«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE
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sábado, setembro 01, 2018

Às elites interessa que o país não passe de uma choldra

Os portugueses ficam entregues a si próprios, enquanto as elites tratam de servir-se, a si e aos seus amigos (foto: Maria João Gala/Global Imagens)

O artigo Lições de Pedrógão do economista Daniel Bessa (Expresso 2392, caderno de Economia, 1.9.2018), é de uma lucidez cristalina sobre a inépcia das elites em Portugal, que trabalham para que «tudo fique na mesma, sem correção», mantendo o país atrasado e uma sociedade bloqueada, corrupta e ineficaz, com um fosso acentuado entre ricos e pobres. Seja elite de direita, centro ou esquerda, é indiferente. Pena que a generalidade do povo português tolere este estado de coisas e essa corja. Como o texto fala por si, ilustrativo da realidade, aqui o replicamos:

«Dirigi, em tempos uma escola de negócios. Alunos adultos, pagando a sua formação. Uma experiência de que me orgulhava e orgulho. Em determinado dia, um professor vindo dos Estados Unidos iniciava a sua lecionação anual. Impossibilitado de estar presente, telefonei-lhe no final da aula: "Então, professor, correu bem, a aula?"; "Correu, correu bem; o que correu menos bem é que você disse-me que os alunos eram vinte mas nunca tive na sala mais de dez; e os que estavam no início não eram os que estavam no fim."

Uma humilhação. Julgava dirigir uma escola; dirigia uma choldra. Pretextei com "a cultura". "Não me fale em cultura*. Nos Estados Unidos seria igual. Só não é igual porque eu entro na sala e fecho a porta, só voltando a abri-la no final da aula." Uma lição que me ficou para sempre. Passámos a proceder desse modo, e a escola tornou-se exemplar, desse ponto de vista.

O que viemos a saber sobre o que se passou em Pedrógão fez-me recordar esta lição. A tragédia convocou a generosidade de milhares de portugueses, pessoas e empresas, que se empenharam em doar a soma necessária à reconstrução das habitações destruídas. Dois trabalhos jornalísticos recentes acabam de revelar que, sob alegada orientação do poder político local, muito do dinheiro foi mal gasto. Motivo de indignação, uma vez mais, ainda que sem surpresa. É "a cultura"; "somos assim."

Dói, isso dói, que, ao mais alto nível político, leis e sistema de justiça sejam desenhados para que tudo continue na mesma, sem correção.»


* não é a cultura, é a natureza humana
(Esta nota e o negrito de «choldra» são sublinhados nossos)

terça-feira, fevereiro 06, 2018

«A nossa casinha» por Fernando Ribeiro

O Rock está aí por mais que lhe tentem passar um atestado de óbito, nota Fernando Ribeiro (Moonspell) a respeito da homenagem dos Metallica ao roqueiro Zé Pedro (Xutos) entoando "A Minha Casinha" (photo copyright Rita Carmo/Blitz)

Já perdi a conta às vezes que o meu gosto e a minha improvável “profissão” de roqueiro (ou Metaleiro, como quiserem) foi posta em causa ou diminuída.

Semanalmente, os jornais, sites e publicações de música nacionais passam um atestado de óbito ao Rock.

Quando ele não morre, desaparece das suas publicações ou leva um carimbo diferente: de nicho de mercado, ler como uma coisa ultrapassada, para gente “fatela” e “burra” que não consegue aceitar nem compreender a ascensão da "Afro Lisboa", ou dos novos poetas eléctricos, ou do novo rock das caves e garagens lisboetas de gente desafinada, feia e sem talento.

Quando a maior banda de Metal do Mundo homenageia o melhor Rocker de sempre de Portugal, só temos de celebrar esse gesto e rendermo-nos à evidência de que o Rock, afinal, é uma família, sentada à mesa, a comer com as mãos, a beber da garrafa e a abanar a cabeça.

Que nojo, pensarão os editores de Lisboa, os cronistas de todo o peido que a Madonna dá (e com quem) e se o vai samplar no seu próximo disco. E enquanto continua esta evidente sobranceria, o nosso Rock vai desbaratando teorias de losers e wannabes das pistas de dança do Lux, com números e emoções indesmentíveis.

Porque o que custa a esta gente da música domesticada, é a nossa capacidade para sermos ingénuos o suficiente para pensarmos que o que os Metallica fizeram foi simplesmente lindo [no dia 1 de Fevereiro de 2018, no Altice Arena].

De chorar a pensar que a banda que ouvíamos entre as quatro paredes do nosso quarto pequeno dos subúrbios com os nossos dez amigos lá dentro, teve um gesto do caraças e mostrou toda a sua humanidade, calando todos quanto só já discutiam a especulação dos preços e a morte de um estilo que encheu, outra vez, a arena de todas as negociações.

O cinismo e o snobismo têm, de facto dominado a imprensa alternativa em Portugal. O pouco espaço nos jornais é usado para realçar coisas que no meu tempo nem se deixariam entrar em estúdio.

As colunas de intelectuais e musicólogos são, na sua maioria, um exercício onanista, desligado de qualquer tentativa de passar conhecimento, sugerir, melhorar a vida musical dos seus leitores.

Em bom Português eles odeiam que as pessoas ouçam música e que sintam emoções através de bandas que vendem milhões e que eles humilham nas suas crónicas pagas.

Porque acotovelarmo-nos num concerto de Metallica não é o mesmo que ir a um festival e encher o pescoço de passes laminados dados pelos sponsors.

Ir a um concerto dos Metallica é ir também ver o que passa, reencontrar amigos, dizer mal da banda, porque não, há muita gente que foi, que já nem ouve Metallica desde o fim dos anos 80.

No entanto, esteve lá, e esse estar lá é algo muito próprio do Rock, e que, ao contrário do que se escreve por aí, é a sua força, a força da presença. Da noção da importância de ter lá estado.

Em Lisboa, quando se fez a homenagem ao Zé Pedro (que bem a merece porque não olhou o Metal de lado e bem nos cruzámos em muitos dos concertos dos californianos), escreveu-se um momento que nunca se esquecerá: História. Ponto final, metal up your ass! Eu não estive lá. Continuo na estrada, hoje na Alemanha, a viver em pleno da coisa morta do Rock.

