«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

quarta-feira, dezembro 07, 2016

«História em pedacinhos»: memórias de vida vivida

photo nelio sousa (2016)

As memórias de infância, adolescência e entrada na vida adulta de Maria Cecília deram um livro: História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar (Chiado Editora, 2016). O seu percurso assegura um bom enredo à história de vida, luta, sobrevivência e procura da felicidade, que nos é contada. Uma história que é também de descoberta do mundo. Um tempo iniciático para o narrador-personagem protagonista. E, por tudo isso, espelhando aspectos da condição humana, lhe assegura uma dada universalidade. Um relato metido na vida, orgânico, visceral.

Esta compilação de memórias, momentos e emoções, decorrente de um testemunho pessoal terno, querido e sensível, é dedicada aos seus pais e dirigida/oferecida aos irmãos, que «eram muito pequenos para se lembrarem.» O que leva à epígrafe do livro com a frase de José Saramago de A viagem do elefante: «O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há debaixo delas.» O testemunho de Maria Cecília materializado em livro representa esta segunda atitude face ao passado, bem como o resgate deste à inexorável passagem do tempo e ao esquecimento.

A História é apresentada na forma de pequenos capítulos («pedacinhos» - diminutivo revelador de afectuosidade), com um título e subtítulo bem escolhidos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar é uma frase que sintetiza o conteúdo e a ambiência. A narração dos acontecimentos, que impelem a acção, é entremeada com capítulos descritivos de pessoas, lugares e eventos. Uma estratégia eficaz de organização da narrativa encontrada pela autora. São quadros ou mosaicos que se vão sucedendo. As descrições permitem-nos aceder ao caldo sócio-cultural (contexto) e funcionam como uma pausa benigna da acção, isto é, do corpo principal do livro composto pelos retalhos da vida de uma família, parafraseando uma obra de Fernando Namora.

O leitor é induzido a compartilhar das experiências, pensamentos e sentimentos da personagem protagonista (na dedicatória, entrega o protagonismo à sua «mãe, a protagonista destas histórias» - p.5). Este narrador-personagem faz parte da história e narra-a na primeira pessoa, com a alma encostada ao que conta. Quando o narrador acumula funções de personagem, é marcado pela subjectividade em relação aos factos ocorridos, sendo assim uma narrativa parcial, por constituir-se o único ângulo de visão. O leitor é, assim, conduzido pela história pela mão (ponto de vista) da personagem.

A narrativa desenrola-se com fluidez, ritmo e expressividade. As memórias são-nos contadas com vida e cor, visceralmente, sem rodeios ou subterfúgios. Uma partilha parcial, mas que é autêntica. Esta narrativa testemunhal, por força das muitas mudanças, imprevisibilidade e fuga ao convencional percurso sedentário, oferece uma intriga que agarra o leitor: «Bem dizia minha mãe que tinha vida de ciganos. Já mudámos outra vez de casa» (p.153).

A linguagem é simples, sóbria, directa, concisa, como convém que seja. Neste âmbito mais formal (de estilo, ao nível do pormenor), uma nota quanto ao uso do ponto de exclamação, que se poderia dispensar, excepto nos casos em que um personagem gritasse algo, no contexto de um «diálogo», ou se deparasse perante um «perigo físico eminente ou uma grande surpresa» (Mittlelmack, H. e Newman S., 2012, Como não escrever um romance, p.105, Lisboa: Pergaminho). Mesmo nestes casos, pode ser dispensado, porque este sinal de pontuação é um obstáculo gráfico, cuja verticalidade o faz converter-se num muro visual no final de cada frase. Portanto, a sua utilização só em caso de extrema necessidade enfática, em que compense o "dano" visual, uma espécie de lomba de controle de velocidade na leitura.

As palavras têm força por si mesmas, independentemente da pontuação ou «outras convenções tipográficas utilizadas para dar ênfase», como itálicos, maiúsculas, negrito, travessões para intercalar frases, também a usar «muito raramente ou nunca» (idem) - opção que se verifica, e bem, por parte de Maria Cecília quanto a essas convenções. A ideia é não distrair o leitor e garantir a fluidez da leitura. Há algumas pequenas gralhas, o que acontece mesmo nos livros de autores consagrados, que facilmente se colmatam numa segunda edição.

