«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

sábado, novembro 30, 2013

O meu partido é o Rock 'N' Roll


«O coração existencial está claramente posicionado: sei do lado de quem estou. Da Humanidade, mas de um modo discreto e subtil, sem espalhafato e sem ter de gostar de toda a gente, nem deixar de reconhecer a crueldade e irracionalidade de que o ser humano é capaz. E da defesa da Dignidade Humana, da Coesão Social e da Liberdade. Não penso esquerda, centro ou direita, nem caminhos e respostas, sem ser no contexto, em estreita relação com a Realidade e a Vida em cada momento. Procuro que seja sem dogmatismo ou leituras ideologicamente enviesadas. Respondo às situações quando e como surgem, com a razão e os sentidos. A consciência natural do valor de diferentes posições torna-me apartidário, apolítico, "a-ideológico" – mesmo que militasse um partido seria apolítico. Se tenho "partido", é o rock ‘n’ roll, leia-se a Liberdade

[corisco: meteoro luminoso atmosférico sem trovão]

Meteoro luminoso atmosférico sem trovão.

"corisco", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/corisco [consultado em 01-12-2015].
Como se chega a esta síntese? Como se percebe se a nossa natureza é apolítica? É preciso ter feitio (uma certa personalidade) para certas opções. É preciso ter consciência não só dos nossos limites e complexidades, mas sobretudo de como somos: o que funciona ou não para nós, o que nos violenta ou nos deixa confortáveis - o conforto relativamente a terceiros vem depois e depende antes de mais do conforto connosco próprios.

Começando pelo princípio, passe o pleonasmo, não nasci numa família burguesa, nem tão pouco pequeno-burguesa, que geralmente proporciona uma série de vantagens socio-culturais, nomeadamente ao nível da formação de uma consciência política. No entanto, é possível, em analepse, perceber que, em criança, quando via os Westerns americanos, gostava de "tirar" pelos Índios e, nos jogos de futebol, apoiava quem estava em desvantagem - puxava pela equipa de branco se esta estivesse a perder, passava a tirar pela equipa de cinzento se esta passasse a estar em desvantagem no marcador. Isto num tempo em que a televisão ainda era a preto e branco. A nossa índole é o que é e não muda facilmente.

É ilustrativo da minha tendência de estar solidário com os underdogs, isto é, com quem se espera que perca ou com quem está na mó de baixo, em desvantagem, indefeso, subjugado, sem voz, alvo de injustiças ou vítima de circunstâncias adversas da vida. Daí a Libertação e a Liberdade serem valores estruturantes. Daí o click humanista.

Daí também me ter metido em algumas lutas cívicas na década dos meus 30 anos. Talvez também porque um homem precisa de se expressar no mundo e nele ser validado; ou porque um rebelde precisa de uma causa, embora haja muitas causas além das cívicas; ou então ainda pelo efeito terapêutico da luta cívica. Como disse uma vez Miguel Portas, «as grandes causas são um espantoso conforto para não se olhar para dentro e para se fugir de nós próprios.» Acrescentou que não era fácil de o dizer, mas que era a realidade. Alguém disse que «esse lado interventivo [neste caso, do escritor Antonio Tabucchi] era sinal de uma angústia interior». Além do fundo humanista, são tudo possibilidades para compreender, mesmo contra um certo feitio pessoal, o facto de eu me ter metido em algumas coboiadas cívicas. Isto além de ouvir certos géneros musicais, com a sua inerente postura sobre a vida.

Seja como for, fosse como fosse, tornei-me (fui) activista e envolvi-me em causas cívicas conotadas com minorias, como o sindicalismo, o ambientalismo ou a defesa do valor da cultura, sobretudo a cultura mais alternativa ou contra-cultura (novamente quem está em situação minoritária). E que, por sua vez, me conotavam com ideologias e partidos da área da esquerda, inclusive a esquerda mais à esquerda. Não tenho qualquer incómodo com essas ou outras conotações, e muito menos o que A ou B pensem sobre isso. Dependendo do que se leia neste blogue, posso ora ser conotado com a esquerda, ora com o centro, ora com a direita, ora com tudo e com nada.