À distância, tenho vergonha do que se escreve sobre o Rock em Portugal. Apetece-me dizer coisas más, impublicáveis. Mas o Rock é magnânimo e perdoa a ignorância porque é a única música que não tem vergonha de ser o que é e os fãs sabem disso.

E enquanto a Madonna entretem os saloios de Lisboa até se fartar de Lx e se pirar; enquanto o kizomba invade as rádios e se prepara, a preço de ouro, a desforra Eurovision em Lisboa; no mundo real os Metallica encheram o Pavilhão, tocaram Xutos, nós por cá, bem obrigado,

Europa com salas esgotadas, dezenas de bandas de Metal a fazerem o mesmo, por todo o mundo.

O mundo: a nossa casinha.
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Fernando Ribeiro, músico e líder dos Moonspell, no Jornal de Leiria (5.2.2018)

domingo, agosto 03, 2014

«Fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua»

Aos portugueses falta civilização: mais educação, civismo, organização, profissionalismo, realismo e centrar-se no essencial
(foto copyright Ricardo Castelo/jornal I)

A evidência dá conta que «fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua», como verbaliza o investigador Manuel Sobrinho Simões (entrevista no jornal I de 2 de Agosto de 2014, por Isabel Tavares), transformando os portugueses em mestres nos rodeios, no acessório, no politicamente correcto, e isso torna-nos menos eficientes.

Como coloca Sobrinho Simões, a «palavra apreender, mesmo compreender, é sempre à superfície. É engraçado, porque somos miméticos, mas a linguagem, a descrição, o que embrulha, é quase mais importante do que a coisa em si, e isso tira-nos a capacidade de ser eficientes.» E acrescenta: «nós somos assim, circulares, porque nunca precisámos de mostrar eficiência.»

Daí que «adoramos retórica, discursos labirínticos, achamos que isso é que nos torna interessantes. Não percebemos a ideia de que tempo é dinheiro. Uma coisa que noto nos meus alunos, entre cá dentro e lá fora, é que lá fora sabem distinguir muito bem o essencial do acessório. Aqui ir directamente ao ponto é demonstrar fragilidade.» Diria mais, é como se estivéssemos errados, a atacar alguém, a tocar num assunto proibido, a cometer algum sacrilégio ou má educação.

A retórica e o falar bem interessam-nos mais do que a realidade. Essa distância da realidade é para esconder uma coisa: a incompetência. Não há como ser bem falante e, já agora, vestir bem para esconder a incompetência. Um país de incompetência e falcatruas, estas que são também uma fuga à realidade, no sentido de iludir e ludibriar os outros. O escândalo recente no Banco Espírito Santo é ilustrativo ao mais alto nível.

Diz-nos que o que «falta é organização e saber avaliar, uma vez mais porque somos todos primos de primos [e amigos] e não introduzimos mecanismos de recompensa-castigo.» Mais adiante reforça que «não podem ser os pares [a avaliar], numa sociedade com muito pouca tradição de avaliação e com muito pouca independência.»

Mimetizarmos os noruegueses, por exemplo, «exigiria que tivéssemos regras e que as cumpríssemos. Enquanto não foi preciso produzir riqueza, nós, como organização social, que não era boa, aguentámos» várias provações. Agora, que os tempos são outros, a grau de organização e de civilidade têm de ser outros.

A esse propósito Sobrinho Simões sabe, por trabalhar «muito com a República Checa, a Polónia e a Eslovénia, [que] eles são mais educados que nós. Se se puser um problema de competição, eles ganham. A Europa de Leste passou a ser mais um factor de pressão sobre Portugal e agora estamos a competir com a Lituânia, a Letónia, a Estónia e a Bulgária.»

Dá um exemplo dos benefícios se fossemos mais civilizados: «diminuiríamos muito os gastos do sistema de saúde se fossemos mais educados, mais bem comportados do ponto de vista social, se tivéssemos melhores hábitos. Faríamos economias pelo lado da prevenção.»

Constata que «nós somos invejosos, não somos vigilantes» de forma a incutir nos outros educação social. E ainda «como somos muito individualistas e invejosos, temos uma extrema dificuldade em nos associarmos».

Uma última nota sobre a ideia de que «deixou de ser compensador ser muito bom, muito sério e muito trabalhador. Pior: é quase estúpido. Os smart kids ingleses já não vão para Medicina, nem para Engenharia, vão para a política. Ou para a banca. Estamos a dar cabo das profissões.» 

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A propósito:
Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada

domingo, junho 22, 2014

Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada

 Bartoon 17.6.2014

Aderir à realidade foi sempre uma dificuldade nacional. Preferimos disfarçá-la e evitá-la, porque enfrentá-la implica mudar de vida, fazer alguma coisa. E isso, além de muito trabalho para si e para os outros, cria inimigos e complicações. Essa coisa maçadora de fazer melhor, de exigir, de obrigar-se, de disciplinar-se, de responsabilizar-se... Está tudo organizado para não se fazer nada.

Não fazer nada é "mais produtivo", no sentido comezinho, porque assegura a cómoda sobrevivência e a fácil ascensão. Além de popularidade (sermos porreiros). Não fazer nada traz recompensas. O estímulo é para ficar calado, não fazer ondas, promover a paz podre e o compromisso, para tudo ficar na mesma, as águas estagnadas, enfim, o pântano. Uma herança salazarenta.

Não se percebe, pois, que a frontalidade, o confronto, mesmo de firme e duro, de ideias e propostas, produz mais e melhores resultados do que o unanimismo, o facilitismo, a mistificação, o estar bem com tudo e todos ou o silêncio. Mas quem quer melhorar, realmente, resultados? Basta mexer nas estatísticas e atingem-se os resultados sem ter que mudar nada, sem nada fazer. E há ainda essa praga anti-mudança chamada «politicamente correcto».

Tudo se faz para esconder a mediocridade, a estupidez, o ineficaz, o errado, o improdutivo.

