«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE
Mostrar mensagens com a etiqueta Leituras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leituras. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, abril 16, 2019

«A filha da mãe»: memórias da passagem à idade adulta


O relato de memórias anterior, História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar (Chiado Editora, 2016), deixou em aberto uma sequela, cobrindo a fase mais pulsante e vibrante da vida do narrador-personagem, ou de qualquer pessoa, que é a juventude e a entrada na idade adulta.

A continuação da história faz-se com A filha da mãe - os pedacinhos que faltavam (Chiado Editora, 2018), que traça a memória de uma época, de uma viagem iniciática, de um retorno às origens e da passagem à vida adulta. E do primeiro grande amor. São ingredientes que permitem a construção de uma narrativa fluída e estimulante. Há vidas que dão um livro. O relato pelo narrador-personagem faz-se na primeira pessoa, em coerência com o facto de ser um testemunho pessoal com sensibilidade e ternura.

«Esta era, sobretudo, uma viagem de reconhecimento, um afundar dentro de mim para descobrir quem era ou queria ser» (p.50). Portanto, um processo de auto-indagação, de escolhas e definição de uma identidade. A viagem no mundo remete para um percurso interno: «tinha necessidade de ser eu, autêntica, honesta comigo mesma sem incomodar o resto do mundo» (p.76). Ainda por cima sem as figuras tutelares (pais) presentes: «agora estava por minha conta» (p.64).

Depressa percebeu que a liberdade e a autonomia tinham um preço. «Compreendi que estava só, finalmente era dona do meu nariz, mas essa liberdade tinha os seus custos. Habituada a andar de "muletas", agora devia aprender a andar solta e suportar os tropeções e quedas que fossem necessárias, esconder as nódoas negras e enxugar as lágrimas sem ajuda» (p.67).

A protagonista tinha outras ambições, era um espírito livre e inquieto, não queria viver segundo uma receita. «[P]recisava ver algo mais do mundo. Precisava conhecer outras pessoas, outros modos de vida»; «queria ver mais, a vida não se podia resumir a crescer, casar e ter filhos» (p.58). «Agora, na ilha, convivia com rapazes, mas não pensava neles como futuros maridos, éramos amigos e divertíamo-nos juntos» (p.63).

Maria Cecília, recorde-se, viajara para a Venezuela aos seis anos de idade, em 1955, deixando para trás o Jardim do Mar, uma ilha dentro de outra ilha, a Madeira. Em 1973, nas vésperas da Revolução em Portugal, regressou à terra de origem. É este o ponto cronológico em que arranca a nova narrativa, que contém algumas analepses, que dão conta de episódios anteriores à viagem, como a recusa dos pretendentes ou a experiência de trabalho, que são importantes para moldar a personagem e compreender o presente.

Embora as suas raízes estivessem na Ilha, tinha crescido na América do Sul, noutra cultura. Por isso, o choque com algumas formas de ser e estar da aldeia é inevitável. «Eu era um híbrido, tinha a rudeza da ilha por herança e a alegria e o ritmo da terra tropical recebida de graça» (p.27). Por conseguinte, não era fácil lidar com esses dois pólos antagónicos, entre os quais a protagonista vai «encontrar o seu rumo» e identidade, com os seus dilemas e dores.

No entanto, na aldeia, dançava-se ao som das músicas modernas como o Je T'aime,...Moi Non Plus, na versão de Serge Gainsbourg com Jane Birkin (1969), que foi proibida em Portugal na época. Era um sinal de abertura aos novos tempos, em contraponto com o conservadorismo de valores e costumes dominante naquela localidade e no país. Essa abertura seria potenciada pela Revolução de 1974. E a chegada da televisão.

Com a revolução, a abertura ao conhecimento através da organização da biblioteca, a criação de uma cooperativa e o trabalho voluntário de serviço social. A casa da protagonista tornou-se um centro de encontro, baile e convívio. As circunstâncias vieram ditar também mudanças internas. «Os ventos de Abril não trouxeram apenas a liberdade para o país, acompanhando essas mudanças, eu própria mudava também» (p.112).

O relato das mudanças na aldeia e no interior da protagonista culminam com a vivência do primeiro grande amor, numa «noite de Setembro, com a lua em quarto crescente»: «e atirei-me como se atira um equilibrista, sem rede», porque «não me podia permitir deixar de viver essa felicidade» (p.145). E a felicidade daquela paixão foi vivida (confieso que viví) precisamente porque houve entrega.

A filha da mãe termina como um novo desejo de mudança e a saída: «o tempo passado na ilha foi necessário para o meu crescimento», mas a «ilha maravilhosa parecia-me pequena, as altas rochas me asfixiavam, tornavam-se redutoras» (p148).

Cá esperamos pelos «pedacinhos» que ainda faltam.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

Essa outra coisa é que é linda

Prazeres, Calheta, 31.12.2017

«Um texto pode ser lido em dois níveis diferentes: o nível da história, acessível a qualquer um, e o nível filosófico. Esta duplicidade explica o funcionamento de O Nome da Rosa, a tal ponto que foi feito um filme que assenta apenas no primeiro nível»—Umberto Eco (Expresso 20.2.2016).

É esse nível denominado de filosófico que permite aceder a outra dimensão, a outra profundidade, a outra riqueza do texto e da vida. Que tem algo para desocultar, descodificar, que nos dá a contemplar algo mais, mais especial e subtil, que constitui uma ponte para a aventura do pensamento, isto é, para uma vastidão de liberdade e estímulo para a mente.

Pessoalmente, um texto tem de me provocar e catapultar para o filosófico e o poético. Tem de ter o poder de me enriquecer e transformar e não apenas me entreter (prazer estético). Tem de me conceder horizontes. Tem de me transportar além do imediato e fazer transcender a mesmice quotidiana. Tem de possibilitar transcender-me. Como escreveu Pessoa, «Tudo o que sonho ou passo,/ O que me falha ou finda,/ É como que um terraço/ Sobre outra coisa ainda./ Essa coisa é que é linda.»

Essa outra coisa, mais além, é que é linda. Isto sem menosprezar o valor do entretenimento e do interesse ao «nível da história» (enredo), que também sei reconhecer e valorizar. Contudo, o que a história possibilita e como é contada faz (toda) a diferença.

quarta-feira, dezembro 07, 2016

«História em pedacinhos»: memórias de vida vivida

photo nelio sousa (2016)

As memórias de infância, adolescência e entrada na vida adulta de Maria Cecília deram um livro: História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar (Chiado Editora, 2016). O seu percurso assegura um bom enredo à história de vida, luta, sobrevivência e procura da felicidade, que nos é contada. Uma história que é também de descoberta do mundo. Um tempo iniciático para o narrador-personagem protagonista. E, por tudo isso, espelhando aspectos da condição humana, lhe assegura uma dada universalidade. Um relato metido na vida, orgânico, visceral.

Esta compilação de memórias, momentos e emoções, decorrente de um testemunho pessoal terno, querido e sensível, é dedicada aos seus pais e dirigida/oferecida aos irmãos, que «eram muito pequenos para se lembrarem.» O que leva à epígrafe do livro com a frase de José Saramago de A viagem do elefante: «O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há debaixo delas.» O testemunho de Maria Cecília materializado em livro representa esta segunda atitude face ao passado, bem como o resgate deste à inexorável passagem do tempo e ao esquecimento.

A História é apresentada na forma de pequenos capítulos («pedacinhos» - diminutivo revelador de afectuosidade), com um título e subtítulo bem escolhidos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar é uma frase que sintetiza o conteúdo e a ambiência. A narração dos acontecimentos, que impelem a acção, é entremeada com capítulos descritivos de pessoas, lugares e eventos. Uma estratégia eficaz de organização da narrativa encontrada pela autora. São quadros ou mosaicos que se vão sucedendo. As descrições permitem-nos aceder ao caldo sócio-cultural (contexto) e funcionam como uma pausa benigna da acção, isto é, do corpo principal do livro composto pelos retalhos da vida de uma família, parafraseando uma obra de Fernando Namora.

O leitor é induzido a compartilhar das experiências, pensamentos e sentimentos da personagem protagonista (na dedicatória, entrega o protagonismo à sua «mãe, a protagonista destas histórias» - p.5). Este narrador-personagem faz parte da história e narra-a na primeira pessoa, com a alma encostada ao que conta. Quando o narrador acumula funções de personagem, é marcado pela subjectividade em relação aos factos ocorridos, sendo assim uma narrativa parcial, por constituir-se o único ângulo de visão. O leitor é, assim, conduzido pela história pela mão (ponto de vista) da personagem.

