«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

domingo, setembro 09, 2018

Entre o profundo e o raso



Nesta nossa Ilha grande em beleza, mas ainda com limitações em termos de mentalidade, ter profundidade é ser pedante; atender a detalhes, qualidade e ser preciso é ser pedante; ser estruturado, consciente, crítico e argumentativo é ser pedante; ter preferências culturais menos comuns é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); ter alguma sofisticação é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); articular uma ideia é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); ser discreto ou introvertido é ser pedante; trabalhar com dedicação e brio é ser pedante; ter auto-estima e confiança é ser pedante...

Isto mesmo que haja discrição e humildade às toneladas, porque tudo aquilo se destaque é tomado como exibicionismo pretensioso. Leitura que resulta do endémico complexo de inferioridade madeirense (adubo para a inveja e a maledicência), do negativismo em nivelar por baixo, vulgarizar o outro (quanto mais vulgaridade houver à minha volta mais dissimuladas ficam as minhas vulgaridades e limitações - um contexto social que não puxa para cima nem estimula as pessoas a darem o seu melhor e a evoluir) e de existências funcionais (automatismo quotidiano de sobrevivência).

Na cerimónia de tomada de posse de um novo Governo Regional (16.11.2004), Alberto João Jardim referiu a necessidade de «expurgar, de vez, males endémicos da sociedade madeirense, como sejam a inveja, o gosto por maldizer, a não distinção entre qualidade e mediocridade, entre o principal e o acessório.»

Passada uma década, afirmou: «Há outra coisa que me preocupa. Dá-me a impressão que a evolução das mentalidades não foi tão rápida como a evolução material, isto é, da qualidade de vida. Acho que as pessoas estão muitos presas à bilhardice, à inveja, a uma certa subserviência a tudo o que é de fora; há aqui ainda umas coisas a corrigir» (entrevista à RTP Madeira, 1.7.2014? e Jornal da Madeira 2.7.2014?).

BlacKkKlansman, a wake up call about the struggle between love and hate



Já tinha lido a entrevista a Spike Lee, que faz capa na revista inglesa Sight & Sound, pelo que fui logo ver o seu novo filme, BlacKkKlansman, acabadinho de estrear num dos cinemas da Madeira. Ao preço que está o cinema, 7 euros, só quando é algo de substancial (mais do que um filme funcional e ligeiro de entretenimento).

E que filme. A narrativa tem lugar em 1973, mas faz a ponte com o momento actual da «America greater again» de Trump e tudo o que ele representa, trazendo ao de cima dores que a grande América nunca resolveu no seu seio.

Spike Lee alia entretenimento, humor e reflexão. Inclui imagens reais no final do filme, de incidentes a ver com o ressurgimento dos neo-nazis (Charlottesville, Agosto de 2017), em que foram pessoas atropeladas, prova de que há coisas que quase não mudaram desde 1973. E tais fenómenos extremistas estão a ter lugar também na Europa.

Há também inclusão de cenas de Birth of a Nation (de 1915, por D. W. Griffith, com pendor racista e exaltação do Klu Klux Klan, adaptado do romance "The Clansman"—já agora, convém ver o outro Birth of a Nation, de 2016, de Nate Parker) e Gone with Wind (de 1939, por Victor Fleming, que condescende sobre a escravatura e minimiza a violência do grupo racista Ku Klux Klan).

«So me being a filmmaker, a scholar and a cinephile, if you go through my body of work it's no secret that it's a critique of Hollywood cinema and it's not a great history», diz Spike Lee à já citada revista. «What Hollywood did to Native Americans is a disgrace: fuck John Wayne, fuck John Ford. I know they tried to make up for it with The Searchers [1956], in the same way D. W. Griffith did with Intolerance [1916], but too damn late, all of them. Hollywood has historically been about white supremacy, the superman.»

E é essa supremacia branca, tão Trump, que é exposta, denunciada e ridicularizada em BlacKkKlansman. O realizador não tem dúvidas sobre as consequências: «with this kind of White House it's not just affecting black people, it's affecting the world.» E situa as coisas desta forma: «People have got to understand that this is not a black and white issue, it is an issue about love versus hatred. These guys are gansgters—they don't give a fuck. Politicians are politicians, but at least back in the day they would lie about it [laughs], or at least give you a smile, whereas now this is straight-up: "We don't give a fuck".»

Refere ainda que o "Agente Laranja", para não mencionar o nome de baptismo do presidente americano, só honra o dinheiro, perante a falta de ética e noção do certo e do errado.

--
Conexões:
Entrevista à Rolling Stone (2.8.2018)

sábado, setembro 08, 2018

Nós da contradição

Horizonte na Calheta, Verão de 2018

Já sentiram Felicidade, Paz, Contentamento (por tudo o que já é e pelo que se perspectiva no horizonte) e, ao mesmo tempo, uma doce Nostalgia de algo que poderia ter sido (ou Melancolia das coisas perdidas)?

Se eu tivesse dúvidas quanto à minha profunda portuguesidade, tal sentimento contraditório dissipá-las-ia.