A confirmar esta realidade, Marcelo Rebelo de Sousa disse numa recente entrevista (Revista Expresso 31.5.2014): «Guterres, uma vez, deu-me um conselho: não faça nada, porque se não fizer nada será primeiro-ministro. O meu problema foi mexer-me demais.» Quando alguém procura fazer alguma coisa de significativo as forças de bloqueio, os aparelhos minam tudo («o que fica pelo meio impecilha a decisão», refere Marcelo Rebelo de Sousa). Sá Carneiro acabou, inclusive, morto.

A consequência de tudo isto? Demorarmos ou até nunca arrepiarmos caminho. Daí sermos menos produtivos e eficazes do que outros povos, nomeadamente do norte da Europa, em que se inclui a França, com a sua latinidade.

«Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha [selecção de futebol] na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos. Como raio estas coisas nos podem suceder?», diz Vasco Pulido Valente em artigo de opinião (Público 20.6.2014) sobre a nossa endémica recusa em aderir à realidade, que nos impede de melhorar (alterar essa realidade negativa).

O que queremos é escapismo e inércia. Até ao dia em que somos atropelados pela realidade... Já Eduardo Lourenço escreveu, em 1978, no livro O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português:

«É pena de Freud não nos tenha conhecido: teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade.»

Mais palavras, para quê?

Se quer ser um/a gajo/a porreiro/a, sobreviver e ascender em terras lusas... não olhe a realidade, cultive o politicamente correcto e, sobretudo, não mude nada, não faça nada.

terça-feira, março 18, 2014

Meninos bandidos



Dead Combo têm cá fora novo álbum: A bunch of meninos (vídeo) O guitarrista Tó Trips explica a crítica puxada para título: “O título já é uma história antiga, de 2008, quando o nosso produtor e técnico de som, o Helder Nelson, numa viagem para a Holanda, quando íamos lá tocar, se referiu ao governo da altura: ‘Estes gajos são a bunch of meninos’ e a expressão perdurou até aos nossos dias e achámos por bem usá-la.”

Embora admitam a existência de metáforas políticas no álbum, o sexto de originais, afirmam que «não [é] um disco político» (revista Actual de 8 de Março de 2014). Verdadeiramente, um menino é um «gajo armado em mau, em alguma coisa que ao fim ao cabo não é», diz Tó Trips. «Dá-se a conhecer por isto ou por aquilo, mas no fundo é um menino.»

Pedro Gonçalves, o outro elemento do duo, refere que, «no texto do álbum há uma coisa um bocado reboscada. Falo de um mexicano com um casaco de pele de coelho. É uma alusão um bocado estúpida ao nosso primeiro-ministro... É, assim, o bandido.» Apesar disso, considera que têm uma «atitude política deslocada dos Dead Combo. Sempre concordámos que podemos ter a nossa atitude política como cidadãos, mas como artistas é outra conversa.»

O guitarrista Tó Trips acrescenta: «os meninos podemos ser nós. Na capa, estamos armados em maus... É uma encenação, uma ficção, uma história. Como aquela frase "o país está melhor, mas as pessoas não" [proferida por um parlamentar do partido do actual Governo]. Mas, afinal, que país é esse? Que ficção é essa? O país são as pessoas, penso eu.»

Recorde-se que, em Outubro de 2013, António Lobo Antunes escreveu na sua crónica, na Visão de 31 de Outubro de 2013: «Qual Governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento".» Mais recentemente, o general Garcia dos Santos afirmou que os «políticos que temos hoje são uns garotos» (jornal I de 17 de Março).

Vídeo do tema A bunch of meninos.

sábado, março 01, 2014

Estado selvagem

Rosto dos novos carrascos
photo origin

Estado a portar-se como os capitalistas selvagens, como se pode ler a partir de exemplo contado por articulista no JN de 27 de Fevereiro de 2014: «As Finanças estão a usar expedientes claramente selvagens para conseguir tirar o pouco que resta à economia. Penhoram tudo a toda a gente - até por pequenas multas. Sabem que os tribunais não funcionam e são inúteis como recurso dos contribuintes.»

Faz lembrar uma frase de Tolstoi: «os ricos são capazes de tudo pelos pobres excepto de saírem de cima das suas costas.» Assim se comporta também o Estado. Como rico e fascista.

Por isso, além de apelidar as Finanças de «SS Nazis», o articulista conclui: «O inimigo é comum - o Fisco. Lutar contra a carga fiscal é como militar na Resistência.»

nota:
«ricos» na frase de Tolstoi refere-se tanto a ricos de direita e de esquerda...

sábado, novembro 30, 2013

O meu partido é o Rock 'N' Roll


«O coração existencial está claramente posicionado: sei do lado de quem estou. Da Humanidade, mas de um modo discreto e subtil, sem espalhafato e sem ter de gostar de toda a gente, nem deixar de reconhecer a crueldade e irracionalidade de que o ser humano é capaz. E da defesa da Dignidade Humana, da Coesão Social e da Liberdade. Não penso esquerda, centro ou direita, nem caminhos e respostas, sem ser no contexto, em estreita relação com a Realidade e a Vida em cada momento. Procuro que seja sem dogmatismo ou leituras ideologicamente enviesadas. Respondo às situações quando e como surgem, com a razão e os sentidos. A consciência natural do valor de diferentes posições torna-me apartidário, apolítico, "a-ideológico" – mesmo que militasse um partido seria apolítico. Se tenho "partido", é o rock ‘n’ roll, leia-se a Liberdade.»

[corisco: meteoro luminoso atmosférico sem trovão]

Meteoro luminoso atmosférico sem trovão.

"corisco", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/corisco [consultado em 01-12-2015].
Como se chega a esta síntese? Como se percebe se a nossa natureza é apolítica? É preciso ter feitio (uma certa personalidade) para certas opções. É preciso ter consciência não só dos nossos limites e complexidades, mas sobretudo de como somos: o que funciona ou não para nós, o que nos violenta ou nos deixa confortáveis - o conforto relativamente a terceiros vem depois e depende antes de mais do conforto connosco próprios.