A narrativa desenrola-se com fluidez, ritmo e expressividade. As memórias são-nos contadas com vida e cor, visceralmente, sem rodeios ou subterfúgios. Uma partilha parcial, mas que é autêntica. Esta narrativa testemunhal, por força das muitas mudanças, imprevisibilidade e fuga ao convencional percurso sedentário, oferece uma intriga que agarra o leitor: «Bem dizia minha mãe que tinha vida de ciganos. Já mudámos outra vez de casa» (p.153).

A linguagem é simples, sóbria, directa, concisa, como convém que seja. Neste âmbito mais formal (de estilo, ao nível do pormenor), uma nota quanto ao uso do ponto de exclamação, que se poderia dispensar, excepto nos casos em que um personagem gritasse algo, no contexto de um «diálogo», ou se deparasse perante um «perigo físico eminente ou uma grande surpresa» (Mittlelmack, H. e Newman S., 2012, Como não escrever um romance, p.105, Lisboa: Pergaminho). Mesmo nestes casos, pode ser dispensado, porque este sinal de pontuação é um obstáculo gráfico, cuja verticalidade o faz converter-se num muro visual no final de cada frase. Portanto, a sua utilização só em caso de extrema necessidade enfática, em que compense o "dano" visual, uma espécie de lomba de controle de velocidade na leitura.

As palavras têm força por si mesmas, independentemente da pontuação ou «outras convenções tipográficas utilizadas para dar ênfase», como itálicos, maiúsculas, negrito, travessões para intercalar frases, também a usar «muito raramente ou nunca» (idem) - opção que se verifica, e bem, por parte de Maria Cecília quanto a essas convenções. A ideia é não distrair o leitor e garantir a fluidez da leitura. Há algumas pequenas gralhas, o que acontece mesmo nos livros de autores consagrados, que facilmente se colmatam numa segunda edição.

Refira-se ainda que as três citações da poesia de Manuel Alegre, do livro Um barco para Ítaca (1971), nas páginas 16, 76 e 86 de História em pedacinhos, a meio da narrativa, embora pertinentes na ilustração, corroboração, reforço ou validação de sentido e emoções, não acrescentam algo de significativo e podem desviar o leitor do que está a ser contado. A não serem dispensadas, as citações funcionariam melhor como epígrafe, como no último capítulo (p.135), citado da mesma obra do referido poeta, ou então metido na própria prosa, sem ficar visualmente destacado e sem hiato gráfico.

Não há diálogos. Tudo nos é dado através do discurso indirecto, pelo narrador-personagem, com um olhar atento, inteligente e sensível. O diálogo implicaria não cingir-se aos factos e às memórias e entrar na ficção, com prejuízo para a exactidão, objectividade e fiabilidade. Lá se ia o efeito de realismo e verosimilhança. Assim, o travessão, como indicador de fala, de citação de palavras de alguém, de uma frase pontual de um diálogo não expresso na totalidade neste livro, surge apenas quatro vezes: páginas 15 («— Será por dois anos, o suficiente para arranjar algum dinheiro para melhorar a nossa vida e fazer uma casinha»), 17 («— Olha ali. É aquele. O da camisa amarela.»), 31 («— vaidoso —») e 124 («— trocou a sua mãe verdadeira por uma madrasta?»).

O relato, um legado que deixa à família e aos leitores em geral, tem ainda interesse e valor social pelo facto de testemunhar e ilustrar o fenómeno da emigração, e os dramas associados, cenário e motor da narrativa - despoleta um conjunto de acções, que se encadeiam: diálogo diegético. Viagem, mudança, saudade e regresso são palavras recorrentes. Refere as «viúvas de marido vivo», mulheres que ficavam na ilha enquanto os maridos lutavam pela vida no estrangeiro, eles que, por vezes, as esqueciam e abandonavam, fazendo jus ao ditado longe da vista, longe do coração. Sublinha ainda o sentir-se «sempre estrangeiro» («humilhou-o pelo facto de ser emigrante» - p.70) e o «coração partido ao meio» (p.71) de quem emigra.

Apesar de a pobreza ser o drama que conduz milhares para a emigração («à procura da vida que a sua própria terra lhe negava» - p.15), nem tudo são espinhos na terra-mãe. Há aspectos idílicos, felizes e saudosas tradições. A emigração tem também aspectos positivos, ao proporcionar oportunidades de evolução e abertura civilizacional, pelo contacto com uma nova cultura e valores. Estes geralmente desafiavam os valores que os ilhéus levavam de uma terra marcada pela miséria material, cultura cristã (católica) conservadora e atraso de mentalidades - era um tempo marcado por um elevado analfabetismo. Tudo é retratado por Maria Cecília, a partir das suas memórias ou do que lhe foi directamente relatado por outros.

Nota-se, porém, um conflito entre a saudade de aspectos desse tempo mais primitivo, mais autêntico, simples e feliz e a recusa, e até repulsa, de aspectos opressivos desse passado (século XIX e primeira metade do século XX). A evolução e a modernidade trazem abertura e melhoria na qualidade de vida mas aceleram e sacrificam também algumas vertentes favoráveis desse modo de vida mais essencial, com um ritmo de vida mais lento e amigo da pessoa humana, mais ligado à natureza e à cultura genuína e local.

A narrativa inicia-se com dois breves textos, sem título, que constituem um prólogo, na terceira pessoa (a restante narrativa faz-se na primeira pessoa), sobre o momento presente (passado recente) em que se fala de alguém prestes a cumprir sessenta anos. Os dados biográficos sobre a autora, no interior da capa do livro, permite que os cruzemos com a narrativa. Sabemos que concluiu o ensino secundário aos cinquenta e nove anos. Fala dessa importante experiência neste texto inicial, bem como da ambição de fazer um curso universitário, em virtude do seu permanente desejo de conhecer.

Viajou para a Venezuela aos seis anos de idade, em 1955, deixando para trás o Jardim do Mar, uma ilha dentro de outra ilha, a Madeira. Em 1973, nas vésperas da Revolução em Portugal, regressou às origens. Naquele país, note-se, já tinha vivido o golpe de Estado de 1958, que pôs fim à ditadura do general Marcos Pérez Jiménez, mudança que viria a marcar, então, o percurso de vida da sua família.

Nessas cinco páginas iniciais, é saliente a importância de ser-se reconhecido e apreciado. Quando se não o é, o sonho e a criança interior e, sobretudo, a escrita, são contrapontos luminosos. E quando a escrita merece publicação e boa recepção, ambos sinais de reconhecimento público além da realização pessoal, como no caso de História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, a luminosidade intensifica-se.

O narrador-personagem, após os dois referidos textos introdutórios, assume-se na primeira pessoa quando inicia o relato das suas memórias, precisamente no momento marcante da chegada à Venezuela e do encontro que permite conhecer o pai: «É aquele. O de camisa amarela» (p.17). O nome da terra de origem («pequena ilha perdida no Atlântico» - p.15) e de destino («à beira do mar das Caraíbas» - p.21) não são expressas, mas diversas referências ao longo da narrativa permite identificar, indirectamente, esses espaços. O adjectivo «venezuelana» surge na página 86. O nome «Madeira» é expresso perto do final do livro, na página 143. As referências temporais não chegam à menção dos anos. É deixado algum esforço de decifração ao leitor, que assim se centra mais no conteúdo do relato do que nas balizas espácio-temporais. Manter a narrativa limpa e fluída é a opção correcta.

Logo após o arranque da acção, com a chegada à «terra nova», surge o primeiro capítulo descritivo, expediente para dar o contexto da «aldeia onde nasceram» os pais e o próprio narrador-personagem. É a perspectiva desta personagem baseada na observação e conhecimento que tem da terra natal.

O capítulo seguinte («Mulheres da aldeia»), também descritivo, dá conta do peso da tradição e das raízes. A mãe será, no novo país, a guardiã rigorosa da manutenção desses valores, mais conotada com o medo da mudança: «nunca nos atrevêssemos a desrespeitar as leis do Senhor» (p.40). O pai («Mr. Atlas» - p.31) revela maior abertura à cultura e valores da «nova terra», nomeadamente no cuidado com a sua forma física («era amante de culturismo» - p.31) e aspecto físico («vaidoso - dizia a minha mãe»), o que era muito moderno nos anos 50.

A este respeito, note-se que, na ilha de origem, a energia e o tempo eram canalizados para o trabalho na terra, e qualquer gasto visando a estética, a boa forma física, a saúde, bem-estar ou a prática desportiva era encarado como vão e um desperdício. Chegava a ser ofensivo. É algo perfeitamente compreensível, porque a prioridade era outra: assegurar o pão para a boca. A pobreza e a dura luta pela sobrevivência não se compaginavam com actividades ociosas e improdutivas. Daí o desprezo pelo conhecimento e pela escola, que ainda hoje se faz sentir, apesar da escolaridade obrigatória. Tanto cá como, então, nos países de emigração, «raramente mandavam os filhos para a escola» (p.145).

