«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE
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quinta-feira, janeiro 05, 2017

Nova ignorância

image: pixabay.com

«Mesmo que tenhamos, como agora se diz, as gerações mais qualificadas, estamos cegos quanto ao crescimento da nova ignorância, não só em aliança e em tandem com a antiga, mas assumindo novas formas e efeitos. O facto de haver um modismo tecnológico e se confundir a utilização de gadgets, aliás bastante rudimentar, com um novo saber, que implica novas competências, esconde essa regra básica de que as literacias para os usar vêm do sistema escolar a montante e a possibilidade de os usar para uma melhoria social só existe a jusante se acompanhar uma evolução social que não se está a verificar. Mais do que uma evolução, há uma involução. A antiga ignorância assentava numa carência, numa falta [baixa qualificação profissional e insuficiente escolaridade], a nova assenta numa ilusão.»

«É por isso que a antiga ignorância era vista como um problema da sociedade e a nova é vista como um “progresso”, ou como uma tendência contra a qual é inútil lutar. Isso tem muito que ver com uma ideologia corrente face às novas tecnologias, em particular aquelas que têm imediatos efeitos sociais como os telemóveis, as redes sociais, e certos modos de usar os videojogos, a realidade virtual e mesmo o computador e a televisão.»

— José Pacheco Pereira, Público (31.12.2016)

quarta-feira, setembro 14, 2016

Quando a conversa desvia da acção

Acções falam mais alto do que as palavras

Somos um país de muito falar (palestras, reuniões, conferências, encontros, seminários, relatórios, comissões, debates, repetidos diagnósticos, etc.) e pouco fazer e solucionar.

Para além da cultura de pântano e bloqueio sistemático, o «falatório» (e há quem se delicie a ouvir-se a si próprio nos diferentes palcos) pode mesmo inibir e desviar as pessoas do fazer e da acção.

«Companies often confuse talking with doing. They think that talking about doing something is the same thing as doing it! That planning is the same as doing. That giving presentations is the same as doing. That making reports is the same as doing. Or even that making a decision to do something is the same as doing it. All of those errors occur with alarming regularity in companies today. Mistaking talk for action is worse than just a simple error: Talk can actually drive out action.» (fonte)

photo origin/copyright

domingo, setembro 14, 2014

Bater de frente com a realidade



«É verdade que sempre custou deixar o divertimento e a ausência de horários rígidos do Verão, para começar a levantar cedo e a preparar testes, mas agora a situação está diferente. Educados com pouca exigência por pais indulgentes, os jovens de hoje privilegiam cada vez mais a cultura do descanso e do lazer. Centrados na Internet» e na «imagem». Escreveu Daniel Sampaio (Público 14 de Setembro de 2014).

Refere ainda que a «indisciplina na sala de aula é um signo desta geração de estudantes» porque também a «vivência escolar [local de esforço e trabalho] é, para os mais novos, totalmente oposta ao seu quotidiano». Verdade.

O «mundo mudou», mas sempre mudou e sempre mudará, havendo referenciais éticos, relacionais e sociais que são de qualquer tempo do mundo civilizado (!) e não podem ser negociados, em risco de voltarmos à vida selvagem.

Os adultos (desde pais a governos - estes em função do popular e do voto) demitiram-se, parcial ou totalmente, de constituir tais referenciais civilizacionais para os mais novos, sobretudo no chamado mundo ocidental.

O mundo mudou, pois, mas por acaso o mundo do trabalho está a mudar para ganhar mais e fazer menos? Bem pelo contrário: então pense-se bem para que mundo («descanso e lazer»...) se está a preparar os mais novos... Um dia batem de frente com a realidade. Por mais que se fuja da realidade, ela um dia vem ter connosco porque é incontornável.

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A propósito:
Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada
«Fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua»

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

«Cultivada e filosofada bandalheira educativa»

photo origin

A «degradação de um ensino sem culto do trabalho, da disciplina democrática, da exigência no saber e da formação pessoal» foi tema de um texto publicado por parte do presidente do Governo Regional, em artigo de três de Fevereiro de 2014, numa altura em que a «permissividade e relativismo triunfantes» (JM 17.2.2014) também minam e ameaçam a (qualidade da) Educação.

E na Madeira? Será diferente ou mais do mesmo face à denominada «bandalheira educativa do rectângulo»?

A disciplina não se restringe aos aspectos comportamentais e cívicos no respeito pelos outros. A falta de disciplina estende-se ao à falta aguda de cultura de trabalho, métodos de trabalho, estudo, que é a base que permite ser melhor e obter melhores desempenhos e resultados, seja em que área for.

Tanto a aprendizagem como o civismo não podem ser apenas fenómenos espontâneos - é preciso base de trabalho, esforço e mesmo sacrifício. O laxismo, o desleixo, a desorganização, a desestruturação, o pensamento errático, o fazer em cima do joelho, sem ângulo e objectivos, entre outros aspectos, conduz à mediania e mediocridade. Por isso, também, está o País como está, falido, num beco sem saída e sem esperança.

