«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

quarta-feira, agosto 17, 2016

«Arrepiante maravilhosa beleza do criado»

Clouds in Calheta (2016)

"Que Coisa São As Nuvens?". Este é o título da crónica semanal de José Tolentino Mendonça no Expresso, que foi antes o título de um filme de Pier Paolo Pasolini, que é uma «iniciação à arte do espanto», diz o cronista madeirense.

Quanto ao filme, o poeta ilhéu recorda «três diálogos que correspondem a outros tantos eixos de sentido.»

O primeiro, quando Otelo chega e pergunta aos presentes: «Por que será que estou tão contente?». A resposta que lhe dão é esta: «porque nasceste!».

O segundo, também um diálogo em que Otelo participa, mas desta vez é Iago (que no filme tem o rosto de Totò) que lhe explica: «É isso, meu filho, somos um sonho dentro de um sonho».

O terceiro e último é quando Caronte (interpretado por Modugno) vai despejar as marionetas estragadas de Otelo e Iago a uma lixeira a céu aberto. Otelo e Iago pensam que é o fim, mas não. Pouco depois, dão por si com o imenso e inexplicável céu de nuvens diante dos olhos.

OTELO: Hiiii! Quem são aquelas?
IAGO: Aquelas são... são as nuvens.
OTELO: E que coisa são as nuvens?
IAGO: Boo!
OTELO: Como são belas... como são belas... como são belas...
IAGO: Ah, arrepiante maravilhosa beleza do criado.


A «capacidade de anotar com fulminante exactidão o criado» é uma das razões de José Tolentino Mendonça para gostar de Pasolini.

(in "Que coisa são as nuvens", Expresso - Crónicas, Abril 2015)
(a fotografia impressionista deste post foi captada no céu da Calheta sem qualquer filtro ou edição posterior: tudo feito pela Natureza)

terça-feira, agosto 09, 2016

Franqueza politicamente incorrecta em lugar da mentira ou ilusão politicamente correcta

Tom Morello: «Rocking ‪#‎lollapalooza‬ with my face» (July 31, 2016)

Não quero "perder" mais tempo neste tipo de deambulações (há coisas mais interessantes do que a política - como o meu Hermann Hesse ou os meus Tool, um na mesa de cabeceira, outros no meu leitor de CDs) mas deixo o excelente artigo de Daniel Oliveira (Chegou o futuro infeliz), embora discorde que o futuro infeliz chega só agora. Já tinha chegado às muitas vítimas da crise financeira.

Importa que o opinion maker explica como se chegou até aqui (risco de um candidato radical e populista ganhar a presidência dos EUA). Uma opinião "jornalística" que não abarca tudo, nem seria esse o propósito. É uma sugestão de leitura para quem queira "perder" algum tempo a compreender. Deixo uns destaques pessoais a respeito do que li:

Como estou cansado da deliberada mentira ou ilusão politicamente correcta, acredito na «franqueza politicamente incorrecta», de que fala o articulista, para enfrentar a realidade e dar solução aos problemas, de forma a tornar o mundo socialmente mais justo e pacífico. E em lugar do pântano politicamente correcto à maneira lusa - António Guterres, apesar do seu talento, foi embora por causa desse pântano petrificante. E Sá Carneiro fora antes "mandado embora"...

Para mim, o politicamente incorrecto como uma «autoestrada para a alarvidade onde nem o bom senso nem a civilidade sobrevivem» não é opção nem faz sentido. Como é óbvio. E acredito que não é este segundo tipo de politicamente incorrecto que defendia Clint Eastwood (Clint Eastwood on the "Pussy" Generation and Why He's Voting for Donald Trump).

Os filmes por si realizados, segundo lembro, defendem valores humanos fundamentais da civilização, como a solidariedade, embora se possa criticar alguns aspectos de fervor nacionalista e justicialista à americana. Não seria admissível que, nos dias de hoje, Eastwood ainda defendesse qualquer tipo de discriminação entre pessoas.