A passagem «o meu pai fazia questão de nos mostrar a modernidade daquele país» (p.43) prova o fascínio e adesão a essa modernidade por parte da figura paterna. O capítulo «Cinema» é significativo por representar o moderno, «novo» e «emocionante», em total contraste com a aldeia remota e sem luz eléctrica. Para nem falar de outras Luzes de afirmação da liberdade individual. Não admira que o cinema tenha sido uma «descoberta maravilhosa». E, como se não bastasse de emoção, a noite de cinema terminava como um «delicioso gelado na geladaria Tomasseli» (p.44).

O capítulo «As mulheres da minha aldeia», entre outros, ilustram e caracterizam uma mentalidade e modo de vida, que tem tanto de bucólico como de muito conservador, em contradição com o novo país para onde a família emigrou. O padre da aldeia «fez a minha mãe jurar que havia de aceitar todos os filhos que Deus lhe quisesse dar» (p.39) e ela «cumpria fielmente a sua promessa: havia de receber com alegria todos os filhos que Deus lhe desse (p.59).

Quanto ao pai, «não estava nos seus planos ter uma grande família». Por essa razão, «não ficou muito entusiasmado ao saber da nova gravidez da minha mãe, [...] pois isso iria dificultar um pouco a possibilidade de construir fortuna. Ela ficou muito ressentida, creio que nunca lhe perdoou por isso» (p.58). Anos mais tarde, e apesar das questões de saúde da progenitora, a «minha mãe está esperando bebé novamente. O meu pai já não se incomodava.» «Habituámo-nos a este ritmo de nascimentos» (p.80). Consequentemente, «agora éramos oito» [filhos] (p.158). A mãe tinha quarenta e três anos quando teve as últimas duas filhas: «e por aqui ficou...» (idem).

Certos valores e costumes da ilha de origem são conotados com a «época medieval» face aos valores dos «anos sessenta, na época do amor livre, a Guerra Fria e a mini-saia» (p.144). Recorde-se que, ao longo de quase três séculos (1536-1821), sim, quase três séculos, a Inquisição foi uma das instituições mais temidas em Portugal, em que nenhuma heresia escapava ao Santo Ofício, tribunal eclesiástico, para garantir uma fé católica com elevado grau de pureza (radicalismo). Milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas e mortas na fogueira. Marcas que ficaram entranhadas na mentalidade.

Nos países para onde emigravam, muitos conterrâneos viviam uma «vida de trabalho e privações, sem nenhum tipo de beleza ou distracção» e, insistimos, «raramente mandavam os filhos para a escola» (p.145). Por isso, a «grande parte destes emigrantes tinha parado no tempo»: «as suas mentalidades não evoluíam, uma vez que tão pouco assimilavam as particularidades da cultura do país em que viviam e continuavam a defender valores obsoletos», muitos deles, entretanto, «já em desuso na sua própria terra» (p.146) de origem (a ilha). O analfabetismo, a pobreza, certos valores e costumes faziam estes emigrantes «acanhados» (idem).

Para a personagem protagonista e a sua família, decorrente das vicissitudes da vida, o «percorrer de estradas [do novo país] abriu-lhes horizontes e fê-los conhecer melhor a realidade da terra de adopção. «Nunca sentimos falta de liberdade, pelo contrário, a capacidade de sonhar e as frequentes mudanças faziam de nós pessoas bastante mais livres do que a maioria» (p.149). As viagens e as experiências têm impacto transformador e pedagógico para lidar com o desconhecido e a incerteza. Caminhar no mundo é também caminhar «dentro de si», como escreveu José Tolentino Mendonça (crónica "Viajar": Revista E, de 9.8.2014). Deslocar-se no território implica sempre uma «mudança de posição» e «ângulo» de visão («novo olhar»), bem como estimula capacidades de adaptação a lugares e culturas diversas.

O poema "Ítaca" do poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933), citado por José Tolentino Mendonça na referida crónica, diz tudo sobre o lado positivo e a riqueza do percorrer o mundo, mesmo que as razões da partida, no caso da emigração em nome da sobrevivência, não sejam as mais felizes: ... «[...] Não te apresses nunca na viagem./ É melhor que ela dure muitos anos,/ que sejas velho já ao ancorar na ilha,/ rico do que foi teu pelo caminho,/ e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.// Ítaca deu-te essa viagem esplêndida./ Sem Ítaca, não terias partido./ Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.»

A família deixou a ilha e viajou, para e pela «nova terra», durante muitos anos, que permitiu colher a experiência de vida «pelo caminho», interagindo (contaminando-se) com as suas gentes e cultura: os «frutos» daquele país «tinham um paladar delicioso e novo. Como tudo o resto» (p.29). E todo o caminhar se constituiu numa riqueza pessoal acumulada.

Isto embora sempre "presos" à tradição e costumes da aldeia longínqua, no espaço e no tempo, em especial através da figura materna: «extrema religiosidade da minha mãe» (p.124). Contudo, a religião católica lhe servia de referencial de valores e «apoio enquanto criava os filhos sozinha», permitindo-lhe «manter o controlo» e dando-lhe «segurança» (p.125).

A jovem narradora-personagem foi-se rebelando perante essa tradição, confrontada com novas realidades e valores como o «movimento Hippie», a «mini-saia», as «músicas da moda» (p.150). Ela desejava uma «forma de vida mais liberal e alegre» e não apenas uma vida «regida pelos mandamentos da Lei de Deus e da Santa Madre Igreja»: «e tudo era pecado...» (idem), isto é, castrador. Daí «desafiar a minha mãe e desobedecer propositadamente», o «meu desporto favorito» (p.151).

Os dois últimos capítulos, «A mulher carteiro» e os «Tempos de chá sem açúcar – km4», embora fluam, serão demasiado longos, o que contrasta com a dimensão dos restantes capítulos. Poderiam, pois, ser subdivididos. O penúltimo capítulo, dedicado à mulher que distribuía o correio, poderia ser preenchido apenas pelo conteúdo respeitante à personagem, que ajuda a descrever a cultura e a ambiência da aldeia. O restante conteúdo formaria um outro capítulo autónomo. O capítulo «A minha avó», o antepenúltimo, parece surgir como informação solta e com perda da fluência narrativa. Esta figura familiar talvez beneficiasse mais se a sua referência estivesse num momento anterior ou derramado por vários capítulos anteriores, quando fosse oportuno e pertinente falar sobre ela. São questões de pormenor.

As figuras femininas assumem relevo nestas memórias através de mulheres fortes, densas e de uma identidade e singularidade vincadas. Além da figura materna, temos capítulos intitulados «as mulheres da aldeia», «Fortunata», um dos capítulos mais impressivos, «a minha avó» e «a mulher carteiro». Todas são originárias da aldeia na ilha. Todavia, as figuras masculinas não ficam atrás. Interessantes e relevantes de um outro modo, são leves, abertas, luminosas, progressistas e surgem no contexto da «nova terra»: «Mr. Atlas», o pai (já estava no novo país), «o meu primeiro amor», Joseíto, o «pintor» Armando Reverón e o finlandês Christos Paabola, a «mais pura manifestação de alegria e generosidade» (p.113). Todos estes homens também chamados a título dos respectivos capítulos. Eles no novo mundo, no continente americano, elas no velho mundo, numa ilha periférica da Europa.

Os tempos de chá sem açúcar dão conta de mais um momento central no percurso da família: o regresso à grande cidade, mais próximo ao litoral: «estávamos de volta ao ponto de partida» (p.141). Este capítulo final contempla tanto a continuidade do enredo como a contextualização através de pausas descritivas e balanço sobre o percurso da família.

Os outros três momentos centrais foram, recorde-se, a chegada à «nova terra» (p.15), o encerramento do hotel do pai («foi o começo de uma série de mudanças» - p.63), numa altura de má economia no país (na sequência do golpe de Estado já referido), a perda do «negócio», o Bar Copacabana (p.77), que, por sua vez, despoletou a mudança para o interior do país, uma «viagem no escuro» (p.85), para a «porta de entrada da Amazónia venezuelana» (p.86), a mil quilómetros de distância.

Este relato de memórias deixa em aberto uma sequela, cobrindo a fase mais pulsante e vibrante da vida do narrador-personagem, ou de qualquer pessoa, que é a juventude e a entrada na idade adulta. Essa abertura para mais relatos fica expressa no final do último capítulo («foi o tempo dos rapazes, mas essas são outras histórias...» - p.158) e no epílogo, que é uma janela (pode ser de «avião») para mais memórias, a serem resgatadas, para o «mundo» («do lado de fora») e a «liberdade».

