«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

terça-feira, fevereiro 06, 2018

«A nossa casinha» por Fernando Ribeiro

O Rock está aí por mais que lhe tentem passar um atestado de óbito, nota Fernando Ribeiro (Moonspell) a respeito da homenagem dos Metallica ao roqueiro Zé Pedro (Xutos) entoando "A Minha Casinha" (photo copyright Rita Carmo/Blitz)

Já perdi a conta às vezes que o meu gosto e a minha improvável “profissão” de roqueiro (ou Metaleiro, como quiserem) foi posta em causa ou diminuída.

Semanalmente, os jornais, sites e publicações de música nacionais passam um atestado de óbito ao Rock.

Quando ele não morre, desaparece das suas publicações ou leva um carimbo diferente: de nicho de mercado, ler como uma coisa ultrapassada, para gente “fatela” e “burra” que não consegue aceitar nem compreender a ascensão da "Afro Lisboa", ou dos novos poetas eléctricos, ou do novo rock das caves e garagens lisboetas de gente desafinada, feia e sem talento.

Quando a maior banda de Metal do Mundo homenageia o melhor Rocker de sempre de Portugal, só temos de celebrar esse gesto e rendermo-nos à evidência de que o Rock, afinal, é uma família, sentada à mesa, a comer com as mãos, a beber da garrafa e a abanar a cabeça.

Que nojo, pensarão os editores de Lisboa, os cronistas de todo o peido que a Madonna dá (e com quem) e se o vai samplar no seu próximo disco. E enquanto continua esta evidente sobranceria, o nosso Rock vai desbaratando teorias de losers e wannabes das pistas de dança do Lux, com números e emoções indesmentíveis.

Porque o que custa a esta gente da música domesticada, é a nossa capacidade para sermos ingénuos o suficiente para pensarmos que o que os Metallica fizeram foi simplesmente lindo [no dia 1 de Fevereiro de 2018, no Altice Arena].

De chorar a pensar que a banda que ouvíamos entre as quatro paredes do nosso quarto pequeno dos subúrbios com os nossos dez amigos lá dentro, teve um gesto do caraças e mostrou toda a sua humanidade, calando todos quanto só já discutiam a especulação dos preços e a morte de um estilo que encheu, outra vez, a arena de todas as negociações.

O cinismo e o snobismo têm, de facto dominado a imprensa alternativa em Portugal. O pouco espaço nos jornais é usado para realçar coisas que no meu tempo nem se deixariam entrar em estúdio.

As colunas de intelectuais e musicólogos são, na sua maioria, um exercício onanista, desligado de qualquer tentativa de passar conhecimento, sugerir, melhorar a vida musical dos seus leitores.

Em bom Português eles odeiam que as pessoas ouçam música e que sintam emoções através de bandas que vendem milhões e que eles humilham nas suas crónicas pagas.

Porque acotovelarmo-nos num concerto de Metallica não é o mesmo que ir a um festival e encher o pescoço de passes laminados dados pelos sponsors.

Ir a um concerto dos Metallica é ir também ver o que passa, reencontrar amigos, dizer mal da banda, porque não, há muita gente que foi, que já nem ouve Metallica desde o fim dos anos 80.

No entanto, esteve lá, e esse estar lá é algo muito próprio do Rock, e que, ao contrário do que se escreve por aí, é a sua força, a força da presença. Da noção da importância de ter lá estado.

Em Lisboa, quando se fez a homenagem ao Zé Pedro (que bem a merece porque não olhou o Metal de lado e bem nos cruzámos em muitos dos concertos dos californianos), escreveu-se um momento que nunca se esquecerá: História. Ponto final, metal up your ass! Eu não estive lá. Continuo na estrada, hoje na Alemanha, a viver em pleno da coisa morta do Rock.

À distância, tenho vergonha do que se escreve sobre o Rock em Portugal. Apetece-me dizer coisas más, impublicáveis. Mas o Rock é magnânimo e perdoa a ignorância porque é a única música que não tem vergonha de ser o que é e os fãs sabem disso.

E enquanto a Madonna entretem os saloios de Lisboa até se fartar de Lx e se pirar; enquanto o kizomba invade as rádios e se prepara, a preço de ouro, a desforra Eurovision em Lisboa; no mundo real os Metallica encheram o Pavilhão, tocaram Xutos, nós por cá, bem obrigado,

Europa com salas esgotadas, dezenas de bandas de Metal a fazerem o mesmo, por todo o mundo.

