«Alguém tem de se manter calmo neste manicómio» G. K. Chesterton

Domingo, Janeiro 15, 2012

Nick Cave & PJ Harvey performing Henry Lee

Kiss Me de Tom Waits



"Kiss Me", uma balada do mais recente de Tom Waits, com blues e jazz à mistura, possui uma ambiência que nos transporta para um desses nightclubs numa cave, com muito fumo, garrafas vazias e umas almas perdidas... A viagem ao passado é reforçada pelo som sujo (quente), com os ruídos dos discos de vinil.

Sexta-feira, Janeiro 06, 2012

Criatura é a imagem do criador

José Manuel Coelho tornou-se naquilo que diz combater?
No mesmo dia em que o Diário (4.1.2012) publicava uma notícia em que José Manuel Coelho, deputado do PTP, acusava Alberto João Jardim ser o Kim Jong-Il madeirense, por ter apostado em obras megalómanas e faraónicas, enquanto o "seu povo passa fome", o líder nacional do PTP, Amândio Madaleno, afirmava que Coelho está a tomar posições «à Jardim», relativamente a assuntos do seu partido. Amândio Madaleno rematava: «não podemos exigir aos outros o que não fazemos. O povo não é burro.» Os dirigentes do PND não prestavam, agora são os do PTP que não prestam para José Manuel Coelho. Pregar moralismo (para os outros) é sempre mais fácil do que praticar (para si próprio).

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Terça-feira, Janeiro 03, 2012

Conhecimento, sim senhor, para o pequeno almoço, almoço e jantar


Nem só de espetada e betão vive o homem madeirense...

Numa campanha regional, penso que em 2004, de cima do palco, num comício, Alberto João Jardim perguntava algo como "a senhora come conhecimento para o jantar?", para desvalorizar a aposta no conhecimento e na qualificação dos recursos humanos defendida por um partido da oposição, o Partido Socialista, como trave mestra do programa eleitoral e de um novo ciclo de desenvolvimento para o arquipélago.

Terá respondido à senhora que ele cá gostava de batatas e carne na panela... Foi depois reconhecido que tinha sido uma tirada infeliz e que também tinha direito a se enganar, mas a questão é que saiu na altura e é um indicador do inebriamento pelo avassalador progresso material (obreiro) na Região. Mesmo no calor de um comício, nem tudo vale para atacar e destruir as propostas da oposição, por mais que se discorde delas.

Em artigo de opinião no Diário, o jornalista Jorge Freitas Sousa recupera a tirada não só para questionar a "comesticabilidade" da Constituição, depois do PSD Madeira anunciar o seu propósito de incetar essa revolução por via da revisão da Constituição da República, mas também para salientar o período de necessidade por que passam os madeirenses com a pergunta "a senhora come?"

Como já se disse em outro post neste blogue, enquanto se entretêm os revolucionários, em bicos de pés, com épicas revoluções, nas suas estratégias de poder, a maioria silenciosa e plebeia, sem alaridos, sem protagonismos e sem dramatismos, levará a cabo a sua Revolução diária, nas pequenas acções da vida, nos pequenos espaços em que se movimentam, com a serenidade e a solidariedade que os tempos exigem.

Parece que terão de ser as pessoas comuns a procurar as soluções e as alternativas, já que as elites parecem estar esgotadas... Só têm força para épicas e lucrativas revoluções (ainda que não tenham o povo a acompanhá-las) que encham o olho, troem no ouvido e causem espanto como um grande espectáculo pirotécnico.

Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

Tomar o destino nas suas próprias mãos



(Vídeo com legendas em português: aqui)

Revolução pelas pessoas comuns, sem alarido, sem dramatismo, sem uma elite em picos de pés a comandar.

As pessoas tomam, efectivamente, sem subterfúgios, o destino nas suas mãos. Com competência e confiança.

«Escutem as pessoas que têm as soluções diante de vós» «no terreno». «Elas têm todas as soluções do mundo.»

É o que aconselha Sanjit “Bunker” Roy, que criou a Universidade dos Pés-Descalços, em Rajasthan, na Índia, para os pobres. Em vez de procurar soluções no exterior (ou numa elite ou individualidade salvadora).

A propósito:
Hasta las Revoluciones, siempre!

Domingo, Janeiro 01, 2012

Hasta las Revoluciones, siempre!


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Em abundante euforia, fruto mais de desejos e de expectativas do que realismo, a Revolução ficou por fazer em 9 de Outubro último, nas Eleições Legislativas da Madeira. Como até previam as sondagens.

Isto apesar do trabalho de desocultação da Troika; de certa comunicação social continental a confundir notícias isentas com manipulação e delírios, a confundir Jardim com a Madeira e os Madeirenses, em claro ajuste de contas; da saúde fragilizada do eterno candidato do PSD-M; do desgaste de mais de 30 anos na governação (quem se desgasta é a oposição, por incrível que pareça...); e da dívida colossal da Região clarinha em cima da mesa.

Se uns preconizam a Revolução de pôr o actual presidente do Governo e o PSD-M fora da governação e de levar a cabo uma mudança de regime na Madeira, mesmo que não seja no quadro de eleições democráticas e do voto expresso pelo povo (o tal considerado soberano e que mais ordena, pelos mais revolucionários), Alberto João Jardim, eterno rebelde, também defende a Revolução, no plano do País.

Jardim escreve no primeiro dia de 2012 a sua New Year's Resolution: «muitos de nós contestámos e contestamos o sistema político-constitucional existente em Portugal, revolucionariamente queremos um regime democrático diferente, mais eficiente e de maior justiça social concreta para os Portugueses.»

Veremos qual das partes leva primeiro a cabo os seus intentos revolucionários...

Mas, entretanto, a maioria silenciosa e plebeia, sem protagonismos ou dramatismos, levarão a cabo a sua Revolução diária, nas pequenas acções da vida, nos pequenos espaços em que se movimentam.

Hasta las Revoluciones, siempre!

Quarta-feira, Dezembro 28, 2011

Euforia antes e durante o jogo? José Mourinho sabe que é fatal, mas alguns políticos não


José Mourinho sabe muito bem que a euforia antes ou durante o jogo é fatal. Há políticos que não o sabem.

O recorte acima reproduzido, da revista VISÃO de 29 de Setembro de 2011, a semana e meia das eleições legislativas regionais, é ilucidativo da prematura euforia: "Alberto João Jardim: Chegou ao fim?" Isto num artigo que dava conta d'Os mais influentes dos primeiros 100 dias da governação de Passos Coelho. Jardim era das figuras mais em baixa.

A euforia oposicionista foi ajudada pela euforia em muita comunicação social e comentadores nacionais que, para atacar e ajustar contas com Jardim, confundiram o líder regional com os madeirenses e a Madeira, tratando algumas vezes estes últimos de forma injusta e destrutiva, não através de notícias isentas, mas de delírios, bocas e manipulações à mistura.

Uma semana e meia depois do esperado fim de Alberto João Jardim segundo a nota na VISÃO, o protagonista supostamente moribundo ganha as eleições com nova maioria absoluta.

Nem o desgaste de mais de 30 anos na liderança do Governo Regional, o seu estado fragilizado de saúde, a intervenção da Troika, a dívida colossal da Madeira desocultada (erros, excessos e esbanjamentos na gestão financeira da Região) ou a campanha de porrada com que foi brindado nessas semanas o derrubou.

Uma coisa é certa, Alberto João Jardim faz na política o que José Mourinho faz no futebol: parte para um jogo (e joga o jogo) como se o fosse perder. Mesmo que seja o favorito, mesmo que conte com vantagens, mesmo que as sondagens indiquem a vitória.

Esta atitude, de não achar que são favas contadas, é um dos factores que ajuda a explicar a capacidade de ganhar eleições. É sempre acelerador no fundo. Não substima nem desvaloriza os adversários. Deprecia-os publicamente como estratégia para os diminuir e desmoralizar.

Carta de intenções reveladora, presidente não assume erros

Presidente do GR e secretário regional do Plano e das Finanças anunciam as principais medidas de austeridade,, na tarde de 27 de Dezembro

Clareza e revelação estonteantes para uma carta de intenções, firmada em encontro entre o presidente do Governo Regional e o ministro das Finanças, no passado dia 23 à noite. Muito foi dito, assumiram-se as dificuldades mas faltou o essencial: assumir os erros políticos com toda a frontalidade, no sentido em que nem tudo o que se fez foi bom.

Na verdade, não há muito para negociar, como reconheceu o presidente do Governo Regional, ao referir as presentes condições em que se encontram a República e a Região. O arquipélago teve de estender a mão à assistência financeira face à situação de «necessidade». De urgente necessidade, já que a Madeira parece precisar de 80 milhões de euros até final da semana para ter liquidez.