O soltar do cabelo (retirados os ganchos que o aprisionavam) e o pintar dos lábios são uma metáfora de libertação e de expansão e afirmação pessoais: «agora sou Eu» (p.160). Note-se a maiúscula no pronome pessoal. É mais uma mudança, uma nova viagem iniciática. A «fronteira exterior» reenvia para uma «fronteira interna» (Mendonça, J.T., idem). É a aventura do (re)«nascimento» que não cessa vida fora.

A personagem protagonista «gostava muito de ler» (p.106). E quem lê muito, e tem algo para dizer, acaba por escrever. Neste caso, materializado nesta História em pedacinhos, que é uma realização que muito deve orgulhar a autora. Pela coragem em partilhar e resgatar memórias de vida vivida, pela qualidade de escrita, rebeldia, capacidade de observação, inteligência e sensibilidade. E por colocar alma.

Recorde-se que a sua mãe desejara «escrever um livro» (p.65), o que veio a ser feito por Maria Cecília. Mais não fosse, a transmissão desse desejo e gosto pela escrita bastaria, por si só, para assegurar valor e influência deveras significativas à figura materna.

Aguardemos a História em pedacinhos II, com o subtítulo respectivo. Acima de tudo, que a escrita continue a ser um contraponto luminoso na vida da autora. Que a escrita possa também ser uma «casa», o seu «lugar» (p.71) finalmente encontrado, onde Maria Cecília habite e more.

--
Agradeço ao amigo Wilson Silva, ávido leitor, pelas importantes ideias trocadas sobre a História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, bem como pela atenta detecção de gralhas, que é prova de especial talento para ser editor e/ou revisor.

quinta-feira, outubro 13, 2016

No way is the way of freedom

David Bosc
photo origin/copyright

“No way is the way of freedom. People, when they are free, go through all paths” -  David Bosc, escritor francês, sobre Gustave Courbet, em La Claire Fontaine, um retrato do pintor.

terça-feira, setembro 27, 2016

Histórias que mudam vidas

Arturo Pérez-Reverte
photo copyright/origin

«O que eu quero é que me contem histórias interessantes, que me façam reflectir, pensar, sonhar, que mudem a minha vida. Se, quando terminar a leitura de um livro, a minha vida não tiver mudado para melhor, ou é um mau livro, ou eu sou um mau leitor. Um livro que não muda o olhar do leitor é uma merda de livro. E o mundo está cheio de merdas de livros que não mudam nada. São apenas fruto da vaidade onanista de autores que não têm nada para dizer.» «Mas quando um filho da puta que não fez mais nada do que beber copos num bar se atreve a escrever 500 páginas sobre a sua interessante personalidade, vá apanhar no cu!» (Público 16.9.2016: "Escrevo romances em legítima defesa")

Livro que vale mesmo a pena muda-nos a vida. Esta entrevista a Arturo Pérez-Reverte, que fala sem rodeios nem tretas politicamente correctas, pode também ter mudado algo na minha vida...

segunda-feira, setembro 14, 2015

Arte como modo de viver


«Eu não faço da poesia profissão, infelizmente. Infelizmente, porque isso era o que eu gostava de fazer, quer no aspecto profissional, quer no aspecto de entendimento da vida, da relação com a vida. Mas a vida é o que todos nós sabemos, com muitos obstáculos, com muitas crises sucessivas. E portanto é muito difícil.»

Nuno Higino
(Texto em A Página / fotografia: Augusto Baptista em Correio do Porto)

domingo, março 15, 2015

Solidão radical inerente à existência humana

Carlos Castán, autor de «Má Luz» (La Mala Luz), a sua estreia no romance
photo copyright

Não é novidade que nascemos sozinhos, estamos sozinhos e morremos sozinhos. No sofrimento e na alegria estamos a sós com o nosso pensamento e o nosso sentir.

«Solidão radical» é um conceito que surge em Má Luz (La Mala Luz no original), do escritor e professor de Filosofia espanhol Carlos Castán, cujo romance narra uma longa travessia existencial, sobre o desejo e a busca de um sentido para a vida.

A dado momento, lemos sobre a desesperada necessidade de uma «presença próxima para não sucumbir ao pânico» (p60). Logo a seguir, uma personagem refere que, «[n]a realidade, não se pode fazer muito mais. Foi em situações assim que mais claramente vislumbrei a radical solidão de um ser humano, de qualquer ser humano, e a impossibilidade de uma comunicação real. Não há derrame de nervos nem de sangue, não há forma de fazer esse medo sair da jaula. Duas pessoas podem inclusive abraçar-se uma à outra, apertar as mãos com força, mas uma não consegue penetrar no inferno da outra, nem sequer compreendê-lo remotamente. É impossível» (p61).

E continua: «Para além de uma rudimentar empatia que praticamente se esgota na certeza de que o outro sofre, assim, em abstracto, nada há que se possa fazer para se conseguir entrar no pensamento alheio, no medo alheio, e lutar com todas as forças, como muitas vezes quereríamos, contra os fantasmas e as tempestades que ali se acumulam.»

Ideia (facto) que é exemplificada: «É uma profunda e dolorosa verdade aquela visão de Goethe segundo a qual a vida interior seria uma espécie de cidadela fortificada na qual ninguém pode realmente entrar, tão-pouco sair dela, embora às vezes a falsidade da linguagem construa a ilusão do contrário. No meio da noite dois amigos abraçam-se em pijama, despenteiam-se na brincadeira, dizem um ao outro palavras de lealdade e coragem, mas só um deles se rasga por inteiro e treme por dentro, será um apenas que terá suor gelado» (p61).

No fundo, nunca chegamos a conhecer ninguém verdadeiramente, nem mesmo a nós próprios, por maior auto-conhecimento que tenhamos. Procuramos contrariar tal realidade e compreender o outro através da comunicação, de várias formas, mas é sempre insuficiente. Nunca é total, nunca é pleno.

A presença, o abraço, o toque, a palavra de conforto e o amor são a proximidade, a solidariedade e o alento possíveis entre seres humanos. O trabalho e o esforço existenciais são, a tempo inteiro, exclusivamente nossos. Ter esta consciência é importante para se aceitarem tais circunstâncias existenciais e, assim, convocarmos os nossos próprios recursos de sobrevivência: procura de equilíbrio e bem-estar interiores, que pode incluir o recurso a «meios inspiradores».

Dizem-nos que ninguém nos pode salvar a não ser nós mesmos. Em grande medida é verdade. But with a little help from my friends... it might be more comfortable... E esses amigos de que fala este tema (performance de Joe Cocker com emoção e alma, neste caso com tripas e coração) podem também tomar a forma de uma frase, um verso, uma música, uma imagem... que nos podem inspirar e salvar, mesmo que o derradeiro «click» tenha de ser sempre nosso, interior, próprio, solitário, autónomo.

terça-feira, agosto 26, 2014

«O detalhe é sempre mau» (really?)

in «Palavras do Livro do Desassossego» de Bernardo Soares (Fernando Pessoa): Edições Centro Atlântico, com edição de Libório Manuel Silva

Este texto é a parte dois do post anterior intitulado «A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço», que será tendencial para a inteligência consciente, analítica, com uma «lente forte» sobre a Realidade e a Existência.

Quando Fernando Pessoa, ele mesmo um «espírito altamente analítico» e uma inteligência profundamente consciente e meditativa, afirma, através do heterónimo Bernardo Soares, que o «detalhe é sempre mau», dado que «os espíritos altamente analíticos vêem (quase que) só defeitos: quanto mais forte a lente, mais imperfeita se mostra a coisa observada», o que quer dizer?

Antes de mais, é uma frase com que muitas pessoas concordariam. À letra, é como se ele estivesse a dizer algo como «felizes ou bem-aventurados os pobres (humildes, simples) de espírito, porque deles é o Reino dos Céus». Isto é, o bom é não analisar e não ver o detalhe, ficar pela rama, para alguns dominarem a manipularem os simples e humildes... Quem domina não interessa, cá neste mundo terreno passageiro e inferior. O interesse é viver de forma simples para ganhar o outro mundo, o Céu. Esse sim, tem valor (mas nem os crentes, em circunstâncias normais, querem deixar este mundo quando chega a sua hora... e por alguma razão choramos quando um ente querido parte, apesar de ir para o Céu). E assim é mais fácil a aceitação da ordem natural e não-natural das coisas.

Discordo de Fernando Pessoa quanto ao «detalhe» e ao «espírito altamente analítico» ser «sempre mau», porque até o detalhe pode fazer toda a diferença entre talento e o não-talento ou entre a vida e a morte (basta pensar, por exemplo, no trabalho de um cirurgião). Nessa ordem de ideias a inteligência também seria má. Nem Pessoa acreditava nisso. Bem pelo contrário. É um desabafo no sentido de, em certas alturas, desejar não ver tanto detalhe (ter tanta consciência das coisas) que o inquietava. Detalhe como prisão e não como uma forma de liberdade e elevação. Não há bela sem senão. Não há nada perfeito e exacto.