Como disse Marco Gomes (Diário de 30.10.2008), director da Escola da APEL, escola privada madeirense, que durante cinco anos foi director pedagógico do Colégio Manuel Bernardes em Lisboa, «não tenho dúvidas de que os alunos madeirenses são diferentes dos de Lisboa», onde a «competição, o esforço e o tempo dedicado aos estudos era muito maior». Acrescenta que não é fácil motivar quem chega desinteressado, «quem não está disposto ao sacrifício e a estudar».

Muito se progrediu face ao enorme atraso que a Educação conhecia na Região nos anos 70, ninguém pode negar esse salto e aposta governativa, mas foi pena perder-se alguma da cultura de trabalho e esforço das gerações anteriores, que lutaram, tenazmente, para sobreviver neste arquipélago.

Serão sinais dos tempos, da decadência da civilização ocidental, em que as gerações que cresceram nos tempos de vacas gordas (bem-estar material) deixaram, talvez, de valorizar o esforço e o trabalho na conquista de melhores condições de vida e fuga à miséria. Ainda por cima num País em que funciona mais a carteira de contactos e a cunha do que a competência, o esforço, o trabalho e o desempenho das pessoas. É um ambiente social, reconheça-se, desfavorável à cultura de trabalho e à competência, já que não premeia o melhores e mais capazes, pelo contrário, antes os sobrecarrega e maltrata.

É triste ver que a democracia que chegou ao País com o 25 de Abril de 1974 não tenha mudado este rumo e tenha antes aumentado o laxismo e a falta de cultura de trabalho.

Há que travar, pois, estruturalmente, a degradação da cultura de trabalho, esforço e método, além da degradação ao nível comportamental e cívico nas escolas. Nomeadamente, à semelhança do que se preconizou para o desporto, como refere o mesmo artigo citado: «A vida é competição com legítimo desejo de vencer, mas com regras, exigente nos esforços, com respeito pelos outros e pressupondo trabalho colectivo interdependente.»

Numa «estratégia que foi preciso desenvolver para que a cultivada e filosofada bandalheira educativa do rectângulo não se estendesse à Madeira, considerou-se o Desporto como factor educativo essencial». Acrescentaria que tirar «jovens sem ocupação de tempos livres, esfregando os rabos pelas esquinas da baixa citadina, fumando “passa” e cultivando angústias existenciais (tão “progressista”!...)», poderia ter passado por outras culturas, que não só a desportiva.

Recorde-se:
Menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira
Insucesso escolar vem de longe 3
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 1
Laxismo e facilitismo significam exclusão social
Leste arrasa postura desculpabilizante
Resistir à pressão das massas para normalizar a bandalheira nas escolas

domingo, janeiro 26, 2014

Para satisfazer instintos primitivos de crueldade e humilhação

É tudo dito em poucas palavras (revista Sábado, 2014)

Afinal passei pela Universidade enganado... Pensava, e continuo a pensar, que espírito académico significava estudo, amor pelo conhecimento, desenvolvimento pessoal, vias para a verdadeira abertura da mente, o esclarecimento (inconformismo e rebeldia por via da inteligência e do saber), afirmação e emancipação...

Por isso não tinha espírito académico...

Não gostava de tunas, nem de bebedeira ou rituais de crueldade e humilhação, para satisfazer certos instintos primitivos / irracionais da natureza humana. Isto é ser "um chato". Se não se aceita a ordem vigente... Se não aceita uma "brincadeira"...

O trabalho académico é a melhor forma para o caloiro conhecer o valor da humildade, a dureza da vida, desinsuflar o ego e até descontrair, porque se dá conta que "nada sabe" perante a vastidão do Saber.

Mas, a prática da "praxe" (conformar por via do medo, pressão, desdém, etc), sobre quem chega de novo, não acontece só na Universidade ou nos meios militares...

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A propósito:
Praxe, polémica e violência, uma história com séculos
"A abjecção das praxes: a praxe mata, às vezes o corpo, mas sempre a cabeça" (José Pacheco Pereira) ler mais adiante
"Praxes: igual à máfia?" (Vasco Pulido Valente) ler mais adiante
Um país que perdeu referências tem as praxes que merece (José Manuel Fernandes) ler mais adiante
«Ameaças, coação, perseguição, violência, arbitrariedade, sexismo, machismo: é isso a praxe.»
Testemunhos oculares, poderão colocar verdadeira luz sobre o que se passou com os estudantes/vítimas do Meco («a rastejar com pedras nos tornozelos»)

sábado, outubro 12, 2013

Regastar a criança da «tirania dos seus próprios desejos» fazendo-a exercer o auto-controlo


Javier Urra tocou na ferida com O Pequeno Ditador
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«[O]s pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.» (...) [F]az todo o sentido (...) que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.» (Ler mais: Por que as crianças francesas não têm déficit de atenção)

E no estilo da família portuguesa?... Quem se atreve a contrariar a ortodoxia da criança-rei, em que se deixa o menino ou menina fazer tudo o que é ditado pelas suas pulsões narcisistas?... Algumas pistas aqui: Crianças-Rei (petits dictateurs) e a Gaiola Dourada.