É o «acordo possível», que alegadamente evita o enterro da Autonomia, nem que seja por uma unha negra. Sem este acordo «seria pior», mas melhor mesmo seria não haver necessidade de tal acordo...

O esforço e a penalização dos madeirenses são brutais e duríssimos:

Aumento do IRS e IRC para níveis nacionais, imposto sobre produtos petrolíferos (ISP) agravado em 15% (em lugar das portagens) e subida da taxa máxima de IVA em mais de um terço - equivalente a trinta e sete e meio por cento - (passa de 16% para 22%) ou aumentos dos transportes públicos em 15% são medidas concretas anunciadas esta tarde, do lado da receita.

Mas o esforço maior, segundo o anunciado, logo veremos se assim se concretiza, é do lado da despesa. O limite do investimento público fixa-se em 150 milhões e avança a redução dos custos operacionais da administração (incluindo saúde e educação com menos 15%) e empresas públicas.

Não se esqueça ainda que a condição de insularidade já penaliza a economia regional (duplamente). Mesmo que a austeridade seja igual à nacional, será sempre pior na Madeira. Passos Coelho fez essa observação com essa consciência, não porque a austeridade seria a dobrar. Porque isso seria simplesmente insustentável.

Mais medida, menos medida, o cenário está traçado, embora estejamos no início das dificuldades a sério. Vamos então a dois conjuntos de ILAÇÕES:

UM: DE OPORTUNO A INOPORTUNO
Tinha sido oportuno, com a mesma frontalidade e capacidade de encaixe que o presidente do Governo Regional já teve em outras ocasiões, ter-se admitido e reconhecido os erros na conferência de hoje, para comunicação da carta de intenções ou linhas mestras para o resgate financeiro.

Todos cometemos erros. Nem tudo o que o Governo Regional fez foi bom. Seria importante falar verdade, com transparência e frontalidade, reconhecendo as políticas erradas que conduziram a Região a uma situação financeira insustentável e a uma crise que será particularmente profunda e prolongada neste território insular.

A partir do ano 2000 insistiu-se num modelo de desenvolvimento com base no endividamento e construção civil que vieram trazer mais encargos para o futuro do que mais valias, fruto de megalomanias. Nem todas as obras foram oportunas: exemplo 1 (pavilhão), exemplo 2 (promenade gigante Jardim do Mar), exemplo 3 (enroncamentos), exemplo 4 (marina), exemplo 5 (estádios).

Por isso, tem muito que se diga o argumento que se fez obras para combater os governos socialistas no Continente ou aproveitar oportunidades de financiamento. Será que não houve esbanjamento em tempo oportuno?

E o financiamento ao futebol? É porventura normal e sustentável a Madeira ter dois clubes na Primeira Liga? Para nem falar nas restantes modalidades profissionais altamente onerosas e além da nossa dimensão económica. Se foi para tirar os jovens da droga e da criminalidade então falhou essa política. O argumento da promoção da Madeira no exterior também é fraco. Existem formas muito mais eficazes de promoção turística.

Construiram-se estádios, pavilhões, marinas, entre outras obras "oportunas", mas o novo hospital ficou pelo caminho...

Enfim, opções que também se tomaram no restante território nacional, não é uma invenção ou originalidade na Madeira, mas os erros dos outros não justificam os nossos.

DOIS: QUANTO PIOR, (NÃO É) MELHOR
Dito isto, bem como o que foi sendo dito ao longo dos últimos anos neste blogue de crítica relativamente a algumas opções, é preciso referir que nada resolve a estratégia do castigo (ajuste de contas) a Alberto João Jardim sacrificando pelo caminho todos os madeirenses.

O "quanto pior, melhor" pode satisfazer egos, ódios pessoais e desejos de vingança contra Jardim e o Jardinismo, mas não constrói nem se afirma como alternativa. É preciso mais desgraça e dramatismo do que já existe?

E é muito deprimente não haver alternativa depois de erros e desgaste de um Governo Regional com mais de 30 anos de mandato... E depois acha-se estranho que os madeirenses continuem a votar em Alberto João Jardim.

Confundir o pessoal com o institucional na luta política não produz bons resultados para a oposição e para quem se quer afirmar como alternativa. O radicalismo, a berraria ou a palhaçada pode servir em dado momento para pressionar, denunciar e alertar, mas é preciso mais. Nem se trata de um vale tudo.

Há quem tenha dificuldade em aceitar a realidade sociopolítica e cultural da Região e queira levar isto à força, num confronto generalizado, num tumulto radical, talvez novamente por via de uma «irresponsável» e irrealista «retórica esquerdista», como referiu em Outubro Vicente Jorge Silva a propósito dos anos 70, ou qualquer outra retórica, que os madeirenses já recusaram.

Não vejo o povo como rebanho porque não o vejo de um qualquer pedestal. E chamem-me à atenção se um dia cair nessa tentação.

O povo é quem mais ordena, goste-se ou não se goste, coincida ou não coincida com as convicções de cada qual. Não cair no erro de considerar o povo soberano eleitor de ignorante, telecomandado ou inconsciente. Arrebanhável de um qualquer púlpito.

Isto sem escamotear a pouca massa crítica existente (atinge todos os sectores), uma sociedade civil pouco activa ou a pequenez da ilha que permite conhecer todos e confundirem-se planos e esferas da vida pessoal e pública e cair-se no acessório, na pequena intriga e na maledicência.

Para desgraça, já basta a austeridade a que estão sujeitos os madeirenses. Não é preciso confundir a Madeira e os seus habitantes com o Governo Regional e o seu líder. A não ser que se queira ajustar contas com o próprio eleitorado...

Os fins políticos e os ajustes de contas com o presidente do Governo não deveriam justificar a penalização das populações. Mesmo quando se sabe que o PSD-M teve atitudes discriminatórias e penalizadoras para as populações que não votavam PSD.

Guerras de paróquia e de egos conduz a quê? É preciso as oposições concentrarem-se no trabalho político com credibilidade, com sentido de Estado e formar uma alternativa porque o desgaste do actual Governo Regional, com as medidas brutais de austeridade, será uma realidade.

A dívida não tirou votos. São as consequências dessa dívida pública que irão fazer a sua corrosão no partido mais votado na Madeira desde 1976, em sucessivas maiorias absolutas.

É tempo de extinguir os efeitos da euforia oposicionista nas últimas eleições legislativas regionais, de aceitar os resultados das eleições e o facto de terem de aturar Alberto João Jardim por mais quatro anos («se Deus me der vida e saúde», como tem repetido). Humildade, unidade, credibilidade e realismo recomendam-se. É preciso semear para colher. E colhe-se consoante o que se semeia.

Sem invalidar a luta política, é preciso haver espaço para defender os Madeirenses, a Região e a Autonomia acima de tudo.

Caso contrário, quem vai (continuar a) derrotar Alberto João Jardim e o PSD-Madeira, nos próximos anos, não apenas em 9 de Outubro de 2011, é a Troika, como também já tínhamos alertado.

Há duas gerações de políticos que tiveram o azar histórico de terem vivido no tempo dominado pelo referido líder carismático e avassalador (nas mãos do qual os madeirenses colocaram o seu destino), com todas as virtudes e defeitos que se apontam e que bem conhecemos.

Terça-feira, Dezembro 27, 2011

«Pequeno pavilhão» custou 9,5 milhões

Fazer obra não justifica toda e qualquer obra

O Diário noticiara em 20.4.2011 e o Público de hoje recupera o assunto:

«Em 2026 acabará o orçamento [regional] de pagar as prestações anuais de 500 mil euros pela construção do pequeno pavilhão desportivo do Arco da Calheta. A obra custou 9,5 milhões - o dobro do previsto e pouco mais que o Pavilhão do Porto Santo, o maior do arquipélago -, encargo inicialmente da Sociedade de Desenvolvimento Ponta Oeste, assumido pelo governo regional.»

As sociedades de desenvolvimento seriam auto-suficientes e não custariam um cêntimo aos contribuintes, mas a realidade veio a ser outra.

Inaugurado em 25 de Fevereiro de 2011, este pavilhão é um exemplo de uma obra que não cobre uma necessidade básica da população, sobretudo quando se vivem momentos de grave crise financeira. Além disso, o mesmo concelho da Calheta, nas freguesias da Calheta e dos Prazeres, possui outros pavilhões e zonas desportivas sem utilização esgotada.

Outro aspecto importante é a utilização e rentabilização da infraestrutura, bem como a sua manutenção. Sem esquecer o investimento realizado na construção. Sem esquecer as alegadas anomalias que o Diário de 20 de Outubro último dava conta.

Refira-se ainda que esta obra destoa, na volumetria e na cor, na paisagem. O contraste do azul do mar e o verde das encostas da ilha é belíssimo, mas a cobertura azul do pavilhão no meio do verde do Arco da Calheta não produz um efeito visual favorável.