O mundo: a nossa casinha.
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Fernando Ribeiro, músico e líder dos Moonspell, no Jornal de Leiria (5.2.2018)

domingo, fevereiro 04, 2018

Melhor mel de cana é dos Engenhos da Calheta

9 de Março de 2014

 Aqui fica uma comparação entre o mel de cana dos Engenhos da Calheta e um outro. O mais escuro (cor de mel), espesso e mais intenso/marcante no sabor é o da Calheta.

O mais claro, mais líquido e mais desvaído no sabor é o outro. Se der com broas ou bolo de mel anémicos na cor e no sabor, saberá que não foram feitos com mel dos Engenhos da Calheta.

Não quer dizer que o outro não seja bom, mas made in Calheta é bem melhor. Que assim continue, pelo critério da máxima qualidade.

[Post originalmente publicado no Facebook em 9 de Março de 2014]

sábado, dezembro 30, 2017

Silêncio

A sustentável leveza do Silêncio (Setembro 2013)

Quanto sentimos necessidade dele, e não o tememos, procuramo-lo e abraçamo-lo.

«Aquilo a que chamamos silêncio só se torna real e efectivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira», refere José Tolentino Mendonça na crónica Quem Quer Ouvir O Silêncio De B Fachada?* E diz mais adiante: «o silêncio não é simplesmente exterior. É preciso ter "silêncio no coração".»

«O silêncio que procuro é o silêncio interior», diz Erling Kagge no livro Silêncio Na Era Do Ruído (Quetzal, 2017). É esse silêncio que é mais «interessante» e que «cada um de nós tem de criar». Tem a ver com estar em paz consigo mesmo. «Quanto mais silencioso ficava, mais ouvia» a natureza, salienta aquele explorador norueguês.

Ele não encara o silêncio como uma «renúncia ou algo espiritual, [mas] como um recurso prático para viver uma vida mais rica», isto é, «como uma maneira mais profunda de sentir a vida do que nos limitarmos a ligar a televisão para ver o noticiário, uma vez mais.» Para ele, o silêncio tem a ver com a «redescoberta, por meio da pausa, das coisas que nos dão alegria

Tal como a redução da velocidade, em que se vive, e o parar dependem de um «abrandamento interno», fazer silêncio é também um processo (de «despojamento») interno. «Tem a ver com tirar, subtrair algo», escreve Erling Kagge. Exige «escutar-se a si próprio, perfurando camadas de distracção e automatismo», e outras formas de ruído.

Mas, como aquele intelectual insular adverte, «esta audição a nós próprios não se faz sem coragem [pode haver medo de estar perante si próprio e conhecer o seu coração, a sua essência, confrontar-se com os seus sentimentos e pensamentos] e sem esvaziamento [libertar-se de hábitos velhos que levam sempre aos mesmos sítios].»

Kagge, por outro lado, nota a importância de um "enchimento": «encher o silêncio com a minha própria pessoa.» Ficar, tranquilamente, consigo próprio, em lugar de «procurar, incessantemente, novos objectivos que atraiam a nossa atenção para fora e longe de nós.» Uma fuga de nós mesmos, na qual se evita até pensar: por ser uma «realidade tão brutal», optamos por «pensar e sentir outra coisa qualquer», nem que seja através de uma dependência. Parar e fazer silêncio são encontros (brutais) connosco.

O silêncio, a interioridade e a lentidão são desvalorizados numa sociedade dominada pelo ruído, pela extroversão, pela velocidade (e sobreocupação). «É mais difícil valorizar o silêncio do que o ruído», defende o autor norueguês. São valores como o silêncio, a lentidão e as capacidades de espanto e de contemplação (sem finalidade), que permitem viver com profundidade e atenção plena ao pormenor, sem cair na habituação do olhar e do sentir, e valorizar/apreciar a muita Beleza, Prazer e Alegria quotidianos, disponíveis e gratuitos, por vezes mínimos e subtis.

Em vez de «permanecer imóvel e desligar-me do mundo durante um instante», refere Kagge, uma pessoa tende a ocupar-se com algo, ainda por cima com tanto apelo à distracção, evitando o silêncio interior («here we are now, entertain us», diz o icónico tema dos Nirvana). O silêncio que permite «sentir, em vez de pensar demais», «cada momento [ser] suficientemente amplo» e «não viver através de outras pessoas ou de outras coisas».