Ainda propósito:
O pequeno ditador é alguém que aprendeu que pode impor a sua vontade

O importante é a «formação do professor ou se este é competente», mas, erradamente, o «que os pais querem saber é se a criança gosta do docente e vice-versa» (o que é um tiro ao lado em termos do enfoque do trabalho académico, isto é, do processo de aprendizagem. Até a questão da vivência afectiva se transfere para a escola...)

domingo, outubro 06, 2013

Estatuto social dos professores em Portugal entre os mais baixos do mundo

foto: Paulo Pimenta (Público 3.10.2013)
Estudo pioneiro avalia atitude das sociedades de 21 países em relação aos seus docentes e sistema educativo. Portugueses estão no último terço da tabela. Portugal é um dos países em que o estatuto social dos professores é mais baixo, situando-se no último terço do ranking agora divulgado. Confirma a percepção existente e que subsiste ainda, em parte, apesar da evolução nas últimas quatro décadas, a endémica desvalorização do conhecimento, da cultural escolar e da ciência pela sociedade portuguesa.

Replicamos a notícia do Público para memória futura:

«Os portugueses têm uma confiança moderada no seu sistema de ensino e a maioria não quer que os seus filhos sejam professores. Estas são duas das conclusões do primeiro estudo internacional que compara as atitudes em relação aos docentes em todo o mundo. Portugal é um dos países em que o estatuto social dos professores é mais baixo, situando-se no último terço do ranking divulgado nesta quarta-feira.

domingo, setembro 29, 2013

Perda de mais de mil anos por ano


«"[T]eremos que contar todos os – próximos – anos com menos 1.300 a 1.600 crianças/alunos nas nossas escolas. E com todas as consequências a curto, médio e longo prazo que daí advêm"», diz o Governo Regional. Refere ainda «ser para muitos “inatingível” que, mediante a situação actual, se tomem decisões de aumentar as horas de trabalho diárias, da idade da reforma e, simultaneamente, se reduzam férias e feriados. “A emigração acaba por ser a única solução para a juventude”», com impacto sobre o número de nascimentos na Região.
Diário 29.9.2013 - www.dnoticias.pt

domingo, agosto 04, 2013

«Povo que se adapta, que se conforma» e (ainda) despreza a cultura

Ruben Alves, luso-francês realizador da comédia Gaiola Dourada, um olhar sobre os portugueses. Diz a rir coisas lixadas.
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Ainda a respeito de declarações de Ruben Alves na Visão #1063 (18 a 24 de julho), o jovem realizador luso-francês responsável pelo filme Gaiola Dourada, gostaria de destacar o seguinte sobre o seu olhar sobre o comportamento de nós portugueses, como colectivo, com os seus aspetos positivos e outros menos:

«É um povo que se adapta, que se conforma. Nos cafés, sim, estão sempre a mandar vir. Mas são das poucas comunidades que nunca reivindicam nas ruas, por exemplo...»

E mais adiante diz: «O povo português tem a autenticidade de ver a vida passar. É muito acomodado, encara a vida como uma fatalidade, dizem "é a vida...", "é assim..." Mas, por outro lado, é um povo que tem uma forma delicada e carinhosa de viver. É muito tocante sentir isso. Basta-lhes o sol, o café, a comida sobre a mesa... São muito neutros».

Ser conformado, aceitar e adaptar-se à realidade, que não está no nosso controlo e que não se pode mudar, é uma vantagem, não negamos, em termos de paz e serenidade interiores. Bastar-nos o essencial (o sol, o café, a comida sobre a mesa) também tem as suas vantagens (contentar-se com pouco e apreciar as coisas mais simples, em tempo de crise e quando não se tem muitos recursos, contribui para a paz interior e a paz social). Embora a contemplação seja algo importante e positivo, ver a vida a passar, ser acomodado e não intervir... isso é outra coisa. Por isso somos pobres, dirão alguns. Não somos protagonistas da História. Não somos criadores.

E isto tem a ver com o passado histórico e com a cultura/conhecimento do colectivo português. Como referiu António Nóvoa, numa conferência em 6 de julho, no Funchal, a cultura escolar em Portugal foi “marginalizada” pelo menos até aos anos 60 do século XX, “desprezada não só pelo povo mas sobretudo no interior das elites.” Em simultâneo, “nunca tivemos uma cultura científica”, uma cultura essencialmente de criação de coisas novas. Isto pode ajudar a explicar o nosso conformismo e o ver a vida a passar.

A inteligência e a cultura como grande capital dos povos é um tema “ausente” da sociedade portuguesa durante muitos séculos, como observou Nóvoa. Um povo que esteve “fora da cultura escolar”, isto é, da cultura do conhecimento. Ao ponto de, até muito tarde, se “elogiar o não saber”, a “não escola”, e ver os analfabetos como “simpáticos, simples, humildes sem as ambições da cultura e da escola. A conexão com a cultura escolar e o conhecimento só aconteceu recentemente”. Avançou o dado que há um século havia 80% de analfabetos em Portugal (quatro em cada cinco eram analfabetos, enquanto na maioria dos países europeus o analfabetismo era residual ou inexistente).

