«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

domingo, novembro 03, 2019

Alegria de viver (e morrer) só

Calheta, Abril de 2019

O título é a tradução literal de parte do título de um artigo assinado por Keli Goff, de outubro último, 'You don't have to settle': the joy of living (and dying) alone. Embora a articulista coloque e desenvolva a questão de um ponto de vista feminino, considero que o conteúdo ultrapassa a questão de género, isto é, pode ser elevado para o patamar universal.

Para não se pensar que esta questão é de hoje, já em 1865, com o devido enquadramento social de então, no seu Guerra e Paz, Lev Tolstoi escrevia o seguinte, pela voz da personagem André Bolkonski, que poderia também ser colocado na voz de uma mulher nos tempos que correm: «Nunca te cases, meu amigo, é o conselho que te dou. Casa-te apenas depois de teres dito a ti mesmo que não podes fazer outra coisa, depois de a paixão pela mulher que escolheste já não te cegar, depois de a conheceres bem; de outro modo, enganar-te-ás cruelmente e sem remissão. Casa-te o mais tarde possível quando já não servires para mais nada... Senão, tudo o que há em ti de nobre e de grande, perder-se-á. Enterrar-te-ás em ninharias... [...] Quando o teu Bonaparte se encaminhava, passo a passo, para o seu fim, era livre, só pensava na meta a atingir. Uma vez ligado a uma mulher, não passas dum forçado preso a correntes. Diz adeus à tua liberdade, às tuas aptidões, às tuas esperanças; curva-te sobre o desgosto de a teres perdido para sempre.»

Daí que o compromisso, para não ser algo negativo, seja para a mulher ou para o homem, deveria acontecer caso a outra pessoa, para essa mulher ou para esse homem, fosse excepcional (a great deal). Dito de outro modo, possuir as qualidades que mais valorizamos (ser "perfeito" para nós, merecedor da nossa admiração), que é para evitar perder-se o que há de «nobre e grande» em cada um, ser-se «livre», realizar-se as suas «aptidões» e ter espaço para «crescer» (juntos é ainda melhor). Mas, mesmo com a pessoa excepcional, não é totalmente garantido que o casamento resulte para sempre, porque as circunstâncias externas e pessoais estão em constante transformação.

Não sendo possível o vínculo com a pessoa excepcional, há coisas bem piores do que estar (e morrer) só. Há alegrias e vantagens. São mulheres e homens a chegar a essa conclusão. Ser-se capaz de manter ligações familiares e de amizade (ser só não é ser sozinho), e ter uma vida activa e estimulante, parece ser mais crucial do que ser-se casado. E quanto a morrer só, toda a gente morre só, mesmo que acompanhado. É inerente à condição humana.

Sinais dos tempos em que as pessoas pensam mais pela sua própria cabeça e percebem que é possível ser feliz (e completo) fora da instituição casamento. "For so long, society has perpetuated the stigma that you need someone by your side to be seen as whole", refere ainda Keli Goff. Na verdade, esse estigma existe, mas já não é tão preponderante. Por outro lado, que impactos sociais e demográficos terá nos países ocidentais esta emancipação/realização individual?

Todavia, há adultos que não conseguem comer sós, ir ao cinema sós, dormir sós, decidir sós. Apesar dos riscos, se a pessoa se sente melhor em casar, simplesmente, para não estar só, ou assegurar uma situação de estabilidade financeira, quem pode dizer o contrário? Cada um sabe de si. Pode-se suportar um compromisso em favor de um ganho maior.

terça-feira, abril 16, 2019

«A filha da mãe»: memórias da passagem à idade adulta


O relato de memórias anterior, História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar (Chiado Editora, 2016), deixou em aberto uma sequela, cobrindo a fase mais pulsante e vibrante da vida do narrador-personagem, ou de qualquer pessoa, que é a juventude e a entrada na idade adulta.