Para Erling Kagge, «falar é precisamente aquilo que o silêncio deve fazer». E «devemos falar com ele, de modo a aproveitarmos o seu potencial.» Citando o poeta Jon Fosse: «talvez seja assim, não só porque o silêncio acompanha a admiração, mas também porque tem uma espécie de majestade, sim, como um oceano, ou uma interminável extensão de neve. E quem não fica admirado com essa majestade, teme-a. E essa é, muito provavelmente, a razão pela qual muitos temem o silêncio (e é por isso que há música em qualquer lugar, por toda a parte).»

De que nos serve o silêncio, a interioridade e a lentidão se não nos permite viver melhor, ser de um modo mais pleno e consciente (encontrar-se) e «fazer uma experiência mais autêntica de si»* (crescer e mudar)? A vida não pode resumir-se a estar ocupado e a ser eficiente.

O articulista madeirense, na crónica O Que É Compreender*, fala da «partilha do silêncio. Como é que percebemos que duas pessoas se acompanham? Pela forma como conversam? Certamente. Mas talvez ainda mais pela forma como acolhem o silêncio uma da outra. Entre conhecidos o silêncio é um embaraço, sentimos imediatamente a necessidade de fazer conversa. Mas quando nos acompanhamos, o silêncio é uma compreensão que une.»

A este respeito, o autor de Silêncio Na Era Do Ruído nota o seguinte: «na minha experiência, a verdadeira intimidade só se atinge quando ficamos em silêncio. Numa relação amorosa, sem a ternura que se segue à paz e à quietude, é difícil sentir as subtilezas e chegar a uma compreensão mútua. A tagarelice e outros ruídos podem tornar-se autênticos mecanismos de defesa para ajudar a evitar a verdade.» E remata: «se o/a nosso/a companheiro/a não nos compreende quando estamos em silêncio, não será ainda mais difícil que nos compreenda quando falamos?»

Virginia Woolf diz o essencial sobre o silêncio, em The Waves: “How much better is silence; the coffee cup, the table. How much better to sit by myself like the solitary sea-bird that opens its wings on the stake. Let me sit here for ever with bare things, this coffee cup, this knife, this fork, things in themselves, myself being myself.”

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A minha alma gémea sou eu próprio

* in Crónicas De José Tolentino Mendonça: Que Coisa São As Nuvens (Expresso Impresa Publishing 2015, pp16-17, 26 e 32).

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Arte da lentidão, por José Tolentino Mendonça

24.12.2017

Talvez precisemos voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. À conta disso, os ritmos de atividade tornam-se impiedosamente inaturais.

Cada projeto que nos propõem é sempre mais absorvente e tem a ambição de sobrepor-se a tudo. Os horários avançam impondo um recuo da esfera privada. E mesmo estando aí é necessário permanecer contactável e disponível a qualquer momento. Passamos a viver num open space sem paredes nem margens, sem dias diferentes dos outros, sem rituais reconfiguradores, num contínuo obsidiante, controlado ao minuto. Damos por nós ofegantes, fazendo por fazer, atropelados por agendas e jornadas sucessivas em que nos fazem sentir que já amanhecemos atrasados.

Deveríamos, contudo, refletir sobre o que perdemos, sobre o que vai ficando para trás, submerso ou em surdina, sobre o que deixamos de saber quando permitimos que a aceleração nos condicione deste modo. Com razão, num magnífico texto intitulado “A lentidão”, Milan Kundera escreve: «Quando as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.» E explica, em seguida, que o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória, enquanto o grau de velocidade é diretamente proporcional à do esquecimento. Quer dizer: até a impressão de domínio das várias frentes, até esta empolgante sensação de omnipotência que a pressa nos dá é fictícia. A pressa condena-nos ao esquecimento.

Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso, veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver.

Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora isso não acontece sem um abrandamento interno. Precisamente porque a pressão de decidir é enorme, necessitamos de uma lentidão que nos proteja das precipitações mecânicas, dos gestos cegamente compulsivos, das palavras repetidas e banais. Precisamente porque nos temos de desdobrar e multiplicar, necessitamos de reaprender o aqui e o agora da presença, de reaprender o inteiro, o intacto, o concentrado, o atento e o uno.

Lembro-me de uma história engraçada que ouvi contar à pintora Lourdes de Castro. Quando em certos dias o telefone tocava repetidamente, e os prazos apertavam e tudo, de repente, pedia uma velocidade maior do que aquela que é sensato dar, ela e o Manuel Zimbro, seu marido, começavam a andar teatralmente em câmara lenta pelo espaço da casa. E divergindo dessa forma com a aceleração, riam-se, ganhavam tempo e distanciamento crítico, buscavam outros modos, voltavam a sentir-se próximos, refaziam-se.

