pessoas com estatuto, sucesso, poder. A estas é concebido o direito de terem a personalidade que quiserem, optarem por um caminho diferente para estar na vida, passarem o tempo conforme desejarem e estarem com quem e quando entenderem.

Os relacionamentos e a socialização podem ser selectivos e restritos aos familiares e amigos mais próximos. Uma pessoa pode desejar ser gregário com umas pessoas e não com as outras, nuns momentos e não noutros. Susan Cain refere: «acarinhe os seus mais chegados e queridos. Trabalhe com colegas de quem gosta e que respeita. Explore novos conhecimentos junto daqueles que se possam enquadrar nas categorias anteriores ou cuja companhia lhe agrada por si própria. E não se preocupe em socializar com todos os outros. O relacionamento faz toda a gente feliz, incluindo os [não-gregários e] introvertidos, mas pense mais em qualidade do que em quantidade

Na verdade, para se ter aptidões sociais e fazer amigos não temos de ser, obrigatória e dominantemente, gregários.

E depois Susan Cain diz o fundamental: «o segredo da vida é colocar-se sob a luz adequada. Para alguns são os holofotes da Broadway ou uma praia ensolarada. Para outros, um candeeiro de mesa» (p.355). Cada qual deve viver da forma que se sente melhor e mais realizado. As pessoas tendem a prosperar e a serem mais felizes quando envolvidas em actividades e contextos que «estão em concordância com as suas personalidades» (p.341).

Ser quem somos é ser livre. Escolhemos como actuamos ou nos comportamos, mas não escolhemos a nossa personalidade. Actividades como ler, ouvir música ou visitar exposições, por exemplo, são actos solitários, que exigem silêncio.

Cada qual toma a dose de que precisa de gregarismo e não-gregarismo, interacção social e solitude, para o seu equilíbrio e bem-estar, sem discriminar quem opta por menos, ou muito menos, quantidade de convívio social: «I like silence; I'm a gregarious loner and without the solitude, I lose my gregariousness» (Karen Armstrong).

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Conexões:
Silêncio
Parar para viver melhor
Arte da lentidão, por José Tolentino Mendonça
Prazer de uma liberdade

sábado, fevereiro 24, 2018

Ouviu-os todos?


«Mas há por aí muita gente estúpida que quando entra no meu apartamento exclama: "Oh, tantos livros! Leu-os todos?".»

Umberto Eco
Expresso 20.2.2016