Começando pelo princípio, passe o pleonasmo, não nasci numa família burguesa, nem tão pouco pequeno-burguesa, que geralmente proporciona uma série de vantagens socio-culturais, nomeadamente ao nível da formação de uma consciência política. No entanto, é possível, em analepse, perceber que, em criança, quando via os Westerns americanos, gostava de "tirar" pelos Índios e, nos jogos de futebol, apoiava quem estava em desvantagem - puxava pela equipa de branco se esta estivesse a perder, passava a tirar pela equipa de cinzento se esta passasse a estar em desvantagem no marcador. Isto num tempo em que a televisão ainda era a preto e branco. A nossa índole é o que é e não muda facilmente.

É ilustrativo da minha tendência de estar solidário com os underdogs, isto é, com quem se espera que perca ou com quem está na mó de baixo, em desvantagem, indefeso, subjugado, sem voz, alvo de injustiças ou vítima de circunstâncias adversas da vida. Daí a Libertação e a Liberdade serem valores estruturantes. Daí o click humanista.

Daí também me ter metido em algumas lutas cívicas na década dos meus 30 anos. Talvez também porque um homem precisa de se expressar no mundo e nele ser validado; ou porque um rebelde precisa de uma causa, embora haja muitas causas além das cívicas; ou então ainda pelo efeito terapêutico da luta cívica. Como disse uma vez Miguel Portas, «as grandes causas são um espantoso conforto para não se olhar para dentro e para se fugir de nós próprios.» Acrescentou que não era fácil de o dizer, mas que era a realidade. Alguém disse que «esse lado interventivo [neste caso, do escritor Antonio Tabucchi] era sinal de uma angústia interior». Além do fundo humanista, são tudo possibilidades para compreender, mesmo contra um certo feitio pessoal, o facto de eu me ter metido em algumas coboiadas cívicas. Isto além de ouvir certos géneros musicais, com a sua inerente postura sobre a vida.

Seja como for, fosse como fosse, tornei-me (fui) activista e envolvi-me em causas cívicas conotadas com minorias, como o sindicalismo, o ambientalismo ou a defesa do valor da cultura, sobretudo a cultura mais alternativa ou contra-cultura (novamente quem está em situação minoritária). E que, por sua vez, me conotavam com ideologias e partidos da área da esquerda, inclusive a esquerda mais à esquerda. Não tenho qualquer incómodo com essas ou outras conotações, e muito menos o que A ou B pensem sobre isso. Dependendo do que se leia neste blogue, posso ora ser conotado com a esquerda, ora com o centro, ora com a direita, ora com tudo e com nada.

Dizem alguns que isso de estar solidário com os "de baixo" significa ser de esquerda. Nunca me debrucei a sério (profundamente) sobre isso mas concordo, como afirmou José Mário Branco citando Liev Tolstoi, que «os ricos são capazes de tudo pelos pobres excepto de saírem de cima das suas costas.» Trata-se de uma realidade, um facto. Assim funciona o mundo desde que há Homem e Sociedade. A luta neste mundo é entre concentração e distribuição de riqueza, entre uma minoria que a procura capturar para si e uma maioria que procura sobreviver com o mínimo de dignidade (humanidade). Se isso é marca a diferença entre direita e esquerda, não há dúvida que sou por uma mais justa distribuição da riqueza. E o próprio Estado não se comporta muitas vezes como gente rica, leia-se capitalistas selvagens?

Dizia Pacheco Pereira (Público 20.11.2015), um social democrata com sentido de humanismo e adepto da distribuição de riqueza: «Sempre que alguém “explicar”, com um encolher irónico dos ombros e completa e absoluta indiferença, a ineficácia da fiscalidade sobre a riqueza, porque os capitais “deslocam-se” como água para outros sítios, para offshores, e podem sempre fugir, e por isso “não vale a pena” sequer admitir tentar taxá-los, ainda não acabou.»

E diz mais: «Sempre que o dolo, a violação da confiança e dos contratos com os de “baixo” e a inviolabilidade com os de “cima”, continuar a ser a prática de um estado de má-fé, ainda não acabou. Sempre que se cultive, dissemine, impregne, envenene a vida pública com a indiferença com a pobreza, o desemprego, a quebra de qualidade de vida, a perda de dignidade quando se vê a casa penhorada , ou se perde o carro na frágil classe média que criamos depois do 25 de Abril, retirando da pobreza muitas famílias para lhes dar outros horizontes pelo trabalho e, aos seus filhos, pela educação, e se vê tudo isto como efeitos colaterais não se sabe de quê, embora se saiba para quem, ainda não acabou. Sempre que se despreza os que vivem com dificuldades do seu trabalho e se valorize a esperteza e o subir na vida, ainda não acabou. Sempre que se violam direitos sociais, protecções aos que menos força têm, reivindicações de gerações inteiras, ainda não acabou.
Sempre que se acha que isto é radicalismo e não decência, ainda não acabou.»

Desta social-democracia, com consciência social e pela distribuição da riqueza, eu gosto. Uma social-democracia à esquerda, pois. Social-democracia e socialismo às vezes é só uma questão de terminologia...


O secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos, em 13.2.2016 ao Expresso (edição impressa) afirmou: «O problema é que a social-democracia que conhecíamos na Europa foi completamente apropriada pela linha neoliberal. Torna-se agora difícil distinguir os partidos socialistas». Nem considera que o XXI Governo Constitucional de Portugal, liderado por António Costa, seja sequer de centro-esquerda: «Tem de trabalhar muito para ser um Governo de centro-esquerda e procurar repor uma visão da social-democracia que anteriormente existia».

Para aquele músico, José Mário Branco, a «diferença entre a esquerda e a direita será essa», mas, para mim, não existe tal diferença, porque tem a ver, acima de tudo, com algo a montante: a natureza humana. Tem a ver como funcionam as pessoas. Não é uma questão de ideologia ou de discurso. Tem a ver com a natureza e a acção das pessoas. Estas querem tratar da sua vida, dos seus interesses, podendo o mais feroz esquerdista radical, quando enriquece, tornar-se no capitalista mais selvagem, ou no tirano mais ditatorial, quando ascende ao poder ("Fidel Castro es un capitalista de yates, jamón de pata negra y whisky de 12 años"). Há aquele ditado: para conhecer o vilão, põe-lhe o pau na mão. Aqui a origem social, de classe, pesa. Quando menos educado e civilizado na origem, mais rude, mais implacável, menos civilizado.