Há uma cena da Gaiola Dourada em que o filho diz ao pai, num bar, que vai para casa estudar e o pai responde isto: "Já disse que não foste feito para os estudos". Mais do que isso, o progenitor invoca o exemplo do Pauleta e diz que o "futebol é o futuro"...

É ilustrativo, por um lado, da desvalorização e desprezo endémicos da cultura, do estudo, do conhecimento, da atividade intelectual, e, por outro lado, da valorização de meios, como o futebol, para fazer fortuna rápida e facilmente. Uma cultura do superficial, do show off, do aparecer e ser visto. Felizmente, nas últimas décadas muito disto se inverteu, mas ainda persiste. Leva várias gerações.

(E depois dá estas notícias que espelham a dura realidade, que se verifica também no País, e que dispensa mais comentários: «Os alunos portugueses na Suiça obtêm os resultados escolares mais baixos entre as comunidades estrangeiras» [Revista Mais - Diário de Notícias da Madeira 04.11.2007]; «Portugueses no Luxemburgo são os campeões do abandono escolar» (título no Público de 04.01.2010); «A comunidade portuguesa no Canadá é uma das comunidades étnicas com maiores taxas de abandono e subescolarização» [Diário de Notícias da Madeira 23.8.2007]; «Entre as minorias étnicas, as crianças de origem portuguesa são aquelas que têm os piores resultados escolares» [na Inglaterra, área de Londres - Diário de Notícias da Madeira 2.2.2005].)

E não se pense que é um problema com raiz no povo sem cultura. O conferencista já citado, António Nóvoa, deu conta também que o parlamento português, no século XIX e XX, está “repleto” de discursos “muito bem elaborados” de que a “ciência não faz falta nenhuma a Portugal”. O argumentário principal desses discursos é a especificidade do homem português. Somos “diferentes do resto do mundo”, referiu, somos mais “inventivos”, “adaptáveis, maleáveis, com plasticidade”, fomos “feitos para intermediários, não fomos feitos nem para estudar nem para criar.”

É como se estas aptidões ou predisposições fossem algo dos povos do Norte, com clima mais agreste e que se dedicam a estudar e a fazer ciência. A nossa vocação é estarmos “atentos ao que se faz lá fora e quando estiver feito a gente importa e utiliza e adapta.”

Caricatural? Foi escrito milhares de vezes por responsáveis pelo rumo do País, inclusive por alguns dos nossos “melhores filósofos”, que “elaboraram e saturaram ad nauseam” este tipo de “construção filosófica e sociológica sobre a ideia do homem português.”

Nóvoa cita António Sérgio num prefácio ao livro “O mundo que o português criou” do sociólogo Gilberto Freire, que a única coisa que não percebeu na obra é que se o povo português é assim tão adaptável e plástico, “porque é que nunca nos adaptámos à Europa”, isto é, a uma “cultura escolar e científica?” Um continente que se desenvolveu pela “razão, pela inteligência, pela capacidade de criar”.

“Creio que, se não percebermos que temos de romper com esta maneira de pensar, a nossa identidade e a nossa cultura, dificilmente conseguiremos avançar muito para o futuro”, colocou deste modo o referido orador, apontando o rumo: “afirmar a ideia de criação e de ciência” como ideias centrais para os nossos tempos. Precisamos de um “maior repertório” de coisas para pensar, que nos possibilite sermos “mais criadores” e ir “além de determinadas possibilidades”. Isto porque o “poder criador não está suficientemente afirmado na sociedade portuguesa”.

Daí a necessidade de “construirmos um País que tenha o conhecimento como ponto central da sua atividade” e que essa “não foi a nossa identidade histórica”, que se construiu “contra o conhecimento.” Com a ideia que o conhecimento “se produzia algures e que nós éramos apenas uma espécie de intermediários”, isto é, “não éramos os criadores do conhecimento e da cultura.”

Não fomos feitos para criar? Ruben Alves foi: «na minha vida a prioridade é criar, seja no teatro, no cinema, na televisão, na fotografia. Criar emoções e fazer coisas» (mais aqui, em www.7nema.net). Aí está um luso-francês que fez o corte com aspetos menos positivos da (in)cultura portuguesa, que vem desde há séculos. A rutura com esse destino através da cultura, do conhecimento e do poder criador, fazendo uma revolução intelectual, é importante.

O filme de Ruben Alves é fluído, deixa-nos bem dispostos mas, atenção, faz a análise socio-cultural e passa a mensagem. Diz a rir coisas lixadas. Mas com classe e finesse. Consegue apreender o essencial, com um olhar crítico mas terno e afectivo sobre os portugueses. Tem a vantagem de ser um olhar de fora, por ser luso-francês. Très bien. Bravo!

Ainda:
Crianças-Rei e a Gaiola Dourada

sábado, agosto 03, 2013

Crianças-Rei (petits dictateurs) e a Gaiola Dourada

L'éducation de la petite enfance et des jeunes au Portugal est aussi une grande comédie ... oui oui...