A continuação da história faz-se com A filha da mãe - os pedacinhos que faltavam (Chiado Editora, 2018), que traça a memória de uma época, de uma viagem iniciática, de um retorno às origens e da passagem à vida adulta. E do primeiro grande amor. São ingredientes que permitem a construção de uma narrativa fluída e estimulante. Há vidas que dão um livro. O relato pelo narrador-personagem faz-se na primeira pessoa, em coerência com o facto de ser um testemunho pessoal com sensibilidade e ternura.

«Esta era, sobretudo, uma viagem de reconhecimento, um afundar dentro de mim para descobrir quem era ou queria ser» (p.50). Portanto, um processo de auto-indagação, de escolhas e definição de uma identidade. A viagem no mundo remete para um percurso interno: «tinha necessidade de ser eu, autêntica, honesta comigo mesma sem incomodar o resto do mundo» (p.76). Ainda por cima sem as figuras tutelares (pais) presentes: «agora estava por minha conta» (p.64).

Depressa percebeu que a liberdade e a autonomia tinham um preço. «Compreendi que estava só, finalmente era dona do meu nariz, mas essa liberdade tinha os seus custos. Habituada a andar de "muletas", agora devia aprender a andar solta e suportar os tropeções e quedas que fossem necessárias, esconder as nódoas negras e enxugar as lágrimas sem ajuda» (p.67).

A protagonista tinha outras ambições, era um espírito livre e inquieto, não queria viver segundo uma receita. «[P]recisava ver algo mais do mundo. Precisava conhecer outras pessoas, outros modos de vida»; «queria ver mais, a vida não se podia resumir a crescer, casar e ter filhos» (p.58). «Agora, na ilha, convivia com rapazes, mas não pensava neles como futuros maridos, éramos amigos e divertíamo-nos juntos» (p.63).

Maria Cecília, recorde-se, viajara para a Venezuela aos seis anos de idade, em 1955, deixando para trás o Jardim do Mar, uma ilha dentro de outra ilha, a Madeira. Em 1973, nas vésperas da Revolução em Portugal, regressou à terra de origem. É este o ponto cronológico em que arranca a nova narrativa, que contém algumas analepses, que dão conta de episódios anteriores à viagem, como a recusa dos pretendentes ou a experiência de trabalho, que são importantes para moldar a personagem e compreender o presente.

Embora as suas raízes estivessem na Ilha, tinha crescido na América do Sul, noutra cultura. Por isso, o choque com algumas formas de ser e estar da aldeia é inevitável. «Eu era um híbrido, tinha a rudeza da ilha por herança e a alegria e o ritmo da terra tropical recebida de graça» (p.27). Por conseguinte, não era fácil lidar com esses dois pólos antagónicos, entre os quais a protagonista vai «encontrar o seu rumo» e identidade, com os seus dilemas e dores.

No entanto, na aldeia, dançava-se ao som das músicas modernas como o Je T'aime,...Moi Non Plus, na versão de Serge Gainsbourg com Jane Birkin (1969), que foi proibida em Portugal na época. Era um sinal de abertura aos novos tempos, em contraponto com o conservadorismo de valores e costumes dominante naquela localidade e no país. Essa abertura seria potenciada pela Revolução de 1974. E a chegada da televisão.

Com a revolução, a abertura ao conhecimento através da organização da biblioteca, a criação de uma cooperativa e o trabalho voluntário de serviço social. A casa da protagonista tornou-se um centro de encontro, baile e convívio. As circunstâncias vieram ditar também mudanças internas. «Os ventos de Abril não trouxeram apenas a liberdade para o país, acompanhando essas mudanças, eu própria mudava também» (p.112).

O relato das mudanças na aldeia e no interior da protagonista culminam com a vivência do primeiro grande amor, numa «noite de Setembro, com a lua em quarto crescente»: «e atirei-me como se atira um equilibrista, sem rede», porque «não me podia permitir deixar de viver essa felicidade» (p.145). E a felicidade daquela paixão foi vivida (confieso que viví) precisamente porque houve entrega.