Daniel Oliveira refere que «“Donald Trump é o candidato do caos.” Não o criou, nem sequer se pode dizer que o tenha alimentado. Resulta dele.» O caldo morno do politicamente correcto impeditivo de soluções para os problemas deixou muita gente desiludida (e sem esperança) no campo democrata. A responsabilidade não é só da direita nem dos democratas. A circunstância de crise económica veio dar gás ao populismo radical.

O articulista refere: «O seu discurso [de Donal Trump], carregado de ódio e ressentimento, com toda a retórica da extrema-direita, é mais fácil por ter havido a crise em 2008. Por Obama ter falhado (não percebemos porque a Europa falhou ainda mais). Porque, tal como Bernie Sanders, dirige-se a um profundo mal-estar da América e sabe que Hillary Clinton será a última a conseguir responder-lhe».
 
Mas, é importante isto: por mais insensato e radical que seja Trump, ele vive num contexto de uma DEMOCRACIA (não é um Estaline na Rússia). «Em que país do mundo um confronto de rua entre um anarquista e um extremista de direita acaba num debate constitucional? Talvez seja isto que salve a América: com todos os excessos, ninguém se atreve a pôr em causa, pelo menos de forma clara, a democracia. Apesar de tudo, têm uma coisa decente a que se agarrar.»

«Na rádio local, nas televisões locais, nos jornais, em todo o país, só há um assunto: os crimes, o terrorismo e o medo.» Ora, com tanto terrorismo, violência, insegurança, crise económica, desigualdade social galopante e, acima de tudo, o salve-se quem puder em que o ser humano deixa de respeitar o outro (na forma de racismo ou em qualquer outra forma, no dia a dia, na família, no emprego, no autocarro, na escola, no bar, etc.), não é de admirar que as pessoas anseiem por ordem (respeito), segurança e justiça social. É legítimo e natural que o queiram. Não tem que ser a ordem do antigamente e discriminatória (supressão das minorias e excluídos) que alguma direita quer (“eu sou o candidato da lei e da ordem", diz Trump. Ou “America safe again”, “America great again”). Como o Brexit foi um "Great Britain great again"... O mundo de facto mudou e preparemo-nos para mais eventos e transformações inesperadas...

«Tontos são os que continuam a desdenhar Trump», alerta Daniel Oliveira, no sentido de que representa um perigo maior do que se pensa e não deve ser subestimado (nem sobrevalorizado...). «A incorreção política passou a ser um sinal de rebeldia e liberdade. O problema é que a franqueza politicamente incorreta tem custos. No caso de Trump, alienou o eleitorado hispânico, cujo voto é necessário para ganhar as presidenciais.»

(picture: pixabay)

segunda-feira, agosto 08, 2016

Falsa esperança de nada serve

Vasco Pulido Valente (foto: Nuno Botelho)

“Já não pertenço a esta história. O meu interesse é forçado, a minha presença, pelo menos para mim, gratuita. Mas, por enquanto, não há remédio senão persistir.”

Vasco Pulido Valente em 2007. Faço minhas as suas palavras. Bem como estas outras, na notícia do Expresso: «isto vai mesmo de mal a pior. E não tem remédio»...

Nada há (na realidade) que me faça pensar o contrário. No hope.

sexta-feira, agosto 05, 2016

So long Marianne, história de um amor vivido



«Listening to Leonard Cohen's songs, it feels as though he's singing precisely to you. Marianne had that gift: she made you feel that you were seen; she made you become a better version of yourself. With her eye for beauty, she made everything around herself beautiful.»
(Kari Hesthamar, autor do livro So Long Marianne - A Love Story e amigo de Marianne)

Marianne Ihlen, norueguesa que foi amante e musa inspiradora de Leonard Cohen, ficou imortalizada em "So Long, Marianne". Tinha 81 anos quando morreu em Agosto de 2016.

Cohen e Marianne conheceram-se nos anos 60, na ilha de Hidra, Grécia. De acordo com o mito, o poeta tê-la-á visto a chorar num mercado - após ter tido conhecimento do caso do seu então marido com outra mulher - e convidou-a para se juntar aos seus amigos.

Nos anos subsequentes, Cohen e Marianne partilhariam uma paixão imensa; o primeiro dedicou-lhe não só Flowers For Hitler, um dos seus livros, como também escreveu "So Long, Marianne" em sua homenagem, após o fim da relação, sendo que a versão original intitulava-se "Come On, Marianne", um pedido para que a "musa" voltasse para junto de si.