O referido músico, José Mário Branco, dizia ainda, nesse mesmo programa da RTP2, Bairro Alto, o seguinte: «ser de esquerda é não suportar o sofrimento de outro ser humano.» É ser capaz de sentir compaixão. Isso também não é exclusivo da esquerda ou da direita. Tem a ver, de novo, com a sensibilidade e natureza humana de cada um. Não há, pois, diferença substantiva e existencial entre esquerda e direita.

A minha postura deve-se a uma dada sensibilidade pessoal, forma de estar e ver o mundo, em que a formação no seio do cristianismo não é alheia, com o seu exemplo de radicalidade na solidariedade face ao outro.

Essa sensibilidade ou solidariedade face ao sofrimento de outro ser humano, de um modo mais explícito ou mais subtil, é entendido como algo moralmente superior mas, por vezes, a esquerda dá-se a uns ares de superioridade moral em certas matérias universais, que não correspondem concretamente a algo seu exclusivo ou traduzido em acções concretas na vida.

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[No entanto, não sou adepto de paninhos quentes, condescendências injustificadas, facilitismos ou permissividade. Acredito na responsabilidade individual na condução da vida, em quem não baixa os braços, trabalha, luta e dá o seu melhor, aproveita as oportunidades - mesmo que escassas - para progredir na vida e sair de debaixo dos outros ou de determinado tipo de vida mais deprimida ou menos digna. Quem nasce com menos possibilidades tem de lutar mais e melhor. Cristiano Ronaldo é um exemplo de quem lutou e trabalhou muito para ser quem é hoje, isto é, para vencer as condicionantes impostas, duplamente, pelas origens humildes - condição de classe - e pela insularidade ultraperiférica. Teve oportunidades, é claro, mas muitos não as aproveitariam nem trabalhariam para subir na vida.

Embora dê o benefício da dúvida e acredite na mudança/regeneração humana, não caio no irrealismo de pensar que o ser humano é naturalmente bom e que, se for deixado sozinho, à mercê dos seus impulsos, só fará coisas boas. Nem penso que todo o ser humano é naturalmente mau. Gosto de pensar que o ser humano é complexo e complicado. Prefiro baixar as expectativas e depois me surpreender pela positiva com o que cada pessoa tem de bom, porque todos temos um lado luminoso e um lado sombrio. Pelo seguro, até para evitar o surgimento de projectos ditatoriais e poderes absolutos nas sociedades, gosto de cultivar um certo pessimismo antropológico. Porque até me interesso mais pela realidade das coisas do que pela utopia ou a mistificação.]

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Pode parecer contraditório, mas, à medida que fui tomando verdadeira consciência política, por alturas em que terminava os estudos superiores e tive actividade jornalística, tornei-me, de forma mais explícita, mais apolítico (mas não indiferente, civicamente, como atrás já se explicou) e ainda mais independente, o que fazia mais sentido para mim, com a minha maneira de ser. Há um todo, que é a Humanidade.

Um parêntesis para citar Nástio Mosquito, no tema Demo da Gracía, do álbum Se Eu Fosse Angolano (2013: «Desculpa só; qual é mesmo o teu partido? Mas ainda bem que me pergunta, porque na verdade eu não tenho partido. O meu gosto é do trabalho e portanto...» Também sou dos acreditam no trabalho, que é fonte de Liberdade: sobrevivência autonomizada. Quem não rouba, não herda, não joga na lotaria... Além disso, um partido é apenas uma fatia da realidade, zona de menos Liberdade porque a Realidade é inteira, una, nua e crua. Qualquer partido tem a realidade partida e foge da realidade que não interessa - não vai directo a todos os pontos. Há coisas que se evita porque não encaixa na ideologia.

Sempre dei por mim a procurar compreender os diversos lados, analisar e pesar vantagens e desvantagens, os vários pontos de vista e contributos, de procurar o melhor caminho, em dado momento, em resultado das várias ideias, escolhas e propostas possíveis e disponíveis. Para que o Mundo avance, com mais segurança nas opções, menos riscos desnecessários e menos erros.

Trata-se de uma visão holística. Tem os limites e as possibilidades que tem. Esse desinteresse pela política e o gosto pela liberdade e independência foram também aprofundados pela experiência no jornalismo: o hábito de distanciar-se dos posicionamentos diversos sobre um assunto, ler a realidade de vários ângulos e cingir-se aos factos. O jornalismo permitiu profundar muito a minha consciência da realidade, que é múltipla e em constante evolução, e a minha equidistância.

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[Isto embora o jornalismo não deva limitar-se apenas a dar voz às partes e perspetivas envolvidas. Tem de haver um esforço de leitura e interpretação, de contextualização, de aprofundamento, de memória, de descodificação e desmontagem (rigorosa e objetiva) dos factos - diferente de opinar, politizar ou tomar partido - com os olhos postos na salvaguarda do direito que tem o público à informação, sem subterfúgios, na defesa do interesse público e do bem comum.]

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Atender a várias sensibilidades e perspectivas, pesar prós e contras, dá muito trabalho à cabeça. E é um processo mais demorado e com dilemas. Ter partido é mais fácil e claro, porque tem uma via selectiva e pré-determinada. E há interesses para os quais as pessoas pensarem muito ou, sobretudo, demoradamente, não interessa nada. Importa que consumam sem tempo para gerir e digerir.

Ser apolítico e a-ideológico, isto é, não professar uma política partidária ou uma ideologia em específico, não é ser indiferente. A política nunca me interessou nem me moveu, mas tenho sido (fui) pessoa de algumas causas cívicas, como já referi, comprometido civicamente, na área ambiental, cultural, educativa e sindical - o arquivo deste blogue dará algumas pistas sobre isso. As causas valem por si. Não precisam de serem politizadas ou ideologizadas.