Mesmo se a lentidão perdeu o estatuto nas nossas sociedades modernas e ocidentais, ela continua a ser um antídoto contra a rasura normalizadora. A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.

José Tolentino Mendonça in Expresso, 25.5.2013
e in Crónicas de José Tolentino Mendonça: Que Coisa São As Nuvens (Expresso Impresa Publishing 2015, pp27-28)

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segunda-feira, dezembro 25, 2017

«A arte é única coisa que me mantém totalmente são e estável»

Paulo Furtado, The Legendary Tigerman, fotografado por Tiago Miranda (Expresso Online 24.12.2017)

«[O mais importante na minha vida é] o trabalho e a criatividade. Sou muito romântico e acredito no amor, acho que é uma parte fundamental da vida. Mas, na realidade, a única coisa que me mantém totalmente são e estável mentalmente é a arte, e como tal não posso dizer que seja outra coisa. Nos piores momentos, nos piores dias, o que me traz ao de cima é a minha arte. É fazer uma canção, escrever um poema, fazer uma fotografia... Há uma pulsão qualquer para esse tipo de comunicação com o mundo. Talvez tenha a ver com o puto solitário que ficava em casa a desenhar oito horas por dia em vez de sair para brincar.»

«As fases mais difíceis estão sempre associadas a rupturas emocionais. Quando se desiste de relações, há outras coisas que se perdem. Há que reconstruir tudo outra vez.»

«Tudo o que faço tem por base a crença no amor, na amizade, na arte.»

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«Ainda bem que não me enquadro»
«A revelação do amor é uma revelação de carência»

«Ainda bem que não me enquadro»

Paulo Furtado, The Legendary Tigerman, fotografado por Tiago Miranda (Expresso Online 24.12.2017)

«Antes olhava sempre para esta coisa de ser um inadaptado como uma grande seca. Agora já não sinto necessidade de me enquadrar. Pelo contrário, ainda bem que não me enquadro, ainda bem que consigo fazer as coisas como eu quero.»

«Não era fácil, para mim, relacionar-me com as pessoas, começar uma conversa. Não é por acaso que sou durante 15 anos one-man band. É óbvio que isso me remete para a infância, para o miúdo que brinca sozinho e que consegue estar fechado durante sete horas numa sala de ensaio a mecanizar gestos, a fazer a coisa menos interessante do mundo. [...] Fui percebendo, paralelamente à maluqueira da adolescência, que a forma que tinha de comunicar passava pela escrita, pelo desenho, pela arte... [...] A arte [permitiu] enquadrar-me no mundo».

«Sempre me senti desenquadrado. Creio que houve momentos em que não me enquadrava muito bem em nenhum lugar.»

«Com o tempo, fui aprendendo a esconder a timidez, a ser maluco, extrovertido... [...] Comecei por me relacionar, por ter um grupo de amigos, por sentir que pertencia a um lugar. Nunca pensei nisto antes, mas agora percebo que foi a parte extrovertida da minha personalidade que me permitiu pertencer a algo».

«Sempre fui o miúdo mais tímido e isolado do mundo. De um momento para o outro, saio dessa timidez e passo a ser o miúdo mais popular e mais maluco.»

«[H]á uma parte de mim que tem um certo pavor da dependência».

«[S]e tivesse feito outra coisa qualquer totalmente sozinho, ia mesmo ser um gajo solitário e triste, fechado num ateliê. Precisava de enfrentar a minha solidão e forçar-me a contrariá-la. Senti que a música podia ajudar-me a ser de outra maneira, a não ser uma pessoa tão isolada, tão fechada em si mesma... [...] A música foi a única forma que encontrei de não me tornar o gajo mais solitário do mundo. [...] Apesar desta dor toda, do palco e da tragédia do artista tímido, eu sabia que era aquilo que queria fazer.»

«[O] puto solitário que ficava em casa a desenhar oito horas por dia em vez de sair para brincar.»

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domingo, dezembro 24, 2017

As chinelas do Natal, por António Fontes

2017

1. Aos madeirenses que estão sem casa, sem comida, sem crédito bancário, sem emprego, sem saúde, sem esperança, sem felicidade, sem honra e sem vida – força de vida para viver – eis o meu sapatinho de Natal.