A filha da mãe termina como um novo desejo de mudança e a saída: «o tempo passado na ilha foi necessário para o meu crescimento», mas a «ilha maravilhosa parecia-me pequena, as altas rochas me asfixiavam, tornavam-se redutoras» (p148).

Cá esperamos pelos «pedacinhos» que ainda faltam.

domingo, janeiro 27, 2019

Da inveja e da Gratidão

Gratidão é o oposto da inveja. Esta é uma «admiração transtornada» em que o invejoso julga o outro a «salvo da fadiga de viver, da sua turbulência e da sua dor», o que suscita uma «ânsia irreversível de destruição do outro», da alegria do outro.

Sendo a inveja um sentimento cada um será livre de o sentir. No entanto, não é um questão de liberdade do próprio, face ao carácter destrutivo da inveja para o outro (choca com a liberdade deste). «O problema é quando a inveja se operacionaliza», como referiu Alberto Vieira, historiador madeirense.

Luís Peixoto (Notícias Magazine 8.5.2016) defende que a «inveja só chega ao invejado se este permitir, se estiver vulnerável, se não estiver preparado», mas pode não ser assim quando o sentimento se traduz em acções práticas deliberadas de bloqueio ou ruína do outro.

Por julgar o outro a salvo da fadiga de viver

Citado por José Tolentino Mendonça, no seu Elogio da Sede (2018), o filósofo Soren Kieakegaard explicava a inveja como uma «admiração transtornada». Significa que aquele que inveja «reveste o seu objeto de uma admiração que tem a ver pouco com a realidadeImagina que aquilo que o outro possui (inteligência, sucesso, beleza, bens, o que seja) lhe confere uma espécie de omnipotência, o coloca a salvo da fadiga de viver, da sua turbulência e da sua dor, coisas inteiramente falsas.» E aqui o escritor madeirense tocou no cerne da motivação do sentimento da inveja e do invejoso. Que, afinal, se baseia num equívoco («ele é que está bem»; «ele está como quer», ouve-se dizer).

Fernando Pessoa disse-o, poética e filosoficamente, nuns versos de 2 de Julho de 1931: «Ser feliz é ser aquele./E aquele não é feliz,/Porque pensa dentro dele/E não dentro do que eu quis.» Um poema magistralmente cantado/interpretado por Camané no álbum Sempre de Mim, no tema «Ser Aquele».

Tolentino Mendonça explica que a «desproporcionada felicidade que sonhamos que há nos outros obsidia-nos e essa admiração adoecida é experimentada como uma perda pessoal e uma injustiça, numa modalidade tão avassaladora que suscita uma ânsia irreversível de destruição, de cancelamento do outro.»

Invejoso quer eliminar a alegria que supõe no outro

Assim, a «inveja é um sentimento disruptivo em relação a outra pessoa que possui algo de desejável— e o impulso do invejoso é eliminar ou estragar o que pensa ser a fonte daquela alegria. O outro deixa de ser um parceiro e torna-se um rival. Deixa de ser uma existência autónoma e diferenciada para andar, na maior parte dos casos sem saber, enredado nos dramas, ficções e combates fantasmagóricos do eu. Deixa de constituir a possibilidade criativa de um encontro, para viver capturado num ressentimento que alaga tudo de mesquinhez e sombra.» E acrescentaria: de violência.

O madeirense José Tolentino Mendonça escreveu que «não é, por acaso, que a psicologia falará, por exemplo, da inveja como dimensão muito presente no desejo humano onde se acolhem os nossos fantasmas de medo e destruição mais arcaicos.» «Perante o objeto real ou imaginário do desejo nós desatamos a gritar,«é meu, é meu».

