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domingo, março 23, 2008

Elementos sobre o estado da Escola Pública 15: violência (des)camuflada IV

Imagem copyright DN Online

Foi preciso que a violência escolar, em sala de aula, saltasse para o telejornal, em forma de vídeo, para todos se darem conta do problema que se vive nas escolas e da degradação de uma sociedade. Falamos do mais recente caso passado na escola secundária Carolina Michaelis.

Um problema de falta de respeito grosseiro da autoridade representada pelos professores, que dificulta não só a formação e o ensino, como é causa de mal-estar, desgaste acentuado e insatisfação profissional na docência.

O que fez a ministra da Educação? Desautorizou os professores aos fazê-los bodes expiatórios de tudo o que de mal se passa na escola. Minimizou o problema da violência (recorde-se o procurador-geral da República, Pinto Monteiro) e as dificuldades por que passam os professores para desempenhar a sua função.

A família abstém-se da educação dos filhos por alegadamente ter falta de tempo, mas depois quer-se que tenha tempo e disponibilidade para participar na gestão das escolas, nos termos previsto no novo diploma...

A ministra da Educação caminha de utopia em utopia, sem conectar com a realidade. É como aquele estatuto do aluno que permite faltar o que se quer, ir ou não às aulas e passar no final.


Directamente a propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III

Ainda a propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 14: diploma universitário à nascença resolvia problemas da Educação

E ainda:
-Insucesso escolar vem de longe 3
-Insucesso escolar vem de longe 2
-Insucesso escolar vem de longe 1

domingo, outubro 26, 2008

Elementos sobre o estado da Escola Pública 16: Debandada

photo origin

«É preocupante a amarga debandada de profissionais, válidos e necessários ao sistema, rumo a uma aposentação precoce, zangados, defraudados nas suas expectativas... Que consequências para a qualidade da Escola Pública? É paradigmático o que se está a passar com o novo ECD e a Avaliação do Desempenho Docente (ou deveria antes dizer-se Sistema de Retenção na Carreira?).» (Júlia Caré, Diário 26.10.2008)

O «número de professores que tentam, junto do Sindicato dos Professores da Madeira, estudar a possibilidade de se aposentarem» é caracterizado como «alarmante».

Como regista hoje o Diário, «este ano, já se reformaram quase quatro mil professores e educadores de infância» no país. E não há uma debandada monumental porque simplesmente só uma pequena parte reúne as condições para a reforma antecipada.

O chamado «cansaço extremo» de muitos professores tem razões, que não se limita à «burocatização da escola», à maior carga horária, à proliferação infindável de reuniões inúteis ou à desvalorização da carreira pelos governos nacional e regional.

Parece um assunto tabú para os professores e sindicatos: a indisciplina, que nem é mencionado no artigo do Diário. Não é leccionar - o trabalho intelectual - que cansa e desgasta emocionalmente. É gerir e liderar crianças e jovens cada vez mais indisciplinados, com défice de atenção e concentração, com uma atitude negativa perante o trabalho intelectual, em que só o laxismo da cultura portuguesa, que ainda por cima desvaloriza a escola e o conhecimento, deixa passar como se nada fosse. Como se não fosse causa de insucesso escolar.

Há escolas em que há tanto alvoroço, gritos e assobios, tanto nos recreios como nos corredores dos edifícios de aulas, que é próprio de uma «casa de loucos» e não de uma escola. É este ambiente propício ao estudo e à aprendizagem?

A indisciplina está por resolver também nas escolas da Madeira. Um governo de direita tem uma política de esquerda, que tanto critica. Só quer ser de direita no capítulo da Gestão e Administração das escolas..., precisamente onde não deveria ser.

Não bastará dizer que o sistema educativo português é laxista/facilitista e que a «educação que é um dos três sectores em Portugal onde o Partido Comunista tem mais presença», como se lê hoje também no Diário. Pelos vistos a Madeira não difere.

Depois quer-se que a pedagogia e o professor façam aprender e ter sucesso escolar, como por milagre, quem não trabalha, não estuda, não se esforça e não tem uma atitude positiva perante a aprendizagem.

E, no final, o docente é avaliado pelos resultados dos estudantes, quando há tantas variantes que não controla... O docente nem autoridade tem hoje para educar a vontade (não me venham com pacotes como a «motivação») dos estudantes que decidem passar as aulas sem abrir os livros ou fazer seja o que for, a não ser destruir as condições de ensino-aprendizagem para os outros alunos e para os docentes.

Não se faz cumprir a lei que obriga o estudante a «reconhecer o direito à educação e ensino dos outros alunos» da turma (Artigo 9º (Decreto Legislativo Regional nº 26/2006/M de 4 de Julho de 2006), isto é, de «ter[em] acesso a uma educação de qualidade que permita a realização de aprendizagens bem sucedidas» (Artigo 7º Decreto Legislativo Regional nº 26/2006/M de 4 de Julho de 2006), não obstaculizando o bom decorrer do processo de ensino-aprendizagem na turma.

Tudo é aceite com normalidade, como se fosse um problema de cada professor, coitados.

A propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 14: diploma universitário à nascença resolvia problemas da Educação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 15: Violência (des)camuflada IV

Ainda:
-Insucesso escolar vem de longe 3
-Insucesso escolar vem de longe 2
-Insucesso escolar vem de longe 1

Por fim:
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira
Fomentos da indisciplina [quando o exemplo não vem de cima]
«Recuperar o amor à escola» com desamor pelos professores?
Melhores resultados escolares? Então toca a tratar e a compensar melhor os professores
«Apostar a sério da Educação», para quando?

quinta-feira, outubro 30, 2008

Menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses

Será que a política de festas, futebóis e diversão generalizada constitui estímulo para mudar a mentalidade e a atitude perante o trabalho escolar por parte da sociedade madeirense?

Marco Gomes, director da Escola da APEL, escola privada madeirense, que durante cinco anos foi director pedagógico do Colégio Manuel Bernardes em Lisboa refere no Diário de hoje:

«Não tenho dúvidas de que os alunos madeirenses são diferentes dos de Lisboa», onde a «competição, o esforço e o tempo dedicado aos estudos era muito maior». Acrescenta que não é fácil motivar quem chega desinteressado, «quem não está disposto ao sacrifício e a estudar».

A realidade é que 32 anos após o 25 de Abril de 1974 «continuamos a ter escolas da Madeira entre as piores, depois do investimento em infra-estruturas» e com um «quadro docente habilitado. É tempo de ver onde estão as nossas falhas».

Quem trabalha nas escolas sabe que a atitude perante o estudo, isto é, face ao trabalho intelectual, tem piorado na última década.

As melhores instalações das escolas e a habilitação dos docentes não resolveu o insucesso escolar. Prova que as condições (ambiente) de trabalho na sala de aula são mais determinantes do que as condições físicas dos estabelecimentos de ensino.