São opções e prioridades de quem governa, como foi prioridade no início da década construir uma promenade no Jardim do Mar, com elevados custos e pouca utilização/rentabilização, antes ou em lugar de construir um acesso rodoviário seguro para aquela freguesia e para o Paúl do Mar.

Os portugueses e madeirenses são melhores a criticar e a deitar-abaixo do que a construir, mas fazer obra não justifica toda e qualquer obra, toda e qualquer prioridade.

É por estas e por outras que a Região acumulou uma dívida de quase 6 Mil Milhões de euros, que poderia ser menor e a qualidade de vida dos madeirenses ser basicamente a mesma.

Neste momento estaríamos em melhor posição de negociar com a República o plano de resgate financeiro e não teríamos de fazer tantos sacrifícios em matéria de impostos e restantes medidas de austeridade.
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Photo taken with a Nokia cellphone 3.2 megapixel camera : no editing : no flash : © neliodesousa March 8, 2009

Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

Madeira recua no número de residentes com instrução


«Na última década, já em plena Madeira contemporânea, o número de residentes sem qualquer tipo de instrução cresceu de 42.700 para 58.200, segundo os censos deste ano», noticia o Diário de hoje.

(Note-se que o «total inclui também as crianças com menos 9 anos, que ainda não concluíram qualquer grau de ensino» - não sei se nos Censos de 2001 a contabilização foi feita com as mesmas variáveis.)

Além de haver políticas que falharam, que não chegaram a uma parte da população, há ainda um caldo socio-cultural que tem o seu peso.

O enorme avanço verificado nas condições materiais dos madeirenses não teve o mesmo paralelo na sua instrução, isto para nem falar nos níveis de literacia.

A mudança de mentalidades é mesmo a mais difícil de fazer...

Diria mesmo que o acentuado progresso no conforto material terá feito alguns madeirenses descorarem e desvalorizarem a importância da escola e do saber. O materialismo provoca deslumbramento. Quem governa tem de identificar as realidades, os obstáculos e tomar as melhores medidas para os ultrapassar.

Para além de dever recuperar do atraso endémico na qualificação dos madeirenses de uma forma mais célere e eficaz, a Madeira tem de inverter em tendência de dar passos atrás, que os Censos 2011, embora ainda em resultados provisórios, vêm alertar.

Uma coisa é recuperar do atraso de uma forma lenta, outra coisa pior é regressar ao atraso de outros tempos. E com as dificuldades financeiras e sociais actuais e nos próximos anos este quadro tenderá a agravar-se.

Por outro lado, há aspectos positivos no capítulo da escolarização: aumentou a instrução média ou pós-Secundário (de 1.159 em 2001 para 3.759 neste ano) e a instrução superior (18.871 indivíduos em 2001 para os actuais 26.525). Não vamos cair no radicalismo inverosímil de dizer que nada foi feito ou que está tudo errado na Educação.

Ainda segundo a notícia, mais de metade dos madeirenses (55,5%) têm instrução ao nível do Ensino Básico . Destas 148.552 pessoas, perto de metade (70.114) completou apenas o 1º Ciclo do Ensino Básico.

Enfim, fazer diagnósticos e criticar (nem falo no deitar-abaixo...) é bem mais fácil do que avançar com medidas e soluções concretas para construir. Será que o ensino pré-escolar e do ensino básico não deveriam ser totalmente gratuitos (mas exigindo em troca trabalho e responsabilidade aos estudantes e famílias)? Não deveria haver uma forte e generalizada campanha de escolarização dos adultos? Será que quem governa não deveria dar mais sinais de valorização da escola, da instrução e do saber?

Recorde-se:
- Insucesso escolar vem de longe 4 (portugueses no Luxemburgo campeões do abandono escolar)
- Insucesso escolar vem de longe 3 (estudantes madeirenses na Madeira)
- Insucesso escolar vem de longe 2 (estudantes filhos de emigrantes portugueses na Suiça)
- Insucesso escolar vem de longe 1 (estudantes filhos de emigrantes portugueses no Canadá e Inglaterra)

Terça-feira, Novembro 15, 2011

«Reivindicar por reivindicar não resolve nada», diz Sérgio Godinho

Sérgio Godinho tem sempre alguma coisa nova para dizer. O novo disco, Mútuo Consentimento, não é excepção

Quando o jornalista Tiago Salazar (Notícias Magazine 13.11.2011) perguntou a Sérgio Godinho se sentia «saudades de um tempo mais reivindicativo», o músico foi peremptório: «A vida está muito difícil. Mas reivindicar por reivindicar não resolve nada.»

Este homem sábio explica porquê: «Não nego o valor das manifestações, mas acho que tem de ser acompanhado por um trabalho de construção, de arranjar alternativas. Reivindicar sim, é justo, sobretudo na crise em que estamos. Mas com maleabilidade de encontrar alternativas. Isso é que é difícil

Mesmo quando é feito em nome de supostas verdades e elevados valores morais, reivindicar por reivindicar é fácil. Deitar abaixo é fácil. O difícil é construir, fazer, encontrar alternativas, ser proactivo, empreendedor e propositivo.

Como fazer aquilo que dizemos que é preciso fazer? Como? É precido dizer e propor. É difícil, pois, mas indispensável. Sem demagogia, retórica ou desligados da realidade e dos problemas que enfrentamos.

Reinvindicar por reivindicar não resolve nada. Contestar por contestar não resolve nada. Indignar-se por se indignar não resolve nada. Rebeldia por rebeldia não resolve nada. Radicalismo por radicalismo não resolve nada. Utopia por utopia não resolve nada. Deitar abaixo por deitar abaixo não resolve nada.

E não resolve nada se, como diz Sérgio Godinho, não construir, não mudar, não transformar, não fizer obra, não encontrar alternativas fundamentadas no contexto concreto que das dificuldades que vivemos.

É preciso «maleabilidade», isto é, abertura e realismo para que a reivindicação, a contestação, a indignação, a rebeldia, a utopia e a crítica sejam «acompanhados por um trabalho de construção, de arranjar alternativas.» Alternativas e saídas construíveis, possíveis de serem postas desde logo em prática, mostrar um caminho, uma luz ao fundo do túnel, para merecerem a adesão das sociedades.

No momento actual de grave crise, há a tentação de cair em acções que nada resolvem, pela impaciência, pela ansiedade, pela desesperança, pela raiva, pela satisfação de culpar ou, simplesmente, vingar, destruir e fazer alguém pagar pelos problemas que estão aí colocados. Nem que seja o cidadão comum que fica com a montra da loja partida ou o carro queimado. Os fins que justificam os meios revela-se uma estratégia com adeptos, especialmente em momentos de crise e de desespero.

Revindicação, crítica, luta mas viradas para a acção e a construção, no sentido de contribuir para a melhoria da vida de todos, a nossa e a dos outros. Para merecer credibilidade.

A revolução do 25 de Abril de 1974 foi feita com o espírito de construção. Não se fez a revolução apenas por fazer, para partir a cabeça a umas pessoas ou prejudicar os portugueses. Derrubou-se um regime (a cair de podre, está claro) para construir uma alternativa concreta e viável, que trouxesse uma vida melhor aos cidadãos do nosso País.
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Entrevista completa
(Se o link não mostrar a entrevista completa, colocar a frase «Reivindicar por reivindicar não resolve nada» no motor de busca e talvez consiga aceder ao texto via Jornal de Notícias)

Segunda-feira, Novembro 14, 2011

O céu da banca: ser recapitalizada e passar malparado para o Estado


Não será possível acabar com a história de que os bancos são muito grandes e importantes para caírem?













cartoon origin

O Estado não deve fazer certos fretes aos bancos. Aqui deve ser neoliberal e deixar o mercado funcionar.

É curioso o Governo da República ser considerado marxista-leninista ao ser acusado pelos banqueiros de querer nacionalizar a banca, como no PREC de 1975, por exigir determinadas garantias nos fretes à banca...

Não deve fazer fretes relativamente à recapitalização da banca portuguesa com 12 mil milhões da Troika ou à assumpção pelo Estado do crédito malparado desses mesmos bancos.

O Estado não deveria acolher as «carteiras de créditos mais difíceis e alguns malparados (dívidas de longo prazo de empresas públicas e empréstimos para compra de casa) que estão a inquinar os balanços dos bancos privados portugueses.»

A banca deveria responsabilizar-se pelas consequências da concessão desenfreada de crédito que andou a impingir aos portugueses (sem nunca escamotear a responsabilidade individual de quem contraíu essas dívidas - nada de diabolizar a banca por todos os males...) e não tentar passar tudo para o Estado. Não é justo serem os contribuintes a garantir o cumprimento de dívidas que são e devem continuar a ser dos bancos.