E explica que o «desejo invejoso não experimenta satisfação em si mesmo, na sua existência, naquilo que é. Extrai, antes, a sua força em impedir o outro, num jogo de rivalidade destrutiva que não olha a meios

Obsessão em prejudicar e destruir o outro

O mesmo autor cita a psicanalista Melanie Klein, que faz recuar o «objeto primário de toda a inveja ao seio nutridor materno» («ainda não falava, e já olhava pálido e com rosto amargurado para o irmãozinho de leite» — Santo Agostinho em Confissões VII) e conta uma história ilustrativa:

«Era uma vez um homem que vivia a invejar o vizinho. Certo dia foi visitado por uma fada, que lhe ofereceu a extraordinária possibilidade de realizar naquele momento um desejo, por maior que fosse, mas com uma condição: "Poderás pedir o que quiseres, desde que o teu vizinho receba o mesmo a dobrar." O invejoso respondeu, então: "O meu desejo é que me arranques imediatamente um dos olhos." A obsessão de ver o outro prejudicado prevaleceu sobre qualquer vontade na ordem do bem, mesmo em relação a si próprio.» E comenta Tolentino Mendonça: «Estranho sentimento, a inveja. E, contudo, tão infiltrado nas relações humanas, tão abrasivo da vida interior, tão capaz de fazer em cacos ambientes».

Sociedade fechada é mais permeável à inveja

Para o filósofo José Gil, a inveja, que tem imensas estratégias, não é uma relação puramente psicológica, é mais do que isso: trata-se de um sistema que tem autonomia e vive em meios fechados, que cria entraves àqueles que têm ideias, iniciativas e empreendimentos. Admite que «não é uma característica portuguesa, antes um dos sentimentos mais espalhados pelo mundo. Simplesmente acontece que em Portugal a inveja tem uma força tal porque nós somos uma sociedade fechada. E quando as sociedades se fecham, tudo se concentra, tudo se paralisa, tudo se adensa e não respira. Uma universidade é um antro de inveja em qualquer parte do mundo, seja nos Estados Unidos, em França ou na Inglaterra. Mas vimos cá para fora e respiramos ar puro. Em Portugal não, sai-se cá para dentro e não para fora.»

A inveja é inerente à condição humana, mas em meios mais pequenos e sociedades mais fechadas (quem está mais próximo é passível de maior proximidade e de fazer mais sombra) poderá, quem sabe, assumir uma presença mais intensa.

Invejidade é o termo popular para inveja

Segundo Alberto Arthur Sarmento, a invejidade significa a «inveja mal reprimida, encapotada, que moe e ginga, repiza e muito gira, a lançar mão de todos os meios para se alastrar, procurando anular a sombra que a escurece e molesta, húmida e fria, infiltrante, deprimindo o que é alheio, a roçar-se a esquina, para realização dos seus fins. É a inveja dinâmica, sem sentido, nem direcção, impando uma coragem embexigada pela vacina do medo.» Será uma cobiça refinada e destrutiva, que limita o progresso e o convívio social.

Numa conferência no Teatro Baltazar Dias, em 6.11.2018, o historiador Alberto Vieira referiu a «cultura popular» que valoriza a questão da inveja, tendo processos e mecanismos para a sua «cura». Explicou que a inveja parte sempre da existência e proximidade do outro («a prática de forte contacto, convívio, relação, que perdura no tempo, potencia a inveja»). Contudo, não tem dúvida que o mundo de invejosos é de «intolerância e violência.» Porque a inveja é um sentimento «destrutivo, negativo». Considerada um «pecado», que a religião, por exemplo, condena e combate.

Inveja não é ciúme, porque ela é destrutiva: implica a destruição do outro e a perda para esse outro. Assim, «alguém que se esforça por ter como o outro» não constitui inveja, porque é algo construtivo, embora partindo de uma comparação com o outro. Comparar-se com os outros, dizem os manuais do bem-estar, é uma atitude a evitar pelos sentimentos negativos passíveis de serem gerados, como o sentir-se aquém ou ressentido. Neste contexto, para nós, é mais no sentido ver o outro como um referencial positivo, numa admiração sadia, benévola. A inveja é uma admiração doente, «transtornada».