Dizem alguns que isso de estar solidário com os "de baixo" significa ser de esquerda. Nunca me debrucei a sério (profundamente) sobre isso mas concordo, como afirmou José Mário Branco citando Liev Tolstoi, que «os ricos são capazes de tudo pelos pobres excepto de saírem de cima das suas costas.» Trata-se de uma realidade, um facto. Assim funciona o mundo desde que há Homem e Sociedade. A luta neste mundo é entre concentração e distribuição de riqueza, entre uma minoria que a procura capturar para si e uma maioria que procura sobreviver com o mínimo de dignidade (humanidade). Se isso é marca a diferença entre direita e esquerda, não há dúvida que sou pela justa distribuição da riqueza. E o próprio Estado não se comporta muitas vezes como gente rica, leia-se capitalistas selvagens?

Dizia Pacheco Pereira (Público 20.11.2015), um social democrata com sentido de humanismo e adepto da distribuição de riqueza: «Sempre que alguém “explicar”, com um encolher irónico dos ombros e completa e absoluta indiferença, a ineficácia da fiscalidade sobre a riqueza, porque os capitais “deslocam-se” como água para outros sítios, para offshores, e podem sempre fugir, e por isso “não vale a pena” sequer admitir tentar taxá-los, ainda não acabou.»

E diz mais: «Sempre que o dolo, a violação da confiança e dos contratos com os de “baixo” e a inviolabilidade com os de “cima”, continuar a ser a prática de um estado de má-fé, ainda não acabou. Sempre que se cultive, dissemine, impregne, envenene a vida pública com a indiferença com a pobreza, o desemprego, a quebra de qualidade de vida, a perda de dignidade quando se vê a casa penhorada , ou se perde o carro na frágil classe média que criamos depois do 25 de Abril, retirando da pobreza muitas famílias para lhes dar outros horizontes pelo trabalho e, aos seus filhos, pela educação, e se vê tudo isto como efeitos colaterais não se sabe de quê, embora se saiba para quem, ainda não acabou. Sempre que se despreza os que vivem com dificuldades do seu trabalho e se valorize a esperteza e o subir na vida, ainda não acabou. Sempre que se violam direitos sociais, protecções aos que menos força têm, reivindicações de gerações inteiras, ainda não acabou.
Sempre que se acha que isto é radicalismo e não decência, ainda não acabou.»

Desta social-democracia, com consciência social e pela distribuição da riqueza, eu gosto. Uma social-democracia à esquerda, pois. Social-democracia e socialismo às vezes é só uma questão de terminologia...


O secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos, em 13.2.2016 ao Expresso (edição impressa) afirmou: «O problema é que a social-democracia que conhecíamos na Europa foi completamente apropriada pela linha neoliberal. Torna-se agora difícil distinguir os partidos socialistas». Nem considera que o XXI Governo Constitucional de Portugal, liderado por António Costa, seja sequer de centro-esquerda: «Tem de trabalhar muito para ser um Governo de centro-esquerda e procurar repor uma visão da social-democracia que anteriormente existia».

Para aquele músico, José Mário Branco, a «diferença entre a esquerda e a direita será essa», mas, para mim, não existe tal diferença, porque tem a ver, acima de tudo, com algo a montante: a natureza humana. Tem a ver como funcionam as pessoas. Não é uma questão de ideologia ou de discurso. Tem a ver com a natureza e a acção das pessoas. Estas querem tratar da sua vida, dos seus interesses, podendo o mais feroz esquerdista radical, quando enriquece, tornar-se no capitalista mais selvagem, ou no tirano mais ditatorial, quando ascende ao poder ("Fidel Castro es un capitalista de yates, jamón de pata negra y whisky de 12 años"). Há aquele ditado: para conhecer o vilão, põe-lhe o pau na mão. Aqui a origem social, de classe, pesa. Quando menos educado e civilizado na origem, mais rude, mais implacável, menos civilizado.

O referido músico, José Mário Branco, dizia ainda, nesse mesmo programa da RTP2, Bairro Alto, o seguinte: «ser de esquerda é não suportar o sofrimento de outro ser humano.» Isso também não é exclusivo da esquerda ou da direita. Tem a ver, de novo, com a sensibilidade e natureza humana de cada um. Não há, pois, diferença substantiva e existencial entre esquerda e direita.