Os bancos foram agressivos na concessão de crédito e a fazer altos negócios e especulação, como são agressivos agora a exigir a ajuda por parte do Estado, como se fosse normal ou uma obrigação num mercado livre.

Assim também eu era banqueiro... Emprestava dinheiro o mais possível, sem me preocupar muito com a capacidade de as pessoas e empresas cumprirem a dívida, na certeza de que o Estado, para salvar a economia e assegurar o seu financiamento, assumiria o crédito malparado e recapitalizava o banco...

Então o mercado livre é o quê? Só interessa quando dá lucro? Privatizam-se os lucros e nacionalizam-se os prejuízos?

Dizia ainda a notícia: «ao libertarem-se destas dívidas mais complicadas, os bancos garantem que poderão ter outra vez folga para financiar a economia e, em particular, as empresas públicas e as companhias de pequena e média dimensão, as que mais se queixam de sufoco quando tentam ir ao banco pedir dinheiro emprestado.»

Será mesmo que os bancos financiariam a economia depois de o Estado lhes fazer a vontade? O Estado e os contribuintes são assim chantageados.

O Estado deve é financiar a economia, por via da Caixa Geral de Depósitos, nesta fase aguda da crise, com os tais 12 mil milhões da Troika (mais o que vai dispender com a assumpção do crédito malparado), em vez de o entregar aos bancos privados. Por mais que apelidassem o Governo de marxista-leninista.

Injectar esse dinheiro disponível nas PMEs, criar emprego, produzir e conseguir pagar as dívidas à custa do crescimento e não do corte dos salários de quem trabalha ou do aumento brutal dos impostos. Em vez de andar a salvar bancos.

Não será possível acabar com a história de que os bancos são muito grandes e importantes para caírem? Será mesmo que a queda poderia conduzir ao caos e a uma recessão como nunca vista?

Não devem os mercados e o sector financeiro se sobreporem aos Governos e Estados democráticos. É preciso «equilibrar a liberdade de mercado com a capacidade interventora dos poderes públicos.»

Leitura complementar:
Nova espécie: Governo de Passos Coelho é neoliberal marxista-leninista

Sábado, Novembro 12, 2011

Nova espécie: governo de Passos Coelho é neoliberal marxista-leninista


Uns temem o terramoto liberal, outros temem o terramoto marxista-leninista por parte de Passos Coelho... 
Num momento em que uns capitães de Abril, como Vasco Lourenço ou Otelo de Saraiva de Carvalho, defendem que as medidas de austeridade impostas ultrapassam qualquer política neoliberal e criam um «PREC de direita» ou que se encara a possibilidade de um golpe de Estado, num radicalismo a rivalizar com os neoliberais mais radicais, eis que vem a banca portuguesa acusar o Governo de Passos Coelho de querer nacionalizar os bancos, como no PREC de esquerda de há 36 anos.

Passos Coelho é um perigoso neoliberal ou um perigoso marxista-leninista? Ou será as duas coisas? Em que percentagem cada uma delas? Entendam-se, por favor, porque ninguém aguenta tanta esquizofrenia :)

Estamos a viver um PREC de direita ou um PREC de esquerda? Quem resolve tamanha contradição? Se calhar podem coexistir. Talvez se atinja um equilíbrio qualquer... um liberalismo-marxista ou um marxismo-liberal :) Os extremos por vezes tocam-se.

Até os banqueiros portugueses estão em pé de guerra com o Governo, devido às regras para o acesso à linha de capitalização do sector, prevista no acordo da ‘troika'. Enviaram mesmo uma carta à Comissão Europeia a acusar o Governo de pretender nacionalizar o sector financeiro, comparando essa política às nacionalizações do PREC, em 1975.

Só falta dizer que Passos Coelho vai passar os bancos e as empresas para a mão dos trabalhadores... ou passar as terras para as mãos dos trabalhadores agrícolas, numa reedição da Reforma Agrária. Ao mesmo tempo que é neoliberal nas privatizações...

Enfim, o actual Governo é acusado, em simultâneo, de neoliberal e marxista-leninista (anti-liberal).

Desculpem, isto é divertido.

E alguém tem de manter a serenidade e realismo no meio destes extremismos todos.

Dito isto, acho bem que não se façam certos fretes à banca. O Estado anda a salvar bancos e a recapitalizá-los e não vai exigir garantias? É preciso impor regras ao sector financeiro e evitar a repetição de certas loucuras especulativas, para nem falar em corrupção..., com prejuízo para os contribuintes e os Estados.

Além disso, não devem os mercados e o sector financeiro se sobreporem aos Governos e Estados democráticos (estes controlamos através das eleições, e não só, mas os cidadãos já não controlam o sector financeiro e as multinacionais).

Irrita-me o buraco do BPN ser comparado ao buraco da Madeira. Não estamos a falar da mesma coisa. Tal como o buraco do BPN não pode ser comparado ao buraco nas contas públicas deixado pelos governos de José Sócrates. Com boa (melhor) ou má (pior) gestão, os Estados investem nos serviços públicos e investem nas infraestruturas para usufruto dos cidadãos. Que fez o BPN pelo País?

No recente discurso de tomada de posse do novo Governo Regional, o presidente do Executivo, num discurso mais significativo e de forte crítica ao actual Governo da República PSD/CDS-PP («criar empregos agora, reduzir défices depois», o oposto do que está em curso) do que muitas análises conseguiram ler, há passagens que a esquerda mais esquerda subscreve nas calmas (ou subscreveria se conseguisse esquecer quem é o autor das palavras).

Além de criticar o «capitalismo selvagem», o «liberalismo económico» e os «interesses especulativos da grande finança», aponta o caminho: «torna-se necessário rever o actual sistema capitalista, de herança anglosaxónica, equilibrando a liberdade de mercado com a capacidade interventora dos poderes públicos democráticos

Citando Krugman, continua a crítica ao Governo de Passos Coelho: «Aumentos de impostos e cortes na despesa pública deprimirão ainda mais as economias, agravando o desemprego. Cortar a despesa numa Economia muito deprimida, leva a que qualquer poupança conseguida, seja parcialmente anulada com a redução das receitas, à medida que a economia diminui. Se os investidores decidirem que estão perante políticos que não encaram problemas de longo prazo, desta forma é que deixarão de comprar a dívida e de financiar um País».

Para logo a seguir defender o primado da política sobre a Economia e as soluções dos tecnocratas serem temperadas e adaptadas, numa nova crítica ao Executivo de Passos Coelho, nomeadamente ao ministro das Finanças. Entretanto, a substituição de políticos por tecnocratas, em curso tanto na Grécia como na Itália, falam por si.

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Imagem: jornal I de 20 de Julho de 2011

Terça-feira, Novembro 08, 2011

Tom Waits raising hell



Como posso optar pelos downloads de música com objectos tão bonitos como este para pôr os olhos e as mãos em cima?
Mesmo sem todas as condições, tentei seguir as regras na audição de um disco pela primeira vez, embora tenha feito a leitura das letras em simultâneo, por duas razões. Uma a ver com o conteúdo, outra com a forma: textos interessantes do músico dispostos num pequeno livro (A5), com fotografias do próprio Tom Waits a ilustrar. Esta é daquelas edições especiais que são-no realmente. Isto é uma deluxe edition.

Mas vamos ao essencial. Ouvi o disco uma vez e adorei de fio a pavio, seja na vertente mais baladeira ou mais roqueira. Tal como os anteriores Blood Money (2002) ou Real Gone (2004), Bad As Me é um álbum que representa as várias facetas musicais de Tom Waits. Gosto delas todas.

E nada de esquecer o papel de Kathleen Brennan, mulher de Tom Waits há 30 anos, parceira musical tanto na criação dos temas como na produção - ele mesmo afirmou «Não casei apenas com uma mulher, casei com uma colecção de discos». E invejo-o por isso. (Também) ninguém me conquista o coração se não for através da música - e mais uns livros e ideias prospectivas sobre a existência e a vivência.

Bad As Me tem um som sujo, com elementos que vão desde o blues, rockabilly, rhythm & blues ou jazz até ao rock, com muitos intrumentos, texturas, atmosferas que nos transportam para ambientes nocturnos, cheios de fumo, nostalgia, melancolia, romantismo... e muito groove. Groove aos montes.

É claro que os temas mais intensos e duros como "Bad As Me" ou "Hell Broke Luce" me arrebataram de forma particular. Mexem com o corpo, além da alma e do cortex cerebral.

E depois aquela voz grave, envolvente, cavernosa, única.

Tom Waits é Tom Waits. Fim de conversa.

Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Nevermind vinte anos depois





Em Setembro de 1991, há 20 anos, era posto à venda um dos discos mais marcantes da história do rock: Nevermind de NIRVANA. Duas décadas não fizeram erosão nenhuma. Poderia ter sido editado hoje. O que é genuíno resiste à passagem inexorável do tempo.