Em certo sentido, seria mais fácil, emocionalmente, não pensar, ver tanto ou ser livre. Recupero o «Feliz o homem marçano» que «tem a sua vida usual, / Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio, / Que dorme sono, / Que come comida, / Que bebe bebida, e por isso tem alegria.» Nada de metafísicas... basta as formas de amparo, consolo, escape e alienação (permitidas) face à realidade existencial, esta que termina sempre na morte.

Quem analisa (está só com os seus pensamentos e lucubrações), faz perguntas (a minha vida não pode ser diferente?) e tem ideias perturbadoras, malucas e perigosas, convém ser integrado num colectivo para que, juntos, todos pensem os pensamentos que todos pensam. Pensamentos normais. Os de sempre. O mesmo. «Sobre o que conversam os cavalos domésticos nas colónias de férias? Eles conversam sobre cabrestos, arreios, carroças, cavaleiros, carroceiros... E, assim, os cavalos selvagens continuam enterrados...», diz Rubem Alves no livro Se eu pudesse viver a minha vida novamente... (Edições ASA, 2005).

A igreja instituição, e aqui não se critica a necessidade da espiritualidade por parte do Homem, que é algo pessoal e íntimo, diz que o humilde e simples será preferido ao sábio que acredita mais em sim mesmo do que em Deus. Consubstancia uma desvalorização do muito saber e da própria vida neste mundo material (uma ilusão) face à transcendência, onde reside o sentido da vida, onde a vida é eterna e não termina na morte. Porque a humildade é uma atitude de submissão (a Deus). A submissão ao dictato divino (e à comunidade/autoridade religiosa) é a chave, para permitir os reinos e os reinados.

E então diz-se que a felicidade do homem se faz com a humildade de espírito e a riqueza das qualidades morais, que o fazem um cordeirinho... Esses humildes têm as riquezas morais e os outros deitam mão às riquezas terrenas, materiais. Uns aproveitam a vida, o momento presente neste mundo, fazem um festim e vivem em pleno, enquanto os outros carregam a cruz para ganhar o outro mundo que há-de vir, o verdadeiro.

Assim, quando se defende que o «detalhe» é mau (um demónio), e que deve ser evitado, pretende-se a malta anestesiada, submissa, controlada. Quem tem olho (vê o detalhe), numa terra de cegos (quem não vê defeitos), é rei. Oliveira Salazar não diria melhor. Não vale a pena saber muito... ou ler certos livros... ou entregar-se a análises que ponham em causa a ordem das coisas... Só faz mal às emoções e atrapalha a felicidade.

E a história de que os espíritos analíticos vêem só defeitos é uma falácia porque vêem mais e melhor tanto os defeitos (negativo) como tudo o resto (positivo). Tudo faz parte da realidade. É claro que ver certos detalhes não dá nada jeito aos poderes (dictactos) e há formas de desmotivar (e até reduzir o autoconceito) desses espíritos dados à actividade detalhística... Para haver menos motivação para lutar contra as injustiças.

A religião organizada ou o comunismo, para dar dois exemplos de certa forma em extremos opostos, têm em comum o preterir desses «espíritos analíticos» individuais, que pensam por si próprios, que são independentes (os tais solitários), e enaltecem o colectivo, o colegial, o comunitário. Nada de solidão contemplativa onde florescem os pensamentos (perigosos). A ociosidade não é declarada como a mãe de todos os vícios? Mais uma vez a questão central da submissão a um dictato (colectivo, neste caso, mas que tem sempre uma cabeça, uma liderança, uma individualidade ou elite), mas como observou Nietzsche, «nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.»

E não se pense que o «detalhista» solitário, isto é, o rebelde, fica impune. Ele não pode vencer, até porque está em desvantagem face ao corpo colectivo - não há exércitos de um homem só. Há custos existenciais para quem resiste e teima em contrariar o impulso/pressão herdado para o conformismo e a natureza social inerente e instintiva no ser humano. Pode fazê-lo sentir rejeição, raiva, ressentimento, amargura, desdém, revolta e, até, misantropia. «Todo o revolucionário é associal, se o impulso for nele um desvio da vida instintiva, e não uma atitude de homem capaz de obedecer e mandar a si próprio», referiu Agustina Bessa-Luís, a respeito da construção da personalidade criadora, in Alegria do Mundo.

A resistência aos conformismos colectivos pode tornar o rebelde em algo ainda mais desprezível do que tenta não ser, porque ele não se revolta apenas face a uma dada sociedade, mas contra algo essencial no ser humano: a sua natureza ou instinto social. Daí a rejeição (o desprezo pelos companheiros) ser um castigo duro.

Mas, também há benefícios, como a autenticidade (verdade) e máxima expressão do eu no mundo. «Sozinho, um homem ganha espessura, em grupo, perde-a — ganha apenas companheiros», lê-se Gonçalo M. Tavares em Uma Viagem à Índia (p. 268, Canto VI - 56, Editorial Caminho 2010, 1.ª edição). A autenticidade e a «espessura» traz paz interior e liberdade. Não será a liberdade algo que faz parte da essência do ser humano? Ser humano é ser livre? Jean-Paul Sartre afirmou: «man is freedom»; «we are condemned to be free». Portanto, a existência é feita de solidão (individualidade) e de socialização (colectivo): cada qual equilibra ou não da forma que se sente autêntico e feliz. O que deve merecer o respeito alheio. O tempo de solidão é encarado como incómodo, infelicidade ou uma atitude anti-social.

Retomando o «detalhe», podemos dar até o benefício da dúvida a Pessoa e pensar que ele está mais preocupado no bem-estar pessoal (e social) dos espíritos analíticos, que se podem cansar, perturbar e inquietar com o muito que vêem, mas não gosto da ideia... Se for o próprio indivíduo a decidir que não quer analisar e ver o detalhe é uma coisa, se forem terceiros a impor se deve ver ou não o detalhe, será algo totalmente inaceitável.

Na verdade, são formas de dominar as massas, pois como defendia o já citado Nietzsche, nada mais terrível do que a supremacia das massas... Ele defendia ainda o tal super-homem (individual), com capacidades acima dos outros, a quem caberia o dever de elevar-se além dos limites estabelecidos pela normalidade. Homem como um deus. Uma blasfémia.

A fragilidade e vulnerabilidade da vida (a omnipotência humana acaba, um dia, por tombar perante a inexorável passagem do tempo, a doença, a crepitude, o sofrimento e a morte) são uma fatalidade e a condição, e ainda a chantagem, implacáveis, para acomodar e conformar o Homem toda uma vida. Tudo acaba, inclusive a tal omnipotência humana, que é aparente e efémera. Mas pode ser aproveitada enquanto dura, porque, no fim, tanto caem (sofrem e morrem) os omnipotentes como os humildes e servis... Porquê viver com medo, acanhado, subserviente, se o sofrimento e o fim são certos, um dia? Com respeito e ciente da nossa pequenez perante o Universo e a Existência, mas sem medo, sem se anular e vivendo/expressando-se na máxima potência da vida.

Apesar de tudo, o detalhe é uma bênção: mesmo que algum desassossego do eu não seja evitado, o detalhe faz a diferença desde que não perturbe a musicalidade (harmonia) necessária ao indivíduo. Só tenho pena de não ver ainda mais detalhe, mesmo que este seja passível de perturbar a felicidade do indivíduo «analítico», quando não consegue evitar a inquietação, os detalhes menores ou acessórios e assegurar a referida musicalidade vivencial.

Triste mesmo é a cegueira (ilusão e aceitação irreflectida), mesmo que o indivíduo seja alegre, tenha maior conforto psíquico e social, e o caminho seja mais fácil e tranquilo, numa vida mecanizada (casa - trabalho - casa - cemitério), ditada por outros e sem espaço para questionamento. É tipo, se soubesses o que custa ver o detalhe, nunca o quererias ver...

Por algum motivo a opção de tirar «jovens sem ocupação de tempos livres, esfregando os rabos pelas esquinas da baixa citadina, fumando “passa” e cultivando angústias existenciais (tão “progressista”!...)», neste caso por via da actividade desportiva. E poderia passar por outras culturas, que não só a desportiva, até porque se pode argumentar que «a única eternidade terrena é a cultura», que também confere sentido, amparo e alegria à vida). Mas certa cultura e certo saber são mais perigosos...