Afinal, «os nós da contradição / são os mistérios do Fado», como canta Paulo Bragança no EP "Cativo" (2018). 

sábado, setembro 01, 2018

Às elites interessa que o país não passe de uma choldra

Os portugueses ficam entregues a si próprios, enquanto as elites tratam de servir-se, a si e aos seus amigos (foto: Maria João Gala/Global Imagens)

O artigo Lições de Pedrógão do economista Daniel Bessa (Expresso 2392, caderno de Economia, 1.9.2018), é de uma lucidez cristalina sobre a inépcia das elites em Portugal, que trabalham para que «tudo fique na mesma, sem correção», mantendo o país atrasado e uma sociedade bloqueada, corrupta e ineficaz, com um fosso acentuado entre ricos e pobres. Seja elite de direita, centro ou esquerda, é indiferente. Pena que a generalidade do povo português tolere este estado de coisas e essa corja. Como o texto fala por si, ilustrativo da realidade, aqui o replicamos:

«Dirigi, em tempos uma escola de negócios. Alunos adultos, pagando a sua formação. Uma experiência de que me orgulhava e orgulho. Em determinado dia, um professor vindo dos Estados Unidos iniciava a sua lecionação anual. Impossibilitado de estar presente, telefonei-lhe no final da aula: "Então, professor, correu bem, a aula?"; "Correu, correu bem; o que correu menos bem é que você disse-me que os alunos eram vinte mas nunca tive na sala mais de dez; e os que estavam no início não eram os que estavam no fim."

Uma humilhação. Julgava dirigir uma escola; dirigia uma choldra. Pretextei com "a cultura". "Não me fale em cultura*. Nos Estados Unidos seria igual. Só não é igual porque eu entro na sala e fecho a porta, só voltando a abri-la no final da aula." Uma lição que me ficou para sempre. Passámos a proceder desse modo, e a escola tornou-se exemplar, desse ponto de vista.

O que viemos a saber sobre o que se passou em Pedrógão fez-me recordar esta lição. A tragédia convocou a generosidade de milhares de portugueses, pessoas e empresas, que se empenharam em doar a soma necessária à reconstrução das habitações destruídas. Dois trabalhos jornalísticos recentes acabam de revelar que, sob alegada orientação do poder político local, muito do dinheiro foi mal gasto. Motivo de indignação, uma vez mais, ainda que sem surpresa. É "a cultura"; "somos assim."

Dói, isso dói, que, ao mais alto nível político, leis e sistema de justiça sejam desenhados para que tudo continue na mesma, sem correção.»


* não é a cultura, é a natureza humana
(Esta nota e o negrito de «choldra» são sublinhados nossos)

quinta-feira, junho 14, 2018

Dentro


“Se queres ver o Mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora sem esquecer que dentro é que é o teu lugar”

Jorge Palma
«Terra dos Sonhos»

photo origin

domingo, junho 10, 2018

Sr. rock 'n' roll

Nick Cave pela lente de Rita Carmo, no Primavera Sound, Porto, 9.6.2018.

sexta-feira, junho 08, 2018

Imunodeficiência face aos prazeres da música

David Scott Holloway (photo origin)

«Como se pode ter uma relação, seja de que tipo for, com alguém assim, que não gosta de música?»

Anthony Bourdain
Expresso, Dezembro de 2010


terça-feira, março 27, 2018

Colheita

Calheta 2018


Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

[Eugénio de Andrade]

terça-feira, março 20, 2018

Jack White deita mão a vários pratos e condimentos

Capa de Boarding House Reach (Março de 2018)

«The new album sees Jack White expanding his musical palate with perhaps his most ambitious work thus far, a collection of songs that are simultaneously timeless and modern», é o que a informação da editora refere, que confirmamos já depois de ouvir o disco.

E diz mais: «The album explores a remarkable range of sonic terrain -- crunching rock 'n' roll, electro and hard funk, proto punk, hip hop, gospel blues, and even country -- all remapped and born anew to fit White's matchless vision and sense of restless experimentation. Boarding House Reach is a testament to the breadth of Jack White's creative power and his bold artistic ambition.»

É um disco super criativo, surpreendente e desafiante para o ouvinte. Não é tão directo como outros álbuns mais rock 'n' roll de Jack White porque Boarding House Reach é mais experimental e elaborado, com muitas nuances. Jack White deita mão a vários pratos e condimentos com a ajuda de vários colaboradores (ver lista aqui). Adoro o som retro conjugado com as sonoridades actuais.

sexta-feira, março 09, 2018

Brumas

Prazeres, 9 de Março de 2018: o encanto gótico e o aconchego do nevoeiro espesso

terça-feira, março 06, 2018

A story of freedom and awakening

A biographical book about true and intense life experiences and personal awakening: "The more of the real we truly see, the closer we are to being free" (p.157)

Uau... it is like Torsten E. Klimmer (aka Omananda) has already lived many lives "driven by a burning desire for freedom". And intense lives have been lived. A collection of so many rich and "unique" life experiences and wisdom obtained from his personal "spiritual journey" that has taken place over twenty-eight years.