Tenho bem presente a excitação, a novidade e as emoções sentidas na primeira audição do álbum em CD (e nessa época os discos compactos custavam três contos - 15 euros... - uma roubalheira... era estudante e amealhava para comprar um disco num mês...).

Andava na altura mais apanhado pelo Heavy Metal mas o Nevermind dos NIRVANA tinha uma grande intensidade, soava como nada até então (viria a chamar-se Grunge), adorei a conjugação entre a melodia e as passagens pesadas (elemento Hardcore), não tinha solos de guitarra petulantes e vibrei com a densidade e poder dos graves. Em duas palavras: enchia as medidas :)

Lembro-me de dar a novidade ao irmão mais novo como sendo o disco rock mais arrebatador dos últimos tempos de que meio mundo falava e ouvia.

Vinte anos depois, porque discos destes devem ouvir-se em vinil, eis que não resisti, em mês de aniversário, uma boa desculpa para esquecer a crise, a deitar mãos e ouvidos ao Nevermind, numa edição com lados B e outros extras para os mais ávidos :)

Conclusão: duas décadas volvidas soa tão excitante como então e não há um tema de que não goste. Um álbum muito forte no seu todo, sonicamente poderoso e sem nenhum momento menos interessante. Trouxe o rock alternativo, com passagens intensas e ruidosas, a uma audiência mais vasta, tendo vendido mais de 30 milhões de cópias. Duas por minha conta.

Kurt Cobain teria hoje a minha idade se não tivesse acontecido o que aconteceu em 1994... Ficou o legado.

Domingo, Outubro 23, 2011

Risco elevado de emergência social


"A crise com pessoas dentro", uma reportagem do Diário

Baseado em declarações do presidente da Cáritas no Funchal, José Manuel Barbeito, o Diário refere na edição deste Domingo que, «com a austeridade anunciada, as perspectivas são muito, muito reservadas e, em consciência, não se pode, nem se deve colocar de parte a possibilidade de uma situação de emergência social.»

Como já tínhamos referido no post Endividamento das famílias, o colapso social que é imperioso evitar, os sinais são deveras preocupantes, confirmados pelo responsável da Cáritas na Madeira e as reportagens que vão sendo publicadas nos jornais sobre a situação das famílias. É uma situação com ingredientes para uma emergência social. Quando não há pão o desespero pode tomar conta das pessoas.

"O desemprego, o divórcio e o endividamento são os principais problemas dos que nos contactam", explica José Manuel Barbeito ao Diário.

São anos de enorme dificuldade que estão à nossa frente, ainda por cima com uma dívida brutal em cima dos madeirenses - fez aqui o governo de Alberto João Jardim o que fez o governo de José Sócrates lá.

E o problema não é apenas a dívida pública portuguesa, calculada em 25% da dívida total do País. É a dívida privada (75%), a descapitalização da banca (insolvente ou sem dinheiro para injectar na economia - o que acontece a uma plantação sem água?) e a conjuntura de recessão europeia/internacional, decorrente da crise do subprime em 2006-2007.

Numa ilha pequena, no meio do Atlântico, em que são escassos os recursos e a economia é frágil, as oportunidades são escassas. A Madeira não tem condições para empregar duas a quatro dezenas de milhares de desempregados. A construção civil acabou. O mercado imobiliário congelou. O turismo está como está, mas continua a ser a nossa tábua de salvação. A Zona Franca e o offshore podem desaparecer. E os destinos da emigração não são os de antigamente.

Trabalhar para pagar dívidas ou, ainda pior, não ter emprego é suficientemente duro para lhe juntarmos desesperança, desespero e depressão. Aí o drama social agudiza-se. Conduz ao baixar dos braços, a actos irreflectidos e custa dinheiro recuperar a saúde mental e física. Na Grécia, a esperança de vida terá baixado pelo menos uma dezena de anos, devido ao impacto do stress nas pessoas.

As redes de solidariedade e apoio às pessoas, a começar nas famílias, terão de estar bem oleadas para amortecer as dificuldades. Tempo de os madeirenses se concentrarem no que os une, no que é essencial. Há valores que devem e têm de falar mais alto.

Haverá sempre alguns privilegiados, com tempo e dinheiro, que se entretêm em demandas no âmbito do pequeno interesse individual. Contudo, numa grave crise, a tendência é virar-se para a coesão do colectivo, recuperando-se laços sociais e familiares em detrimento do individualismo reinante nas últimas décadas. Menos consumo, melhores relacionamentos sociais, eis um aspecto positivo.

Sábado, Outubro 22, 2011

«Conservadorismo da Madeira profunda» - elementar, meu caro Watson

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«Teve [o PTP] cerca de sete por cento dos votos, mais do dobro do PND, o seu antigo partido proveta, superou o PCP e fez desaparecer de cena o Bloco. Ora, o Bloco é o herdeiro da UDP, a força mais activista nos primeiros tempos pós 25 de Abril: com a sua irresponsável retórica esquerdista assustou o conservadorismo entranhado da Madeira profunda e favoreceu a irresistível ascensão de Jardim. Nada do que agora aconteceu, com a fragmentação das oposições, foi fruto do acaso (até o partido dos Animais elegeu um deputado…).»

Estas declarações de Vicente Jorge Silva (semanário SOL 18.10.2011) após o acto eleitoral de 9 de Outubro, na Madeira, são muito realistas.

Daí não ter compreendido ainda as razões para a euforia oposicionista que se instalou relativamente às recentes Legislativas Regionais, como se o eleitorado conservador e cristalizado fosse mudar num estalo de dedos. Penso que falaram mais alto os desejos e as emoções do que a razão e o realismo. Não acredito que se desconheça o próprio eleitorado...

A dívida não tira votos. São as consequências dessa dívida pública que irão fazer a sua corrosão no partido mais votado na Madeira desde 1976, em sucessivas maiorias absolutas, tendo a última sido a menos expressiva com os seus 48,56%. Mas uma maioria absoluta na mesma.

O eleitorado madeirense deu provas, nestas eleições, que é sobretudo conservador, de direita. Desde logo aqui assinalámos esse dado ao dar conta da votação conjunta de social-democratas e centristas: 66,19%. E dificilmente saímos deste mapa ou genética político-ideológica madeirense.

Há quem tenha dificuldade em aceitar esta realidade sociopolítica e cultural e queira levar isto à força, num confronto generalizado, num tumulto radical, talvez novamente por via de uma «irresponsável» e irrealista «retórica esquerdista», como refere Vicente Jorge Silva a propósito dos anos 70, ou qualquer outra retórica, que os madeirenses já recusaram.

O povo é quem mais ordena, goste-se ou não se goste, coincida ou não coincida com as convicções de cada qual. Para quem não consegue aceitar a realidade (o que ordena o povo nas eleições) e não se contenta com pequenas mudanças a muito longo prazo, arrisca frustração e desilusão face às altas expectativas criadas.

Ou então muda de povo. Sobretudo quando este é encarado como ignorante e medroso ou então como rebanho (arrebanhável) do alto de um qualquer púlpito, incluindo o da superior intelectualidade.

Como por aqui já se disse, umas injecções de realidade e umas curas de humildade fazem bem. Tornam-nos mais sábios, democráticos e menos intelectualmente petulantes. Um bom antídoto face ao aburguesamento de muitos de nós, fruto de melhores condições de vida e acesso ao saber e à cultura.

Vou continuar a gostar do povo madeirense tal como é, sem me privar de criticar aquilo que considero ser menos positivo. Vote o povo como votar. Direita, centro, esquerda ou outra variante qualquer.

Apesar do desgaste de 35 anos de governação, da mudança de líder que um dia desses terá de ocorrer no actual partido que suporta o Governo Regional e do desgaste na governação nos anos que se seguem face à austeridade que irá cair violentamente sobre a Madeira e os madeirenses, o PSD poderá continuar a ganhar, com maioria relativa, mesmo que para isso tenha de se coligar com o CDS-PP.

Nas recentes legislativas, saiu reforçado o CDS-PP, o PTP e o PAN. A esquerda tradicional, PS, CDU e BE, caíram na votação. Mais do que isso, desde há 11 anos que o PSD mantém um núcleo ou base leitoral cristalizada na casa dos 70 mil votos.

Se a esquerda continuar a fragmentar-se, a dar tiros nos pés com as crónicas guerrinhas de paróquia - há quem não saiba viver de outro modo -, a perder credibilidade e a ser irrealista, não convencerá o eleitorado a abraçar outro projecto e outro caminho político para a Região. Continuará a não haver alternativa e alternância à esquerda, como deveria haver numa democracia, para não se cair num único pensamento, doutrina, visão e rotina de governação.