Ruben Alves, o jovem realizador luso-francês, estreou-se com um sucesso: a Gaiola Dourada. Bateu recordes de bilheteira em França com as histórias da comunidade portuguesa emigrante. Estreou em Portugal em 1 de agosto.

Não é o filme em si que é a razão deste texto (depois de ver o filme, quem sabe), mas afirmações do realizador sobre a educação das crianças, na Visão #1063, de 18 a 24 de julho, que prenderam o meu olhar:

«Em Portugal, ao contrário de França, dá-se muita atenção às crianças. Os portugueses gostam muito de crianças.» Constata ainda que «em França, [os adultos] são mais desligados e frios», ao contrário dos «adultos portugueses», que «são tão acolhedores», que concedem a «sensação de liberdade» aos mais novos. Ruben Alves tem subjacente a ideia de que, em Portugal, se estragam as crianças. O que disse logo a seguir às frases citadas só o confirma:

«Em Portugal, o miúdo é rei. Deixam-no fazer tudo...»

A atenção, o acolhimento, a liberdade e o gostar das crianças é positivo nos portugueses, desde que com conta e medida. Pelo que eu vejo em locais públicos e nas escolas, parece que transformar a criança em «rei» e deixá-la «fazer tudo» não é bom, para ninguém. O adulto limita-se a ser um fornecedor ou intermediário das pulsões e desejos da criança, que se julga o centro do mundo pela atenção desmesurada que recebe. O adulto apaga-se para bem servir o seu «rei» (petit dictateur). O adulto dá à criança-rei só o que ela quer e gosta.

Continue a ler para saber qual o resultado desta «realeza» infantil, observado por Eduardo Lourenço, talvez o maior pensador português vivo, ele que faz uma abordagem crítica da realidade, que lhe permite analisar as «motivações menos evidentes no comportamento dos portugueses como povo».

Quando li a referida frase de Ruben Alves, que destaquei em cima, lembrei-me de imediato da «criança-rei» de Eduardo Lourenço, que o registou no livro O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português, de 1978:

«É pena que Freud não nos tenha conhecido: teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade.

Talvez não ficasse admirado se conhecesse, mesmo pela rama, umas das menos repressivas educações infantis que existem e tanto entusiasmaram Sartre quando observou a análoga, a vizinha Espanha. Adulação permanente e espectacular da criança-rei (sobretudo o macho), porta aberta para a suas pulsões narcisistas e exibicionistas, ausência de perspectiva social positiva salvo a que prolonga a afirmação egoísta de si, tais são os mais comuns reflexos da educação portuguesa, defesa natural de mães frustradas nela pelo genérico absentismo e irresponsabilidade paternos.

A contrapartida desta “realeza” que converte cada adolescente (macho) na famosa espécie dos «matões» cara ao nosso Épico, traduz-se numa indefinição do espaço humano que nada limita e define senão a vontade oposta, e dá origem a uma sociedade que, sem paradoxo algum, suscista e impõe uma “violência estatal” que, exteriormente, equilibra essa fictícia realeza individual.

Nada há na educação portuguesa – sobretudo hoje que a também «exterior» mas efectiva pressão ética de ordem religiosa naufragou – que contribua para a existência de um comportamento tanto quanto possível autodeterminado.»

O que dirá este grande pensador da educação das crianças nas últimas três décadas, que acentuou a «realeza individual» em que só conta o EU (centro do mundo) e mais ninguém?...

Quem se atreve a contrarir a ortodoxia da criança-rei? Quem se atreve a ficar conotado com o autoritarismo ao denunciar as consequências de uma educação permissiva, desculpabilizante e complacente, com a criança como rei?

Sabemos, por exemplo, o que é ter uma «criança-rei» dentro de si ao volante de um carro...Ou um punhado de crianças-rei dentro de um sala de aula... Demasiados pais sabem o que é ter uma criança-rei em casa... Aliás, a casa e a família, que é o primeiro e mais importante espaço de socialização, determinam muita coisa na educação das crianças.

Mas, depois quando crescem, as crianças-rei dão-se conta que o mundo real não funciona assim... que a sua «fictícia realeza individual» é mesmo fictícia (ilusão vendida por adultos) e que tem de se habituar a outro registo alternativo ao «mando em tudo e todos» a que estava (muito mal) habituada.

Mais reflexão sobre o assunto:
Elementos sobre o estado da escola pública: educação infantil (2007)
O pequeno ditador é alguém que aprendeu que pode impor a sua vontade (entrevista de 2007 a Javier Urra, autor de "O Pequeno Ditador")
Por que as crianças francesas não têm déficit de atenção («pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”)
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sexta-feira, julho 26, 2013

«Pulsão exibicionista» na origem da tragédia?


Tudo indica que o terrível acidente rodoviário em Espanha se tenha ficado a dever a excesso de velocidade, cujo controlo é tarefa do maquinista.

Um dirigente sindical veio referir (desculpar? ser complacente? pôr paninhos quentes? relativizar?) que o maquinista em causa é sensato ("não era dos que corria" - eu fico é ainda mais preocupado com os que ele considera aceleras - os que correm - ao comando dos comboios em Espanha...) e que deve haver algo além do erro humano.