Sem consciência política nenhuma, e sem chegar ao envolvimento ativo ou participativo em qualquer ação partidária, na vida privada ou pública, na adolescência simpatizei com a social-democracia, talvez por em casa o meu progenitor simpatizar com Sá Carneiro, sem isso significar que esta simpatia estivesse fundamentada numa consciência política. Hoje continuo a admirar a capacidade de Sá Carneiro romper com certos costumes no Portugal conservador do pós-25 de Abril de 1974. Esse lado fracturante deste homem é algo com o qual simpatizo. A sua morte, quer eu queira quer não, foi um acontecimento marcante na minha adolescência. Lembro-me bem quando e onde estava quando soube do trágico evento.

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[Sá Carneiro é visto por muitos como uma espécie de Olof Palme português. O primeiro-ministro sueco tornou-se conhecido como um dos maiores exemplos da conciliação de uma economia de mercado com a justiça social, sendo uma das três figuras mais marcantes para o socialista António Guterres, uma referência para António José Seguro (Visão 2.5.2012), tendo Mário Soares, em 30 de maio de 2013, e ainda em 18 de Fevereiro de 2014, afirmado que Sá Carneiro «era um homem de esquerda, como bom social-democrata que era» e «que quis entrar na internacional socialista», embora esta análise tenha de ser contextualizada e lida à luz da época de então.

Como referiu Miguel Sousa Tavares, no Expresso de 15 de Novembro de 2014 (primeiro caderno p.7), «fui sempre, e monotonamente, qualquer coisa próxima da social-democracia - mas uma social-democracia a sério, como a que conheci nos países nórdicos [civilizados, acrescento eu] nos anos oitenta. Também nunca fui liberal e nunca achei que «enriquecer é grandioso, como o estatuiu, anos depois, o Partido Comunista Chinês.»

Mais adiante, refere que «por conhecimento directo, enquanto jornalista, e por um mínimo de seriedade intelectual, jamais tive qualquer ilusão de que a colectivização da economia (só possível de estabelecer em regime ditatorial), pudesse trazer qualquer felicidade aos povos e bem-estar aos países.» Uma «mistificação».

«Assim, e sem quaisquer estados de alma», Sousa Tavares escreve que aceitou sempre o «facto de que o único sistema que poderia garantir a prosperidade e a liberdade dos povos e das nações, era o da economia de mercado, fundada na livre iniciativa privada e no trabalho e assumpção de riscos por conta própria e não na dependência ou para o Estado. Mas, porque também li Marx, e aprendi com isso, nunca tive ilusões de que, como ele dizia, entregue a si próprio, o capitalismo devorar-se-ia e a tudo à roda. A função do Estado seria, então, a de evitar justamente que isso sucedesse, por duas vias: a regulação e vigilância do mercado e a justiça fiscal, para compensar e corrigir as desigualdades à nascença e proteger os pobres e os fracos contra a tentação do poder esmagador dos ricos e poderosos.»

Mas, será que isso é suficiente para evitar que os ricos se montem nas costas dos pobres ou, então, que saiam de cima das suas costas? Será suficiente um Estado vigilante (imprensa e movimento sindical livres), regulador e redistribuidor da riqueza, para assegurar a dignidade das condições de vida das pessoas? Agraciar o grande capital, seja por via da social-democracia ou do socialismo-liberal, e esperar por algum excedente económico para financiar políticas sociais compensatórias será suficiente nos tempos actuais? Este «social» (compensações ou redistribuições de riqueza) não serão uma forma («o açúcar»), como disse Roberto Mangabeira Unger (Público 4.10.2014), com que se «pretende dourar a pílula do modelo económico»?

Ora, nas últimas duas décadas mandou o capitalismo selvagem, com trágicas consequências, em que os ricos e poderosos, sejam indivíduos, comunidades ou países, espoliam os restantes e não saem de cima das suas costas, espoliando inclusive as classes médias. Assim, aumenta o fosso esse ricos e pobres, entre credores e devedores, e diminui a justiça e a coesão sociais.

Para Roberto Mangabeira Unger não basta humanizar o actual sistema. “Precisamos de uma terceira esquerda, empenhada em democratizar a economia de mercado e em aprofundar a democracia”, escreve. Não se trata de deter a globalização, mas de redireccioná-la, “de forma a tornar o mundo mais seguro para uma pluralidade de poderes, de visões e para as experimentações nacionais, das quais depende o nosso sucesso em conseguir maior inclusão, oportunidade e capacidade”. Seja como for, interessa que seja um caminho que traga mais justiça social.]

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No final do Secundário, então ainda sem a mais rudimentar consciência política ou de coisas como direita ou esquerda (pelos vistos sempre me desinteressei por essa matéria - talvez por ser "artificial"), sem consciência de classe social ou de quem, supostamente, defendia os "meus interesses", lembro-me de ter simpatizado com uma candidatura presidencial (previamente dada como) derrotada, que era a de Freitas do Amaral. Recordo-me de haver colegas de turma, com alguma consciência política, acharem estranho a minha preferência, porque eu não era burguês, pequeno-burguês nem tão pouco aspirante a tal... Freitas do Amaral, afinal, viria, um dia, a ser ministro num governo socialista...

Tal como relativamente à esquerda, também reconheço a validade de certos valores que são mais conotados com o centro e a direita, embora muito deles sejam valores universais e não de um campo ideológico em particular. Todavia, há conjunturas em que há valores que fazem mais sentido do que outros, que são mais necessários do que outros, para haver um equilíbrio de "forças", modos de ver e governar o mundo. E não coloco de parte alguma medida mais radical, quando a realidade o justifica. Por vezes, a radicalidade é necessária e não há volta a dar. Depende das circunstâncias do mundo e da vida em cada momento.

Enfim, a minha consciência do valor de diferentes posições e ideias, e uma monótona moderação, concorrem para que seja apolítico e, além disso, altamente irrecomendável para projectos e carreiras políticas. Revejo-me em ideias e contributos dos diferentes partidos políticos, uns mais do que outros, claro, mas não exclusivamente num deles. A razão nunca está toda de um lado ou de um partido. Um partido não abarca a realidade toda e eu procuro, por instinto, o melhor dos diferentes mundos, ideias e propostas (se calhar um enorme Idealismo ou uma enorme Utopia). A Realidade do Mundo ora me coloca mais para a esquerda, ora mais para o centro, ora mais para a direita. A minha essência é a mesma.