Poio: a especificidade madeirense

Em termos da especificidade madeirense, Alberto Vieira identifica a «poiozação do quotidiano» como a «expressão mínima da inveja.» Uma outra forma da sua expressão. Poiozação a ver com o «poio», relativo à posse, à propriedade, fruto da divisão da terra. É uma propriedade diminuta («nesga de terra»), mas que «significa muito» para a família. Para o madeirense, o «poio é tudo». Daí gerar «muitas situações de atrito e conflito».

O poio «marcou muito a história dos madeirenses», como «fonte fundamental de sustento», e marcou a noção de «espaço e território», nomeadamente a dificuldade em «partilhar» esse espaço com os outros. Mais do que a inveja universal, tal marcou a «maneira de ser madeirense». O que não contribui tanto para uma «visão mais ampla» como para o «desenvolvimento do próprio espaço». Porque o poio, além de territorial ou físico, é um «espaço mental». E marcou a mentalidade madeirense.

Sobre a inveja e o poio no Arquipélago da Madeira ver ainda os seguintes artigos do historiador citado: Invejidade e O verso e o reverso da imagem da ilha e do madeirense (Cadernos de divulgação do CEHA; Projeto “Memória-Nona Ilha”/DRC/SRETC, N.º 01, 2016).

Gratidão, o antídoto para a inveja

Quem é grato, quem expressa gratidão interiormente, quem vive a «experiência da gratificação que o outro constitui torna-se então», essa experiência, «uma escola de generosidade: passamos a ser capazes de compartilhar com os outros o nosso dom», salienta José Tolentino Mendonça, no livro já citado. Enquanto a «inveja é uma reivindicação estéril e infeliz», a «gratidão constrói e reconstrói o mundo, dentro e fora de nós.»

Por isso, defende que o «contrário da inveja é a gratidão e esta está intimamente ligada à confiança no bem que se desenvolve nos outros, no bem que o outro é sem si mesmo (independente de mim) e no bem que eu recebo dele.»

E acrescenta: «Cada um traz em si um quinhão de falhas de amor e a questão é como as reconhece, integra e transfigura. A própria criança tem de aprender a ver a mãe não apenas como fonte de alimento para seu uso exclusivo e a controlar a sua voracidade. Quando a boa relação se estabelece, predomina o desejo de preservar em vez de destruir. A não sei quantas braças de profundidade situa-se uma dor nunca reparada, mas que condiciona toda a superfície. Identificar e cuidar dessa dor é a condição para sermos nós próprios e podermos entender também a dor que os outros transportam, tocando a nossa e a sua verdade. O momento de aceitação de si, com lacunas e vulnerabilidades, é uma etapa crítica, dilacerante até, mas abre-nos à transformação e à fecundidade

domingo, dezembro 16, 2018

Ana da Silva no Mudas


Ana da Silva (Madeira Dig 1.12.2018, MUDAS, Calheta), com o projecto Island, com a japonesa Phew. Fotografia de Rui Pinheiro (com exposição na Galeria dos Prazeres até 2.2.2019).

Capazes de matar a própria morte

El Petó de la Mort (O Beijo da Morte), por Jaume Barba ou Joan Fontbernal, 1930, que se encontra num bairro de Barcelona
«Éramos capazes de matar a própria morte», dizia-me pouco um camarada de tropa, erguendo os braços com veemência. Isto é, capazes de derrotar o absurdo existencial. O que é ir à Lua ou a Marte comparado com isso?

photo: SantiMB

domingo, setembro 09, 2018

Entre o profundo e o raso



Nesta nossa Ilha grande em beleza, mas ainda com limitações em termos de mentalidade, ter profundidade é ser pedante; atender a detalhes, qualidade e ser preciso é ser pedante; ser estruturado, consciente, crítico e argumentativo é ser pedante; ter preferências culturais menos comuns é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); ter alguma sofisticação é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); articular uma ideia é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); ser discreto ou introvertido é ser pedante; trabalhar com dedicação e brio é ser pedante; ter auto-estima e confiança é ser pedante...