Refira-se ainda que as três citações da poesia de Manuel Alegre, do livro Um barco para Ítaca (1971), nas páginas 16, 76 e 86 de História em pedacinhos, a meio da narrativa, embora pertinentes na ilustração, corroboração, reforço ou validação de sentido e emoções, não acrescentam algo de significativo e podem desviar o leitor do que está a ser contado. A não serem dispensadas, as citações funcionariam melhor como epígrafe, como no último capítulo (p.135), citado da mesma obra do referido poeta, ou então metido na própria prosa, sem ficar visualmente destacado e sem hiato gráfico.

Não há diálogos. Tudo nos é dado através do discurso indirecto, pelo narrador-personagem, com um olhar atento, inteligente e sensível. O diálogo implicaria não cingir-se aos factos e às memórias e entrar na ficção, com prejuízo para a exactidão, objectividade e fiabilidade. Lá se ia o efeito de realismo e verosimilhança. Assim, o travessão, como indicador de fala, de citação de palavras de alguém, de uma frase pontual de um diálogo não expresso na totalidade neste livro, surge apenas quatro vezes: páginas 15 («— Será por dois anos, o suficiente para arranjar algum dinheiro para melhorar a nossa vida e fazer uma casinha»), 17 («— Olha ali. É aquele. O da camisa amarela.»), 31 («— vaidoso —») e 124 («— trocou a sua mãe verdadeira por uma madrasta?»).

O relato, um legado que deixa à família e aos leitores em geral, tem ainda interesse e valor social pelo facto de testemunhar e ilustrar o fenómeno da emigração, e os dramas associados, cenário e motor da narrativa - despoleta um conjunto de acções, que se encadeiam: diálogo diegético. Viagem, mudança, saudade e regresso são palavras recorrentes. Refere as «viúvas de marido vivo», mulheres que ficavam na ilha enquanto os maridos lutavam pela vida no estrangeiro, eles que, por vezes, as esqueciam e abandonavam, fazendo jus ao ditado longe da vista, longe do coração. Sublinha ainda o sentir-se «sempre estrangeiro» («humilhou-o pelo facto de ser emigrante» - p.70) e o «coração partido ao meio» (p.71) de quem emigra.

Apesar de a pobreza ser o drama que conduz milhares para a emigração («à procura da vida que a sua própria terra lhe negava» - p.15), nem tudo são espinhos na terra-mãe. Há aspectos idílicos, felizes e saudosas tradições. A emigração tem também aspectos positivos, ao proporcionar oportunidades de evolução e abertura civilizacional, pelo contacto com uma nova cultura e valores. Estes geralmente desafiavam os valores que os ilhéus levavam de uma terra marcada pela miséria material, cultura cristã (católica) conservadora e atraso de mentalidades - era um tempo marcado por um elevado analfabetismo. Tudo é retratado por Maria Cecília, a partir das suas memórias ou do que lhe foi directamente relatado por outros.

Nota-se, porém, um conflito entre a saudade de aspectos desse tempo mais primitivo, mais autêntico, simples e feliz e a recusa, e até repulsa, de aspectos opressivos desse passado (século XIX e primeira metade do século XX). A evolução e a modernidade trazem abertura e melhoria na qualidade de vida mas aceleram e sacrificam também algumas vertentes favoráveis desse modo de vida mais essencial, com um ritmo de vida mais lento e amigo da pessoa humana, mais ligado à natureza e à cultura genuína e local.

A narrativa inicia-se com dois breves textos, sem título, que constituem um prólogo, na terceira pessoa (a restante narrativa faz-se na primeira pessoa), sobre o momento presente (passado recente) em que se fala de alguém prestes a cumprir sessenta anos. Os dados biográficos sobre a autora, no interior da capa do livro, permite que os cruzemos com a narrativa. Sabemos que concluiu o ensino secundário aos cinquenta e nove anos. Fala dessa importante experiência neste texto inicial, bem como da ambição de fazer um curso universitário, em virtude do seu permanente desejo de conhecer.