Se se provar que fazia uma curva a 190 quando o deveria fazer a 80, estamos conversados...

Fala-se num sistema automático de controlo de velocidade que não existia naquele ponto da linha e poderia ter evitado o acidente, isto é, poderia ter controlado o maquinista. Contudo, paga-se um maquinista (e parece que bem) por alguma razão. Se é para ser tudo automático, mais vale colocar uma máquina em lugar do maquinista.

Se se provar que era um maquinista (imprudente) acelera (e não vamos dizer que acelerou deliberadamente para o acidente), estaremos perante a falta de civismo como responsável pela morte, de uma só vez, de dezenas de pessoas e ferimentos graves para a vida de mais de uma centena.

De uma só vez, porque todos os dias são muitos mais que morrem em acidentes de automóvel, muitos provocados por aceleras e a falta de civismo.

E daqui se chega à educação dos mais novos em países como Espanha e Portugal, cuja «adulação permanente e espectacular da criança-rei (sobretudo o macho)» é uma «porta aberta para a suas pulsões narcisistas e exibicionistas, ausência de perspectiva social positiva salvo a que prolonga a afirmação egoísta de si.» Cito Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português, de 1978. O que dirá este grande pensador da educação das crianças nas últimas duas décadas, que acentuou a «realeza individual» em que só conta o EU e mais ninguém?...

Logo confirmaremos se na origem remota da tragédia do possível erro humano na tragédia ferroviária em Santiago de Compostela, estiveram «pulsões exibicionistas», como uma dada imagem e comentários no Facebook do maquinista deixa antever... Aguardemos. 

Mais: 

-  Maquinista ia ao telefone segundos antes do acidente
-  A hora de louco (opinião no Diário de 30 de julho de 2013 - reflexão a propósito em baixo)
-  Maquinista não compreende por que não travou a tempo ("Sinceramente, digo-lhe que não sei, não sou suficientemente louco para não travar"; o magistrado observa que, quatro quilómetros antes do impacto, o comboio circulava a uma velocidade muito superior à indicada, ao que o maquinista responde que "quatro quilómetros a 200 quilómetros/hora passam muito depressa" e acrescenta que ao entrar nos túneis não se apercebeu de que estava naquele troço e não reduziu a velocidade.)
- Maquinista filmado a dormir na Argentina (é mesmo de ficar preocupado com tais imprudências e irresponsabilidades...)

domingo, janeiro 13, 2013

Movimento versus pensamento

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As pessoas querem MOVIMENTO, dinâmica, ruído, socialização e distração. Por isso é tão difícil pensar porque o PENSAMENTO exige parar, concentrar-se, dedicar muita atenção e tempo, muitas vezes em silêncio e até solidão.

domingo, setembro 23, 2012

escritos sobre educação de Sérgio Niza


"Escritos sobre educação" é um repositório fundamental do pensamento e ação pedagógicos (de uma vida) de Sérgio Niza, em 720 páginas. António Nóvoa participou na organização do livro.

A vida de Sérgio Niza é «inseparável do mais importante movimento pedagógico português, o Movimento da Escola Moderna (MEM), que ajudou a criar em 1966 e do qual tem sido a principal referência.»

Depois da oficina de formação do MEM, embora não aplicando o modelo pedagógico puro, nunca mais ensinei do mesmo modo: continuo a aplicar uma série de métodos e ferramentas adaptadas ao contexto do 3º Ciclo do Ensino Básico.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Quando a Educação como prioridade?

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«Aqui chegados, percebe-se também que as outras verbas desviadas para as obras dispensáveis - para aproveitar os fundos com que se ganha eleições e se alimenta os lobbies que gravitam à volta do poder - também podiam e deviam ser aplicadas noutras prioridades, mormente a saúde e a educação. Mas não foi assim.» (Gostamos de nos enganar, Agostinho Silva: Diário 12.2.2012)

Num momento em que a malta (lobby) do Desporto endurece o discurso (sem falar nesse sinal que é a atual troca de palavras contundentes entre Carlos Pereira e Luís Filipe Malheiro), recorde-se que o secretário regional da Educação e Recursos Humanos referiu, em Dezembro de 2011, em entrevista na RTP Madeira, que a Região "não perde em apoiar o futebol profissional". Esperamos que não seja à custa de setores como a Educação.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Aposta na Educação? É preciso ter lata...

cartoon: Anterozóide

É preciso ter uma grande lata, o Primeiro Ministro dizer que a «educação é o grande projecto para Portugal», que «esta época vai ficar marcada pela aposta na educação» ou que a «educação é o «investimento mais importante na afirmação de um país»... Lemos no Público (29.1.2011).

Quando se sabe que o Governo se prepara para mandar para o desemprego 30 a 40.000 docentes e faz os cortes que se conhecem no sector, colocando dificuldades ao funcionamento das escolas e pondo em causa a qualidade do ensino.

Haja vergonha com este tipo de marketing no discurso político.