A Madeira não tem condições para empregar duas ou quatro dezenas de milhares de desempregados. A construção civil acabou. O turismo está como está. A Zona Franca e o offshore podem desaparecer. Os destinos da emigração não são os de antigamente. São dias de enorme dificuldade que estão à nossa frente, com uma dívida brutal em cima do lombo, que nos vai curvar ainda mais no tradicional baile pesado.

Há uma grande maioria que não está ainda ciente do grau das consequências que aí vêm. Por isso, acabo como comecei, com uma passagem do artigo de opinião já citado: «A Madeira mergulhou num poço tão fundo e tão negro que, para sair dele, terá literalmente de reinventar o seu destino.»

Fosso entre PSD-M e abstenção aumentou significativamente


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Nas eleições legislativas madeirenses anteriores ao ano 2000, o partido vencedor ultrapassou sempre, em número de votos, os números da abstenção.

Em 2011, o fosso entre o PSD Madeira e a abstenção bateu o recorde. Porém, aquele partido mantém-se na casa dos 70 mil votos em 2000, 2004 e 2011, um núcleo duro ou cristalizado de votantes, mas com a percentagem a cair nestas três eleições (2007 é um caso à parte) de 55,95% para 48,56%.

Em 2000:
79.807 abstencionistas (38,09%)
72.588 votos no PSD (55,95%)
Vantagem para a abstenção: 7.219

Em 2004:
90.040 abstencionistas (39,53%)
73.973 votos no PSD (53,71%)
Vantagem para a abstenção: 16.067

Em 2007:
90.909 abstencionistas (39,25%)
90.377 votos no PSD (64,24%)
Vantagem para a abstenção: 532

Em 2011:
109.418 abstencionistas (42,62%)
71.561 votos no PSD (48,56%)
Vantagem para a abstenção: 37.857

Os abstencionistas teriam uma palavra importante a dizer se decidissem ir votar, mas a este nível não houve nenhuma surpresa em 9 de Outubro último. Os abstencionaistas bateram o recorde com a percentagem de 42,62%, a mais elevada de sempre.

Terça-feira, Outubro 18, 2011

Endividamento das famílias, o colapso social que é imperioso evitar


Francisco Louçã terá dado hoje na Sic Notícias uma das entrevistas mais lúcidas, realistas e proactivas: falou mais o economista e menos os dogmas doutrinários
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A entrevista a Francisco Louçã hoje na SIC Notícias, jornal das 21h00, deixou-me ainda mais preocupado do que estava quanto à situação do endividamento (privado) dos portugueses.

O que me aflige, mais do que a subida de impostos e a perda de salário (empobrecimento), é as famílias ficarem sem liquidez, entrarem em falência por causa dos compromissos de crédito, sobretudo no que toca à habitação própria. Uma coisa é viver pior, outra coisa é não ter para viver, além do pagar ao banco as dívidas.

E aqui pode estar um enorme drama social, já que metade das famílias portuguesas está endividada por várias dezenas de anos e boa parte com mensalidades demasiado altas. Boa parte delas pode entrar em falência face ao elevado grau da presente austeridade. E aqui é preciso os cidadãos fazerem a pressão sobre quem decide, aqui e na Europa. É preciso evitar um colapso social. Mesmo sabendo que as pessoas facilitaram nas decisões no acesso ao crédito e a banca foi agressiva.

«Os bancos portugueses alimentaram um mercado gigantesco que foi forçar as pessoas a comprar casas, numa estrutura de mercado habitacional em que não havia boas alternativas de arrendamento, [e] metade das famílias portuguesas está endividada por 30 anos aos bancos por comprar a sua casa», disse Francisco Louçã há pouco na SIC Notícias. E conclui: «Isto é absurdo. É o país da Europa em que há mais proprietários e menos pessoas que escolhem arrendar por preços melhores.»

Uma nota a propósito: diz-se que a dívida portuguesa é 75% privada e 25% pública.

A maturidade do consumidor é algo que «se tem de exigir a todos», continuou Louçã, quando confrontado com a oferta agressiva de crédito (carro, plasmas e outras coisas inseridas no crédito à habitação a que muitos acederam).

«Isso é uma responsabilidade de cada pessoa e eu não a diminuo nunca», não facilita o líder bloquista quanto à quota parte da responsabilidade individual. «Mas é também uma responsabilidade do regulador», alerta. E não esqueçamos que o próprio Estado fomentou a corrida ao crédito para habitação com os créditos bonificados e abatimento no IRS, que o economista nem referiu.

E Louçã explica o poder impositivo sobre as pessoas, quanto ao nível elevado dos juros exigidos, em que se criou um «crédito ao consumo violentíssimo».

Refere a esse propósito que o «sistema financeiro teve um poder sobre as pessoas e um poder sobre quem queria comprar casa em que a pessoa não podia negociar. Ou aceitava ou ficava sem a possibilidade do crédito. Portanto, eles [bancos] tiveram a faca e o queijo na mão e endividaram-se imenso no estrangeiro. Os bancos portugueses devem mais do que o Estado português. Essa é uma das grandes pressões sobre Portugal é a dívida do sector financeiro. E que é uma dívida das famílias também. Daí que tenhamos que olhar para o sistema do crédito como um contrato muito responsável

Redireccionar as capacidades de crédito não para consumo («só prejudica a economia») ou habitação («só cria dívida externa»), mas para a indústria, a produção e criação de emprego foi a receita dada por Francisco Louçã para sair da crise e faz muito sentido. Crédito para a economia. E contas certas no orçamento e na economia.

Mas é preciso assegurar que esse crédito chega. Uns dizem que é preciso pôr as contas em ordem primeiro para termos crédito exterior. Outros que os 12 Mil Milhões que vêm para recapitalizar a banca deveriam ser usados para injectar na economia.

Continue-se o debate e a manifestação da opinião, nos media ou na rua.

Memória:
O consumo não foi inventado pelo capitalismo

Domingo, Outubro 16, 2011

O consumo não é invenção do capitalismo

"Eu expulsei os vendilhões por alguma razão", diz o cartaz de um manifestante em Londres, 15 de Outubro de 2011
photo copyright: Leon Neal - AFP

«O consumo,
por mais que o repitam, não é invenção do capitalismo:
os deuses formaram homens incompletos,
com estômago, frio e vaidade, como queriam outro resultado?»

«E o dinheiro (...)
Torna os homens previsíveis, (...)
Destrói reis, carpinteiros e santos. (E quando não há,
ainda destrói mais.)»

Gonçalo M. Tavares
"Uma Viagem à Índia" (2010)
p 305, p 363

“Nunca gasto mais do que ganho” (jornal Económico 16.10.2011) é um princípio que saiu da nossa cultura e até parece algo demasiado conservador e antiquado na sociedade em que vivemos. O autor da frase é Júlio Machado Vaz, recordando um lema herdado da mãe. E ele próprio fez excepção na aquisição de uma casa, lê-se na entrevista...

Na nossa cultura, ter dívidas era algo muito censurável e herdei, pessoalmente, da família, esse valor de "não dever nada a ninguém", condição para a tranquilidade da consciência. Nunca acreditei que me dessem nada. Ainda hoje sinto-me incomodado com créditos, mesmo aqueles de curto prazo e sem juros. Prefiro esperar do que aceder a bens por via do crédito. Excepção feita à aquisição de habitação própria (e fi-lo de forma conservadora pelo valor mais baixo possível e no mais curto espaço de tempo possível, para pagar menos no final).

Quem nos ensinou a todos a não saber esperar e a esquecer as virtudes da paciência?

As pessoas estão indignadas com o estado do mundo actual, recusam-se a empobrecer (perder poder de compra e de acesso a bens como a saúde) e têm a sua razão. Mas há uma parte de responsabilidade individual que não podemos esquecer.

As pessoas tomaram decisões de endividamento pessoal, para aproveitar o conforto e benefícios "oferecidos" pelo mercado e pelo capitalismo, por mais que o marketing fosse agressivo por parte da banca ou o Estado incentivasse a aquisição de casa própria, através de benesses em sede de IRS ou do crédito bonificado aos jovens. A dívida portuguesa parece ser, dizem, 75% privada e 25% pública...

Sem nunca relativizar a irresponsabilidade nos mercados financeiros, que levaram ao colapso do sistema e estão a fazer pagar todos por erros e ganância de alguns, os bancos ou o Estado, por mais selvagens que sejam, não obrigaram as pessoas a consumirem ou a viverem acima das suas posses. Ficou a prudência à conta da massa crítica de cada um. A liberdade de escolha e decisão exige mais dos indivíduos.

Até alguns países se endividaram acima das suas posses. Portugal é um exemplo. A Madeira é outro exemplo dentro do País. Entrámos num jogo de alto risco. Um dia iria colapsar. Aí está a factura. E sempre podemos dizer "não pagamos".

