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quinta-feira, agosto 24, 2017

Respeitem-se os limites de segurança no Aeroporto da Madeira

O Boeing 727-200, que se despenhou em 1977 em Santa Cruz, não deveria ter operado na pista de Santa Catarina, mas a Boeing e a TAP arriscaram... como se quer arriscar agora baixar os limites de vento

Notícia do Diário de 11.08.2017 deu conta que diversas entidades serão ouvidas pela Autoridade Nacional de Aviação Civil sobre a eventual alteração dos actuais limites de vento no Aeroporto da Madeira. Uma das partes que a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) auscultará são os fabricantes dos aviões.

Conforme informava o Diário de 15.10.2017, os limites dos ventos constantes do AIP (Publicação de Informações Aeronáuticas) foram estabelecidos nos anos 60, mas Luís Ribeiro, presidente da ANAC, enfatiza que os mesmos "têm provado a segurança da aviação civil na utilização do aeroporto." Assim, perante as pressões que surgem dos quadrantes político e económico na Madeira, para baixar os níveis de segurança quanto aos ventos, alerta: "não é de forma leviana que podem ser alterados ou apenas porque causam transtorno."

Na reunião sobre a operacionalidade do Aeroporto da Madeira, realizada pela 2.ª Comissão de Economia, Finanças e Turismo (4.12.2017), na ALM, Luís Ribeiro «explicou que o principal problema está na direcção e na intensidade do vento na cabeceira da pista do aeroporto, situação que causa turbulência e acaba por impedir o normal funcionamento nas aterragens e descolagens dos aviões. Mas, não é qualquer vento nem qualquer intensidade que provoca a turbulência. "O relevo da ilha impõe determinadas características ao vento que pode dificultar a aproximação da aeronave e é nisso que nos focamos quando se fala em alterar ou não os limites"» (Diário impresso 5.12.2017). Assegurou ainda que "não haverá decisões políticas" nesta matéria. Será sim "uma decisão técnica tomada pela ANAC".

No mesmo jornal (versão online 4.12.2017), refere-se que a «infraestrutura é a única do país em que os limites de vento, fixados em 1964, são mandatórios e não recomendados». Pensamos que por alguma razão os técnicos assim o decidiram na época. E reitera Luís Ribeiro: «"não seremos afectados por questões políticas".» Salientou por outro lado, que «em todo o processo de reequacionamento dos limites de vento no Aeroporto da Madeira o "foco principal" será sempre a segurança da operação.» Esperemos que assim seja, de facto.

O Aeroporto da Madeira «tem as suas particularidades e os seus desafios muito sérios», disse Miguel Silveira, comandante da TAP, professor universitário de Aeronáutica e presidente da Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea, na audição parlamentar da Comissão Especializada Permanente de Economia, Finanças e Turismo sobre a "avaliação da operacionalidade do Aeroporto Internacional da Madeira Cristiano Ronaldo, conforme notícia do JM (20.2.2018).

Na sua opinião, a «operação naquele aeroporto deve ser encerrada [em condições meteorológicas abaixo dos mínimos impostas pela Autoridade Aeronáutica], caso contrário estaremos perante uma possível pressão psicológica que seja quase um convite ao não cumprimento da regulamentação» porque, indicou, «as limitações existem para tornar a aviação naquilo que ela é, um dos poucos sistemas ultra seguros no mundo». E alertou: «se nós deixarmos alguns destes fatores ao critério de um comandante, somos capazes de estar no caminho da asneira.»

Enretanto, o actual presidente executivo da TAP, Antonoaldo Neves, segundo entrevista no Expresso (8.9.2018), está contra as alterações dos limites de vento no Aeroporto da Madeira. «Nem pensar. podem até mudar a lei e aumentar ou eliminar os limites de vento para levantar voo ou aterrar no Aeroporto Cristiano Ronaldo, mas a TAP vai continuar a respeitar os limites actuais

Explica que «é muito arriscado» e que «não adianta ter essa discussão sobre cancelamentos na Madeira no que diz respeito a questões meteorológicas. É uma irresponsabilidade tratar o assunto dessa forma, a TAP não vai entrar nesse jogo»

E aponta factos. «Conversei com os meus pilotos, conversei com os pilotos da Airbus... isso é retórica. Houve uma pessoa que veio aqui dizer-me que "em média os ventos este ano foram mais baixos que no ano passado". Uma pessoa que pensa a aviação em médias vai causar um acidente catastrófico. O que importa é o vento no pico, que derruba o avião. A média do vento não quer dizer nada, toda a média é burra. As pessoas estão a tratar deste assunto sem seriedade. A TAP não negoceia com a segurança