2. Entre o dia 18 de Novembro de 2017 e o dia 24 de Dezembro de 2017 (hoje, véspera do Natal), caíram na conta bancária dos meninos Jesus abaixo identificados, em valores limpos de impostos, dois meses de retribuição e um de subsídio de Natal. Cuidado com as sincopes. O dinheiro público mata.

3. Ao calhas e por amostra. Na conta bancária do Tranquada Gomes (PSD-M), 8,500.00€, Jaime Filipe Ramos (PSD-M) 6, 500.00€, Miguel Sousa (PSD-M), 7,000.00€, Victor Freitas (PS-M), 6.000,00€, Lopes da Fonseca (CDS-M), 6,500.00€, Isabel Torres (CDS-M), 7.000.00€, Roberto Almada (BE), 6,500.00€, Élvio Sousa (JPP) 6,500.00€. Utilidade para a Madeira? Nenhuma. Zero!

4. Na conta bancária da Rubina Berardo (PSD-M), 8.000,00€, Sara Madruga da Costa (PSD-M), 8.000,00€, Paulo Neves (PSD-M), 8.000.00€, Luís Vilhena (PS-M), 8.000,00€, Carlos Pereira (PS-M), 8.000.00€, Paulino Ascensão (BE-M), 8.000,00€. Lisboa é o que está a dar. Utilidade? Nenhuma. Zero!

5. Na conta bancária das deputadas europeias eleitas pela Madeira, Cláudia Monteiro Aguiar (PSD-M), 30.000,00€ e Liliana Rodrigues (PS-M), 30.000,00€. Europa é o que está a dar. Utilidade? Nenhuma. Zero!

6. Conclusão: vale mesmo a pena filiar-se num partido político. É o trilho “religioso” do tacho politico. O sapatinho de Natal e o chinelo da Natal.

7. O Natal da Madeira está hoje enclausurado entre o culto religioso e o culto do dinheiro. É um lugar recôndito e frívolo sediado hipocritamente dentro de cada um de nós. Não é mais a família, os amigos e o nascimento de Jesus. Entre a fé e Deus estão “estercos” da terra.

8. O Natal consumista da Madeira não é quando o homem e a mulher quiserem. O Natal consumista da Madeira – tal como o emprego, a fome, a miséria, a saúde, a esperança, a honra, a felicidade, a vida – compra-se. Tem preço e goza do silêncio impotente da Casa de Nazaré. Calo-me!

9. Quem sou eu para escrever isto? Um menino mimado, rico, privilegiado, nascido numa família abastada de poder e de dinheiro público. Logo, não sou, não quero, nem posso ser ninguém. Estou vitaliciamente enforcado na árvore genealógica da “família”. Calo-me.

Diário 24.12.2017

nota: o articulista não refere, mas estes valores não incluem os suplementos recebidos pelos deputados pelo desempenho de funções extra

«A revelação do amor é uma revelação de carência»



«Precisar é sempre o momento supremo. Assim como a mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. A revelação do amor é uma revelação de carência». «E solidão é não precisar. Não precisar deixa um homem muito só, todo só. Ah, precisar não isola a pessoa». «Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça—que se chama paixão.»

A Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector, 1964, Relógio D' Água 2013, pp120-133

Quem sabe se influenciado pelas modernas teorias do desenvolvimento pessoal, eu convenci-me de que gostar de alguém por carência (diferente de necessidade) seria ilusório e até destrutivo, para uma relação, por o amor confundir-se com o colmatar de uma carência intrínseca, que nada tem a ver com o sentimento pela pessoa amada: esta torna-se, mera e utilitarmente, saciadora da carência do outro. 

Clarice Lispector contraria-me. No seu entender, não precisar, não ser carente, isola e deixa uma pessoa «toda só». Não precisar auto-sustentabiliza e autonomiza o ser humano. O amor cria dependência.

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Prazer de uma liberdade

Nuvens acesas, à beira de casa

Estamos formatados para o convívio como razão da existência humana e o caminho para a felicidade. A recusa desta imposição ou dependência não significa não gostar de estar com as pessoas. Bem pelo contrário, o gosto de estar com os outros é maior quando resulta de ser livre (honesto), e não de uma carência, formalismo, modelo ou obrigação.

Quando o prazer da própria companhia (e encontro com o universo cá de dentro) é muito gratificante (viciante), há o perigo de a solidão se tornar «o caminho»e não ser apenas o «ponto de partida e de chegada» impostos pela condição humana, como referiu Manuel Pita, aka Sejkko (Diário 3.2.2017).