Enfim, não foi invenção do capitalismo, mas o consumo foi potenciado por esse sistema tão conhecedor da natureza humana e das suas "necessidades", reais ou criadas... Quem nos manda ser eternos ambiciosos/insatisfeitos?

Indignação sai à rua

Porque é preciso indignar-se e expressar as preocupações sobre o estado actual do mundo
 photo copyright: Nuno Galopim


"This is the state of the world address, motherf****rs" é a frase berrada no início do álbum de Biohazard intitulado State of the World Address (1994), que ouvi muito na época e voltou a ecoar em força aqui em casa.

O 15 de Outubro de 2011 poderá ficar para a história como o começo de uma mudança. As pessoas expressaram as suas críticas, preocupações e medos. Veremos as respostas dos decisores políticos nos próximos tempos. Sim, porque a crise passou além das dimensões financeira, económica e social.

Trata-se de um movimento popular, baptizado de marcha dos indignados, contra o sistema económico mundial (liberalismo selvagem) que, desde 2008, tem gerado uma série de descalabros financeiros, conduzindo a uma austeridade crescente para as populações. Com a meta de chegar a 85 países, milhares de pessoas saíram à rua nas principais cidades, de forma pacífica, exceptuando-se o caso de Roma.

O mercado é importante, permitiu-nos uma série de comodidades (agora incomodidades...) materiais, mas é importante que esteja regulado e produza mais justiça social, no sentido de haver uma distribuição da riqueza de forma mais equitativa. E para os cidadãos não terem de pagar as asneiras da especulação financeira ou a má gestão dos governos.

Como disse o presidente da Comissão Europeia, em 28 de Setembro último, «the roots of this crisis are clear: we have given in to the temptation of living beyond our means. We have let financial markets develop in unsustainable ways.»

Pois é hora de arrepiar caminho, encontrar saídas e permitir a esperança e o futuro.

Quarta-feira, Outubro 12, 2011

E os burros são os madeirenses?

Não se ganha o povo chamando-o de burro nem dando-lhe sermões do pedestal da intelectualidade (fotografia: Funchal em 1937)
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Toda a gente contava com nova maioria absoluta, as sondagens confirmavam-na, mas, mesmo assim, foram muitos aqueles que, subestimando a realidade e o eleitorado madeirense, para nem falar da máquina laranja e de Alberto João Jardim, mesmo depois de um ataque cardíaco, deixaram-se levar numa certa euforia e esperança de retirar a maioria absoluta ao partido social-democrata.

Compreendo a decepção e a frustração, inclusive a zanga, mas o povo é quem mais ordena, goste-se ou não se goste, coincida ou não coincida com as convicções de cada qual. À excepção do CDS-PP, PTP e PAN, todos os outros partidos foram castigados pelo eleitorado e perderam votos. Atente-se àquilo que os madeirenses recusaram nas urnas.

É claro que alguns chamam o povo soberano de burro, ignorante, míope, telecomandado, entre outros adjectivos, mas quem se recusar a ver, do alto da intelectualidade, a realidade passada e presente e as características do eleitorado madeirense, nunca conseguirá a adesão alargada a um projecto político. Podem-se arranjar as justificações que se quiserem.

E algumas dessas justificações são factos, como a pouca massa crítica (atinge todos os sectores), sociedade civil pouco activa ou a pequenez da ilha que permite conhecer todos e confundirem-se planos e esferas da vida pessoal e pública. A questão do medo, essa, tem dois gumes.

Para além disso, a alternância acontecerá quando Alberto João Jardim não der a cara pelo partido e se fizerem sentir as consequências das medidas de austeridade que aí vêm. E daqui não se sai. Relativamente ao que nos ultrapassa, aplique-se a aceitação judaico-cristã. E lute-se pelo que se pode alterar com argúcia e eficácia.

Há duas gerações de políticos que tiveram o azar histórico de terem vivido no tempo dominado por aquele líder carismático, com todas as virtudes e defeitos que se apontam e que bem conhecemos. Mesmo a minha geração, que cresceu e amadureceu com esta governação em mais de 30 anos, começa a ficar velha para pegar nisto. E conte-se com mais quatro anos. Estará a minha geração nos 50 anos... uns velhotes :)

«Jardim ganha porque oprime, gritam os adversários. Jardim ganha porque torna possível, responde o povo», terá dito ou escrito um jornalista da TVI 24 (Filipe Mendonça?). Dizia mais: «A gratidão esquece a opressão, seja lá o que isso for para gente que há 35 anos vivia na segunda região mais pobre do país». Quem sempre teve água, luz, estradas e outras comodidades das zonas urbanas e litorais não compreende essa gratidão.

A Madeira foi colocada no mapa, com muita reivindicação (estilos à parte), por quem continua a repetir «o meu partido é a Madeira.» Por isso, muitos dos ataques exagerados e manipulados de uma boa parte da comunicação social continental sobre a Região e os madeirenses criaram as condições para o clássico «nós contra eles». Tenho a convicção que a maioria absoluta, à tangente, se deveu a esse facto. E parte do eleitorado viu no actual presidente do Governo o interlocutor para se bater nas negociações com a República e a troika.

É claro que nada desculpa a gestão que nos levou a uma dívida brutal e comprometerá o futuro por muitos anos. A partir do ano 2000, perdeu-se as rédeas da despesa pública e optou-se por expedientes para ultrapassar os limites do endividamento colocados pelo Estado, numa euforia de obras. Nos dois anos que precederam as eleições de 2004, a Madeira era um estaleiro. Mas a dívida não tira muitos votos. As consequências da dívida fá-lo-ão, sim, no futuro próximo.

Não vejo o povo como rebanho porque não o vejo de um qualquer pedestal. E chamem-me à atenção se um dia cair nessa tentação. Eu sou do povo, com todos os seus defeitos, limitações e virtudes. É uma ligação de sangue numa terra bela, insular e agreste como a Madeira.

No passado, quando precisei da adesão de mais população a algumas causas cívico-ambientais em que andei envolvido, precisamente por causa de obras no litoral perfeitamente supérfluas ou, no mínimo, sobredimensionadas e caras para manter, caí na tentação de recriminar o povo, mas não era justo nem sensato fazê-lo. É preciso fazer o balanço e admitir os erros.

Umas injecções de realidade e umas curas de humildade fazem bem. Tornam-nos mais sábios, democráticos e menos intelectualmente petulantes. Um bom antídoto face ao aburguesamento de muitos de nós, fruto de melhores condições de vida e acesso ao saber e à cultura.

Os madeirenses não quiseram mudar a página em 9 de Outubro de 2011 - estava nas suas mãos fazê-lo. Meteram na Assembleia Legislativa da Madeira oito dos nove partidos concorrentes às eleições, penalizando uns (incluindo o PSD, embora desse para a maioria absoluta - será prémio governar sob a troika e a República e o descontentamento social que aí vem?) e premiando outros.

Domingo, Outubro 09, 2011

O povo é ainda quem mais ordena


As várias sondagens não preveram a força do PTP de José Manuel Coelho, que elegeu 3 deputados para a Assembleia Legislativa da Madeira, a surpresa da noite eleitoral

Os dois partidos mais votados, PSD e CDS-PP, somam juntos 66,19%, 25 mais 9 deputados, respectivamente. O PTP de José Manuel Coelho foi outro vencedor desta noite eleitoral com  6,8%, correspondente a três deputados.

Foi a sondagem da Católica que ficou mais próxima dos resultados finais, acertando em cheio no resultado do PSD, próximo nos resultados de CDS-PP, PS e CDU (o CDS-PP para cima e o PS e CDU para baixo face à projecção), mas não prevendo que o PTP passasse a terceira força política e o BE desaparecesse do parlamento.

aqui tínhamos dito que a dívida não tira votos a ninguém, ainda por cima quando se alega que ela está à vista, na obra feita (bem ou mal, essencial ou supérflua, é outra discussão).

O que vai tirar votos a quem governa, no desgaste nos anos que se seguem, são as consequências concretas dessa dívida (não só a pública mas também a privada, não se esqueça), no dia-a-dia de cada madeirense. Consequências que serão muito duras.

Quem vai (continuar a) derrotar Alberto João Jardim e o PSD-Madeira, nos próximos anos, não hoje 9 de Outubro de 2011, é a troika, também já tínhamos alertado. E o PSD nacional, pelos vistos, tendo em conta a declaração de hoje à noite... Foi preciso um deus ex machina intervir, leia-se troika, para fazer o que a oposição nunca conseguiu fazer.

Subestimar o conhecimento sobre o eleitorado, a máquina do maior partido da Região e a capacidade política de Alberto João Jardim criou elevadas expectativas e agora a desilusão em muitos sectores da oposição, em especial a esquerda que foi remetida para um canto da Assembleia Legislativa da Madeira.

