«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

domingo, dezembro 16, 2018

Ana da Silva no Mudas


Ana da Silva (Madeira Dig 1.12.2018, MUDAS, Calheta), com o projecto Island, com a japonesa Phew. Fotografia de Rui Pinheiro (com exposição na Galeria dos Prazeres até 2.2.2019).

Capazes de matar a própria morte

El Petó de la Mort (O Beijo da Morte), por Jaume Barba ou Joan Fontbernal, 1930, que se encontra num bairro de Barcelona
«Éramos capazes de matar a própria morte», dizia-me pouco um camarada de tropa, erguendo os braços com veemência. Isto é, capazes de derrotar o absurdo existencial. O que é ir à Lua ou a Marte comparado com isso?

photo: SantiMB

domingo, setembro 09, 2018

Entre o profundo e o raso



Nesta nossa Ilha grande em beleza, mas ainda com limitações em termos de mentalidade, ter profundidade é ser pedante; atender a detalhes, qualidade e ser preciso é ser pedante; ser estruturado, consciente, crítico e argumentativo é ser pedante; ter preferências culturais menos comuns é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); ter alguma sofisticação é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); articular uma ideia é ser pedante (e «pseudo-intelectual»); ser discreto ou introvertido é ser pedante; trabalhar com dedicação e brio é ser pedante; ter auto-estima e confiança é ser pedante...

Isto mesmo que haja discrição e humildade às toneladas, porque tudo aquilo se destaque é tomado como exibicionismo pretensioso. Leitura que resulta do endémico complexo de inferioridade madeirense (adubo para a inveja e a maledicência), do negativismo em nivelar por baixo, vulgarizar o outro (quanto mais vulgaridade houver à minha volta mais dissimuladas ficam as minhas vulgaridades e limitações - um contexto social que não puxa para cima nem estimula as pessoas a darem o seu melhor e a evoluir) e de existências funcionais (automatismo quotidiano de sobrevivência).

Na cerimónia de tomada de posse de um novo Governo Regional (16.11.2004), Alberto João Jardim referiu a necessidade de «expurgar, de vez, males endémicos da sociedade madeirense, como sejam a inveja, o gosto por maldizer, a não distinção entre qualidade e mediocridade, entre o principal e o acessório.»

Passada uma década, afirmou: «Há outra coisa que me preocupa. Dá-me a impressão que a evolução das mentalidades não foi tão rápida como a evolução material, isto é, da qualidade de vida. Acho que as pessoas estão muitos presas à bilhardice, à inveja, a uma certa subserviência a tudo o que é de fora; há aqui ainda umas coisas a corrigir» (entrevista à RTP Madeira, 1.7.2014? e Jornal da Madeira 2.7.2014?).

BlacKkKlansman, a wake up call about the struggle between love and hate



Já tinha lido a entrevista a Spike Lee, que faz capa na revista inglesa Sight & Sound, pelo que fui logo ver o seu novo filme, BlacKkKlansman, acabadinho de estrear num dos cinemas da Madeira. Ao preço que está o cinema, 7 euros, só quando é algo de substancial (mais do que um filme funcional e ligeiro de entretenimento).

E que filme. A narrativa tem lugar em 1973, mas faz a ponte com o momento actual da «America greater again» de Trump e tudo o que ele representa, trazendo ao de cima dores que a grande América nunca resolveu no seu seio.

Spike Lee alia entretenimento, humor e reflexão. Inclui imagens reais no final do filme, de incidentes a ver com o ressurgimento dos neo-nazis (Charlottesville, Agosto de 2017), em que foram pessoas atropeladas, prova de que há coisas que quase não mudaram desde 1973. E tais fenómenos extremistas estão a ter lugar também na Europa.

Há também inclusão de cenas de Birth of a Nation (de 1915, por D. W. Griffith, com pendor racista e exaltação do Klu Klux Klan, adaptado do romance "The Clansman"—já agora, convém ver o outro Birth of a Nation, de 2016, de Nate Parker) e Gone with Wind (de 1939, por Victor Fleming, que condescende sobre a escravatura e minimiza a violência do grupo racista Ku Klux Klan).

«So me being a filmmaker, a scholar and a cinephile, if you go through my body of work it's no secret that it's a critique of Hollywood cinema and it's not a great history», diz Spike Lee à já citada revista. «What Hollywood did to Native Americans is a disgrace: fuck John Wayne, fuck John Ford. I know they tried to make up for it with The Searchers [1956], in the same way D. W. Griffith did with Intolerance [1916], but too damn late, all of them. Hollywood has historically been about white supremacy, the superman.»

E é essa supremacia branca, tão Trump, que é exposta, denunciada e ridicularizada em BlacKkKlansman. O realizador não tem dúvidas sobre as consequências: «with this kind of White House it's not just affecting black people, it's affecting the world.» E situa as coisas desta forma: «People have got to understand that this is not a black and white issue, it is an issue about love versus hatred. These guys are gansgters—they don't give a fuck. Politicians are politicians, but at least back in the day they would lie about it [laughs], or at least give you a smile, whereas now this is straight-up: "We don't give a fuck".»

Refere ainda que o "Agente Laranja", para não mencionar o nome de baptismo do presidente americano, só honra o dinheiro, perante a falta de ética e noção do certo e do errado.