Desde que não saia de controlo, qualquer governo terreno promove ou condescende com os muitos e variados ópios do povo (escapes), uma forma de a malta deitar as energias cá para fora e fazer a catarse de frustrações e angústias várias, nomeadamente as que são derivadas da dominação e restrição de liberdades individuais (mesmo as bem intencionadas). Ou tão somente libertar a energia central no ser humano, a líbido, que impulsiona a vida, como documentou Freud. E assim se evitam frustrações, questionamentos e a proliferação de rebeldes.

Por outro lado, apesar de o dizerem, nem toda a gente quer liberdade nem detalhe. Citando de novo Rubem Alves, a «liberdade [ou o detalhe] traz muita confusão à cabeça. Melhores são as rotinas que nos livram da maçada de ter que tomar decisões sobre o que fazer com a liberdade [e o detalhe]. Quem tem rotinas não precisa de tomar decisões. A vida já está decidida. O cavaleiro nem precisa de puxar a rédea: o cavalo sabe o caminho a seguir.» Há cavalos que até sentem «saudades do arreio e da carroça, querem voltar, porque se cansam da liberdade [do detalhe].»

[Texto afinado em alguns detalhes :-) em 28.8.2014]
--
A propósito:
«A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço»
Na solidão, triste e desiludido: a morte dos grandes pensadores em meia dúzia de tristes fins 

domingo, agosto 24, 2014

«A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço»

image credits

«— A Nina era feliz? - perguntou Catherine.
— Espero que seja feliz - respondeu a rapariga [Marita]. - A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço

Esta passagem («Happiness in intelligent people is the rarest thing I know») integra o início do capítulo onze do segundo livro póstumo de Ernest Hemingway, The Garden of Eden / O Jardim do Éden, publicado em 1986, vinte e cinco anos após a sua morte.

Álvaro de Campos disse-o em verso: «Estou cansado da inteligência. / Pensar faz mal às emoções». Ou ainda: «Pára, meu coração! / Não penses! Deixa o pensar na cabeça!» Como se razão e coração pudessem ser separados. Faz mal ao coração pensar, faz mal à cabeça sentir? O pensar consciente, realista, sensível e inconformado inquieta a alma e o coração.

Aristóteles já sabia que a inteligência fazia mal às emoções: “All men who have attained excellence in philosophy, in poetry, in art and in politics - even Socrates and Plato - had a melancholic habitus; indeed, some suffered even from melancholic disease.”

No poema Il Penseroso (O Meditativo) de John Milton, o sujeito poético invoca a deusa Melancolia, coberta com um véu negro:

But hail thou Goddess, sage and holy,
Hail divinest Melancholy
Whose Saintly visage is too bright
To hit the Sense of human sight;
And therefore to our weaker view,
O'er laid with black, staid Wisdoms hue. (lines 11–16)

Perante o absurdo da existência, os existencialistas colocavam três caminhos: voltar-lhe as costas, como acabou por fazer Hemingway em 1961, seguir um caminho de conformismo face às normas, significados e metodologias de viver já ditadas/herdadas ou, então, optar pela via do inconformismo: expressar-se de algum modo e criar significado no mundo, marcar a sua individualidade (não se resumir nem ser-se reduzido à existência da multidão/rebanho), ser senhor da sua vida, ser autêntico. Esta terceira via requere algumas ferramentas.

Não é a «inteligência», só por si, em termos de coeficiente, que faz com que a felicidade seja mais rara nos seus titulares. É a inteligência consciente do absurdo da existência e da realidade (o realismo pode causar inquietação e até pessimismo e menor grau da aceitação do estado de coisas); é a inteligência inconformada com os limites colocados por tal existência; é a inteligência dotada de elevada sensibilidade sobre a vida e o mundo; é a inteligência contemplativa e meditativa; é a inteligência com ambições existenciais de expressão, liberdade e autenticidade do eu.

Uma mente que aprofunda o diálogo interior, que elabora mais e se entrega a longas jornadas mentais, com maior acesso à realidade existencial e do eu que percepciona, terá mais dificuldades em aceitar as coisas como são, ignorar certas realidades, encolher os ombros e continuar a viver como se nada fosse.

São pessoas que, geralmente, aprofundam as questões vivenciais e que aspiram mais além ou mais acima («minha alma, se te matei / Perdoa por esta vez. / Fiz-te aspirar tão acima / Que desceste onde hoje vês, a seres um bicho-de-conta / Que te enrolaste de vez» - Bicho de Conta de Luiz de Macedo). E, com isso, pode vir a ansiedade e a angústia, obstáculos à felicidade. E, se calhar, mais criatividade e outras possibilidades de felicidade...

Na introdução d'O Turista Espiritual de Mick Brown pode ler-se: «Aquilo que Connolly chama Angst [termo alemão utilizado em filosofia para o estado recorrente de ansiedade ou angústia] é o acumular das pequenas incertezas sobre o lugar que ocupamos na ordem das coisas, a sensação enervante de que, de algum modo, a vida podia ser melhor, se ao menos, se ao menos.... o quê? É o desassossego do eu.»

No mesmo livro refere-se o seguinte: «"O segredo da felicidade", escreveu Cyril Connolly, "está em evitar a Angst. É um erro considerar que a felicidade é um estado positivo. Afastando a Angst, a condição de toda a infelicidade, ficamos preparados para receber as graças divinas que surjam no nosso caminho."»

Parece que há pessoas, as mais conscientes, meditativas e inconformadas sobre o mundo e a vida, que não se livram da Angst, do Desassossego, da Inquietação, como é ilustrado no Mestre de  Álvaro de Campos:

Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
[...]
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
[...]
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.

John Keats escreveu: "Do you not see how necessary a World of Pains and troubles is to school an Intelligence and make it a soul? A Place where the heart must feel and suffer in a thousand diverse ways!" (Excertos das Keats's Letters, datadas de 21 de Abril de 1810).

O que ignoramos não nos afecta, não nos faz sofrer. Daí muitas vezes o elogio da existência simples, sem lucubrações, da ilusão, da superficialidade, do conformismo. «The dumbest creatures are always the happiest...», disse a personagem George Falconer (Colin Firth) no filme A Single Man (2009). Novamente, aqui «dumb» não tem a ver exclusivamente com coeficiente de inteligência. No mesmo poema já citado de Álvaro de Campos lemos o sequinte:

Feliz o homem marçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

Por outras palavras, feliz é o homem que não tem inquietações existenciais, inconformismos, nem se entrega a contemplações. Todavia, será que sobreviver basta ao ser humano, que é dotado de razão e que precisa de progredir, de prosperar, de desenvolver-se, conhecer, elevar-se e alcançar objectivos ao longo da seu percurso existencial?

Viver inconsciente, iludido e aceitando tudo (circunstâncias, eventos e a si próprio), tem as suas vantagens, como a libertação da angústia e da consciência das coisas. Há quem prefira, mesmo sendo mais difícil, optar pela densidade, isto é, ser sempre um consciente inconformado e insatisfeito (activo e com os pés e cabeça na realidade), do que um inconsciente iludido e alegre (passivo e na irrealidade), embora no conforto do conformismo prático.

Todavia, nem é uma questão de escolha: é de ser quem se é, de se ser autêntico. Como pode alguém ser quem não é? N'O Jardim do Éden de Ernest Hemingway podemos ler: «When you start to live outside yourself, it's all dangerous.»

--
A propósito:
«O detalhe é sempre mau» (really?)
Na solidão, triste e desiludido: a morte dos grandes pensadores em meia dúzia de tristes fins

domingo, janeiro 19, 2014

Arte com fins terapêuticos

illustration copyright December 2013: The Boston Globe

Sublinharia, antes de me referir à Biblioterapia, que a arte é terapêutica porque também permite ao ser humano transcender o quotidiano, o ramerrame, a costumeira estupidificante casa-trabalho-casa. «Art [...] can raise man to the divine» disse Ludwig van Beethoven. Não nos basta sobreviver (pão). Precisamos de nos desenvolver, crescer e florescer noutras dimensões. Assim é a condição humana.

O artigo Doentes depressivos "aviam" receitas na biblioteca, no jornal Público (13 de Janeiro de 2014) divulga que «há uma nova terapia para depressão no Reino Unido e, a melhor parte, é que além de "low-cost" não apresenta efeitos secundários. É chamada de Biblioterapia e faz jus ao nome: em vez de fármacos, são prescritos livros.» Sabe-se que, «de acordo com alguns especialistas, além de fomentar a empatia, a leitura pode ajudar os pacientes a superar as suas fragilidades emocionais.»

É melhor "aviar" uma "receita" de livros, seja de auto-ajuda ou literatura (ficção), discos, filmes ou outro objecto de arte, do que comprar pastilhas na farmácia. Dinheiro melhor empregue e sem efeitos secundários.