Viajou para a Venezuela aos seis anos de idade, em 1955, deixando para trás o Jardim do Mar, uma ilha dentro de outra ilha, a Madeira. Em 1973, nas vésperas da Revolução em Portugal, regressou às origens. Naquele país, note-se, já tinha vivido o golpe de Estado de 1958, que pôs fim à ditadura do general Marcos Pérez Jiménez, mudança que viria a marcar, então, o percurso de vida da sua família.

Nessas cinco páginas iniciais, é saliente a importância de ser-se reconhecido e apreciado. Quando se não o é, o sonho e a criança interior e, sobretudo, a escrita, são contrapontos luminosos. E quando a escrita merece publicação e boa recepção, ambos sinais de reconhecimento público além da realização pessoal, como no caso de História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, a luminosidade intensifica-se.

O narrador-personagem, após os dois referidos textos introdutórios, assume-se na primeira pessoa quando inicia o relato das suas memórias, precisamente no momento marcante da chegada à Venezuela e do encontro que permite conhecer o pai: «É aquele. O de camisa amarela» (p.17). O nome da terra de origem («pequena ilha perdida no Atlântico» - p.15) e de destino («à beira do mar das Caraíbas» - p.21) não são expressas, mas diversas referências ao longo da narrativa permite identificar, indirectamente, esses espaços. O adjectivo «venezuelana» surge na página 86. O nome «Madeira» é expresso perto do final do livro, na página 143. As referências temporais não chegam à menção dos anos. É deixado algum esforço de decifração ao leitor, que assim se centra mais no conteúdo do relato do que nas balizas espácio-temporais. Manter a narrativa limpa e fluída é a opção correcta.

Logo após o arranque da acção, com a chegada à «terra nova», surge o primeiro capítulo descritivo, expediente para dar o contexto da «aldeia onde nasceram» os pais e o próprio narrador-personagem. É a perspectiva desta personagem baseada na observação e conhecimento que tem da terra natal.

O capítulo seguinte («Mulheres da aldeia»), também descritivo, dá conta do peso da tradição e das raízes. A mãe será, no novo país, a guardiã rigorosa da manutenção desses valores, mais conotada com o medo da mudança: «nunca nos atrevêssemos a desrespeitar as leis do Senhor» (p.40). O pai («Mr. Atlas» - p.31) revela maior abertura à cultura e valores da «nova terra», nomeadamente no cuidado com a sua forma física («era amante de culturismo» - p.31) e aspecto físico («vaidoso - dizia a minha mãe»), o que era muito moderno nos anos 50.

A este respeito, note-se que, na ilha de origem, a energia e o tempo eram canalizados para o trabalho na terra, e qualquer gasto visando a estética, a boa forma física, a saúde, bem-estar ou a prática desportiva era encarado como vão e um desperdício. Chegava a ser ofensivo. É algo perfeitamente compreensível, porque a prioridade era outra: assegurar o pão para a boca. A pobreza e a dura luta pela sobrevivência não se compaginavam com actividades ociosas e improdutivas. Daí o desprezo pelo conhecimento e pela escola, que ainda hoje se faz sentir, apesar da escolaridade obrigatória. Tanto cá como, então, nos países de emigração, «raramente mandavam os filhos para a escola» (p.145).

A passagem «o meu pai fazia questão de nos mostrar a modernidade daquele país» (p.43) prova o fascínio e adesão a essa modernidade por parte da figura paterna. O capítulo «Cinema» é significativo por representar o moderno, «novo» e «emocionante», em total contraste com a aldeia remota e sem luz eléctrica. Para nem falar de outras Luzes de afirmação da liberdade individual. Não admira que o cinema tenha sido uma «descoberta maravilhosa». E, como se não bastasse de emoção, a noite de cinema terminava como um «delicioso gelado na geladaria Tomasseli» (p.44).

O capítulo «As mulheres da minha aldeia», entre outros, ilustram e caracterizam uma mentalidade e modo de vida, que tem tanto de bucólico como de muito conservador, em contradição com o novo país para onde a família emigrou. O padre da aldeia «fez a minha mãe jurar que havia de aceitar todos os filhos que Deus lhe quisesse dar» (p.39) e ela «cumpria fielmente a sua promessa: havia de receber com alegria todos os filhos que Deus lhe desse (p.59).