De que serve ter melhores edifícios e melhores professores se as famílias não valorizam o conhecimento e a escola? Se os estudantes têm uma atitude negativa perante o trabalho intelectual? Se grassa a indisciplina (camuflada) nas salas de aulas, como se tudo fosse normal, criando um enorme ruído e obstáculos ao processo de ensino-aprendizagem?

Quem aprende Matemática, por exemplo, sem se concentrar, sem se esforçar, sem estudar? Qual é a pedagogia, qual é o professor e quais são as condições físicas dos edifícios que fazem o estudante aprender sem trabalhar?

Estamos à espera de um milagre? Ter resultados sem que exigir trabalho, estudo e disciplina aos estudantes? Sem reponsabilizar as famílias?

Seria bom fazer um estudo sociológico para confirmar, cientificamente, aquilo que já se tem defendido por aqui.

Contudo, não aceito responsabilizar esse caldo socio-cultural por todos os males da Madeira, neste caso os maus resultados escolares no contexto nacional. Por outras palavras, os obstáculos socio-culturais de partida não podem ser usados como álibi para a ausência de esforço ou empenho do estudante no trabalho escolar de aprendizagem.

Recuso justificar a inacção e a irresponsabilidade individuais, transferindo as culpas apenas ou basicamente para a esfera social. Estou cansado da cantiga do costume de culpar a sociedade (e o sistema) por tudo o que de mal acontece aos indivíduos. O contexto social tem o seu peso, mas o indivíduo tem uma palavra a dizer e um papel a desempenhar no superar desses obsctáculos.

Feita esta ressalva, sabemos, como já aqui se tem dito, da realidade das baixas (ou ausência de) qualificações, da insularidade, ruralidade, chagas sociais como o alcoolismo, a violência doméstica ou bolsas de pobreza e analfabetismo (o clássico e o funcional), os poucos estímulos para a disciplina, treino, rigor e amadurecimento do raciocínio (recorde-se A lição de Monteiro Diniz), a escassa cultura de trabalho (empenho), a desvalorização do saber, da escola e da actividade intelectual, a desigualdade de oportunidades, o nivelamento por baixo, a não valorização de nada além do horizonte futebol-bar-sobrevivência, o não privilegiar nem reconhecer da competência, o domínio do tráfico de influências em lugar do mérito no acesso ao emprego e à mobilidade social, entre outros. Factores que têm o seu peso no insucesso escolar numa sociedade como a madeirense, em particular, ou a sociedade portuguesa, no seu todo.

O ambiente na Região é pouco competitivo. As oportunidades são escassas, os estímulos são limitados, o espaço para as pessoas crescerem e progredirem é reduzido.

Mais em:
-Insucesso escolar vem de longe 3
-Insucesso escolar vem de longe 2
-Insucesso escolar vem de longe 1

A propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 16: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 14: diploma universitário à nascença resolvia problemas da Educação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 15: Violência (des)camuflada IV

Ainda:
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira
Fomentos da indisciplina [quando o exemplo não vem de cima]

Realidade escolar madeirense
«Apostar a sério da Educação», para quando?

A lição de Monteiro Diniz

segunda-feira, julho 14, 2008

«Apostar a sério na Educação», para quando?

Entre 97 e 2004, em plena euforia do progresso regional, 71% dos jovens ficaram sem ensino secundário, mais um dado que ilustra o nível das qualificações dos madeirenses. Como é possível, num mundo globalizado, sonhar-se com a auto-sustentação económica da Madeira sem quadros altamente qualificados?

«71% [114 mil] sem ensino secundário» é um título do Diário de hoje. Um quadro negro para uma Região que pretende apostar em áreas da economia que exigem elevadas qualificações dos recursos humanos.

Com estas qualificações como poderemos aspirar a uma economia regional auto-sustentada? Como poderemos aspirar à auto-suficiência?

A notícia adianta ainda que «apenas 29% do total dos jovens madeirenses concluíram o ensino secundário com sucesso [entre 1997 e 2004]. "Estamos muito atrás da média europeia, que ronda os 55%", sublinha a investigadora Liliana Rodrigues, do Centro de Investigação em Educação da Universidade da Madeira (CIE-UMa).

Estes dados provam o que já se sabe. O desenvolvimento da Madeira, nos últimos 30 anos, assentou sobretudo numa política de desenvolvimento de infraestururas e no bem-estar material [ver mais aqui].

Sem os fundos e consequente investimento público depressa voltámos aos números do desemprego dos anos 70. Com a diferença que a Região está mais endividada, perdeu fundos europeus e do Estado e foram criadas determinadas expectativas de progresso e bem-estar, que poderemos não conseguir manter.

Nas comemorações do dia da nossa Região, o Diário deu conta que, «para [o social-democrata Álvaro Monjardino], antigo presidente do parlamento dos Açores, a Autonomia tem ainda um passo a dar, que é o da autosustentação económica. Para lá chegar, em vez de alterações constitucionais, há que apostar a sério na educação e repensar o papel do Estado na economia. Sobre este último aspecto, falou na necessidade dos governos deixarem de se comportar como "tutores" e "suseranos" e se limitarem a um papel de regulação do mercado, deixando à iniciativa privada o papel principal.»

Ora, não é isto que a Madeira tem feito. Foi preciso vir um açoriano dizer que o rei vai nu. Também na Educação optámos por priorizar o mais fácil e mais visível, a construção de infra-estruturas e não os recursos humanos, o oposto do exemplo Irlandês. Continua a faltar a revolução cultural e de mentalidades.

Temos uma sociedade civil dependente, infantilizada, anquilosada, fechada, acrítica, sem iniciativa (capacidade empreendedora), sempre expectante e à espera que alguém lhe diga o que fazer e lhe coloque o pão na mesa (ver mais aqui).

A sociedade madeirense não é fundada na cultural escolar, que é desvalorizada em largos sectores, tornando difícil vencer séculos de atraso sem uma política continuada de maior investimento na Educação. Por isso a Educação deveria ter merecido uma maior fatia do orçamento regional, ser a prioridade da sociedade madeirense desde a década de 70.

Relembro António Nóvoa quanto ao «problema do desinvestimento que está a haver hoje em dia na Educação, tanto na educação básica e secundária, como na educação superior. [Lançou-se] a ideia para a sociedade portuguesa que se gastava demais na Educação para ter fracos resultados. Os fracos resultados é verdade. O investir demais em educação nunca foi verdade em Portugal. Foi verdade durante dois ou três anos. Em 1998, 1999 e 2000 nós aproximámo-nos da média europeia. Em dois séculos Portugal investiu dois ou três anos.»