Contudo, interessa diferenciar solidão (sofrimento por ausência de companhia desejada e dificuldade em estar bem consigo próprio) de solitude (a pessoa não procura companhia de forma urgente, embora não a evite, já que se trata de um recolhimento voluntário, em paz consigo própria: boa companhia para si mesma).

Os conceitos de autonomia e auto-sustentabilidade, muito em voga, devem aplicar-se também à vida do ser humano. Ser o mais auto-sustentável possível é ser autor da sua vida, é desenvolver todo o seu potencial, é obter as suas respostas, desenvolver a sua sabedoria, é criar ordem e equilíbrio na sua própria vida.

O prazer dessa liberdade é ilustrada, com palavras, por Virginia Woolf, em The Waves: “How much better is silence; the coffee cup, the table. How much better to sit by myself like the solitary sea-bird that opens its wings on the stake. Let me sit here for ever with bare things, this coffee cup, this knife, this fork, things in themselves, myself being myself.”

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«Sozinho um homem ganha espessura»
Solidão radical é inerente à natureza humana
A minha alma gémea sou eu próprio

Desligar do facebook

Silencioso entardecer de hoje, à porta de casa

Há alguns anos libertei-me da televisão, agora liberto-me de outro ruído alienante, usurpador de tempo e atenção, inimigo do silêncio, que veio ampliar a superficialidade (a espuma dos dias—“casos do dia”) neste mundo. Seja na actualidade informativa, seja na rede social, as questões realmente importantes são, deliberadamente, evitadas.

A maioria das pessoas limita-se, domesticada, a seguir modelos, padrões, escolhas e comportamentos que lhes são impingidos, desde o berço ao caixão. A liberdade afirma-se em actos. Opto pela realidade, que é nutritiva e vale a pena, e resisto a ser amestrado pela tecnologia. Opto por não estar sempre disponível, nem atarefado ou a esbanjar tempo, e viro costas ao alvoroço da tal espuma dos dias. Opto por mais espaço.

É preciso subtrair, retirar o excesso, ir ao osso. Não fugir de si próprio, não viver através de outras pessoas ou outras coisas.

Citando Emily Dickinson, «THE BRAIN is wider than the sky». Portanto, o Cérebro é, incomensuravelmente, mais vasto do que o facebook…

É preciso «parar, para que, de repente, um tempo lento [e amplo], e ao ritmo de si próprio, se desenvolva», como referiu o filósofo José Gil. Quero ainda mais tempo para o que realmente importa e é essencial ao meu bem-estar, crescimento e viver pleno. A «velocidade com que vivemos impede-nos de viver», refere José Tolentino Mendonça, sendo preciso um «abrandamento interno».

Prefiro cultivar a capacidade de espanto a olhar as nuvens :-). «Como são belas… como são belas… como são belas…», afirma Otelo, no filme “Que Coisa São as Nuvens” de Pasolini. Iago responde: «Ah, arrepiante maravilhosa beleza do criado!»

[a quem eu importo e quem importa, encontra-me: neliodesousa@gmail.com / http://olhodefogo.blogspot.pt]

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A arte da lentidão, por José Tolentino Mendonça
Silêncio

Liberdade

Vistas de casa

L i b e r d a d e. Quem está, verdadeiramente, disposto a pagar o preço—solidão, por vezes—para a abraçar e usufruir desse valor supremo?

«Toda a gente diz que quer liberdade. É mentira. A liberdade traz muita confusão à cabeça. Melhores são as rotinas que nos livram da maçada de ter que tomar decisões sobre o que fazer com a liberdade. Quem tem rotinas não precisa de tomar decisões. A vida já está decidida. O cavaleiro nem precisa de puxar a rédea: o cavalo sabe o caminho a seguir»
—Rubem Alves—1933-2014—Se eu pudesse viver a minha vida novamente..., Edições ASA, 2005.

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A minha alma gémea sou eu próprio

A minha alma gémea sou eu próprio

Francelho à porta de casa

A l m a  G é m e a. Tanta gente à procura dela, sem perceber que cada pessoa é (ou deveria ser) a sua melhor companhia. Num mundo sob a ditadura da extroversão, do ruído, da carência e da dependência, somos empurrados para procurar (consumir) fora o que já se tem cá dentro.

A minha alma gémea sou eu mesmo. Conheço-me e sinto-me como não é possível a outrem me sentir e conhecer. Sou autor e actor privilegiado no palco de mim próprio. Aí reside a Fonte, a Harmonia, o Silêncio.