A minha postura deve-se a uma dada sensibilidade pessoal, forma de estar e ver o mundo, em que a formação no seio do cristianismo não é alheia, com o seu exemplo de radicalidade na solidariedade face ao outro.

Essa sensibilidade ou solidariedade face ao sofrimento de outro ser humano, de um modo mais explícito ou mais subtil, é entendido como algo moralmente superior mas, por vezes, a esquerda dá-se a uns ares de superioridade moral em certas matérias universais, que não correspondem concretamente a algo seu exclusivo ou traduzido em acções concretas na vida.

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[No entanto, não sou adepto de paninhos quentes, condescendências injustificadas, facilitismos ou permissividade. Acredito na responsabilidade individual na condução da vida, em quem não baixa os braços, trabalha, luta e dá o seu melhor, aproveita as oportunidades - mesmo que escassas - para progredir na vida e sair de debaixo dos outros ou de determinado tipo de vida mais deprimida ou menos digna. Quem nasce com menos possibilidades tem de lutar mais e melhor. Cristiano Ronaldo é um exemplo de quem lutou e trabalhou muito para ser quem é hoje, isto é, para vencer as condicionantes impostas, duplamente, pelas origens humildes - condição de classe - e pela insularidade ultraperiférica. Teve oportunidades, é claro, mas muitos não as aproveitariam nem trabalhariam para subir na vida.

Embora dê o benefício da dúvida e acredite na mudança/regeneração humana, não caio no irrealismo de pensar que o ser humano é naturalmente bom e que, se for deixado sozinho, à mercê dos seus impulsos, só fará coisas boas. Nem penso que todo o ser humano é naturalmente mau. Gosto de pensar que o ser humano é complexo e complicado. Prefiro baixar as expectativas e depois me surpreender pela positiva com o que cada pessoa tem de bom, porque todos temos um lado luminoso e um lado sombrio. Pelo seguro, até para evitar o surgimento de projectos ditatoriais e poderes absolutos nas sociedades, gosto de cultivar um certo pessimismo antropológico. Porque até me interesso mais pela realidade das coisas do que pela utopia ou a mistificação.]

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Pode parecer contraditório, mas, à medida que fui tomando verdadeira consciência política, por alturas em que terminava os estudos superiores e tive actividade jornalística, tornei-me, de forma mais explícita, mais apolítico (mas não indiferente, civicamente, como atrás já se explicou) e ainda mais independente, o que fazia mais sentido para mim, com a minha maneira de ser. Há um todo, que é a Humanidade.

Um parêntesis para citar Nástio Mosquito, no tema Demo da Gracía, do álbum Se Eu Fosse Angolano (2013: «Desculpa só; qual é mesmo o teu partido? Mas ainda bem que me pergunta, porque na verdade eu não tenho partido. O meu gosto é do trabalho e portanto...» Também sou dos acreditam no trabalho, que é fonte de Liberdade: sobrevivência autonomizada. Quem não rouba, não herda, não joga na lotaria, nem tem partido para ascender em escada rolante... Além disso, um partido é apenas uma fatia da realidade, zona de menos Liberdade porque a Realidade é inteira, una, nua e crua. Todo o partido tem a realidade partida e foge da realidade que não interessa - não vai directo a todos os pontos. Há coisas que se evita porque não encaixa na ideologia.

Sempre dei por mim a procurar compreender os diversos lados, analisar e pesar vantagens e desvantagens, os vários pontos de vista e contributos, de procurar o melhor caminho, em dado momento, em resultado das várias ideias, escolhas e propostas possíveis e disponíveis. Para que o Mundo avance, com mais segurança nas opções, menos riscos desnecessários e menos erros.

Trata-se de uma visão holística. Tem os limites e as possibilidades que tem. Esse desinteresse pela política e o gosto pela liberdade e independência foram também aprofundados pela experiência no jornalismo: o hábito de distanciar-se dos posicionamentos diversos sobre um assunto, ler a realidade de vários ângulos e cingir-se aos factos. O jornalismo permitiu profundar muito a minha consciência da realidade, que é múltipla e em constante evolução, e a minha equidistância.