E depressa a sociedade portuguesa se cansou desse pequeno esforço. Toca então a desinvestir na Educação. Parece que a Educação é um fardo, uma fonte inútil de despesa. É pouco compensador em termos eleitoralistas e não se obtém resultados imediatos no período de uma legislatura...

Nas escolas, tenho como referência sobretudo o 2º e 3º ciclos, os estudantes vivem na indisciplina e com uma atitude negativa perante o trabalho intelectual e escolar. Mesmo podendo transitar de ano com três níveis inferiores a três, é elevado o insucesso escolar.

Numa terra em que se apregoa tanto o «conceito de disciplina democrática» não se percebe o porquê de tanta indisciplina nas escolas, que é a ruina do processo de ensino-aprendizagem e coloca em causa o direito dos restantes alunos à aprendizagem. Há um autismo impressionante. Sempre para salvar as aparências.

Como se pode aprender sem disciplina e trabalho? Há alguma outra fórmula de sucesso? (Só se for o sistema de cunhas e compadrio - do não mérito - em que alguns jovens apostam em alternativa à qualificação, ao mérito e ao trabalho).

Toda agente ficou escandalizada com os adolescentes que atacavam e humilhavam pessoas em espaços públicos do Funchal, como recentemente denunciado pelo Diário. Mas ninguém se escandaliza e toma medidas quando a indisciplina e a violência toma conta das salas de aula. Está longe da vista... Será preciso aparecer no You Tube?

Recorde-se:
Como melhorar o sucesso escolar na Madeira?

Insucesso escolar vem de longe 1
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 3

Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III

Ainda a propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
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-Elementos sobre o estado da Escola Pública 14: diploma universitário à nascença resolvia problemas da Educação

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Elementos sobre o estado da escola pública 14: diploma universitário à nascença resolvia problemas da Educação

José Saraiva, o historiador e professor universitário, falecido em 1993, «ponderando os, naquela altura, já visíveis e preocupantes sintomas do que hoje chamamos "facilitês" em todos os níveis de ensino, propunha, com a sua típica (e frequentes vezes sarcástica) ironia, um santo remédio para acabar de vez com todas as preocupações relativas a escolas, professores, auxiliares de ensino e sobretudo estudantes, quaisquer que esses fossem, onde quer que estivessem.

A solução era simples, eficaz e certamente barata: assim que uma criança recém-nascida fosse registada, o responsável pelo registo agarrava a cédula pessoal, hoje chamada "boletim de nascimento", e tomava, célere, o rumo da sua Junta de Freguesia, onde, em formulário apropriado, requeria um diploma universitário, a seu critério, para o bébé cuja chegada ao mundo se documentava e a quem, entretanto e em casa, alguém trocava fraldas.

Do que recordo, mas Saraiva talvez o tenha apenas implicitado, era automático o deferimento do pedido, seguindo-se, de imediato, a emissão do documento. A partir desse momento, uma lisa estrada se oferecia ao infante e a toda a família. Era o definitivo, libertador, adeus a maçadas com escolas, aulas, trabalhos para casa e actividades extra-curriculares» entre outros aspectos como as faltas às aulas...

Maria Lúcia Lepecki
Super Interessante nº116-Dezembro 2007



Pode clicar sobre imagem para aceder ao artigo completo, a propósito do novo Estatuto do Aluno, no qual a autora diz ainda o seguinte:

«Um aluno sistematicamente relapso, pertinazmente relapso, resistente a quaisquer ponderações pedagógicas ou intervenções da autoridade escolar, um aluno assim não é objecto, mas sujeito de exclusão: ele é que se está afastando do espaço escolar.»

«Isso decorre na maioria das vezes de carências familiares, e não só das económicas: de carências afectivas e emocionais, igualmente conducentes a desequlíbrios de comportamento, também sofrem famílias abonadas económica e culturalmente. De modo que o menino ou menina relapso ou relapsa pode vir de qualquer lado. E a sociedade - não apenas cada escola específica - tem de saber actuar para fazer face à situação.»

Recorde-se, a propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Professores de luto e em luta 65: ainda o caso da docente agredida

Na sequência da agressão física a um professora, na Madeira, noticiado no passado domingo, o Diário fez a seguinte análise para na respectiva edição:

«NÃO: mais uma professora agredida em pleno espaço escolar indicia a decadência de uma sociedade que não se dá ao respeito.»

Estes são sintomas de decadência de uma escola pública, reflexo de uma sociedade e de uma educação infantil permissiva, desregrada, que induz a «ausência de perspectiva social positiva salvo a que prolonga a afirmação egoísta de si».

Além disso, não se esqueça que as recentes políticas educativas só têm acentuado este estado de coisas, desvalorizando-se a escola e desmoralizando os profissionais da educação aos olhos da sociedade.

Recorde-se, a propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III

E ainda:
-Insucesso escolar vem de longe 3
-Insucesso escolar vem de longe 2
-Insucesso escolar vem de longe 1

segunda-feira, setembro 15, 2008

Professores de luto e em luta 91: a realidade dos números que o Governo esconde sob os actos de propaganda

Damos aqui conta de uma leitura do Education at a Glance (2006) publicado pela OCDE (ver aqui).

Divulga-se e comenta-se o que foi escrito no Mobilização e Unidade dos Professores e no Jornal de Notícias.

Há quem acuse o Ministério de esconder, «cobardemente», certos números, de forma a «virar os portugueses menos informados contra os que trabalham dia a dia para dar um futuro melhor aos filhos dos outros.» Há números da OCDE que não convêm a este governo.

Se for à página 58, verá desmontada a convicção generalizada de que os professores portugueses passam pouco tempo na escola e que no estrangeiro não é assim.

É apresentado, no estudo, o tempo de permanência na escola, onde os professores portugueses estão em 14º lugar (em 28 países), com tempos de permanência superiores aos japoneses, húngaros, coreanos, espanhóis, gregos, italianos, finlandeses, austríacos, franceses, dinamarqueses, luxamburgueses, checos, islandeses e noruegueses.

De acordo com o estudo, Portugal é o terceiro país onde os professores mais tempo ensinam (do seu horário de trabalho), na sala de aula: 60% do tempo total na Primária e 50% no Secundário.

Na página 32 poderá verificar que, quanto a investimento na educação em relação ao PIB, estamos num modesto 19º lugar (em 31 países) e que estamos em 23º lugar (em 31 países) quanto ao investimento por aluno.

No mesmo documento de 2006 poderá verificar, na página 56, que os professores portugueses estão em 21º lugar (em 31 países) quanto a salários.

Isto é passado por cima no Jornal de Notícias, que destaca o seguinte: «apesar de Portugal ser um dos países do estudo com menor Produto Interno Bruto (PIB) per capita, os salários dos professores estão ao nível de países com um PIB per capita bastante superior.