Quanto ao pai, «não estava nos seus planos ter uma grande família». Por essa razão, «não ficou muito entusiasmado ao saber da nova gravidez da minha mãe, [...] pois isso iria dificultar um pouco a possibilidade de construir fortuna. Ela ficou muito ressentida, creio que nunca lhe perdoou por isso» (p.58). Anos mais tarde, e apesar das questões de saúde da progenitora, a «minha mãe está esperando bebé novamente. O meu pai já não se incomodava.» «Habituámo-nos a este ritmo de nascimentos» (p.80). Consequentemente, «agora éramos oito» [filhos] (p.158). A mãe tinha quarenta e três anos quando teve as últimas duas filhas: «e por aqui ficou...» (idem).

Certos valores e costumes da ilha de origem são conotados com a «época medieval» face aos valores dos «anos sessenta, na época do amor livre, a Guerra Fria e a mini-saia» (p.144). Recorde-se que, ao longo de quase três séculos (1536-1821), sim, quase três séculos, a Inquisição foi uma das instituições mais temidas em Portugal, em que nenhuma heresia escapava ao Santo Ofício, tribunal eclesiástico, para garantir uma fé católica com elevado grau de pureza (radicalismo). Milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas e mortas na fogueira. Marcas que ficaram entranhadas na mentalidade.

Nos países para onde emigravam, muitos conterrâneos viviam uma «vida de trabalho e privações, sem nenhum tipo de beleza ou distracção» e, insistimos, «raramente mandavam os filhos para a escola» (p.145). Por isso, a «grande parte destes emigrantes tinha parado no tempo»: «as suas mentalidades não evoluíam, uma vez que tão pouco assimilavam as particularidades da cultura do país em que viviam e continuavam a defender valores obsoletos», muitos deles, entretanto, «já em desuso na sua própria terra» (p.146) de origem (a ilha). O analfabetismo, a pobreza, certos valores e costumes faziam estes emigrantes «acanhados» (idem).

Para a personagem protagonista e a sua família, decorrente das vicissitudes da vida, o «percorrer de estradas [do novo país] abriu-lhes horizontes e fê-los conhecer melhor a realidade da terra de adopção. «Nunca sentimos falta de liberdade, pelo contrário, a capacidade de sonhar e as frequentes mudanças faziam de nós pessoas bastante mais livres do que a maioria» (p.149). As viagens e as experiências têm impacto transformador e pedagógico para lidar com o desconhecido e a incerteza. Caminhar no mundo é também caminhar «dentro de si», como escreveu José Tolentino Mendonça (crónica "Viajar": Revista E, de 9.8.2014). Deslocar-se no território implica sempre uma «mudança de posição» e «ângulo» de visão («novo olhar»), bem como estimula capacidades de adaptação a lugares e culturas diversas.

O poema "Ítaca" do poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933), citado por José Tolentino Mendonça na referida crónica, diz tudo sobre o lado positivo e a riqueza do percorrer o mundo, mesmo que as razões da partida, no caso da emigração em nome da sobrevivência, não sejam as mais felizes: ... «[...] Não te apresses nunca na viagem./ É melhor que ela dure muitos anos,/ que sejas velho já ao ancorar na ilha,/ rico do que foi teu pelo caminho,/ e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.// Ítaca deu-te essa viagem esplêndida./ Sem Ítaca, não terias partido./ Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.»

A família deixou a ilha e viajou, para e pela «nova terra», durante muitos anos, que permitiu colher a experiência de vida «pelo caminho», interagindo (contaminando-se) com as suas gentes e cultura: os «frutos» daquele país «tinham um paladar delicioso e novo. Como tudo o resto» (p.29). E todo o caminhar se constituiu numa riqueza pessoal acumulada.

Isto embora sempre "presos" à tradição e costumes da aldeia longínqua, no espaço e no tempo, em especial através da figura materna: «extrema religiosidade da minha mãe» (p.124). Contudo, a religião católica lhe servia de referencial de valores e «apoio enquanto criava os filhos sozinha», permitindo-lhe «manter o controlo» e dando-lhe «segurança» (p.125).