Imortalizar um amor num poema ou numa canção não está ao alcance de qualquer um... Nunca vi, nos dias de hoje, tanta gente desligada do mundo, da vida, do amor. Só falta mesmo as pessoas fazerem uma apólice de seguro para amar. Não querem correr riscos. Não querem ser enamorados/amantes, mas apenas amigos... Até na paixão e no amor querem ser politicamente correctas... Falta desafio? Ou talvez seja uma necessidade de as pessoas estarem sós consigo mesmas... e não apenas um conforto asséptico.

O sofrimento do NÃO-VIVER é mil vezes pior do que o sofrimento do fim de um amor. Perguntem ao Leonard Cohen...
 

No seu "Elogio do Amor", Miguel Esteves Cardoso afirma que «já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito.» Porque é conveniente. E pergunta: «já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?»

E diz mais: «nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia». A estes apelida de «alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.»
Como colocou Fernando Pessoa, o «valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.»


Vá, façam como o poeta Leonard Cohen: amem. Com intensidade. Com clarividência. Mas de que serve se agarrar à segurançazinha e ao medozinho da treta?...

terça-feira, agosto 02, 2016

Change



Sombrio, intimista, profundo, lúcido. Nick Cave dá voz ao trailer que anuncia o novo disco (Skeleton Tree) e o novo filme (One More Time With The Feeling):

“Most of us don’t want to change, really. I mean, why should we? What we do want is sort of modifications to the original model. We keep on being ourselves, but just hopefully better versions of ourselves.
But what happens when an event occurs that is so catastrophic that you just change?”

"A maioria de nós não quer mudar, na verdade. Porque havíamos de querer? O que queremos mesmo são modificações do modelo original. Nós continuamos a ser nós mesmos, mas porventura melhores versões de nós próprios.
Mas o que acontece quando há um evento tão catastrófico que nos faz mudar?"

Não ter pressa para não se fazer tarde



Não ter pressa para não se fazer tarde. A articulista Alexandra Costa (JM 2 de Agosto de 2016) aborda uma questão existencial estruturante.

Inspira-me para dar ainda mais passos concretos na desaceleração, na arte da lentidão por uma vida mais tântrica, mais livre, mais nutritiva: com mais tempo para contemplar e saborear. Para ser mais dono do meu tempo (tempo é vida), que não tem preço.

Reproduzimos o conteúdo do artigo:

«Sempre que entro num elevador lembro-me de um texto de Gonçalo M. Tavares que li no Público há uns anos.

A ideia era falar sobre a Europa e o escritor dizia que a síntese do europeu contemporâneo é a do “Homem com Pressa Dentro de um Elevador”. Acho a metáfora perfeita. E onde se lê elevador também se pode ler comboio ou avião. Transportes que fazem linhas rectas. Hoje temos músculos e energia, temos vontade e convicção mas estamos dentro de uma caixa com a velocidade predeterminada. E a caixa nunca tem a velocidade que é necessária à nossa vida. Anda sempre mais depressa ou mais devagar. Não sei. Não acertamos na velocidade. O que sei é que nunca posso ter pressa dentro de um elevador. Nem num comboio nem num avião. Sei que não posso ter pressa para nascer, se nascer demora em média 9 meses. Sei que não posso ter pressa para chegar ao Porto e ver os meus pais, se o Alfa leva duas horas e meia. Sei que só chego à ilha uma hora e meia depois embora tenha muita pressa para visitar os amigos. Sei que me esperam sempre em algum lado. Mas eu tenho de ter tempo para lá chegar. Tenho que cumprir a minha viagem. E a essência da viagem é a lentidão. Não sou uma turista na vida , sou uma peregrina. Quero ter tempo. Tempo livre. Quero ter tempo para plantar uma árvore e vê-la crescer. Embora ela possa viver muito mais do que eu. Tempo para dormir e para acordar devagarinho, para beber um café que não seja para me acordar. Para cozinhar em lume brando porque tudo é mais saboroso devagar. Para ler o meu próprio pensamento. Para ir com o vento. Sem ter opinião certa ou definida. Para ter o privilégio de não concordar com a minha própria opinião. Para conhecer apenas o ponto de partida , não a chegada.