Most of the time was spent "traveling the world". "Traveling can be of irreplaceable value to any person who truly wants to understand" (p.156). Life lessons, discovery of wisdom and one's purpose, life contemplation, getting new perspectives/insights and exploring inner universes.

One can travel the world "touring the planet" or one can do it in one space, in his/her room, that is, "travel astral - as an inter-dimensional time-traveler that can also be the way of the shaman. The two [different ways] go well in combination, but one is much more effective, because it breaks though the limitations of time and space, thus enabling us to reach our destination much faster and furthering us on the path to nowhere, toward the here and now" (p.158).

India, for instance, "had taken us through some fascinating inner and outer places." "I learned a great deal about myself during that trip to India, which was the first of many to come. I appreciate the vast spectrum of experiences available in India, where a profound spiritual understanding seems to be deeply embedded into everyday life. In India I understood we need to pass through darkness before we can find light and that we must take time to develop techniques that allow us to look inwards for answers to personal questions" (p.89).

There are clues for other people to inspire themselves looking for inner peace, their true self and a meaningful life. "This book is dedicated to all light-warriors who make it their life's mission to catalyze the process of conscious awakening", it is said.

"For individuals who are unprepared or willing to receive insights into the deeper meaning of life that often goes hand in hand with a spiritual awakening, a strong psychedelic trip can be traumatizing" (p.98) Omananda warns. "My intention of opening my third eye had given me powerful insights into a reality I did not even know existed" (p.128).

One needs to get ego free. "Awakening comes in many forms, and the most natural process for achieving it involves being loving and kind. When guided by the wisdom of our intuition we learn to delevop compassion. One simply becomes love as the ego steps out of the way to allow a complete merger with the experience in the present moment" (p.305).

Less allows us to be more and free. "The total silence, nakedness, and isolation in the jungle left its mark on my psyche. I was stripping myself methodically of any possible comforts and distractions." "For the first time, I was content and filled with love that came from inside me, as if there was an endless source of it" (p.140).

"I suddenly became weary of life and found little purpose in it since self-gratifying and surviving was all I seemed to be doing - still! I needed a higher purpose to live for" (p.151). We know that chemistry of our brain makes we run after new goals all the time - we are not programmed to sit and enjoy what we have achieved. That chemistry aims to make sure we never stop. Life is movement.

Last, but not least, I wish all good luck with the action plans for the future concerning life on the planet and "unlocking a higher human potential" (p.321). "It is crucial that we ALL focus on a beautiful and peaceful world together while we can still preserve nature on this planet" (p.244). This means shifting "our consciousness to a higher level" (p.308) and "experience ourselves fully conscious with a present awareness as life unfolds in our waking lives" (p.309).

After all, "love and sharing it has always been, and always will be, the final solution and answer to all of our problems" (p.318).

I really enjoyed the book, not only the narrative about the travels to many different places in the world, but also, and especially, the philosophical and deeper dimensions: self development, exploration, awakening, transformation and growth as a person, and a new/higher purpose of life that unfolds.

Omananda is also the producer of the psychedelic film Liquid Crystal Vision.

--
Transcendental Journeys – A Visionary Quest for Freedom was made in the USA, Columbia, SC, 17 December 2017.

Liberal

Mario Vargas Llosa por Ximena Garrigues e Sergio Moya (photo copyright)

«El fascismo, el comunismo han atacado tremendamente al liberalismo, sobre todo caricaturizándolo y asociándolo a los conservadores. En sus primeras épocas el liberalismo fue asediado sobre todo por la derecha. Ahí están las encíclicas papales, los ataques desde todos los púlpitos a una doctrina que se consideraba enemiga de la religión, enemiga de los valores morales. Creo que estos adversarios definen muy bien la estrecha relación que existe entre el liberalismo y la democracia. La democracia ha avanzado y los derechos humanos han sido reconocidos fundamentalmente gracias a los pensadores liberales.»

«Esta semana [final de Fevereiro de 2018] publica su ensayo La llamada de la tribu (Alfaguara), un alegato a favor del pensamiento liberal a través de siete autores que le influyeron y a los que rinde homenaje: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin y Jean-François Revel. Voces de una corriente que reivindica al individuo como ser soberano y responsable, y a la libertad como valor supremo; que defiende la democracia y la separación de poderes como el sistema que mejor concilia los valores contradictorios de la sociedad. Una doctrina que reacciona frente al “espíritu tribal” que han alimentado históricamente el fascismo, el comunismo, el nacionalismo o el fanatismo religioso.»

«El liberalismo no solo admite, sino que estimula la divergencia. Reconoce que una sociedad está compuesta por seres humanos muy distintos y que es importante preservarla así. Es la única doctrina que acepta la posibilidad de error. Por eso insisto mucho: no es una ideología; una ideología es una religión laica. El liberalismo defiende algunas ideas básicas: la libertad, el individualismo, el rechazo del colectivismo, del nacionalismo; es decir, de todas las ideologías o doctrinas que limitan o cancelan la libertad en la vida social

Excertos da entrevista de Mario Vargas Llosa ao El País em 25.2.2018.