É óbvio que, neste estádio, temos de fazer um maior esforço do que eles, que não têm o nosso historial vergonhoso de desinvestimento na Educação, exceptuando os anos de governação de Guterres.

Será que Vital Moreira e outros comentadores, tão lestos a criticar os professores, têm salários de acordo com o PIB? Sabemos o que acontece com as classes dirigentes, tanto na administração pública como no privado. Ganham vergonhosamente bem e têm uma série de mordomias supérfluas (carros pretos, cartões de crédito, despesas de representação e outras mais) à custa dos salários de miséria que pagam à maioria dos trabalhadores.

O mesmo jornal refere outros números do estudo da OCDE: «Portugal gastou, em 2005, cerca de 5,7% do PIB na Educação: 1,4% no Ensino Superior e os restantes 3,7% nos outros graus de ensino.» Será que acham isso um grande investimento face ao nosso atraso de décadas relativamente face à maioria dos outros países europeus?

Não é aqui que reside o futuro do país? Não vale a pena esse investimento? Se não se investe mais como vamos superar o atraso? Há umas almas que acham que investir na Educação é deitar dinheiro em cima dos problemas. Experimentem, nessa política do betão, fazer obras e resolver problemas sem dinheiro.

Note os seguintes textos, que ajudam a compreender quanto profundo é ainda o nosso atraso: Insucesso escolar vem de longe 1; Insucesso escolar vem de longe 2; Insucesso escolar vem de longe 3.

A Irlanda preferiu investir mais nos recursos humanos em vez de investir no betão. E não se deram mal, pois não?

Nos discursos, a prioridade de Portugal é a Educação, na prática, é o betão. (Recordar a este propósito: Discurso da treta, o costume; Presidente da República lança aviso ao Governo II (desinvestimento na Educação); Prioridade mas só depois da prioridade do betão I; Prioridade mas só depois da prioridade do betão II; Prioridade mas só depois da prioridade do betão III; Desinvestimento na educação e professores, investimento na burocracia e nos burocratas; Presidente da República lança aviso ao Governo I).

A maioria dos países com quem somos comparados não precisam de investir tanto em Educação, porque não sofrem dos nossos atrasos e vicissitudes socio-culturais, como o analfabetismo ou a desvalorização do conhecimento e da escola por parte da sociedade e de quem governa, apesar dos discursos e da propaganda.

Diz a notícia citada que «Portugal é o país que gasta a maior percentagem do orçamento dedicado à Educação com o pessoal, um pouco mais de 95%, sendo que 85% dos gastos no Básico e 81% no Secundário são exclusivamente com professores.»

Como se investe pouco na Educação, acaba por sobrar pouco para investir na «investigação e serviços de apoio como materiais, alimentação, alojamento ou transporte», como pode fazer uma Finlândia, que "apenas" gasta 65% do seu orçamento com o pessoal.»

A notícia concentra-se em fazer passar a ideia que os professores são muito bem pagos e que se gasta o orçamento da Educação com eles, sem contextualizar as comparações, como se os países europeus fossem todos iguais. O que faltava era deixar de os pagar. Experimentem fazer funcionar o sistema de ensino sem os professores. Deixem de investir nos recursos humanos ou paguem-lhes o salário mínimo e logo se vê o resultado.

No nível de ensino com números mais favoráveis, o Ensino Secundário, temos «um professor por cada oito alunos inscritos, enquanto que os Estados Unidos da América têm um docente por cada 16 alunos, a Alemanha um por cada 15 e a França um por cada 12. O México é o país com o pior desempenho com perto de 30 alunos por cada professor a tempo inteiro.»

O Jornal de Notícias depois dá-se conta que, «no entanto, estes bons rácios de professor por aluno não encontram um paralelo na dimensão das turmas, onde Portugal ocupa um lugar mediano com 18,6 alunos por cada turma no Ensino Básico e 22,5 alunos no 2.º Ciclo. Refira-se, por exemplo, que a Suíça, com apenas um professor para cada 12 alunos no Secundário, consegue ter turmas de apenas 19 alunos.

Vital Moreira refere o seguinte, no Causa Nossa, a propósito da notícia «Portugal é 2º país de 27 com mais empregados sem qualificação»:

«Estes números de 2006 são arrasadores e explicam só por si o baixo nível de produtividade e de competitividade da economia nacional, bem como as restrições ao crescimento do emprego e dos salários (que até são relativamente elevados para os reduzidos níveis de qualificação existentes).

«Por isso, tem de se aplaudir todo o actual esforço de investimento na educação , incluindo em cursos de natureza profissional, bem como na qualificação e na formação profissional.»

Será real esse esforço de investimento? Há outras leituras: Presidente da República lança aviso ao Governo II (desinvestimento na Educação). Bem, será investimento depois do investimento do betão?... Não basta distribuir computadores, diplomas e cheques prémio para propaganda.

O bloguista conclui: «Esse é o melhor contributo que o Estado pode dar para o crescimento da economia e do emprego e para a elevação dos níveis remuneratórios dos trabalhadores portugueses. Só há que lamentar os anos perdidos e a irresponsabilidade passada.»

Pelos vistos, parece que se estão e irão perder mais anos.

Memória e cruzamento de ideias é importante:
«Recuperar o amor à escola» com desamor pelos professores?
Melhores resultados escolares? Então toca a tratar e a compensar melhor os professores
«Apostar a sério da Educação», para quando?

Ainda:
Insucesso escolar vem de longe 1
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 3

Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III

Ainda a propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 14: diploma universitário à nascença resolvia problemas da Educação

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III

A escritora Alice Vieira escreveu um texto no JN (9.12.2007), intitulado Violência nas escolas, que abaixo reproduzimos.

Já tínhamos aqui abordado a questão (Violência camuflada I e Violência camuflada II) e preocupa, sobretudo, a violência camuflada, socialmente invisível, normalizada, desculpabilizada e escondida. Aí encontram-se a violência moral e a violência emocional, que mais danos inflingem, embora invisíveis.

Alice Vieira confirma algumas das nossas preocupações face a esse estado de coisas:

«Li num jornal que a senhora ministra da Educação está contente. E, quando os nossos governantes estão contentes, é como se um sol raiasse nas nossas vidas.

E está contente porque, segundo afirmou, a violência nas escolas portuguesas, afinal, não existe.

Ao que parece, andamos todos numa de paz e amor, lá fora é que as coisas tomam proporções assustadoras, os nossos brandos costumes continuam a vingar nos corredores de todas as EB, 2/3, ou como é que as escolas se chamam agora. Tenho muita pena de que os nossos governantes só entrem nas escolas quando previamente se fazem anunciar, com todas as televisões atrás, para que o momento fique na História. É claro que, assim, obrigada, também eu, anda ali tudo alinhado que dá gosto ver, porque o respeitinho pelo Poder é coisa que cai sempre bem no coração de quem nos governa, e que as pessoas gostam de ver em qualquer telejornal.