A jovem narradora-personagem foi-se rebelando perante essa tradição, confrontada com novas realidades e valores como o «movimento Hippie», a «mini-saia», as «músicas da moda» (p.150). Ela desejava uma «forma de vida mais liberal e alegre» e não apenas uma vida «regida pelos mandamentos da Lei de Deus e da Santa Madre Igreja»: «e tudo era pecado...» (idem), isto é, castrador. Daí «desafiar a minha mãe e desobedecer propositadamente», o «meu desporto favorito» (p.151).

Os dois últimos capítulos, «A mulher carteiro» e os «Tempos de chá sem açúcar – km4», embora fluam, serão demasiado longos, o que contrasta com a dimensão dos restantes capítulos. Poderiam, pois, ser subdivididos. O penúltimo capítulo, dedicado à mulher que distribuía o correio, poderia ser preenchido apenas pelo conteúdo respeitante à personagem, que ajuda a descrever a cultura e a ambiência da aldeia. O restante conteúdo formaria um outro capítulo autónomo. O capítulo «A minha avó», o antepenúltimo, parece surgir como informação solta e com perda da fluência narrativa. Esta figura familiar talvez beneficiasse mais se a sua referência estivesse num momento anterior ou derramado por vários capítulos anteriores, quando fosse oportuno e pertinente falar sobre ela. São questões de pormenor.

As figuras femininas assumem relevo nestas memórias através de mulheres fortes, densas e de uma identidade e singularidade vincadas. Além da figura materna, temos capítulos intitulados «as mulheres da aldeia», «Fortunata», um dos capítulos mais impressivos, «a minha avó» e «a mulher carteiro». Todas são originárias da aldeia na ilha. Todavia, as figuras masculinas não ficam atrás. Interessantes e relevantes de um outro modo, são leves, abertas, luminosas, progressistas e surgem no contexto da «nova terra»: «Mr. Atlas», o pai (já estava no novo país), «o meu primeiro amor», Joseíto, o «pintor» Armando Reverón e o finlandês Christos Paabola, a «mais pura manifestação de alegria e generosidade» (p.113). Todos estes homens também chamados a título dos respectivos capítulos. Eles no novo mundo, no continente americano, elas no velho mundo, numa ilha periférica da Europa.

Os tempos de chá sem açúcar dão conta de mais um momento central no percurso da família: o regresso à grande cidade, mais próximo ao litoral: «estávamos de volta ao ponto de partida» (p.141). Este capítulo final contempla tanto a continuidade do enredo como a contextualização através de pausas descritivas e balanço sobre o percurso da família.

Os outros três momentos centrais foram, recorde-se, a chegada à «nova terra» (p.15), o encerramento do hotel do pai («foi o começo de uma série de mudanças» - p.63), numa altura de má economia no país (na sequência do golpe de Estado já referido), a perda do «negócio», o Bar Copacabana (p.77), que, por sua vez, despoletou a mudança para o interior do país, uma «viagem no escuro» (p.85), para a «porta de entrada da Amazónia venezuelana» (p.86), a mil quilómetros de distância.

Este relato de memórias deixa em aberto uma sequela, cobrindo a fase mais pulsante e vibrante da vida do narrador-personagem, ou de qualquer pessoa, que é a juventude e a entrada na idade adulta. Essa abertura para mais relatos fica expressa no final do último capítulo («foi o tempo dos rapazes, mas essas são outras histórias...» - p.158) e no epílogo, que é uma janela (pode ser de «avião») para mais memórias, a serem resgatadas, para o «mundo» («do lado de fora») e a «liberdade».

O soltar do cabelo (retirados os ganchos que o aprisionavam) e o pintar dos lábios são uma metáfora de libertação e de expansão e afirmação pessoais: «agora sou Eu» (p.160). Note-se a maiúscula no pronome pessoal. É mais uma mudança, uma nova viagem iniciática. A «fronteira exterior» reenvia para uma «fronteira interna» (Mendonça, J.T., idem). É a aventura do (re)«nascimento» que não cessa vida fora.