O mundo já está cheio de pessoas que concordam demasiado consigo mesmas. Com as suas doutrinas, ideologias, as certezas de quem acredita que a direcção do vento é sempre a mesma.
Eu prefiro pensar sem destino. E não quero ter pressa de chegar. Quero ser uma “máquina da lentidão” como chama aos livros Gonçalo M. Tavares . Máquinas de lentidão e reflexão. Quero ter tempo para ler “A Vida e Destino” de Grossman, “Guerra e Paz” de Tolstoi. Todos os livros que vou adiando porque implicam tempo e disponibilidade. Quero ter tempo para ver o meu mundo crescer, amadurecer, morrer.

Quero viver numa cidade que não rime com velocidade. Que me deixe atravessar as estradas ao meu ritmo. Os carros podem ser velozes mas a velocidade é sempre controlada pelo condutor.
A pressa não leva a lado nenhum. As coisas acontecem exactamente no tempo em que têm de acontecer.

Mas não posso evitar trabalhar numa rádio. Numa rádio há uma luta natural contra o tempo. Todos os segundos são contados. É comum eu perguntar ao editor o que precisa e ele responder: “atrasa os ponteiros do relógio”. Para dar as noticias à hora certa. Mas as noticias não escolhem a “hora certa”.
Só as guerras deveriam ser rápidas. Matar depressa, destruir depressa é uma forma de nos protegermos a nós próprios (e de nós próprios). Sabemos, desde os gregos, que a destruição é inevitável. Mas hoje até a guerra é lenta. O terrorismo parece cada vez mais paciente. Minando aqui e ali. Todos os dias.

Não ter pressa é ser mais sólido e hoje vivemos numa sociedade líquida como descreve o sociólogo Zygmunt Bauman. Hoje tudo é fluído, superficial, frenético. Hoje o tempo abortou o tempo livre. E a pressa gera vazio. Estamos constantemente a correr atrás de alguma coisa . O que ninguém sabe é a correr atrás de quê...»

(picture: pixabay)

domingo, julho 31, 2016

«No sofá, a curtir uma intensa pena de si próprios»


«O papa pediu aos jovens para saírem do sofá e lutarem pelos sonhos. Há quem ache que os jovens são por natureza revolucionários. Eu não. Acho que não há natureza, há cultura, contexto familiar, conjunturas de vida, ou seja, história. Acho que os nossos jovens - falamos de médias, claro - são seres muito incompletos, com dificuldade crescentes de relações sociais, ou políticas.

O desemprego galopante afastou-os da organização do trabalho, mas não só. O colectivo, a noção de produção, é algo que não lhes assiste. Não fazem muito bem ideia do que é o trabalho - mesmo que tenham trabalhado, e trabalhado bem, e mal pagos - porque não dependem do trabalho para viver, dependem do Estado, e dos pais - com os salários que ganham, quando ganham, não conseguiriam viver. E teriam que lutar. Não o fazem porque alguém paga o resto da conta - acreditam que a Segurança Social é o Estado, quando é na verdade a poupança dos pais (só para dar um exemplo da ignorância que têm do valor do trabalho).

Em consequência têm um desprezo, consciente ou não, pelo trabalho alheio. Se forem professores de um trabalhador-estudante vão ver como este padrão se inverte - o trabalho e a ausência dele, explica de facto muito. O esforço que estes fazem, e o respeito que têm pelos professores é a dobrar. Em sociedades agrárias era impossível estes desrespeito pelo trabalho alheio - numa pequena aldeia ninguém tem dúvidas de que vivemos todos do trabalho. O respeito pelo trabalho é milenar.

A comida não chega do supermercado. Acham normal - dizem as dolorosas estatísticas - com 25 anos pedir dinheiro aos pais. Quando estava na altura de começarem a devolver - na forma de segurança social - os 25 anos que os pais pagaram. Os pais em geral são os mesmos que foram com 18 anos para França, ser robots numa fábrica. E que mandavam dinheiro para os seus pais, mais velhos. Chama-se solidariedade inter-geracional, decência colectiva.