Mas bastaria a senhora ministra entrar incógnita em qualquer escola deste país para ver como a realidade é bem diferente daquela que lhe pintaram ou que os estudos (adorava saber como se fazem alguns dos estudos com que diariamente se enchem as páginas dos jornais) proclamam. É claro que não falo daquela violência bruta e directa, estilo filme americano, com tiros, naifadas e o mais que houver.

Falo de uma violência muito mais perigosa porque mais subtil, mais pela calada, mais insidiosa.

Uma violência mais "normal".

E não há nada pior do que a normalização, do que a banalização da violência.

Violência é não saberem viver em comunidade, é o safanão, o pontapé e a bofetada como resposta habitual, o palavrão (dos pesados…) como linguagem única, a ameaça constante, o nenhum interesse pelo que se passa dentro da sala, a provocação gratuita ("bata-me, vá lá, não me diga que não é capaz de me bater? Ai que medinho que eu tenho de si…", isto ouvi eu de um aluno quando a pobre da professora apenas lhe perguntou por que tinha chegado tarde…)

Violência é a demissão dos pais do seu papel de educadores - e depois queixam-se nas reuniões de que "os professores não ensinam nada".

Porque, evidentemente, a culpa de tudo é sempre dos professores - que não ensinam, que não trabalham, que não sabem nada, que fazem greves, qualquer dia - querem lá ver? - até fumam…

Os seus filhos são todos uns anjos de asas brancas e uns génios incompreendidos.

Cada vez os pais têm menos tempo para os filhos e, por isso, cada vez mais os filhos são educados pelos colegas e pela televisão (pelos jogos, pelos filmes, etc.). Não têm regras, não conhecem limites, simples palavras como "obrigada", "desculpe", "se faz favor" são-lhes mais estranhas do que um discurso em Chinês - e há quem chame a isto liberdade.

Mas a isto chama-se violência. Aquela que não conta para os estudos "científicos", mas aquela da qual um dia, de repente, rompe a violência a sério.

E então em estilo filme americano.

Com tiros, naifadas e o mais que houver.»


Recorde-se, a propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II

E ainda:
-
Insucesso escolar vem de longe 3
-Insucesso escolar vem de longe 2
-Insucesso escolar vem de longe 1

domingo, novembro 16, 2008

Escola ideal é diferente da escola real

O realismo subjacente à frase a «escola ideal é diferente da escola real» de Ana Benavente, ex-secretária de Estado da Educação do Governo de António Guterres, na conferência ontem no Funchal, é de realçar.

Num momento em que ainda há muita gente, incluindo importantes teóricos da Educação, versando teorias "românticas", distanciadas da realidade, a pensar que o professor faz toda a diferença e que pode, a partir da sala de aula, mudar o mundo (contexto socio-cultural dos alunos), as políticas educativas ou a Escola (instituição, entidade administrativa) e vencer problemas que o ultrapassam, é confortante ouvir que é preciso combinar o possível com o desejável.

De facto, não é possível criar um estudante novo. Embora existam alguns "milagres", que não são a regra, nem se podem generalizar, é possível fazer o que está ao alcance dos docentes, no dia-a-dia: «Não é preciso um estudante novo», disse Ana Benavente, basta «fazer o melhor no seu espaço.» É o que um grupo de professores tenta fazer, por exemplo, através do Projecto Fazer +, na minha escola.

Aí o papel das boas práticas. A conferencista sublinhou que «é preciso romper este ciclo [da Escola] com boas práticas», isto é, com «respostas para os problemas reais». As práticas que, num dado contexto, resultaram poderão ser reinterpretadas ou adaptadas a outras realidades escolares. Podemos integrar os elementos que se considerem importantes, que sejam uma mais-valia, para uma outra realidade educativa.

Ana Benavente vê nas boas práticas um grande motor de mudança e inovação. Porque existem projectos pedagógicos como o da Escola da Ponte, antes de ter sido desvirtuada e «asfixiada pelo sucesso», que devem passar para outras escolas e não ser vistas apenas como um «bilhete postal».

A visão realista da ex-secretária de Estado da Educação expressou-se também num outro alerta que fez, para evitar desilusões aos mais ambiciosos, voluntaristas e até utópicos: «o tempo de mudança das instituições não é o mesmo do nosso tempo de vida.» É preciso ser paciente. Lançar sementes em vez de querer mudar o mundo. Ou como colocou Ana Banavente: «Para mudar é preciso sermos ambiciosos e modestos», satisfazendo-nos com as «pequenas vitórias». Contudo, às vezes são verdadeiras "migalhas" que nem as insuflando conseguem nutrir o alento.

É importante também que o realismo não paralize. O professor não pode não baixar os braços, deve ser «ousado e assumir as suas margens de liberdade» e fazer o que está ao seu alcance e não o que muitos gostam de pensar que está ao alcance dos agentes da Educação e da pedagogia. Porque é uma utopia pensar que tudo está nas mãos dos docentes, uma forma de outros actores e instâncias descartarem as suas responsabilidades.

Ao falar do «querer (crer)» como algo fundamental para a mudança da escola (as políticas criam a vontade, asseguram o conhecimento e as condições para essa mudança), Ana Benavente referiu que «não se pode dar de beber a um cavalo que não tem sede.»

Embora muitos pedagogos e teóricos da educação coloquem em cima dos ombros do professor a responsabilidade de criar vontade, querer, prazer e interesse pelo trabalho escolar, sabemos que é extremamente difícil motivar, em sala de aula, os estudantes que chegam à escola com um elevado grau de desinteresse, sem cultura de trabalho e com uma atitude negativa e de especial resistência perante o trabalho intelectual.

Cito novamente, agora noutro contexto, o provérbio proferido pela conferencista: deve-se tentar, mas «não se pode dar de beber a um cavalo que não tem sede.» Se há casos em que o professor consegue despertar o «querer» neste ou naquele aluno, com o mínimo de abertura, quanto à maioria dos "resistentes" não é possível. Há um contexto escolar-institucional, familiar e socio-cultural que é complicado vencer e mudar, sobretudo quando se actua tardiamente, já no 3º Ciclo ou no Secundário.

Por isso, repito, embora por vezes eles operem alguns "milagres", não se peça como regra tudo aos professores, que estão fartos de estarem entre a espada e a parede, a arcar com responsabilidades que não são deles, pressionados de cima para baixo (tutela, administração), de baixo para cima (estudantes e famílias) e de todos os lados (envolvente socio-cultural).

Lembro-me da angústia que sentia, nos anos 80, em que surgiu a moda de exigir aos docentes a diferenciação pedagógica no contexto de turmas com elevado número de alunos e através da prática pedagógica tradicional (expositiva). Uma tarefa simplesmente impossível.