A personagem protagonista «gostava muito de ler» (p.106). E quem lê muito, e tem algo para dizer, acaba por escrever. Neste caso, materializado nesta História em pedacinhos, que é uma realização que muito deve orgulhar a autora. Pela coragem em partilhar e resgatar memórias de vida vivida, pela qualidade de escrita, rebeldia, capacidade de observação, inteligência e sensibilidade. E por colocar alma.

Recorde-se que a sua mãe desejara «escrever um livro» (p.65), o que veio a ser feito por Maria Cecília. Mais não fosse, a transmissão desse desejo e gosto pela escrita bastaria, por si só, para assegurar valor e influência deveras significativas à figura materna.

Aguardemos a História em pedacinhos II, com o subtítulo respectivo. Acima de tudo, que a escrita continue a ser um contraponto luminoso na vida da autora. Que a escrita possa também ser uma «casa», o seu «lugar» (p.71) finalmente encontrado, onde Maria Cecília habite e more.

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Agradeço ao amigo Wilson Silva, ávido leitor, pelas importantes ideias trocadas sobre a História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, bem como pela atenta detecção de gralhas, que é prova de especial talento para ser editor e/ou revisor.

terça-feira, outubro 25, 2016

Cantar os seus males para os espantar

Bob Dylan
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«What made the real blues singers so great is that they were able to state all the problems they had; but at the same time, they were standing outside them and could look at them. And in that way, they had them beat. What's depressing today is that many young singers are trying to get inside the blues, forgetting that those older singers used them to get outside their troubles

Bod Dylan citado por Nat Hentoff, num texto incluído no booklet do álbum The Freewheelin' em CD, reedição de 2003, sobre o tema Down The Highway (Well, I'm walkin' down the highway / With my suitcase in my hand / Yes, I'm walkin' down the highway / With my suitcase in my hand / Lord, I really miss my baby / She's in some far-off land). Bob Dylan menciona que o que pensa sobre os blues aprendeu-o com Big Joe Williams.

É isto que também fazem os real fadistas: derrotar ou espantar os males ao cantá-los. Cantá-los permite o distanciamento.

segunda-feira, outubro 17, 2016

True love


«a man hasn’t found true love until he finds the woman who will hang on to his arm the way Suze Rotolo hangs on to Dylan on the front cover of Freewheelin’» (The Guardian, October 16, 2016)

This is a sentence from an extract from Do You Mr Jones: Bob Dylan with Poets and Professors, edited by Neil Corcoran (Chatto and Windus)

quinta-feira, outubro 13, 2016

No way is the way of freedom

David Bosc
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“No way is the way of freedom. People, when they are free, go through all paths” -  David Bosc, escritor francês, sobre Gustave Courbet, em La Claire Fontaine, um retrato do pintor.

terça-feira, setembro 27, 2016

Histórias que mudam vidas

Arturo Pérez-Reverte
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«O que eu quero é que me contem histórias interessantes, que me façam reflectir, pensar, sonhar, que mudem a minha vida. Se, quando terminar a leitura de um livro, a minha vida não tiver mudado para melhor, ou é um mau livro, ou eu sou um mau leitor. Um livro que não muda o olhar do leitor é uma merda de livro. E o mundo está cheio de merdas de livros que não mudam nada. São apenas fruto da vaidade onanista de autores que não têm nada para dizer.» «Mas quando um filho da puta que não fez mais nada do que beber copos num bar se atreve a escrever 500 páginas sobre a sua interessante personalidade, vá apanhar no cu!» (Público 16.9.2016: "Escrevo romances em legítima defesa")

Livro que vale mesmo a pena muda-nos a vida. Esta entrevista a Arturo Pérez-Reverte, que fala sem rodeios nem tretas politicamente correctas, pode também ter mudado algo na minha vida...

quarta-feira, setembro 14, 2016

Quando a conversa desvia da acção

Acções falam mais alto do que as palavras

Somos um país de muito falar (palestras, reuniões, conferências, encontros, seminários, relatórios, comissões, debates, repetidos diagnósticos, etc.) e pouco fazer e solucionar.

Para além da cultura de pântano e bloqueio sistemático, o «falatório» (e há quem se delicie a ouvir-se a si próprio nos diferentes palcos) pode mesmo inibir e desviar as pessoas do fazer e da acção.