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[Isto embora o jornalismo não deva limitar-se apenas a dar voz às partes e perspetivas envolvidas. Tem de haver um esforço de leitura e interpretação, de contextualização, de aprofundamento, de memória, de descodificação e desmontagem (rigorosa e objetiva) dos factos - diferente de opinar, politizar ou tomar partido - com os olhos postos na salvaguarda do direito que tem o público à informação, sem subterfúgios, na defesa do interesse público e do bem comum.]

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Atender a várias sensibilidades e perspectivas, pesar prós e contras, dá muito trabalho à cabeça. E é um processo mais demorado e com dilemas. Ter partido é mais fácil e claro, porque tem uma via pré-determinada. E há interesses para os quais as pessoas pensarem muito ou, sobretudo, demoradamente, não interessa nada. Importa que consumam sem tempo para gerir e digerir...

Ser apolítico e a-ideológico, isto é, não professar uma política partidária ou uma ideologia em específico, não é ser indiferente. A política nunca me interessou nem me moveu, mas tenho sido (fui) pessoa de algumas causas cívicas, como já referi, comprometido civicamente, na área ambiental, cultural, educativa e sindical - o arquivo deste blogue dará algumas pistas sobre isso. As causas valem por si. Não precisam de serem politizadas ou ideologizadas.

Sem consciência política nenhuma, e sem chegar ao envolvimento ativo ou participativo em qualquer ação partidária, na vida privada ou pública, na adolescência cheguei a simpatizar com a social-democracia, talvez por em casa o meu progenitor simpatizar com Sá Carneiro, sem isso significar que esta simpatia estivesse fundamentada numa consciência política. Hoje continuo a admirar a capacidade de Sá Carneiro romper com certos costumes no Portugal conservador do pós-25 de Abril de 1974. Esse lado fracturante deste homem é algo com o qual simpatizo. A sua morte, quer eu queira quer não, foi um acontecimento marcante na minha adolescência. Lembro-me bem quando e onde estava quando soube do trágico evento.

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[Numa breve pesquisa, dei conta que Sá Carneiro é visto por muitos como uma espécie de Olof Palme português. O primeiro-ministro sueco tornou-se conhecido como um dos maiores exemplos da conciliação de uma economia de mercado com a justiça social, sendo uma das três figuras mais marcantes para o socialista António Guterres, uma referência para António José Seguro (Visão 2.5.2012), tendo Mário Soares, em 30 de maio de 2013, e ainda em 18 de Fevereiro de 2014, afirmado que Sá Carneiro «era um homem de esquerda, como bom social-democrata que era» e «que quis entrar na internacional socialista», embora esta análise tenha de ser contextualizada e lida à luz da época de então.

Como referiu Miguel Sousa Tavares, no Expresso de 15 de Novembro de 2014 (primeiro caderno p.7), «fui sempre, e monotonamente, qualquer coisa próxima da social-democracia - mas uma social-democracia a sério, como a que conheci nos países nórdicos [civilizados, acrescento eu] nos anos oitenta. Também nunca fui liberal e nunca achei que «enriquecer é grandioso, como o estatuiu, anos depois, o Partido Comunista Chinês.»

Mais adiante, refere que «por conhecimento directo, enquanto jornalista, e por um mínimo de seriedade intelectual, jamais tive qualquer ilusão de que a colectivização da economia (só possível de estabelecer em regime ditatorial), pudesse trazer qualquer felicidade aos povos e bem-estar aos países.» Uma «mistificação».

«Assim, e sem quaisquer estados de alma», Sousa Tavares escreve que aceitou sempre o «facto de que o único sistema que poderia garantir a prosperidade e a liberdade dos povos e das nações, era o da economia de mercado, fundada na livre iniciativa privada e no trabalho e assumpção de riscos por conta própria e não na dependência ou para o Estado. Mas, porque também li Marx, e aprendi com isso, nunca tive ilusões de que, como ele dizia, entregue a si próprio, o capitalismo devorar-se-ia e a tudo à roda. A função do Estado seria, então, a de evitar justamente que isso sucedesse, por duas vias: a regulação e vigilância do mercado e a justiça fiscal, para compensar e corrigir as desigualdades à nascença e proteger os pobres e os fracos contra a tentação do poder esmagador dos ricos e poderosos.»