Pode ser pessoalmente desconfortável («um pensamento independente é um lugar solitário e ventoso» - Rosa Montero em A louca da da casa), mais complexo e sei que posso ser incompreendido, porque não me encaixo numa gaveta (o ser humano categoriza e simplifica por instinto) e é como que uma posição anti-sistema, o que também pode ser lido como sendo algo pretensioso. Terá algo de anarquismo?

Certo é nunca me ter dado muito a unanimismos e a gostos massificados. Mas, também não rejeito o consenso e a massificação quando fazem sentido.

[Actualizado em 16.11.2014]

domingo, outubro 06, 2013

Estatuto social dos professores em Portugal entre os mais baixos do mundo

foto: Paulo Pimenta (Público 3.10.2013)
Estudo pioneiro avalia atitude das sociedades de 21 países em relação aos seus docentes e sistema educativo. Portugueses estão no último terço da tabela. Portugal é um dos países em que o estatuto social dos professores é mais baixo, situando-se no último terço do ranking agora divulgado. Confirma a percepção existente e que subsiste ainda, em parte, apesar da evolução nas últimas quatro décadas, a endémica desvalorização do conhecimento, da cultural escolar e da ciência pela sociedade portuguesa.

Replicamos a notícia do Público para memória futura:

«Os portugueses têm uma confiança moderada no seu sistema de ensino e a maioria não quer que os seus filhos sejam professores. Estas são duas das conclusões do primeiro estudo internacional que compara as atitudes em relação aos docentes em todo o mundo. Portugal é um dos países em que o estatuto social dos professores é mais baixo, situando-se no último terço do ranking divulgado nesta quarta-feira.

sábado, maio 11, 2013

Ecos pachequianos


Uma grande biografia sobre o ainda maior Luiz Pacheco, há meses na mesa de cabeceira, mas que ainda não consegui de lá tirar, apesar de lida e relida... Vai-se lá saber porquê...
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«Puta que os pariu!» foi a última resposta de Luiz Pacheco na entrevista que deu à revista Ler, em 1995, quando lhe pediram uma mensagem para as novas gerações.

quinta-feira, abril 25, 2013

Discurso presidencial no 25 de Abril

Derrocada de cravos altamente simbólica quando o Presidente discursava em favor da atual governação
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Para o Presidente da República o problema não é a governação que provoca a "ansiedade e a inquietação" (e desemprego, exploração e empobrecimento) dos portugueses, mas sim quem dá voz a essa ansiedade e inquietação, sejam os partidos da oposição, sindicatos ou movimentos sociais.

Cavaco Silva resolveu ainda salientar a importância do "consenso político alargado" mas cometeu o erro de ter sido parcial ao colocar a pressão basicamente sobre a oposição, em especial o maior partido da oposição ("a conflitualidade permanente e a ausência de consensos [...] irão afetar gravemente o interesse nacional"). A oposição só recebeu críticas enquanto o Governo, além de críticas, recebeu elogios.

Cavaco Silva está claramente comprometido com a política do Governo a apoia-a. Faz parte do problema e não da solução. Por isso, terá uma manifestação à porta no dia 25 de maio. Não tem olhos para a realidade e as circunstâncias. Não vê as consequências erradas de uma estratégia portuguesa e de uma certa Europa, mas apenas a obediência a essa estratégia, mesmo que dê cabo do País e espolie a vida dos portugueses. O que importa é cumprir a "receita", mesmo que seja experimental e esteja a dar cabo do paciente.

Para ele, o problema é ainda a hipotética "grave crise política" (note-se o uso do "grave" num mero cenário) de umas eleições antecipadas e não a "crise económica e social" (note-se a ausência do adjetivo "grave" na situação real e presente). Não vê outra alternativa senão obedecer cegamente à troika, seja que Governo for, mesmo que nos atire para uma espiral recessiva, empobrecimento e miséria.

Os maus resultados do Governo ou o facto de não estarem a governar com o programa que foi sufragado nas eleições não interessa ao Presidente, para quem ouvir os portugueses nas urnas é maior perigo ou dano do que a governação atual, que nos espolia e atira para a pobreza e a miséria todos os dias.

É nestes momentos cruciais que fica tudo à mostra. Cavaco Silva também não está ao lado dos portugueses e torna-se no quinto elemento que se junta à troika e ao Governo. Como saímos daqui? Voz aos cidadãos.
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DISCURSO NA ÍNTEGRA

segunda-feira, abril 08, 2013

Just say Não

 
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"Just say Nao", aconselha a Portugal o economista e prémio Nobel Paul Krugman, que voltou a criticar as medidas de austeridade na Europa. Curar os problemas com mais austeridade merece um não.

domingo, fevereiro 10, 2013

Estratégia do empobrecimento



 foto (c) João Girão / JN

«Quando um banqueiro, ao falar de novos sacrifícios, toma como referência os sem-abrigo fica-se com uma ideia até onde pensam levar o empobrecimento.»
CARLOS BRITO


SIC Notícias, 9 de fevereiro de 2013

quarta-feira, novembro 28, 2012

Vontade política insuflada pelas ideologias

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«A tragédia moderna não reside na falta de informação, mas sim na vontade política insuflada como bolha por essa versão laica do milagre que são as ideologias. No fim, será a dura realidade a prevalecer, pois todas as bolhas estão destinadas a rebentar.»

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
Diário de Notícias - novembro 2012

quinta-feira, novembro 01, 2012

Funções sociais do Estado e Justiça Social

Jornal I 1 de novembro de 2012

De acordo totalmente com o Partido Comunista quando alega que o atual Governo está a fazer com que trabalhemos para empobrecer (é ver o nível de desvalorização dos rendimentos do trabalho por várias vias), permite que o dinheiro dos contribuintes seja enterrado nos bancos em avultadas quantias (em vez de injetar na economia) e avance com o corte das funções sociais do Estado, preparando-se para entregar direitos fundamentais como a Educação e a Saúde ao lucro e ao interesse privado.

Não se esqueça que as funções sociais do Estado promovem a redistribuição da riqueza, a equidade e a justiça social, ajudando a diminuir o fosso entre ricos e pobres em Portugal.