«Companies often confuse talking with doing. They think that talking about doing something is the same thing as doing it! That planning is the same as doing. That giving presentations is the same as doing. That making reports is the same as doing. Or even that making a decision to do something is the same as doing it. All of those errors occur with alarming regularity in companies today. Mistaking talk for action is worse than just a simple error: Talk can actually drive out action.» (fonte)

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Canto de alma por Chavela Vargas


Este canto de alma por Chavela Vargas é brutal. “La Llorona”, gravada em 1993 por Chavela Vargas, integrou a banda sonora de «Frida» (2002), sobre a pintora Frida Kahlo. Estas duas mulheres mexicanas foram amigas próximas.

terça-feira, setembro 13, 2016

Narrativa para dar sentido à vida

Nick Cave como protagonista do filme One More Time With Feeling
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Andrew Dominik, o realizador de One More Time With Feeling com Nick Cave como protagonista, refere uma importante função da arte e da ficção:

«I think the function of narrative, or the function of fiction is to make sense of things that are incomprehensible. I think that the instinct behind all art, I mean, we live in a chaotic situation and we ascribe meaning to it just like telling ourselves a story. What's going on in both the film [One More Time With Feeling] and the record [Skeleton Tree] is that narrative has been abandoned, in favor of a direct collision of images and words, which is what poetry is. I'm not sure that the film really has a narrative. It's supposed to be an experience» (Noisey 13.9.2016).

Ao fim ao cabo, uma biblioteca, uma galeria, uma sala de concertos, uma igreja, um comício, uma causa, um livro, uma canção, um poema, entre outros espaços de vida, partilham uma função primordial: oferta de uma narrativa com significado, que faça sentido e seja compreensível. Torna-se num auxílio para encontrarmos o sentido da existência, o contraponto luminoso com o absurdo e o sofrimento existenciais, e nos sentirmos em paz e equilíbrio.

quarta-feira, agosto 24, 2016

O que têm Mulholland Drive e In The Mood For Love em comum?

Realizador: Wong Kar-Wai
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Mulholland Drive (2001) e In The Mood For Love (2000), em si, não têm nada em comum. São dois dos meus filmes preferidos de sempre. A coincidir com uma lista compilada pela BBC Culture em Agosto de 2016 (em português: lista.)

Mulholland Drive mereceu o título de melhor filme e In The Mood For Love o título de segundo melhor filme do século XXI.

É claro que este tipo de listas valem o que valem e podem fazer-se muitas delas com critérios diferentes, mas são um indicador. Neste caso, resulta de uma votação de 177 críticos de cinema de todo o mundo.

David Lynch é mestre na criação de ambiências com mistério e melancolia, com marcas muito próprias, num jogo entre ilusão e realidade. É o que mais gosto em Mulholland Drive. Na cena de abertura, o carro preto a progredir, lentamente, no escuro, numa estrada sinuosa, filmado da rectaguarda, com as luzes vermelhas de presença nos olhos do espectador, ao som do tema principal da banda sonora de Angelo Badalamenti... Conquistou-me de imediato. Mistério, densidade, melancolia (inclusive no rosto da mulher transportada no automóvel).

In The Mood For Love de Wong Kar-Wai conta uma história simples e melancólica de amor e solidão, mas de uma forma poética, com uma beleza onírica, e aborda uma série de temas existenciais, desde o amor à passagem inexorável do tempo. Profundo. Emocionante. Belo. Destaque-se ainda o efeito do tema de Yumeji no filme.

É outra coisa em comum: adoro a música dos dois filmes.

Realizador: David Lynch

terça-feira, agosto 23, 2016

Hardwired: Metallica pungentes aos 35 anos de carreira


O tema de abertura do novo de Metallica, o décimo álbum, que chega em Novembro, é super rápido, preciso, conciso, poderoso e badass (ao vivo há três dias: https://youtu.be/1k5_1HbecsM). Causa impacto, mesmo a brotar das pequenas colunas do computador. Soa ainda catchy e musical. Se o disco anterior foi mais Master Of Puppets/...And Justice For All, este primeiro single é mais Kill 'Em All.