Estes, hoje, em larga escala, embora não saibamos qual, estão, como diz o papa, no sofá, a curtir uma intensa pena de si próprios. Afinal o mundo lá fora é culpado de todos os males, e eles são vítimas de um mundo injusto, que não lhe deu o que eles esperavam que lhes desse - esperavam porquê? O que fizeram eles para isso? É adquirido. Está no ADN ter um bom trabalho, embora tenham em cima de si 200 anos de mortos em greves para eles terem a ideia que deveriam ter um bom trabalho.

Sou optimista porque confio num abanão social, a única forma de os seres humanos mudarem. Não acredito em mudanças sem crises. Não acredito em mudanças sem que as pessoas sejam confrontadas com os limites. E acho que para a maioria da humanidade o tempo já foi, ou seja, que vieram e saíram da vida sem vida. Por isso os exemplos contrários - de resistência e coerência - são tão animadores, justamente porque eles abrem caminho para o que é impossível. Por isso dediquei a maior parte da vida a estudar revoluções. E revolucionários, em geral os que foram dirigentes mas não ilustres dirigentes - os milhares de anónimos dirigentes.

Interessa-me o que é excepcional. Apaixona-me a perfeição na irregularidade, a coragem no medo, as flores que nascem no meio das pedras. Os 200 mil (mais tarde 500 mil) que entraram na resistência francesa ao nazismo, e não os milhões que se calaram. Mas a paixão não nos deve cegar o olhar sobre o passado: a juventude no século XX, depois de ser juventude - porque antes eram jovens trabalhadores -, não é uma categoria com uma essência, como o não é a velhice.

A expansão da acumulação e inserção tecnológica galopante, a industrialização das periferias analfabetas na década de 60 exigia uma super qualificação em tempo recorde da força de trabalho que permitiu aos jovens aceder a estudos gratuitos (pagos com impostos dos pais, é certo) e mobilidade social - isso explica mais o Maio de 68 do que ter 18 anos, estou convencida. Universidade gratuita, de qualidade, mobilidade social - nesse caldo objectivo nasceram as lideranças políticas progressistas de diversos matizes. É isso e não a idade. Tenha eu ou não razão é um facto que há 40 anos os pais imploravam para os filhos não irem a manifestações e hoje é o papa - o papa - que tem que implorar que os jovens deixem de vegetar e lutem pela vida.

«Durante a vigília, na qual estiveram presentes mais de 1.5 milhões de pessoas, o pontífice falava de "um sofá - como os que existem agora, modernos, incluindo massagens para dormir - que nos garanta horas de tranquilidade para mergulharmos no mundo dos videojogos e passar horas diante do computador". Um sofá, prosseguiu, "contra todo o tipo de dores e medos".
Citado pela agência Ecclesia, Francisco frisou que uma juventude "adormecida" só é benéfica para aqueles que querem decidir o futuro dos outros. "É muito triste passar pela vida sem deixar uma marca", disse, lembrando que ninguém veio ao mundo para "vegetar". E aproveitou para condenar "outras drogas socialmente aceitáveis", que fazem com que os jovens fiquem "entorpecidos".
Para o pontífice, o mundo atual não precisa de "jovens-sofá", mas sim de jovens "calçados com botas", que caminhem "por estradas nunca sonhadas". »
Raquel Varela no DN.

A propósito:
Papa pede aos jovens que saiam do "sofá" e lutem pelo seu futuro

(picture: pixabay)

terça-feira, julho 19, 2016

Imediatismo da música

«A letra sem a música não sai de uma sala, a poesia, por muito boa que seja, não tem esse poder que a música tem de encantar as pessoas com apenas duas notas» (Rui Veloso à Revista Açúcar do JM 9JUL2016)

photo origin

sexta-feira, junho 10, 2016

Comprometido sentimentalmente pela beleza

photo origin

«A música, para mim, é o meu sexto sentido. E sou comprometido sentimentalmente pela beleza. Portanto, criar beleza para as outras pessoas é um acto contínuo de vida. Só pára, quando a gente morre.»