Mas, será que isso é suficiente para evitar que os ricos se montem nas costas dos pobres ou, então, que saiam de cima das suas costas? Será suficiente um Estado vigilante (imprensa e movimento sindical livres), regulador e redistribuidor da riqueza, para assegurar a dignidade das condições de vida das pessoas? Agraciar o grande capital, seja por via da social-democracia ou do socialismo-liberal, e esperar por algum excedente económico para financiar políticas sociais compensatórias será suficiente nos tempos actuais? Este «social» (compensações ou redistribuições de riqueza) não serão uma forma («o açúcar»), como disse Roberto Mangabeira Unger (Público 4.10.2014), com que se «pretende dourar a pílula do modelo económico»?

Ora, nas últimas duas décadas mandou o capitalismo selvagem, com trágicas consequências, em que os ricos e poderosos, sejam indivíduos, comunidades ou países, espoliam os restantes e não saem de cima das suas costas, espoliando inclusive as classes médias. Assim, aumenta o fosso esse ricos e pobres, entre credores e devedores, e diminui a justiça e a coesão sociais.

Para Roberto Mangabeira Unger não basta humanizar o actual sistema. “Precisamos de uma terceira esquerda, empenhada em democratizar a economia de mercado e em aprofundar a democracia”, escreve. Não se trata de deter a globalização, mas de redireccioná-la, “de forma a tornar o mundo mais seguro para uma pluralidade de poderes, de visões e para as experimentações nacionais, das quais depende o nosso sucesso em conseguir maior inclusão, oportunidade e capacidade”. Seja como for, interessa que seja um caminho que traga mais justiça social.]

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No final do Secundário, então ainda sem a mais rudimentar consciência política ou de coisas como direita ou esquerda (pelos vistos sempre me desinteressei por essa matéria - talvez por ser "artificial"), sem consciência de classe social ou de quem, supostamente, defendia os "meus interesses", lembro-me de ter simpatizado com uma candidatura presidencial (previamente dada como) derrotada, que era a de Freitas do Amaral. Recordo-me de haver colegas de turma, com alguma consciência política, acharem estranho a minha preferência, porque eu não era burguês, pequeno-burguês nem tão pouco aspirante a tal... Freitas do Amaral, afinal, viria, um dia, a ser ministro num governo socialista...

Tal como relativamente à esquerda, também reconheço a validade de certos valores que são mais conotados com o centro e a direita, embora muito deles sejam valores universais e não de um campo ideológico em particular. Todavia, há conjunturas em que há valores que fazem mais sentido do que outros, que são mais necessários do que outros, para haver um equilíbrio de "forças", modos de ver e governar o mundo. E não coloco de parte alguma medida mais radical, quando a realidade o justifica. Por vezes, a radicalidade é necessária e não há volta a dar. Depende das circunstâncias do mundo e da vida em cada momento.

Enfim, a minha consciência do valor de diferentes posições e ideias, e uma monótona moderação, concorrem para que seja apolítico e, além disso, altamente irrecomendável para projectos e carreiras políticas. Revejo-me em ideias e contributos dos diferentes partidos políticos, uns mais do que outros, claro, mas não exclusivamente num deles. A razão nunca está toda de um lado ou de um partido. Um partido não abarca a realidade toda e eu procuro, por instinto, o melhor dos diferentes mundos, ideias e propostas (se calhar um enorme Idealismo ou uma enorme Utopia). A Realidade do Mundo ora me coloca mais para a esquerda, ora mais para o centro, ora mais para a direita.

Pode ser pessoalmente desconfortável («um pensamento independente é um lugar solitário e ventoso» - Rosa Montero em A louca da da casa), mais complexo e sei que posso ser incompreendido, porque não me encaixo numa gaveta (o ser humano categoriza e simplifica por instinto) e é como que uma posição anti-sistema, o que também pode ser lido como sendo algo pretensioso. Terá algo de anarquismo?

Certo é nunca me ter dado muito a unanimismos e a gostos massificados. Mas, também não rejeito o consenso e a massificação quando fazem sentido.

[Actualizado em 16.11.2014]

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