Pior do que isto é não perspectivarmos alternativa, em termos político-partidários, a este estado de coisas. Não se vislumbra nem partido político nem líder que reestruture este País. Ou é preciso virem outros (FMI) fazê-lo?

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Todos sabemos do problema, mas quem decide prefere deixar andar e esconder

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«A indisciplina na sala de aula transformou-se num sério problema que, em muitas escolas do país, parece tender a agravar-se», escreve hoje o Público. Problema que «dificulta o trabalho de elevado número de professores, que os afecta psicologicamente e, em muitos casos, os leva a meter baixa médica.»

Em Março deste ano, em Valência, o filósofo Fernando Savatar alertou para a «situação de professores “psicologicamente esgotados” que se tranformam “em autênticas vítimas nas mãos dos alunos”. E salienta: “A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara”, diz não se referindo apenas ao aspecto económico do problema mas a todas as consequências que podem resultar da indisciplina. Savater recomenda aos pais a necessidade de transmitirem aos seus filhos a ideia de que receber uma educação é “uma oportunidade e um privilégio”.»

Além disso, na escola, é a instituição que tem de disciplinar os alunos e não estar sempre a pedir aos pais para o fazerem. O incidente na escola tem de merecer actuação imediata. O estudante falhou, pagou. Mas também é verdade que  a escola prefere, muitas vezes, refugiar-se na burocracia para não agir e ser condescendente com a indisciplina (empurrando para os professores desautorizados e para pais permissivos a resolução) e as conseguências para a aprendizagem e rendimento académico dos estudantes.

A propósito:
Indisciplina escolar parte da degradação profissional
Medidas propostas pela FENPROF
Medidas de combate à indisciplina e violência escolares: será a sério?
62: violência camuflada XIV
59: violência camuflada XI
56: violência camuflada VIII
15: violência (des)camuflada IV
13: violência camuflada III
12: violência camuflada II
7: violência camuflada I
38: Bandalheira instalada na pública favorece a privada
30: Onde falhamos nós no público
29: Regras e responsabilização das crianças
27: Responsabilização
23: Leste arrasa postura desculpabilizante
CDS-PP defende restauração da autoridade do professor

Outros:
10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação
Brincamos mesmo
País de brincalhões
Fomentos da indisciplina [quando o exemplo nem vem de cima]

quarta-feira, novembro 10, 2010

O império da estatística versus a valência educativa da Escola

Litografia "Pela República" de Alfredo Roque Gameiro
 “Todo o republicano genuíno se empenhava em levar a escola aos mais recônditos lugares do país, abrindo assim os olhos das crianças para as luzes do progresso e para o derrube dos fantasmas ancestrais que lhe embargavam o passo. (...) O império das estatísticas e o esvaziamento dos territórios do interior, têm vindo a enfraquecera valência educativa em favor da mera aprendizagem. Para poupar meia dúzia de patacos no orçamento de estado, exactamente no sector em que ele deveria ser mais pródigo, a tendência começa a ser a de massificar e diluir as individualidades infantis em grandes agrupamentos indiferenciados, tudo em nome de supostas recomendações internacionais e conceitos pedagógicos de pacotilha, tão ao invés de Pestalozzie Maria Montessori, esquecidos a um ponto que até confrange.”

“Mas do Ministério da Educação pouco haverá a esperar. Aquele departamento crucial do estado mais parece um parque zoológico de dinossauros, de burocratas encardidos, esplêndida máquina para descascar bananas, ravina do por guerras territoriais de poder entre as várias seitas em que, aos poucos, se foi estilhaçando. A mesma parcialidade, ou melhor, a mesma ignorância, nas sucessivas comissões que têm vindo a sentenciar quais os títulos a inscrever, ou não, na PlanoNacional de Leitura, onde Aquilino não é também persona grata.”

(Intervenção de Aquilino Ribeiro Machado, na “Noite Republicana, Soutosa, 13 de Setembro de 2010 - revista RCI, Sindicato dos Professores da Região Centro, Novembro de 2010)

segunda-feira, novembro 01, 2010

Escola não é democrática nem deve sê-lo


"A escola não é democrática. Nem deve sê-lo. A escola é a preparação para a democracia. Uma aula é hierárquica. O professor está sempre acima dos alunos. A escola deve estar a preparar os jovens para ser cidadãos. A escola não tem os mecanismos da democracia nem deve ter."

(Fernando Savater, filósofo e professor de Ética, em entrevista a Cristina Margato in ATUAL, nº 1983, de 30 de Outubro de 2010)

domingo, outubro 03, 2010

Sociedade portuguesa é uma sociedade montada na fachada


«O facilitismo começa desde o jardim de infância. Nós estamos a assistir à construção de uma debacle nacional. Estamos a mentir às pessoas»

Discursos dessassombrados como o recente discurso do Frei Fernando Ventura (aqui deixamos uma síntese da recente entrevista na SIC Notícias) são importantes pelo realismo que encerra, mas como são dolorosos para as consciências (a injecção de realidade é bem dura) tendem a ser vistos como algo próximo do demencial... E as pessoas desligam. Porque não interessa a realidade. É mais fácil continuar a acreditar na ilusão.