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Conexões:
Entrevista à Rolling Stone (2.8.2018)

sábado, setembro 08, 2018

Nós da contradição

Horizonte na Calheta, Verão de 2018

Já sentiram Felicidade, Paz, Contentamento (por tudo o que já é e pelo que se perspectiva no horizonte) e, ao mesmo tempo, uma doce Nostalgia de algo que poderia ter sido (ou Melancolia das coisas perdidas)?

Se eu tivesse dúvidas quanto à minha profunda portuguesidade, tal sentimento contraditório dissipá-las-ia.

Afinal, «os nós da contradição / são os mistérios do Fado», como canta Paulo Bragança no EP "Cativo" (2018). 

sábado, setembro 01, 2018

Às elites interessa que o país não passe de uma choldra

Os portugueses ficam entregues a si próprios, enquanto as elites tratam de servir-se, a si e aos seus amigos (foto: Maria João Gala/Global Imagens)

O artigo Lições de Pedrógão do economista Daniel Bessa (Expresso 2392, caderno de Economia, 1.9.2018), é de uma lucidez cristalina sobre a inépcia das elites em Portugal, que trabalham para que «tudo fique na mesma, sem correção», mantendo o país atrasado e uma sociedade bloqueada, corrupta e ineficaz, com um fosso acentuado entre ricos e pobres. Seja elite de direita, centro ou esquerda, é indiferente. Pena que a generalidade do povo português tolere este estado de coisas e essa corja. Como o texto fala por si, ilustrativo da realidade, aqui o replicamos:

«Dirigi, em tempos uma escola de negócios. Alunos adultos, pagando a sua formação. Uma experiência de que me orgulhava e orgulho. Em determinado dia, um professor vindo dos Estados Unidos iniciava a sua lecionação anual. Impossibilitado de estar presente, telefonei-lhe no final da aula: "Então, professor, correu bem, a aula?"; "Correu, correu bem; o que correu menos bem é que você disse-me que os alunos eram vinte mas nunca tive na sala mais de dez; e os que estavam no início não eram os que estavam no fim."

Uma humilhação. Julgava dirigir uma escola; dirigia uma choldra. Pretextei com "a cultura". "Não me fale em cultura*. Nos Estados Unidos seria igual. Só não é igual porque eu entro na sala e fecho a porta, só voltando a abri-la no final da aula." Uma lição que me ficou para sempre. Passámos a proceder desse modo, e a escola tornou-se exemplar, desse ponto de vista.

O que viemos a saber sobre o que se passou em Pedrógão fez-me recordar esta lição. A tragédia convocou a generosidade de milhares de portugueses, pessoas e empresas, que se empenharam em doar a soma necessária à reconstrução das habitações destruídas. Dois trabalhos jornalísticos recentes acabam de revelar que, sob alegada orientação do poder político local, muito do dinheiro foi mal gasto. Motivo de indignação, uma vez mais, ainda que sem surpresa. É "a cultura"; "somos assim."

Dói, isso dói, que, ao mais alto nível político, leis e sistema de justiça sejam desenhados para que tudo continue na mesma, sem correção.»


* não é a cultura, é a natureza humana
(Esta nota e o negrito de «choldra» são sublinhados nossos)

quinta-feira, junho 14, 2018

Dentro


“Se queres ver o Mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora sem esquecer que dentro é que é o teu lugar”

Jorge Palma
«Terra dos Sonhos»

photo origin

domingo, junho 10, 2018

Sr. rock 'n' roll

Nick Cave pela lente de Rita Carmo, no Primavera Sound, Porto, 9.6.2018.

sexta-feira, junho 08, 2018

Imunodeficiência face aos prazeres da música

David Scott Holloway (photo origin)

«Como se pode ter uma relação, seja de que tipo for, com alguém assim, que não gosta de música?»

Anthony Bourdain
Expresso, Dezembro de 2010


terça-feira, março 27, 2018

Colheita

Calheta 2018


Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

[Eugénio de Andrade]

terça-feira, março 20, 2018

Jack White deita mão a vários pratos e condimentos

Capa de Boarding House Reach (Março de 2018)

«The new album sees Jack White expanding his musical palate with perhaps his most ambitious work thus far, a collection of songs that are simultaneously timeless and modern», é o que a informação da editora refere, que confirmamos já depois de ouvir o disco.

E diz mais: «The album explores a remarkable range of sonic terrain -- crunching rock 'n' roll, electro and hard funk, proto punk, hip hop, gospel blues, and even country -- all remapped and born anew to fit White's matchless vision and sense of restless experimentation. Boarding House Reach is a testament to the breadth of Jack White's creative power and his bold artistic ambition.»

É um disco super criativo, surpreendente e desafiante para o ouvinte. Não é tão directo como outros álbuns mais rock 'n' roll de Jack White porque Boarding House Reach é mais experimental e elaborado, com muitas nuances. Jack White deita mão a vários pratos e condimentos com a ajuda de vários colaboradores (ver lista aqui). Adoro o som retro conjugado com as sonoridades actuais.

sexta-feira, março 09, 2018

Brumas

Prazeres, 9 de Março de 2018: o encanto gótico e o aconchego do nevoeiro espesso