Acredito na diferenciação pedagógica, utilizo algumas estratégias de pedagogia activa adptadas do modelo pedagógico do Movimento da Escola Moderna (não confundir com as pedagogias românticas, desfasadas da realidade e dos contextos educativos) e até se consegue alcançar alguns resultados, mas digo, com a força da experiência acumulada de algumas tentativas ou aventuras pedagógicas (e respectivas desilusões ou bofetadas da realidade), o seguinte: perante o estudante que não estuda, não trabalha, não é disciplinado ou concentrado, que tem uma atitude negativa perante o trabalho intelectual, não há pedagogia ou modelo pedagógico que o faça aprender.

Considero que a evolução da pedagogia e da psicologia tiveram um lado negativo: de desresponsabilizar o indivíduo, remetendo para uma justificação exterior a ele, numa desvalorização da sua vontade própria, do seu querer, do seu papel em vencer problemas e dificuldades, como se a culpa fosse sempre da sociedade, de terceiros, do professor, do padre, dos pais, dos políticos ou de Deus, justificando a inércia pessoal. Um certa esquerda, que não acredita na auto-determinação individual e no self made man, gosta de pensar assim.

Recordo as palavras do pedagogo José Agusto Fernandes, mentor do Projecto SOFIA: «as circunstâncias podem condicionar o ser [...] mas nenhuma circunstância da vida pode obrigar nenhum ser humano a ser o que não é, a ser ou não de uma dada maneira. Resta sempre a capacidade de decidir.»

Ora, eu sou um acérrimo defensor desta capacidade individual de decidir, de mudar, de criar, de transformar e transformar-se. Não se desresponsabilize o indivíduo (neste caso o estudante), que não é um mero joguete do destino e do contexto socio-cultural, uma vítima da escola, sem acção ou vontade próprias.

Para citar de novo José Augusto Fernandes, que já tive o privilégio ter como formador na minha escola, por duas vezes, «nós somos 100% o nosso património genético, 100% a educação que tivemos, mas somos, sobretudo, o que fazemos com essas duas componentes».

Não acredito que tenham de ser sempre os outros outros que nos tenham de fazer «querer», ter motivação e vontade. E acredito mais na educação da vontade do que nesse mito chamado motivação. Ao professor cabe criar as melhores condições possíveis para acontecerem as aprendizagens, não para fazer magia ou fazer o trabalho que cabe aos estudantes.

Independentemente das dificuldades e do ponto de partida, é preciso ir à luta e fazer alguma coisa pela vida, em vez de esperar que tudo caia do céu. Que uma qualquer entidade exterior resolva todos os problemas. A autonomia e a autodeterminação individuais servem para quê?

Peçam-me o possível e talvez até consiga o impossível, mas não me peçam o impossível. Não me peçam sempre para ser outra coisa, uma coisa qualquer ideal, qualquer coisa politicamente correcta. E quando "fosse" essa outra coisa pedir-me-iam que fosse outra coisa ainda, um outro professor. É insano. Se a milésima estratégia epdagógica não resultou, então é porque ainda não experimentei a milésima primeira...

Estou cansado de me pedirem, na Educação, implícita ou explicitamente, realizações como se fosse um deus ou um semideus. Como se eu tivesse de ter sempre a resposta e solução (ideal) para tudo no processo de ensino-aprendizagem. Como se tivesse sempre tudo ao alcance dos professores, desde que utilizem a tal estratégia que nos escapa sempre, como uma alucinação no deserto: parece que é agora que se chega ao oásis, mas nunca lá chegamos.

Como diz Álvaro de Campos, no Poema em linha recta, «nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.» Ora, é isto que se sente em muitos encontros e debates sobre Educação. São todos tão perfeitinhos e sempre com a verdade na ponta da língua e a solução na manga para todos os males...

E diz mais o mesmo poema: «Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? / Ó príncipes, meus irmãos, / Arre, estou farto de semideuses! / Onde é que há gente no mundo? / Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?»

Os docentes - no intuito de esconder os seus desaires e insucessos (a "porrada" que levam quase todos os dias) - optam por ser politicamente correctos e não expõem a realidade, as suas fagilidades, insuficiências e impossibilidades (limitações humanas). Não abrem o jogo, como dizia há tempos um professor, numa conversa sobre novas pedagogias. Os teóricos alimentam determinados irrealismos e construções porque ganham a vida com isso.

Felizmente, Ana Benavente já viveu muito e terá tido os choques de realidade suficientes para ter a abordagem realista que teve na conferência de ontem, no Funchal. Os professores apanham injecções de realidade todos os dias.

Nestas alturas, gosto também de pensar nas palavras de C. R. Rogers: «...Nem a Bíblia, nem os profetas – nem Freud, nem a investigação – nem as relações de Deus ou dos Homens – podem ganhar precedência relativamente à minha própria experiência directa.»

No outro dia uma aluna escreveu-me um carta (aberta), para passar uma dada mensagem de alerta, que me diz mais sobre a realidade educativa, em contexto, do que muitos tratados de pedagogos e teóricos da Educação: My English teacher, escrito por uma rapariga de 12 anos, está publicado num blogue de escrita das minhas turmas.

Neste momento estou cansado de ouvir falar em Educação, sobretudo aqueles que têm a solução teórica para todos os males ou que acreditam na possibilidade de criar um Estudante Novo, relativizando a natureza humana e a realidade. Também é um erro ou uma impertinência eu querer esfregar a realidade na cara dos outros... o que pode dar a má impressão que sou dono de qualquer verdade...

Mais em:
-Insucesso escolar vem de longe 3
-Insucesso escolar vem de longe 2
-Insucesso escolar vem de longe 1

A propósito:
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 16: debandada
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 14: diploma universitário à nascença resolvia problemas da Educação
-Elementos sobre o estado da Escola Pública 15: Violência (des)camuflada IV

Ainda:
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira

Menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses
Fomentos da indisciplina [quando o exemplo não vem de cima]

Realidade escolar madeirense
«Apostar a sério da Educação», para quando?

A lição de Monteiro Diniz

Sobre a conferência:
Não ao mercado da Educação, sim à Re-escolarização

quinta-feira, novembro 22, 2007

Elementos sobre o estado da Escola Pública 11: racionalidade e realismo precisam-se

Duas manchetes, dois caminhos. Um irrealista e outro realista, que não dispensa o esforço essencial por parte de quem aprende.

A realidade que sustenta a notícia do Correio da Manhã (20.11.2007), Professores obrigados a dar boas notas, dá conta de mais um sinal da perversidade de algumas políticas educativas. Além do mau sinal (de mais facilitismo) que passa para a sociedade, em particular para as famílias e alunos.

Precisamente quando o discurso político é de rigor, meritocracia, produtividade, trabalho e de investimento nas qualificações... Bonitas qualificações que daqui resultarão, não haja dúvida, a diplomar pessoas sem uma correspondência com as suas reais competências.