Embora haja sempre alternativas, sabemos que o espaço de manobra é curto, no quadro de uma opção reformista e não no quadro de uma opção revolucionária, num momento em que o País está sob resgate, sem soberania orçamental e fiscal. Seja qual for o Governo. Agora, não temos de aceitar juros tão elevados como estamos a pagar, que são usura, nem que se destrua o Estado Social.

sexta-feira, outubro 05, 2012

Governo moribundo, mais crise à espreita


Henri Cartoon

Os indicadores parecem apontar no sentido do esboroar da atual coligação de maioria, que suporta o Governo da República.

A meio de um resgate financeiro, a instabilidade política e um "entra e sai" de governos era mesmo o que faltava. O que se segue? A bancarrota?

Zé Povinho esmagado e Governo moribundo? Vamos entregar-nos à desesperança, ao catastrofismo, ao No Future?

Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Andamos lá perto.

quarta-feira, outubro 03, 2012

Equidade não garantida (2)


HenriCartoon

Continua a não estar garantida a equidade dos sacrifícios na nova leva de austeridade anunciada hoje pelo ministro das Finanças. Simplesmente porque o agravamento incide mais ou sobretudo sobre os trabalhadores, isto é, o rendimento do trabalho, onde é mais fácil intervir. Agrava-se o empobrecimento dos trabalhadores.

É mais difícil intervir sobre o capital, como as transações financeiras ou distribuição de dividendos, já que possui uma mobilidade que lhe permite a fuga para outras praças mais favoráveis. Por isso, o ministro foi impreciso e sem medidas concretas sobre o capital, remetendo para posterior autorização legislativa. Quem acredita que vão mesmo deitar as mãos ao capital?...

Remeteu também a renegociação dos contratos (desastrosos para o Estado) com as PPPs para o futuro: rasgam-se os contratos com os trabalhadores para aplicar austeridade e há tanta parcimónia para mexer nos contratos das PPPs, para haver «proporcionalidade» entre as partes?

Como assumiu o próprio Vítor Gaspar na sua comunicação, trata-se de um «enorme aumento de impostos», que vai incidir brutalmente sobre a classe média. A partir do meio da tabela do IRS, agora reduzido a cinco escalões, é a doer -  fala-se em 35%. Quem ganha mil euros por mês já não se safa. Nestes tempos, quem ganha mil euros em Portugal é «milionário»...

domingo, setembro 16, 2012

Descontentamento chega à rua



Fui à manifestação * mais anti-Governo do que anti-troika. Como se sabe, o Governo está a tomar medidas contra os trabalhadores (transfere o pouco dinheiro destes para as empresas), que nem a troika manda, e não toma as medidas que a troika recomenda, como o acertado corte no Estado gordo.

Aliás, até o capital rejeita essa transferência do trabalho para o capital, mas o Governo está apostado na competitividade por via dos salários baixos (trabalhar para empobrecer como bem denuncia o Partido Comunista), até os portugueses comerem menos um grão de arroz do que os trabalhadores chineses.

Aquela promessa de cortar nas gorduras este Governo nunca cumpriu porque cortar na despesa da máquina administrativa, de organismos como fundações e institutos, nos consumos intermédios, nas despesas com carros com motorista, cartões de crédito, despesas de representação, telemóveis, subsídio de refeição, deslocação e/ou residência nos altos cargos, entre outros, é mais difícil do que ir ao bolso de quem trabalha por via de impostos, contribuições sociais ou de cortes nos serviços sociais fundamentais do Estado: saúde e educação.

sábado, setembro 08, 2012

Equidade não garantida



Antes de bater nas opções do Governo da República, decorrente das acrescidas medidas de austeridade sobre os trabalhadores, é preciso recordar que já em 2006 a economia portuguesa se debatia com um conjunto simultâneo de graves problemas: produto interno não crescia, produtividade não crescia, taxa de desemprego era elevada e existiam défices orçamentais e défices na balança de transações.

Sócrates começou a governar em março de 2005. Em poucos meses colocou a economia do País com os referidos cinco graves problemas? Claro que não.

Em 2012 temos mais um problema: uma dívida que há quem considere quase impagável (como também é a dívida da Madeira para os madeirenses, que um dia terá de ser assumida pelo Estado ou estamos "condenados" por décadas). Passos Coelho governa desde junho de 2011. Não foi o seu Governo que criou tal dívida.

domingo, junho 10, 2012

Atenção às desigualdades

António Nóvoa no discurso integrado nas comemorações oficiais do 10 de junho

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«Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. Façamos um armistício connosco, e com o país.»

Subscrevo por inteiro esta ideia de António Nóvoa, presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, no seu discurso neste 10 de junho.

Não faltam por aí, no atual contexto de grave crise, posições radicais e demagógicas, embora ilusórias e insustentadas, que visam cavalgar o medo e o desespero (muito sinónimo de desemprego e precariedade), com fins que não são altruístas nem responsáveis – apesar de, perigosamente, convencidos de serem senhores de toda a razão… prontos a levar tudo e todos à frente se for preciso, em nome da sua agenda (a melhor, a perfeita, a única).

Nota: revejo-me em muito do pensamento de António Nóvoa sobre a Educação em Portugal: "Professores, imagens do futuro presente" - 2009.

Ainda neste 10 de junho:

"Gostava de perceber como é que a UE é tão rápida a arranjar 100 mil milhões de euros para injetar no sistema bancário espanhol e é tão lenta a injetar dinheiro e recursos para financiar a economia e o emprego na EU".

São pertinentes estas palavras de José Seguro, embora haja imensa complexidade subjacente a esta questão. Contudo, é importante que os olhos não estejam apenas postos na austeridade e na rápida redução dos défices, para evitar o colapso social e das economias frágeis como a portuguesa.

quarta-feira, maio 23, 2012

Evitar males maiores


A Madeira não conta com uma estrutura produtiva nem com uma estrutura social que permitam aplicar, em toda a linha, a receita única imposta pela troika, para o reequilíbrio orçamental, sem efeitos devastadores para as empresas e o emprego.

Pode haver um desmoronamento da nossa economia e um colapso social (demasiados madeirenses no desemprego e uma carga fiscal insuportável).