Um sociedade montada no faz de conta é uma mentira e nada se pode construir sem alicerces sólidos. A escola e a educação dos mais novos, das gerações futuras, assenta também sobre uma mentira. E criamos analfabetos, gente que não pensa, gente sem referências e valores, sem memória colectiva, sem capacidade de assumir as suas responsabilidades e de comandar o seu destino.

Temos demasiados denunciadores e não temos anunciadores
«Em nome da defesa do povo, em nome da defesa dos direitos dos trabalhadores vamos ouvindo grandes discursos inflamados, mas estamos a assistir simplesmente a jogos de poder que não vão resolver a vida dos pobres. Que não vão criar, sobretudo, aquilo que é urgente criar no sentido de solidariedade e coesão nacional. O que se apela é sempre à fractura, é sempre e só à explosão social.»

«A greve geral [já anunciada para 24 de Novembro] é uma catarse colectiva mas não vai mudar nada porque não há volta a dar. O caminho é só para a frente. E para a frente sempre a subir. Temos demasiados denunciadores e não temos anunciadores. Os que temos mentem. O caminho tem de ser a o da construção de uma consciência social e de uma consciência colectiva de co-responsabilidade social. […] Este é o momento, não da aparição de nenhum messias, mas da aparição de gente capaz de formar opinião, gente capaz de formar consciência, gente capaz de gritar que o rei vau nu por muito engravatado que esteja. Que a altura é de mudar e de mudar as estruturas podres que nos conduziram até aqui.» Para mudarmos de modelo as pessoas terão de fazer a discussão das garantias do Estado que nos trouxeram até aqui. Mas assustam-se e temem as alternativas.

Sonhar espaços novos
«Crise é momento de começar a sonhar espaços novos. Estamos a enfrentar desafios novos com soluções velhas. Estamos a enfrentar situações terrivelmente complicadas para tantíssima gente com os mesmo profissionais da política, que nos trouxeram até aqui. Seria este o tempo de despedirmos os políticos profissionais para colocarmos profissionais na política. […] Não temos líderes em Portugal. Não temos gente para galvanizar para um projecto de construção social e para um projecto de consciência comunitária da vida.»

Escola: cultura de fachada e excesso de facilitismo
«Houve excesso de garantismo e facilitismo. E o facilitismo começa desde o jardim de infância. Nós estamos a assistir às construção de uma debacle nacional. Nós estamos a montar uma escola que, teoricamente e por ironia da estupidez, é possível chegar à universidade sem quase saber escrever. Estamos a mentir às pessoas, não estamos a dar um futuro aos nossos jovens. Pior do que isso, estamos a construir uma sociedade montada na fachada. Vivemos para o penacho, vivemos para o exterior. Estamos a formar ou a deformar gerações que vão ser o futuro. Desta nossa terra. Estão a crescer sem bases, sem valores. […] Estamos a criar gerações de monstros. Gerações de gente sem memória e sem história. Quando a memória e a história não se encontram temos os cataclismos sociais. É a partir da educação que esta estrutura tem de mudar por dentro.»

«Temos esta cultura que alguém há-de resolver. É este fatalismo nosso, tinha que ser assim. Não posso fazer nada para mudar o meu destino. E isto metido numa situação de um país de um nível cultural baixíssimo… Estamos outra vez nesta espécie de mentira colectiva das Novas Oportunidades. Novas Oportunidades de quê? De coisa nenhuma. Vamos dar um canudo às pessoas mas não vamos construir uma consciência social. Esta é outra das desgraças nacionais. Vivemos para a fachada.»

Duas notas pessoais:

1. Frei Fernando Ventura diz que nos falta líder. Todavia, é preciso ter cuidado para não cair no sebastianismo que o próprio critica. Não podemos ficar à espera de um messias, de um líder que nos resgaste da crise e nos salve. Temos de fazer, ca um de nós, o que nos cabe e não responsabilizar apenas os líderes por tudo.

2. Sobre a incapacidade de reacção é bom fazer notar que a capacidade de aceitação é importante para lidarmos com as dificuldades que não controlamos, mas o problema é abdicarmos de assumirmos a nossa quota parte de responsabilidade na construção do País. Deixamo-nos governar mal.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Momento Zen da ministra



A mensagem da Ministra da Educação, Isabel Alçada, ficará para a história. Deixou bem à mostra como não existe a consciência da realidade nem sentido prático na resolução dos problemas.

Este tipo de discurso paternalista e condescendente ilustra bem o irrealismo com que se enfrentam os problemas da Educação neste país, em lugar de se tomar as medidas que precisam de ser tomadas.

É com falinhas mansas e paternalistas que se resolve, por exemplo, o grave problema da indisciplina nas salas de aula, que perturba imenso o processo de ensino e de aprendizagem?

É o facilitismo e a permissividade que é a solução? É com sorrisos, alegria e optimismo que tudo se resolve? Estou farto deste romantismo, facilistismo e permissividade a dar cabo da Educação.