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quinta-feira, agosto 24, 2017

Respeitem-se os limites de segurança no Aeroporto da Madeira

O Boeing 727-200, que se despenhou em 1977 em Santa Cruz, não deveria ter operado na pista de Santa Catarina, mas a Boeing e a TAP arriscaram... como se quer arriscar agora baixar os limites de vento

Notícia do Diário de 11.08.2017 deu conta que diversas entidades serão ouvidas pela Autoridade Nacional de Aviação Civil sobre a eventual alteração dos actuais limites de vento no Aeroporto da Madeira. Uma das partes que a ANAC auscultará são os fabricantes dos aviões.

Ora, recordemos o que se passou com a Boeing no trágico acidente com o 727-200 da TAP, em 19 de Novembro de 1977, na Madeira (vídeo 1: reportagem da RTP; e vídeo 2: reportagem da SIC).

«Outro dos pontos de acusação contra a Boeing era um relatório de 1970 da Associação de Pilotos de Linha Norte Americanos. O documento defendia que o Boeing 727 não deveria operar, por razões de segurança, em pistas com comprimento inferior a 2.200 metros. O Aeroporto de Santa Catarina na Madeira tinha, na altura (em 1977) apenas 1.600 metros» (aos 21m e 36s da reportagem da RTP).

O comandante Carlos Nunes, Assessor de Segurança da TAP, refere na reportagem da RTP: “quando nós pusemos o Boeing 727-200 a operar no Funchal foi com a concordância da Boeing. A Boeing considerou, feitos os estudos, que o avião tinha todas as condições para operar naquela pista, naquelas condições.”

Só após o acidente é que a TAP, contra os estudos da Boeing, resolveu deixar que esse tipo de avião operasse para a Madeira. Foi preciso a desgraça acontecer.

Sabe-se ainda que, quando há interesses/pressões em jogo, os estudos são amanhados para se atingirem os objectivos pretendidos... E aqui está o problema. Na dúvida se uma eventual baixa dos limites de vento se deverá a estudos técnicos sérios ou às pressões, é melhor deixar tudo como está.

O que as imagens documentam neste vídeo, com aterragens no Aeroporto da Madeira, é dentro dos actuais limites de vento estabelecidos... A ANA refere serem procedimentos especiais, o que se compreende tendo em conta que é um aeroporto especial.

Imagine-se se as actuais pressões políticas, e outras, para baixar os níveis de segurança, têm sucesso... e pilotos passam a arriscar mais, como arriscou o piloto em 19 de Novembro de 1977, em que, pela terceira vez, fez o avião à pista do Aeroporto de Santa Catarina sob chuva intensa. Na primeira tentativa já as pessoas vomitavam, recorda um passageiro desse voo trágico de há 40 anos.

Sentir-se-á seguro se baixarem os níveis de segurança? Já é terror suficiente aterrar dentro dos limites actuais... Aumentar os riscos de acidente num aeroporto já complicado, muito mais gente terá terror de aterrar na Madeira.

Critica-se os pilotos que decidem nem se fazer à pista perante certa intensidade de vento (opção de segurança que implica mais custos para as companhias...), e quer-se pressioná-los a fazerem-se à pista "à força". Como? Baixando os limites de vento... Mesmo que haja um acidente, o «crime compensa», economicamente, por todos os voos que conseguirem aterrar fora dos limites actuais de vento... Quem morre ou fica estropiado é um mero azar ou efeito colateral. Economia sem ética, que não se importa com segurança e saúde das pessoas e que julga poder enganar toda a gente.

A solução não é baixar, administrativamente, os níveis de segurança, um princípio sagrado. É tirar partido do aeroporto do Porto Santo. Em matéria de segurança é preferível pecar por excesso do que por falta.

(fonte da imagem)

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