Isto mesmo que haja discrição e humildade às toneladas, porque tudo aquilo se destaque é tomado como exibicionismo pretensioso. Leitura que resulta do endémico complexo de inferioridade madeirense (adubo para a inveja e a maledicência), do negativismo em nivelar por baixo, vulgarizar o outro (quanto mais vulgaridade houver à minha volta mais dissimuladas ficam as minhas vulgaridades e limitações - um contexto social que não puxa para cima nem estimula as pessoas a darem o seu melhor e a evoluir) e de existências funcionais (automatismo quotidiano de sobrevivência).

Na cerimónia de tomada de posse de um novo Governo Regional (16.11.2004), Alberto João Jardim referiu a necessidade de «expurgar, de vez, males endémicos da sociedade madeirense, como sejam a inveja, o gosto por maldizer, a não distinção entre qualidade e mediocridade, entre o principal e o acessório.»

Passada uma década, afirmou: «Há outra coisa que me preocupa. Dá-me a impressão que a evolução das mentalidades não foi tão rápida como a evolução material, isto é, da qualidade de vida. Acho que as pessoas estão muitos presas à bilhardice, à inveja, a uma certa subserviência a tudo o que é de fora; há aqui ainda umas coisas a corrigir» (entrevista à RTP Madeira, 1.7.2014? e Jornal da Madeira 2.7.2014?).

BlacKkKlansman, a wake up call about the struggle between love and hate



Já tinha lido a entrevista a Spike Lee, que faz capa na revista inglesa Sight & Sound, pelo que fui logo ver o seu novo filme, BlacKkKlansman, acabadinho de estrear num dos cinemas da Madeira. Ao preço que está o cinema, 7 euros, só quando é algo de substancial (mais do que um filme funcional e ligeiro de entretenimento).

E que filme. A narrativa tem lugar em 1973, mas faz a ponte com o momento actual da «America greater again» de Trump e tudo o que ele representa, trazendo ao de cima dores que a grande América nunca resolveu no seu seio.

Spike Lee alia entretenimento, humor e reflexão. Inclui imagens reais no final do filme, de incidentes a ver com o ressurgimento dos neo-nazis (Charlottesville, Agosto de 2017), em que foram pessoas atropeladas, prova de que há coisas que quase não mudaram desde 1973. E tais fenómenos extremistas estão a ter lugar também na Europa.

Há também inclusão de cenas de Birth of a Nation (de 1915, por D. W. Griffith, com pendor racista e exaltação do Klu Klux Klan, adaptado do romance "The Clansman"—já agora, convém ver o outro Birth of a Nation, de 2016, de Nate Parker) e Gone with Wind (de 1939, por Victor Fleming, que condescende sobre a escravatura e minimiza a violência do grupo racista Ku Klux Klan).

«So me being a filmmaker, a scholar and a cinephile, if you go through my body of work it's no secret that it's a critique of Hollywood cinema and it's not a great history», diz Spike Lee à já citada revista. «What Hollywood did to Native Americans is a disgrace: fuck John Wayne, fuck John Ford. I know they tried to make up for it with The Searchers [1956], in the same way D. W. Griffith did with Intolerance [1916], but too damn late, all of them. Hollywood has historically been about white supremacy, the superman.»

E é essa supremacia branca, tão Trump, que é exposta, denunciada e ridicularizada em BlacKkKlansman. O realizador não tem dúvidas sobre as consequências: «with this kind of White House it's not just affecting black people, it's affecting the world.» E situa as coisas desta forma: «People have got to understand that this is not a black and white issue, it is an issue about love versus hatred. These guys are gansgters—they don't give a fuck. Politicians are politicians, but at least back in the day they would lie about it [laughs], or at least give you a smile, whereas now this is straight-up: "We don't give a fuck".»

Refere ainda que o "Agente Laranja", para não mencionar o nome de baptismo do presidente americano, só honra o dinheiro, perante a falta de ética e noção do certo e do errado.