As escolas começam a organizar-se para responder à avaliação externa e aos rankings. Os critérios pedagógicos são chutados para canto. O Correio da Manhã dá conta de um atalho, com prejuízos educativos, sobretudo para a qualidade, contraditoriamente, para melhorar os resultados das escolas.

Os conselhos executivos, supostamente, em Portugal continental, estão a pressionar os docentes a dar boas notas, sem corresponder ao desempenho real do aluno e sem medidas que criem as condições e oportunidades para que tal aconteça, evitando-se inflacionar as notas e mascarar a realidade (fingir que o aluno sabe quando não sabe, o que dificultará e desmotivará uma melhoria futura). Tudo para fugir à realidade... Que pavor temos, nós portugueses, da realidade...

Os professores, por sua vez, tentarão organizar-se (será possível?) para responder ao facto de serem avaliados pelos resultados escolares dos alunos e pelo nível de abandono escolar, responsabilizados por factores socio-culturais, que estão além (da exclusiva) responsabilidade do trabalho docente.

É como se o aluno fosse dispensado do trabalho, esforço, predisposição para a aprendizagem e disciplina pessoal. O professor arranjará um jeito de dar a boa nota... Nunca se pensaria que o nível de desresponsabilização daqueles que aprendem atingisse este patamar.

O professor orienta, apoia, cria as condições e oportunidades para que o processo de aprendizagem seja o melhor possível, mas não é o professor que tem de trabalhar em vez de quem aprende.

Hoje, parece que o aluno está a fazer um favor ao professor quando tem de empenhar-se e mostrar trabalho. E quando as notas dos alunos têm peso na avaliação do docente, a situação piora. «Ó professor, veja se me passa sem me dar muito trabalho e sem me exigir disciplina... para ver se sobe de escalão na carreira...»

Estão a destruir a profissão e a escola pública de uma só vez. Não é com falta de qualidade que se valoriza a escola pública.

Todavia, a manchete do Jornal da Madeira (21.11.2007) dá um sinal diferente, em contra corrente. E é preciso estes gestos de racionalidade, de pragmatismo, de realismo e bom senso. Na Escola Básica e Secundária da Calheta, «em termos de produção, a pressão é exercida aos alunos, porque os resultados não dependem exclusivamente dos professores, mas do trabalho e do empenho que os discentes colocam», diz o jornal em consequência de uma conversa com o presidente do conselho executivo daquela escola, António Lucas.

Se a pressão sobre os professores durante as últimas duas décadas, ao nível pedagógico, para melhorar os resultados educativos, acaba por não ter o retorno desejado, é mais do que claro que a solução não está só no trabalho docente. Há toda uma envolvente, várias premissas, que condicionam muito mais do que se pensa o sucesso das aprendizagens em sala de aula.

Como se explica que os alunos dos países de Leste, deslocados e com dificuldades socio-económicas, alcancem elevado sucesso escolar no nosso sistema educativo? Porque trabalham, são disciplinados e as suas famílias, com outra cultura, valorizam a escola. É assim tão difícil perceber que o trabalho e a disciplina são a base do sucesso de qualquer pessoa?

É bom que o paradigma de colocar o peso do desempenho dos alunos (quase) exclusivamente em cima do professor termine, porque está a deixar um rasto de maus resultados escolares no país, hipotecando também o futuro. Seja qual for a motivação, puramente idealista e facilitista ou de mascarar as estatísticas, administrativamente, é tempo de dizer alto que o rei vai nu.

Não basta o professor ser avaliado pelo seu desempenho? Tem de ser avaliado pelo desempenho de terceiros, realidade que não controla nem depende só de si? Ainda por cima retira-se autoridade ao professor para poder exercer pressão para o trabalho e a disciplina por parte do aluno. Desresponsabilize-se e facilite-se a vida ao aluno (o trabalho e a disciplina traumatiza...), que o coitado do professor logo resolverá... nem que fique traumatizado e acabe no divã do psiquiatra, como acontece a muitos.

Recorde-se, a propósito:
Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
Elementos sobre o estado da Escola Pública 2: a mais grave discriminação
Elementos sobre o estado da Escola Pública 3: primeira responsabilidade
Elementos sobre o estado da Escola Pública 4: manobra para a estatística I
Elementos sobre o estado da Escola Pública 5: manobra para a estatística II
Elementos sobre o estado da Escola Pública 6: manobra para a estatística III
Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada
Elementos sobre o estado da Escola Pública 8: manobra para a estatística IV
Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)

Ou ainda:
Insucesso escolar vem de longe 3
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 1

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Elementos sobre o estado da Escola Pública 18: um país de brincalhões

O laxismo faz passar os alunos-rei (leões) indisciplinados e violentos por inofensivos bichanos (brincalhões)...

A respeito do caso da Escola EB 2,3/S do Cerco, no Porto, em que um grupo de alunos ameaçou a professora de Psicologia com uma arma de plástico, exigindo melhores notas, no dia 18 de Dezembro, é ver as reacções que provam a permissividade educativa - fomento da irresponsabilidade juvenil - que se vive neste país com a maior das naturalidades:

1. A directora Regional de Educação do Norte, Margarida Moreira, já desvalorizou o incidente na Escola do Cerco do Porto, considerando, em declarações proferidas ontem, que se tratou de "uma brincadeira de muito mau gosto, que excedeu os limites do bom senso".

2. A presidente da Associação de Pais, Lina Maria, refere que "aquilo foi resolvido na altura. Eles próprios acharam que tinham passado os limites e pediram desculpa à professora. Ela aceitou e tudo ficou por aí, tanto que [a professora] não fez qualquer participação".

3. Manuel Valente, da Federação de Associações de Pais do Porto, acredita numa conspiração: "Acho também muito estranho que a divulgação destes incidentes ocorra sempre no final de um período, já durante as férias, como aconteceu com o caso Carolina Michaelis, até parece que há alguém interessado em denegrir a escola pública". Admite que esta situação foi «encomendada por quem quer neste momento a política de terra queimada nas escolas, nomeadamente os próprios sindicatos, que lhes interessa um caso destes».

4. A presidente do conselho executivo da escola, Ludovina Costa, «foi a primeira a desvalorizar o caso», como relata o Público. Considera que a turma é composta "12 alunos normais e simpáticos, dos quais todos os professores gostam, e que se dão muito bem com a professora, que também é muito brincalhona".

5. A mesma Ludovina Costa, refere que a «decisão de abrir um inquérito disciplinar decorrerá assim do facto de o vídeo ter sido tornado público mais do que pelo episódio em si.» Não tivesse galgado os muros da escola, situada numa zona socialmente problemática, o episódio morreria como "uma brincadeira de fim-de-período que mais ou menos toda a gente fez", como disse ao JN. A mesma Ludovina Costa declarou que "vai ter que actuar por causa de uma irresponsabilidade" - a divulgação das imagens na Internet.