O deputado (ex-secretário regional da Economia, Turismo e Cultura) Eduardo Jesus, em artigo de opinião de 13.12.2017, no Diário, defende a revisão dos limites de vento por terem mais de meio século, a pista ter sido ampliada, ter ocorrido uma evolução tecnológica e se tratarem de limites excepcionais. Ora, a passagem dos anos nada tem a ver com subestimar os limites de vento. A ampliação da pista, pelo que consta, colocou outros desafios em termos de ventos. A evolução tecnológica não garante uma vitória sobre ventos fortes e cruzados. A excepcionalidade foi e continua a ser motivada pelas condições excepcionais do Aeroporto da Madeira e não uma razão para pôr em causa as razões de tal excepcionalidade. Como se fosse possível ter sol na eira e chuva no nabal, Eduardo Jesus declara que, «em circunstância alguma, deve significar diminuição da segurança das pessoas e dos bens». Ora, esperamos que as entidades públicas, mandatadas pelo Povo, zelem por essa segurança, antes de tudo.

Ora, recordemos o que se passou com a Boeing no trágico acidente com o 727-200 da TAP, em 19 de Novembro de 1977, na Madeira (vídeo 1: reportagem da RTP; e vídeo 2: reportagem da SIC). Será que a segurança foi o «foco principal», isto é, devidamente acautelada?

«Outro dos pontos de acusação contra a Boeing era um relatório de 1970 da Associação de Pilotos de Linha Norte Americanos. O documento defendia que o Boeing 727 não deveria operar, por razões de segurança, em pistas com comprimento inferior a 2.200 metros. O Aeroporto de Santa Catarina na Madeira tinha, na altura (em 1977) apenas 1.600 metros» (aos 21m e 36s da reportagem da RTP).

O comandante Carlos Nunes, Assessor de Segurança da TAP, refere na reportagem da RTP: “quando nós pusemos o Boeing 727-200 a operar no Funchal foi com a concordância da Boeing. A Boeing considerou, feitos os estudos, que o avião tinha todas as condições para operar naquela pista, naquelas condições.”

Só após o acidente é que a TAP, contra os estudos da Boeing, resolveu deixar que esse tipo de avião operasse para a Madeira. Foi preciso a desgraça acontecer.

Sabe-se ainda que, quando há interesses/pressões em jogo, os estudos são amanhados para se atingirem os objectivos pretendidos... E aqui está o problema. Na dúvida se uma eventual baixa dos limites de vento se deverá a estudos técnicos sérios ou às pressões, é melhor deixar tudo como está.

O que as imagens documentam neste vídeo, com aterragens no Aeroporto da Madeira, é dentro dos actuais limites de vento estabelecidos... A ANA- Aeroporto de Portugal refere serem procedimentos especiais, o que se compreende tendo em conta que é um aeroporto especial.

Imagine-se se as actuais pressões políticas, e outras, para baixar os níveis de segurança, têm sucesso... e pilotos passam a arriscar mais, como arriscou o piloto em 19 de Novembro de 1977, em que, pela terceira vez, fez o avião à pista do Aeroporto de Santa Catarina sob chuva intensa. Na primeira tentativa já as pessoas vomitavam, recorda um passageiro desse voo trágico de há 40 anos.

Sentir-se-á seguro se baixarem os níveis de segurança, por mais que o justifiquem? Mesmo que se baixam, tecnicamente e não política ou administrativamente, os actuais limites dos ventos, será que compensa o incómodo causado aos passageiros pela maior instabilidade sentida no avião e por tentativas sucessivas (teimosas) de aterragem? Já é terror suficiente aterrar dentro dos limites actuais. Aumentar o incómodo e os riscos de acidente num aeroporto já complicado, muito mais gente terá terror de aterrar na Madeira.

Critica-se ainda os pilotos que decidem nem se fazer à pista perante certa intensidade de vento (opção de segurança que implica mais custos para as companhias, está claro), e parece querer-se pressioná-los a se fazerem à pista "à força". Como? Baixando os limites de vento. Mesmo que haja um acidente, o «crime compensa», economicamente, por todos os voos que conseguirem aterrar fora dos limites actuais de vento. Embora para uma Ilha turística fosse catastrófico. Mas, quem morre ou fica estropiado é um mero azar ou efeito colateral. Economia e política sem ética, que não priorizam a segurança e saúde das pessoas e que julgam poder enganar toda a gente.

Em matéria de segurança é preferível pecar por excesso do que por defeito. A segurança é um princípio sagrado. É tirar partido do aeroporto do Porto Santo quando o da Madeira está inoperacional (com os actuais ou outros limites de vento mandatórios ou recomendados). Esta solução viria a ser suportada pela Ordem dos Engenheiros, conforme 1.ª página do JM de 18.2.2018, com a manchete «Porto Santo é alternativa».

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Actualizado em 8.9.2018

(fonte da imagem)

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