Sábado, Outubro 08, 2011

Madeira dentro de Lisboa (roteiro)


“O Madeirense” é dos restaurantes típicos mais antigos em Lisboa
Este "Roteiro madeirense. Deixa passar esta linda brincadeira em Lisboa" escrito por Maria Catarina Nunes para o jornal I (publicado em 8 Out 2011 - 03:00) foi uma boa ideia e mostra o que de bom tem a Madeira. Depois de semanas a zurzir na Madeira e a passar uma péssima imagem dos madeirenses, este tipo de reportagem faz justiça à realidade e ao que de positivo tem a Região Autónoma.

«Foi eternizado pelo Max e gravado pela Sinfónica de Londres. Hoje, o Bailinho da Madeira continua a fazer sentido: “Deixa passar esta linda brincadeira / que a gente vamos bailar à gentinha da Madeira”. Depois das notícias estrondosas, este é o fim-de-semana de eleições. O bailinho continua, mas não sugerimos que dance. Pare o carro, dê andar às pernas e conheça a Madeira dentro de Lisboa. Não é tão bom como um bilhete de avião, mas não ficará mal servido. Palavra de madeirense.

08h00: Pequeno-almoço em Telheiras
Quase podemos arriscar dizer que é a zona de Lisboa onde se concentram mais madeirenses por metro quadrado. Saem dos apartamentos, lêem nos cafés, na biblioteca Orlando Ribeiro, ou correm nos jardins com os cães. Os comerciantes da zona aproveitam a avalanche e é raro passar pelas esplanadas sem ouvir um típico “lh”, próprio de ilhéu, nas palavras que juntam as letras i e l: “Fui ao cinema ontem. Ah paz! Adorei o filhme”. O Melkia Spirit tem vários produtos típicos – Vasco Loja, o proprietário, é madeirense. Há vários pratos inspirados na gastronomia do arquipélago, mas para começar o dia sugerimos um ligeiro: tosta de queijo em bolo do caco, e brisa de maracujá. Para quem não sabe, brisa é um refrigerante produzido na Madeira. Se preferir algo mais substancial, e for Domingo, opte pelo Melkia Wake Up - pequeno-almoço inglês, em homenagem à história britânica que existe na ilha.
(Morada: Melkia Spirit, Rua Maria Dionísio 4ª, Telheiras Tel. 217 524 841)

10h00: Bordados da Madeira
Só não vai encontrar as artesãs, sentadas em cestos de vime, como é tradicional, ou a bordar dentro das lojas. De resto há de tudo o que seja souvenir madeirense. Os bordados são os que enchem mais o olho (e esvaziam os bolsos). Hoje já existem várias lojas que vendem bordados madeirenses com o selo original, mas as que têm mais variedade de produtos concentram-se na baixa lisboeta. Se a carteira estiver virada para isso, lembre-se que comprar uma toalha com grandes dimensões pode estragar a sua tarde, a menos que esteja a pensar fazer uma paragem num local onde possa guardá-la: São muito pesadas. Mas não desanime, há lembranças de outro aprumo.
(Morada: Casa de Bordados da Madeira, Rua 1º de Dezembro Lj. 137; Madeira House, Rua Augusta, nº 133; Madeira Shop, Prof. D. Pedro IV, 44)

11h00: Compotas no Supermercado Sá
Depois dos bordados madeirenses, basta subir a Avenida da Liberdade e entrar na estação de metro do Marquês de Pombal. Linha amarela, direcção Campo Grande, sair na estação do Campo Pequeno. À superfície, seguir para o Centro Comercial (do Campo Pequeno, pois). O Supermercado Sá é uma cadeia que existe há vários anos no arquipélago, mas em Portugal Continental é único. Lembra-se do bolo do caco do pequeno-almoço? Sim, vendem. Também há produtos da Fábrica Santo António (muito conhecida na ilha), como o bolo de mel, broas de mel, doces e compotas de encher o carrinho de frascos. A de pitanga é obrigatória. Caso esteja inspirado para cozinhar também há lapas e atum, gaiado ou peixe espada preta. Tudo vindo da ilha. Leve bananas da Madeira, banana maracujá – e o próprio maracujá – anonas e perâs-abacate. Por fim, basta pesquisar por receitas madeirenses na internet e percebe que consegue utilizar todos os frutos nos pratos principais.
(Morada: Supermercado Sá, Centro Comercial do Campo Pequeno)

12h00: Almoço nas Amoreiras
Temos noção que ir almoçar a um Centro Comercial não é o mais apelativo, mas o roteiro assim o exige. Ao contrário do que esperávamos, não existem assim tantos restaurantes madeirenses na capital. Pelo menos onde se confeccione o prato, tal qual ele é servido na ilha. “O Madeirense” é dos restaurantes típicos mais antigos na capital. A decoração é a conhecida: tecidos de barras vermelhas, amarelas, verdes e azuis, e há diversos objectos a aludir à cultura da ilha. Quanto a pratos, há para todos os gostos. Isto, claro, se for adepto da gastronomia madeirense - que cá entre nós, não é uma coisa difícil. Sugerimos vários: cocktail de gambas em abacate; açorda madeirense; espetada madeirense de lombo em pau de louro acompanhada de milho frito; ou filete de espada com banana e molho de maracujá. A carne de vinho e alhos com laranja também é típica. Para entrada não pode faltar o tradicional bolo do caco com manteiga de alho. Acompanhe com uma Coral, a cerveja da Madeira.
(Morada: “O Madeirense” Avenida Engenheiro Duarte Pacheco, Amoreiras Shopping Center, Loja 3027; Tel. 213 830 827)

15h00: Flores e golos de poncha
Há alguém que visite a ilha da Madeira e não se encha de flores de todos os tipos e feitios? Sim, mas não é o nosso caso. As flores são uma marca da ilha e devem entrar no cabaz. Ficámos a saber que também as há em Lisboa. A loja Flores Romeira Roma vende estrelícias, antúrios e sapatinhos durante todo o ano. Depois das flores, corra a uma loja de música e compre o último CD da cantora madeirense, Joana Machado, “Travessia dos Poetas - Rosa Peixe”. E só não sugerimos um concerto, porque a artista está a actuar em Cáceres, no Festival Internacional de Jazz. Se estiver mais virado para as leituras, Herberto Hélder é sempre uma boa opção e existe em várias livrarias. Para descansar das compras, visite o bar Number Two e beba uma poncha, há de vários sabores. A menos que seja fã de música de carrinhos de choque, não queira ficar muito tempo.
(Morada: Flores Romeira Roma, Avenida de Roma, 50 C; Number Two, Av. 24 de Julho 82)

20h00: Vistas, jantar e Maria Caxuxa
Antes do jantar, e no caso de querer ouvir mais falares da ilha, rume até ao Miradouro São Pedro de Alcântara. É outro dos sítios preferidos dos madeirenses para beber um copo de fim de tarde. Às 20h, com as pernas a latejar de tanto passeio, é natural que o bolo do caco com manteiga de alho não saia da cabeça. Apesar de antigo e de ter uma decoração peculiar, o restaurante “Ilha da Madeira” é dos mais concorridos, talvez pelo seu ambiente acolhedor e informal. A cozinha é, claro, regional madeirense. As espetadas em pau de louro e o bolo do caco são muito pedidas. Para acompanhar a refeição, a cerveja Coral, da empresa de cervejas da Madeira, é para ser bebida fresca. Para sobremesa, aconselhamos o pudim de maracujá ou o bolo de banana. Ambos de fazer repetir. Acabado o jantar é tempo de o digerir com um passeio a pé até ao Bairro Alto. No bar Maria Caxuxa não vai encontrar produtos tradicionais da Madeira, a não ser os próprios dos ilhéus. É outro dos lugares de concentração de madeirenses. E a música é boa. (Morada: Miradouro São Pedro de Alcântara, Rua São Pedro de Alcântara; Restaurante Ilha da Madeira, Rua Campo de Ourique 33-35; Maria Caxuxa, Rua da Barroca 6-12)

03h00: Cantinho da Madeira no Lux
É certo que os madeirenses gostam de noite e frequentam vários sítios em Portugal Continental. Mas é no Lux que o encontro é certeiro. O bar mais pequeno do segundo andar da discoteca, próximo da varanda, é dos lugares preferido dos madeirenses para conversar e beber copos a altas horas. Com algumas danças pelo meio, claro. Mesmo que não tenham combinado, os ilhéus sabem que frequentar o canto esquerdo do Lux, é uma boa opção se estiverem com saudades de casa e quiserem encontrar conterrâneos durante o fim de semana da grande Lisboa.
(Morada: Lux, Avenida Infante Dom Henrique Armazém A Cais da Pedra)