6. "Ó professora, desculpe, sabe que somos uns brincalhões", justificou-se um aluno.

Estas passagens ilustram a cultura de irresponsabilidade deste nosso país de brandos costumes, condenado ao atraso.

Até onde chega o laxismo... Uma presidente de uma escola que está mais preocupada com a imagem, para quem a irresponsabilidade é ter-se colocado o vídeo na Internet e não dos alunos agressivos e indisciplinados; esta senhora considera ainda a professora uma brincalhona; uns alunos que justificam tudo por serem brincalhões; uma directora regional de Educação do Norte que diz não passar de uma brincadeira; uma presidente da associação de pais que tenta passar uma esponja sobre o assunto e dar tudo por resolvido; um senhor da Federação de Associações de Pais do Porto que vai ao ponto de considerar tudo uma cabala de inimigos da escola pública; uma docente que nem formalizou uma participação disciplinar.

Há ainda opinion makers que contribuem para a brincadeira...

Todos desvalorizam o episódio e contribuem para a irresponsabilidade e impunidade juvenil e incentivo aos "alunos rei", que não vêem mais nada à frente a não ser o seu ego, porta aberta para «pulsões narcisistas e exibicionistas, [com] ausência de perspectiva social positiva salvo a que prolonga a afirmação egoísta de si» (Eduardo Lourenço).

A senhora presidente da escola não esconde o seu desejo de camuflar o episódio, que é aquilo que se tem feito como regra geral. Até a ministra da Educação, com mão tão pesada para os professores, minimiza a violência nas escolas, nomeadamente aquela de que são vítimas os docentes, descorando as consequências da indisciplina na qualidade do ensino-aprendizagem.

Resumindo, somos todos uns brincalhões.

A propósito, para não me repetir:
O exemplo e o preceito
Em casa
Complexos de esquerda = facilistismo
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação
Escola ideal é diferente da escola real

Bofetadas e riscos de ingratidão
Bofetadas e riscos de ingratidão B
Razões da greve de que ninguém fala

Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)

Fomentos da indisciplina [quando o exemplo não vem de cima]
Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III
Elementos sobre o estado da Escola Pública 15: Violência (des)camuflada IV

Não há enquadramento legal

domingo, janeiro 04, 2009

Elementos sobre o estado da Escola Pública 20: intervir contra a indisciplina II

«Os professores são deixados sozinhos e sem meios sobre a indisciplina crescente» diz Daniel Sampaio (revista Pública 4.1.2009). É a realidade que se vive nas escolas, mas que a tutela, lá ou cá, desvaloriza ou ignora. A forma fácil de resolver o problema é dizer que não existe.

Esta degradação do clima escolar é razão mais forte para uma greve de professores do que o modelo de avaliação, porque tem consequências mais profundas no desempenho, saúde e realização profissional dos docentes do que o corte nos salários posto em prática pelo actual Ministério da Educação/Governo da República (na Madeira o processo está ainda em curso).

Também na Madeira é preciso actuar, porque não está diferente do Continente nesta matéria: Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira. Como os resultados escolares não são os desejados e sabemos da menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses, mais uma razão para eliminar esse factor de perturbação do processo de ensino-aprendizagem (aulas) para podermos melhorar o sucesso escolar.

Daniel Sampaio escreve ainda na crónica de hoje:

«Os acontecimentos de uma escola do Porto, em que um aluno apontou um revólver de plástico a uma professora, foram de imediato desvalorizados por dirigentes do ME e classificados de "brincadeira de mau gosto". Parece que o facto de ser uma arma a brincar tranquilizou a tutela, na linha de outras declarações oficiais em que a indisciplina é sempre vista separada da violência e como tal considerada de menor importância.

O risco é evidente: se não valorizarmos o pequeno incidente de indisciplina, se não respondermos de imediato com medidas correctivas de responsabilização, a desordem cresce dia após dia.

Sabe-se hoje que a degradação do clima na escola progride por estádios, desde a recusa de regras na turma e pouco trabalho, até actos graves de delinquência (agressão a professores, destruição de material escolar), com etapas intermédias de pequenos delitos, comportamentos provocatórios e desafios à autoridade que denunciam uma violência latente.

Ora a pistola de plástico insere-se num estádio intermédio de provocação que prenuncia momentos em que as regras podem passar a ser a dos grupos violentos e intimidatórios, em vez de serem construídas na sala de aula, a partir de um regulamento da escola organizado com a participação de todos.

O ME deveria criar as condições mínimas de funcionamento das salas de aula, dando aos professores força para combater a indisciplina, através da co-responsabilização de docentes, alunos e pais. Para isso o professor, amparado nas estruturas da escola (com particular realce para o Conselho de Turma), deveria ter poder para, de imediato, conseguir actuar no controlo disciplinar. Se o comportamento causador de perturbação for cedo diagnosticado, a medida correctora impõe-se com coerência e será apoiada pela maioria dos alunos e seus pais.

Concretizando: se a escola trabalhar o mais possível com a família, se os professores formarem um grupo coeso - a partir de acções de formação dirigidas à prática pedagógica com turmas heterogéneas e na consequência do trabalho no Conselho de Turma - se os alunos forem ouvidos com respeito sobre o funcionamento desejável na sala de aula, se o comportamento mínimo de indisciplina for logo detectado e respondido com medidas definidas previamente para aquele comportamento, o clima escolar poderá melhorar. Se, pelo contrário, tudo for remetido para o burocrático e aborrecido "Estatuto do Aluno" ou para o Ministério Público (não se vislumbra, até agora, qualquer sucesso na prometida e muito propagandeada acção desta estrutura), nada poderá melhorar.»

Sobre este assunto já escrevemos:
Intervir contra a indisciplina I
Brincamos mesmo
País de brincalhões

Ainda a propósito:
O exemplo e o preceito
Em casa
Complexos de esquerda = facilistismo
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação
Escola ideal é diferente da escola real

Bofetadas e riscos de ingratidão
Bofetadas e riscos de ingratidão B
Razões da greve de que ninguém fala
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira

Elementos sobre o estado da Escola Pública 10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)

Fomentos da indisciplina [quando o exemplo não vem de cima]
Elementos sobre o estado da Escola Pública 1: condições de trabalho
Elementos sobre o estado da Escola Pública 7: violência camuflada I
Elementos sobre o estado da Escola Pública 9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
Elementos sobre o estado da Escola Pública 12: violência camuflada II
Elementos sobre o estado da Escola Pública 13: violência camuflada III
Elementos sobre o estado da Escola Pública 15: Violência (des)camuflada IV

Não há enquadramento legal