O método, chamado de Books on Prescription, continua a dizer o artigo no jornal Público, «começou a ser utilizado oficialmente em Junho, pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), e foi agora divulgado por Leah Price, investigadora e professora da Universidade de Harvard, no jornal The Boston Globe, em 22 de Dezembro de 2013. Se o psicólogo ou psiquiatra diagnostica o paciente com depressão leve ou moderada, uma das opções é passar-lhe uma receita com um dos livros aconselhados», explica a investigadora.

Como refere esse artigo, When doctors prescribe books to heal the mind, «a book does worse than a therapist, but it’s better than nothing.» «If your aim is less to help patients explore the underlying causes of their condition than to offer step-by-step instructions for managing it, then who cares whether the exercises emanate from a mouth, a manual, or even a smartphone app?» «But even therapies like cognitive-behavioral therapy require the patient to feel recognized and understood by another human being.» A presença humana é sempre importante.

Aquela, porém, não é a primeira vez que o Serviço Nacional de Saúde britânico aposta neste tipo de programas. «Uma outra iniciativa, denominada The Reader Organisation, por exemplo, reúne pessoas desempregadas, reclusos, idosos ou apenas solitários para que, todos juntos, leiam poemas e livros de ficção em voz alta», refere o citado artigo do jornal Público.

Se não é surpresa que os livros de auto-ajuda podem ajudar o Eu, os efeitos terapêuticos da literatura é algo mais controverso ou, pelo menos, não estudado ainda o suficiente (ver mais adiante o artigo A leitura como função terapêutica: biblioterapia). Um elemento da The Reader Organisation refere “I don’t think we could claim that they are therapy or a substitute for therapy,” “but for those who don’t quite need therapy, Mood-Boosting Books could be a nice little lift.”

Todavia, ser um lugar comum hoje que os livros fazem bem e estudar-se a possibilidade de que a literatura e livros práticos podem curar, é uma evolução face ao que acontecia no passado, em que os médicos acreditavam que ler poderia causar doenças físicas e mentais. «In 1867, one expert cautioned that taking a book to bed could “injure your eyes, your brain, your nervous system.” Some social reformers proposed regulating books as if they were drugs», pode ler-se no artigo do Boston Globe já citado. E ainda: «As late as 1889, one politician called fiction “moral poison.”»

O Público termina o artigo Doentes depressivos "aviam" receitas na biblioteca recordando que a «Biblioterapia foi desenvolvida com base numa investigação do psiquiatra Neil Frude, em 2003, que concluía precisamente que os livros tinham potencial para se assumir como substitutos dos anti-depressivos. Ao acompanhar o percurso dos seus pacientes, Frude rapidamente percebeu que estes compensavam a frustração da espera pelos primeiros efeitos dos fármacos — que podia durar anos — com a leitura, como forma de entretenimento.»

O artigo científico de Clarice Fortkamp Caldin da Universidade Federal de Santa Catarina, no Brasil, A leitura como função terapêutica: biblioterapia, de 2001, resume que a «biblioterapia clássica admite a possibilidade de terapia por meio da leitura de textos literários. Contempla a leitura de histórias e os comentários adicionais a ela. Propõe práticas de leitura que proporcionem a interpretação do texto. O fundamento filosófico essencial da biblioterapia é a "identidade dinâmica"”. O processo de identificação do leitor/ouvinte vale-se da introjeção e da projeção. Parte-se do pressuposto que toda a experiência poética é catártica e que a libertação da emoção produz uma reação de alívio da tensão e purifica a psique, com valor terapêutico.»

Nick Cave referiu-se ao poder da música na alteração do estado de espírito da pessoa: "Music has the potential other arts don't have, which is to utterly change you within three minutes. Your whole body chemistry can change, your mood, your perspective..." (revista Mojo, 2005). Será preciso evidência científica para saber destes efeitos sobre o ser humano, como lhe diz a experiência de uma vida como músico?

Alain de Botton (autor, com John Armstrong, de Art as Therapy - 2013), defende que certas obras de arte oferecem pistas para lidar com as tensões e confusões da vida quotidiana. Isto além da companhia, ocupação, prazer estético, entretenimento e distração pura e simples, compensações com efeitos benéficos para o bem-estar mental e emocional.

A fruição da obra de arte é um espaço de liberdade pelas interpretações que oferece e abertura a outras dimensões emocionais e existenciais. Liberdade ainda pela possibilidade de mudança de trajectórias de vida e da identidade pessoal dinâmica, que se vai construindo dia-a-dia. Permite-nos e estimula-nos a ir para além de nós mesmos, a nos superarmos, transcendermos e libertarmos, tanto no pensamento como na acção, com efeito catártico.

Há obras que são nutritivas em termos psicológicos, emocionais e intelectuais. Podem inspirar-nos, pelas perspectivas que nos oferecem, a encarar certos assuntos ou problemas de outra forma ou de uma forma mais benéfica/positiva, mais ajustada à realidade (interna e externa) e a encontrar soluções (projecção).

A arte é também forma de conhecimento sobre o ser humano e a vida. Os grandes autores e as grandes obras tocam nas questões essenciais e mais fundas da natureza humana, precisamente porque a sua sensibilidade apurada o permite.

Há obras (literárias, musicais, etc) que nos podem estimular e deixar dicas para ser e a viver melhor, porque podem conduzir ao melhor conhecimento de nós mesmos (auto-conhecimento) - ajudar tanto nos conflitos íntimos como externos. Caroline Shrodes, citada em A leitura como função terapêutica: bliblioterapia, «viu a arte como um meio de proporcionar um tipo de reconciliação entre o princípio do prazer e o princípio da realidade.»

(A este propósito, Eduardo Lourenço, registou no livro O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português, de 1978, o seguinte: «É pena de Freud não nos tenha conhecido: teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade.» O baixo consumo de arte no País poderá ser uma das razões da nossa dificuldade colectiva na conciliação/equilíbrio entre o princípio do prazer e o princípio da realidade?)

A obra de arte pode também servir de escapismo, embora fugir da realidade possa trazer efeitos negativos, instrospeção (a pessoa reflecte, entende e educa as suas emoções: abre a possibilidade de mudança comportamental), pacificação, sublimação ou catarse (resposta emocional), e trazer mais serenidade, esperança ou conforto, nem que seja em saber que não estamos sozinhos (projecção: ligação com o nosso caso; identificação: transformação segundo o modelo ou exemplo de outrem) na nossa visão do mundo, dúvidas, indagações, questões emocionais e sofrimentos existenciais.

--
Links:
A leitura como função terapêutica: bliblioterapia (artigo com 17 páginas)
Doentes depressivos "aviam" receitas na biblioteca
Books on Prescription
When doctors prescribe books to heal the mind
The Reader Organisation

Rock 'N' Roll rules 'n' resonates (por Nick Cave)
Música, uma droga natural
Poder libertador e curativo da música (por Johnny Cash)

sábado, novembro 30, 2013

Portugueses não olham para a cultura como bem essencial

Ainda falta muito, nomeadamente educação e evolução de mentalidades, para se olhar para a «CULTURA COMO BEM ESSENCIAL», refere notícia do Público.

O cerne da questão é cultural, isto é, o “nível geral de educação do país e do interesse pela Cultura” (Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura) e o facto de que “em Portugal há uma certa apatia por valores culturais” (Vasco Graça Moura, presidente do Centro Cultural de Belém).

Está o essencial dito porque mesmo em tempos de prosperidade, o consumo de cultura não foi, proporcionalmente, muito diferente. Como também não se pode dizer que, a maioria dos portugueses, não tem as necessidades básicas de sobrevivência satisfeitas. Por isso, a crise financeira não justifica os dados que agora se publicitam. Não se cultiva o consumo de cultura, mas estamos no topo quanto ao consumo de gadgets como os telemóveis, mesmo em crise financeira, o que ilustra as prioridades que se estabelecem.

Nota posterior:
Como afirmou a fadista Gisela João (Blitz #93 Março 2014), as «pessoas preferem dar sete euros por um whisky do que dez por um bilhete de um concerto.» E concorda com a causa já identificada: «Esse mal vem de base, de educação.» Ou então conseguem o bilhete à borla, por portas e travessas, e gastam 20 ou 30 euros em cerveja durante o concerto.

É o País e a cultura que temos. Para nem falar na particular desvalorização de certas expressões artísticas, que tendem a não ser consideradas cultura ou então tidas como cultura menor, para boa parte dos portugueses...
--
A propósito:
Diminuição de 28,5% de espectadores nos cinemas da Madeira em 2013 face ao ano anterior
«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»
Cultura, «a única eternidade terrena»

segunda-feira, setembro 23, 2013

domingo, julho 28, 2013

Ironia e provincianismo


image origin

«É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz.

[...]

Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento.

Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de consciência" em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.

[...]

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.»

Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'

domingo, janeiro 16, 2011

Diz-me o que lês e dir-te-ei quem és


Sou dos que pensam que as maiorias, muitas das vezes, não têm razão e avanço com cautela para um livro, um disco ou um filme que mereça, em cima do momento da publicação, uma adesão generalizada do grande público. Investigo antes de consumir.

Decorre, além de uma atitude de rebeldia, do critério e gosto pessoais. Procuro e gosto de consumir manifestações e produtos artísticos mais alternativos, independentes, desafiantes e exigentes, que não se fiquem apenas pelo entretenimento, implicando um maior esforço na adesão (muitas vezes implica estranhar antes de entranhar). Tem de me surpreender e desafiar. Em detrimento do gosto massificado e produtos mais imediatos, difundidos e comuns, para basicamente passar o tempo e distrair.

Isto não significa que não goste de algumas manifestações artísticas que têm a adesão do grande público. Encontro exemplos na literatura, na música ou no cinema de que gosto. Há manifestações popularizadas que têm enorme qualidade e são obras-primas. E sabe bem, por vezes, ler, ouvir e ver algo mais imediato, mais leve, menos profundo e menos intelectualizado, de fácil adesão e consumo, embora tenda a perdurar menos tempo na nossa mente, no nosso coração e no tempo.

Para mim arte é vida. A arte tem de acrescentar algo de novo à minha existência e me oferecer novas sensações e abrir novas janelas sobre a forma como vejo o mundo e a vida. Tem de ser pertinente e ter um potencial transformador, para além da experiência estética e de Belo que nos provoca. Tem de marcar a diferença face à maioria dos livros, dos discos e dos filmes.

No que toca aos livros, li por exemplo The Da Vinci Code e estou a ler Eat Prey Love, muito populares ao ponto de serem adaptados ao cinema e destinados ao grande público. Estão muito bem escritos, bem engendrados, mas não é literatura de topo.
Aqueles livros citados são criativos, interessantes e proporcionam uma leitura escorreita e uma adesão imediata. Mas falta-lhes a densidade literária dos escritores de maior relevo e das melhores obras, aquelas que perduram no tempo (intemporalidade), que inovam, que utilizam recursos estilísticos e literários que tornam único o modo de contar uma história (a tal experiência do Belo), que são universais, que têm densidade de conteúdo ao ponto de acrescentar algo sobre a Vida, o Homem, a Existência Humana.

Depois de ler The Da Vinci Code não tive interesse em ver o filme. Popularizou-se o filme Eat Pray Love mas bastou ver o trailer para perceber que estava muito longe de ser a minha cena. Mais pela abordagem, pela forma como estava contada a história. Percebe-se logo quando se trata de uma abordagem mais leve para ir ao encontro do gosto do grande público. Mais para entreter do que para fazer pensar e marcar a existência.

Não fui ver o filme e pensei antes em rever Sideways, que poderia ter-se intitulado algo como Drink Write Love... Lembrei-me deste filme por analogia. Não há lugar a piadas ou romantismos fáceis e, em lugar do domínio do enredo, há a densidade das personagens, dos seus dilemas existenciais e o modo especial como tudo é contado.

Eat Prey Love é um livro de viagens, autobiográfico, de leitura fácil e agradável, que é enriquecido e ganha alguma densidade pelo facto de dar conta de uma caminhada interior e de vida, a da própria autora. Muitos dos seus problemas e dilemas são comuns a muitos de nós mortais. Mas é basicamente descritivo de uma experiência e percurso pessoais. Não tem a tal densidade literária na forma como são narrados os acontecimentos. Há ainda o aspecto informativo, sobre os locais, a cultura e as pessoas dos países por onde vai passando, que é relevante.

E tem o seu lugar. E estou a ler com interesse, embora não me provoque o êxtase de certas obras literárias de referência, porque neste momento da vida apetece-me literatura menos densa e há aspectos do percurso existencial da protagonista com os quais me identifico (nem que fosse por ter passado por intensas experiências, em 2010, na Índia, um dos três países por que passou Elizabeth Gilbert) e provoca alguma reflexão pessoal. Ainda estou a ler o livro. Irei dando notícias.

sexta-feira, maio 14, 2010

Loucura, de Mário de Sá-Carneiro (1)

«O Amor? Pf... Mas que vem a ser o amor? Uma necessidade orgânica, nada mais. Para obrar, podemo-nos servir de um vaso de loiça; para amar precisamos de um recipiente de carne...»
p8

domingo, janeiro 31, 2010

Instruções para salvar o mundo (1): dorminhocos e desassossegados

«A humanidade divide-se entre aqueles que gostam de se meter na cama à noite e aqueles a quem ir dormir desassossega.

Os primeiros consideram que os seus leitos são ninhos protectores, enquanto os segundos sentem que a nudez do dormitar é um perigo.

Para uns, o momento de se deitar implica a suspensão das preocupações; aos outros, pelo contrário, as trevas provocam um alvoroço de pensamentos daninhos e, se fosse por eles, dormiriam de dia, como os vampiros.

Sentiste alguma vez o terror das noites, a angústia dos pesadelos, a escuridão a sussurrar-te na nuca com o se hálito frio que, embora não saibas o tempo que te resta, não passas de um condenado à morte? E, no entanto, na manhã seguinte a vida volta a explodir com a sua alegre mentira de eternidade.»

p07 Instruções para salvar do mundo de Rosa Montero (Porto Editora: 1ª edição: Novembro de 2008)

quinta-feira, janeiro 07, 2010

«Aquela pancada no coração»

photo (c)

«A poesia do José Agostinho Baptista apela sobretudo ao coração. Acho que podemos saber muito de poesia, mas ninguém consegue pôr um verso a seguir ao outro como o faz J. A. B., e obter aquela sensação de beleza, aquele assombro, aquela pancada no coração», disse António Fournier (Diário 06.01.2010), a propósito do lançamento do nº 27 da Margem 2 dedicada ao referido poeta.

José Agostinho Baptista nasceu em 1948, no Funchal, ilha da Madeira. Com 21 anos, veio para Lisboa, onde iniciou a sua carreira literária e onde continua a residir.

terça-feira, janeiro 05, 2010

As velas ardem até ao fim (6): tratado sobre a amizade

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai.

«Não há processo emocional mais triste e mais desesperado que quando uma amizade entre dois homens arrefece. Porque entre um homem e uma mulher tudo tem determinadas condições, como o regateio no mercado. Mas o sentido mais profundo da amizade entre homens é precisamente o altruísmo, o facto de não querermos o sacrifício do outro, nem ternura, não querermos nada, apenas manter o acordo duma aliança silenciosa

«[U]nidos por laços de uma relação meticulosa e misteriosa que se chamava, em linguagem comum, amizade.»

«Éramos amigos, não companheiros, compadres, ou camaradas. Éramos amigos e não há nada na vida que possa compensar uma amizade. Nem mesmo uma paixão devoradora pode oferecer tanto prazer como uma amizade silenciosa e discreta proporciona àqueles que são tocados pela sua força.»

«Porque a amizade não é um estado de espírito ideal. A amizade é uma lei humana rigorosa. Na antiguidade era a lei do mais forte, nela se baseavam os sistemas jurídicos das grandes civilizações. Para além das paixões e do egoísmo vivia essa lei, a lei da amizade, nos corações humanos.»

«Era mais poderosa que a paixão que persegue os homens e as mulheres com uma força desesperada, para se unirem, a amizade não podia levar à desilusão, porque não queria nada do outro, podia-se matar o amigo,mas a amizade que se formou na infância entre duas pessoas, talvez nem a morte a pudesse matar: a sua recordação continua a viver na consciência das pessoas, como a recordação dum acto heróico silencioso. E realmente, é um acto heróico, no sentido fatal e tácito da palavra, sem o embate de sabres e espadas, um acto heróico, como qualquer atitude humana que é desinteressada

pp102-104 (Publicações Dom Quixote: 19ª edição: 2009)

Recorde-se:
(5) : música que não é para divertir
(4) : capacidade de mudança
(3) : conformar-se e suportar
(2) : carácter é inalterável
(1) : essência do ser é imutável

quinta-feira, dezembro 31, 2009

As velas ardem até ao fim (5): música que toca fundo

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai.

«Mas a música de que Konrád gostava não era para se divertir, mas tocava nas pessoas as suas paixões, o seu sentimento de culpa, queria que a vida fosse mais real nos corações e nas consciências humanas. Esse género de música é assustador, pensava Henrik, e começou a assobiar baixinho uma valsa obstinada. Nesse ano, em Viena, por todo o lado assobiavam as valsas de um compositor que estava na moda, o jovem Strauss.»

p42 (Publicações Dom Quixote: 19ª edição: 2009)

Recorde-se:
(4)
(3)
(2)
(1)