O resto do disco (duplo) não se sabe como será... se perde ou não intensidade nas faixas mais longas... Lars disse isto: «Most of the songs are simpler. We introduce a mood and we stick to it» (http://www.rollingstone.com/…/metallica-on-how-kill-em-all-…). Bom prognóstico. E espero que se ouça melhor o baixo do intenso Robert Trujillo a trovejar neste álbum.

Optam por voltar ao thrash (clássico ou datado) dos anos 80, desta vez pela mão do produtor Greg Fidelman, sonoridade para onde não estou virado - prefiro o som do Black Album (1991) e St. Anger (2003). Contudo, faz as delícias dos fãs de Metallica dos primórdios, que só se reconciliaram com o som da banda em Death Magnetic (2008). Não posso exigir que a maior banda de metal do planeta responda aos meus padrões e preferências actuais quanto ao rock pesado.

Se este disco não for lixado no som como o anterior (pouca proeminência da secção rítmica, baixo e bateria, devido à compressão sonora ou loudness: http://olhodefogo.blogspot.pt/2008/09/compresso-do-som.html) já é bom... O facto de ser editado pela própria editora da banda é um sinal de maior controlo nesse e noutros aspectos. Loudness induz a perda das nuances, dos contrastes, a diferença entre sombra e luz, entre os sons mais altos e o mais baixos. É uma parede compacta de sons médios. Boring...

Nota

Os primeiros discos (Kill 'Em All - 1983, Ride The Lightning - 1984, Master Of Puppets - 1986, ... And Justice For All - 1988) têm um som fininho e, por isso, só ouço os temas gravados ao vivo (Live Shit: Binge & Purge /1993/ e Through the Never - Music from the Motion Picture /2013/), que têm melhor som (graves).

O pior é que a banda anda a reeditar esses discos com esse mesmo som fininho, quando deveria recuperar os graves da bateria e do baixo.

Death Magnetic nunca comprei devido ao loudness e gravei num CD a versão (audiófila), com mistura e dinâmica decentes, do jogo de vídeo Guitar Hero (estudo comparativo aqui pelo rapaz: http://olhodefogo.blogspot.pt/…/compressao-do-som-trama-met…). Esperemos que um dia reeditem o álbum com qualidade sonora.

Fogos de final de Agosto de 2016

Nasa calcula que arderam na Madeira mais de 3.200 hectares (32 km2, 3.200 campos de futebol) - FN

quarta-feira, agosto 17, 2016

«Arrepiante maravilhosa beleza do criado»

Clouds in Calheta (2016)

"Que Coisa São As Nuvens?". Este é o título da crónica semanal de José Tolentino Mendonça no Expresso, que foi antes o título de um filme de Pier Paolo Pasolini, que é uma «iniciação à arte do espanto», diz o cronista madeirense.

Quanto ao filme, o poeta ilhéu recorda «três diálogos que correspondem a outros tantos eixos de sentido.»

O primeiro, quando Otelo chega e pergunta aos presentes: «Por que será que estou tão contente?». A resposta que lhe dão é esta: «porque nasceste!».

O segundo, também um diálogo em que Otelo participa, mas desta vez é Iago (que no filme tem o rosto de Totò) que lhe explica: «É isso, meu filho, somos um sonho dentro de um sonho».

O terceiro e último é quando Caronte (interpretado por Modugno) vai despejar as marionetas estragadas de Otelo e Iago a uma lixeira a céu aberto. Otelo e Iago pensam que é o fim, mas não. Pouco depois, dão por si com o imenso e inexplicável céu de nuvens diante dos olhos.

OTELO: Hiiii! Quem são aquelas?
IAGO: Aquelas são... são as nuvens.
OTELO: E que coisa são as nuvens?
IAGO: Boo!
OTELO: Como são belas... como são belas... como são belas...
IAGO: Ah, arrepiante maravilhosa beleza do criado.


A «capacidade de anotar com fulminante exactidão o criado» é uma das razões de José Tolentino Mendonça para gostar de Pasolini.

(in "Que coisa são as nuvens", Expresso - Crónicas, Abril 2015)
(a fotografia impressionista deste post foi captada no céu da Calheta sem qualquer filtro ou edição posterior: tudo feito pela Natureza)