Ivan Lins
Diário de Notícias da Madeira
9.6.2016
link directo da notícia (assinantes)

domingo, junho 05, 2016

«Não é Habermas quem quer»


 «Um dos efeitos perversos da cultura da Internet é a desvalorização do saber, do conhecimento, do estudo», afirma José Pacheco Pereira em artigo no jornal Público de 4 de Junho de 2016.

«Sim o mundo mudou, mas ninguém tem obrigação de aturar este ruído das “redes sociais” dos comentários, do “todos temos direito a falar, mesmo que não tenhamos nada para dizer”: “é a minha opinião pessoal sobre Kant, embora nunca o tenha lido e, se me criticam, berro que é censura e elitismo e nostalgia do mundo em que só os “sábios” (dito com desprezo) podiam falar…”.»

«Eu costumava chumbar os alunos de filosofia que, para esconder infantilmente a sua ignorância, diziam que também tinham uma “opinião pessoal” sobre Kant. Ai tem? Mas que sorte, é que eu não tenho e a esmagadora maioria das pessoas letradas do mundo também não tem, incluindo 99% dos professores de filosofia e a maioria absoluta dos especialistas em Kant, pela simples razão que ter uma “opinião pessoal”, que não seja uma repetição, ou seja, que seja “pessoal”, exige muito estudo, muito conhecimento de Kant, e muita criatividade filosófica. Se não é do domínio do génio filosófico, fica perto. Não é Habermas quem quer.»

quinta-feira, maio 26, 2016

O mais importante na vida é ser-se criador / The most important thing in life is to create

António Botto, num quadro cuja autoria se atribui a João Abel Manta (à esquerda) e num retrato de Almada Negreiros (à direita)

Em 9 de Novembro de 1942, António Botto foi demitido do seu emprego na função pública (escriturário de primeira-classe do Arquivo Geral de Identificação) nomeadamente por criar: «fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna.»


O mais importante na vida

É ser-se criador – criar beleza.


Para isso,

É necessário pressenti-la

Aonde os nossos olhos não a virem.


Eu creio que sonhar o impossível

É como que ouvir a voz de alguma coisa

Que pede existência e que nos chama de longe.


Sim, o mais importante na vida

É ser-se criador.


E para o impossível

Só devemos caminhar de olhos fechados

Como a fé e como o amor.

António Botto

António Botto no Martinho d'Arcada, acompanhado dos escritores Fernando Pessoa, Raul Leal e Augusto Ferreira Gomes


The most important thing in life

Is to create – to create beauty.


To do that

We must foresee it

Where our eyes cannot really see it.


I think that dreaming the impossible

Is like hearing the faint voice

Of something that wants to live

And calls to us from afar.


Yes, the most important thing in life

Is to create.


And we must move

Towards the impossible

With shut eyes, like faith or love.

(tradução: Fernando Pessoa)

sexta-feira, abril 08, 2016

Inquietar-se é viver

Mão Morta na Estalagem Ponta do Sol, em 27 de Agosto de 2014 (foto: Nélio Sousa)

A propósito do lançamento do livro Revista de Imprensa: os Mão Morta na narrativa mediática 1985-2015, Adolfo Luxúria Canibal disse no programa de rádio PBX, da Radar, na primeira semana de Abril de 2016:

«Interessa-me mais transmitir sensações e, sobretudo, inquietações.»

E explica porquê: «É salutar ter inquietações porque a inquietação obriga-nos a pensar. Uma das coisas que pode dar maior prazer existencial é o pensamento.» E acrescentou que a «arte existe para nos inquietar e não para transmitir palavras de ordem, mensagens ou respostas.» Entende que «não [tem de] impingir [as suas] respostas a terceiros», por serem subjectivas e sujeitas a evolução.

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Recorde-se:
«Até ao osso»: Mão Morta na Madeira 30 anos depois

«Inquietação»:

- http://youtu.be/KLxJrkMpDSY (o tema de estúdio por José Mário Branco)
- http://youtu.be/olAOazHmn7I (ao vivo por José Mário Branco)

- http://youtu.be/D0HPZdpoo3U (versão de Dead Combo e Camané)
- http://youtu.be/WavxYtR2AqY (versão de A Naifa)