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Conexões:
Entrevista à Rolling Stone (2.8.2018)

sábado, setembro 08, 2018

Nós da contradição

Horizonte na Calheta, Verão de 2018

Já sentiram Felicidade, Paz, Contentamento (por tudo o que já é e pelo que se perspectiva no horizonte) e, ao mesmo tempo, uma doce Nostalgia de algo que poderia ter sido (ou Melancolia das coisas perdidas)?

Se eu tivesse dúvidas quanto à minha profunda portuguesidade, tal sentimento contraditório dissipá-las-ia.

Afinal, «os nós da contradição / são os mistérios do Fado», como canta Paulo Bragança no EP "Cativo" (2018). 

sábado, setembro 01, 2018

Às elites interessa que o país não passe de uma choldra

Os portugueses ficam entregues a si próprios, enquanto as elites tratam de servir-se, a si e aos seus amigos (foto: Maria João Gala/Global Imagens)

O artigo Lições de Pedrógão do economista Daniel Bessa (Expresso 2392, caderno de Economia, 1.9.2018), é de uma lucidez cristalina sobre a inépcia das elites em Portugal, que trabalham para que «tudo fique na mesma, sem correção», mantendo o país atrasado e uma sociedade bloqueada, corrupta e ineficaz, com um fosso acentuado entre ricos e pobres. Seja elite de direita, centro ou esquerda, é indiferente. Pena que a generalidade do povo português tolere este estado de coisas e essa corja. Como o texto fala por si, ilustrativo da realidade, aqui o replicamos:

«Dirigi, em tempos uma escola de negócios. Alunos adultos, pagando a sua formação. Uma experiência de que me orgulhava e orgulho. Em determinado dia, um professor vindo dos Estados Unidos iniciava a sua lecionação anual. Impossibilitado de estar presente, telefonei-lhe no final da aula: "Então, professor, correu bem, a aula?"; "Correu, correu bem; o que correu menos bem é que você disse-me que os alunos eram vinte mas nunca tive na sala mais de dez; e os que estavam no início não eram os que estavam no fim."

Uma humilhação. Julgava dirigir uma escola; dirigia uma choldra. Pretextei com "a cultura". "Não me fale em cultura*. Nos Estados Unidos seria igual. Só não é igual porque eu entro na sala e fecho a porta, só voltando a abri-la no final da aula." Uma lição que me ficou para sempre. Passámos a proceder desse modo, e a escola tornou-se exemplar, desse ponto de vista.

O que viemos a saber sobre o que se passou em Pedrógão fez-me recordar esta lição. A tragédia convocou a generosidade de milhares de portugueses, pessoas e empresas, que se empenharam em doar a soma necessária à reconstrução das habitações destruídas. Dois trabalhos jornalísticos recentes acabam de revelar que, sob alegada orientação do poder político local, muito do dinheiro foi mal gasto. Motivo de indignação, uma vez mais, ainda que sem surpresa. É "a cultura"; "somos assim."

Dói, isso dói, que, ao mais alto nível político, leis e sistema de justiça sejam desenhados para que tudo continue na mesma, sem correção.»


* não é a cultura, é a natureza humana
(Esta nota e o negrito de «choldra» são sublinhados nossos)

quinta-feira, junho 14, 2018

Dentro


“Se queres ver o Mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora sem esquecer que dentro é que é o teu lugar”

Jorge Palma
«Terra dos Sonhos»

photo origin

domingo, junho 10, 2018

Sr. rock 'n' roll

Nick Cave pela lente de Rita Carmo, no Primavera Sound, Porto, 9.6.2018.

sexta-feira, junho 08, 2018

Imunodeficiência face aos prazeres da música

David Scott Holloway (photo origin)

«Como se pode ter uma relação, seja de que tipo for, com alguém assim, que não gosta de música?»

Anthony Bourdain
Expresso, Dezembro de 2010