«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE
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domingo, janeiro 26, 2014

Para satisfazer instintos primitivos de crueldade e humilhação

É tudo dito em poucas palavras (revista Sábado, 2014)

Afinal passei pela Universidade enganado... Pensava, e continuo a pensar, que espírito académico significava estudo, amor pelo conhecimento, desenvolvimento pessoal, vias para a verdadeira abertura da mente, o esclarecimento (inconformismo e rebeldia por via da inteligência e do saber), afirmação e emancipação...

Por isso não tinha espírito académico...

Não gostava de tunas, nem de bebedeira ou rituais de crueldade e humilhação, para satisfazer certos instintos primitivos / irracionais da natureza humana. Isto é ser "um chato". Se não se aceita a ordem vigente... Se não aceita uma "brincadeira"...

O trabalho académico é a melhor forma para o caloiro conhecer o valor da humildade, a dureza da vida, desinsuflar o ego e até descontrair, porque se dá conta que "nada sabe" perante a vastidão do Saber.

Mas, a prática da "praxe" (conformar por via do medo, pressão, desdém, etc), sobre quem chega de novo, não acontece só na Universidade ou nos meios militares...

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A propósito:
Praxe, polémica e violência, uma história com séculos
"A abjecção das praxes: a praxe mata, às vezes o corpo, mas sempre a cabeça" (José Pacheco Pereira) ler mais adiante
"Praxes: igual à máfia?" (Vasco Pulido Valente) ler mais adiante
Um país que perdeu referências tem as praxes que merece (José Manuel Fernandes) ler mais adiante
«Ameaças, coação, perseguição, violência, arbitrariedade, sexismo, machismo: é isso a praxe.»
Testemunhos oculares, poderão colocar verdadeira luz sobre o que se passou com os estudantes/vítimas do Meco («a rastejar com pedras nos tornozelos»)

sábado, agosto 03, 2013

Crianças-Rei (petits dictateurs) e a Gaiola Dourada

L'éducation de la petite enfance et des jeunes au Portugal est aussi une grande comédie ... oui oui...

Ruben Alves, o jovem realizador luso-francês, estreou-se com um sucesso: a Gaiola Dourada. Bateu recordes de bilheteira em França com as histórias da comunidade portuguesa emigrante. Estreou em Portugal em 1 de agosto.

Não é o filme em si que é a razão deste texto (depois de ver o filme, quem sabe), mas afirmações do realizador sobre a educação das crianças, na Visão #1063, de 18 a 24 de julho, que prenderam o meu olhar:

«Em Portugal, ao contrário de França, dá-se muita atenção às crianças. Os portugueses gostam muito de crianças.» Constata ainda que «em França, [os adultos] são mais desligados e frios», ao contrário dos «adultos portugueses», que «são tão acolhedores», que concedem a «sensação de liberdade» aos mais novos. Ruben Alves tem subjacente a ideia de que, em Portugal, se estragam as crianças. O que disse logo a seguir às frases citadas só o confirma:

«Em Portugal, o miúdo é rei. Deixam-no fazer tudo...»

A atenção, o acolhimento, a liberdade e o gostar das crianças é positivo nos portugueses, desde que com conta e medida. Pelo que eu vejo em locais públicos e nas escolas, parece que transformar a criança em «rei» e deixá-la «fazer tudo» não é bom, para ninguém. O adulto limita-se a ser um fornecedor ou intermediário das pulsões e desejos da criança, que se julga o centro do mundo pela atenção desmesurada que recebe. O adulto apaga-se para bem servir o seu «rei» (petit dictateur). O adulto dá à criança-rei só o que ela quer e gosta.

Continue a ler para saber qual o resultado desta «realeza» infantil, observado por Eduardo Lourenço, talvez o maior pensador português vivo, ele que faz uma abordagem crítica da realidade, que lhe permite analisar as «motivações menos evidentes no comportamento dos portugueses como povo».

Quando li a referida frase de Ruben Alves, que destaquei em cima, lembrei-me de imediato da «criança-rei» de Eduardo Lourenço, que o registou no livro O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português, de 1978:

«É pena que Freud não nos tenha conhecido: teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade.

Talvez não ficasse admirado se conhecesse, mesmo pela rama, umas das menos repressivas educações infantis que existem e tanto entusiasmaram Sartre quando observou a análoga, a vizinha Espanha. Adulação permanente e espectacular da criança-rei (sobretudo o macho), porta aberta para a suas pulsões narcisistas e exibicionistas, ausência de perspectiva social positiva salvo a que prolonga a afirmação egoísta de si, tais são os mais comuns reflexos da educação portuguesa, defesa natural de mães frustradas nela pelo genérico absentismo e irresponsabilidade paternos.

A contrapartida desta “realeza” que converte cada adolescente (macho) na famosa espécie dos «matões» cara ao nosso Épico, traduz-se numa indefinição do espaço humano que nada limita e define senão a vontade oposta, e dá origem a uma sociedade que, sem paradoxo algum, suscista e impõe uma “violência estatal” que, exteriormente, equilibra essa fictícia realeza individual.

Nada há na educação portuguesa – sobretudo hoje que a também «exterior» mas efectiva pressão ética de ordem religiosa naufragou – que contribua para a existência de um comportamento tanto quanto possível autodeterminado.»

O que dirá este grande pensador da educação das crianças nas últimas três décadas, que acentuou a «realeza individual» em que só conta o EU (centro do mundo) e mais ninguém?...

Quem se atreve a contrarir a ortodoxia da criança-rei? Quem se atreve a ficar conotado com o autoritarismo ao denunciar as consequências de uma educação permissiva, desculpabilizante e complacente, com a criança como rei?

Sabemos, por exemplo, o que é ter uma «criança-rei» dentro de si ao volante de um carro...Ou um punhado de crianças-rei dentro de um sala de aula... Demasiados pais sabem o que é ter uma criança-rei em casa... Aliás, a casa e a família, que é o primeiro e mais importante espaço de socialização, determinam muita coisa na educação das crianças.

Mas, depois quando crescem, as crianças-rei dão-se conta que o mundo real não funciona assim... que a sua «fictícia realeza individual» é mesmo fictícia (ilusão vendida por adultos) e que tem de se habituar a outro registo alternativo ao «mando em tudo e todos» a que estava (muito mal) habituada.

Mais reflexão sobre o assunto:
Elementos sobre o estado da escola pública: educação infantil (2007)
O pequeno ditador é alguém que aprendeu que pode impor a sua vontade (entrevista de 2007 a Javier Urra, autor de "O Pequeno Ditador")
Por que as crianças francesas não têm déficit de atenção («pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”)
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quinta-feira, setembro 15, 2011

"Duelo" Passos Coelho/Mário Nogueira

Primeiro-Ministro e Secretário-Geral da FENPROF em diálogo democrático fluído e bem disposto - ver o VÍDEO
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Passos Coelho encontrou-se, em Viseu, com o líder da mais representativa federação de professores do País, a Fenprof, em 12 de Setembro. A conversa entre os dois durou oito minutos.

Segundo a Lusa, «ao chegar ao segundo centro educativo que hoje inaugurou em Viseu, Passos Coelho tinha à espera responsáveis da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), nomeadamente o seu secretário-geral, Mário Nogueira.

Segundo Mário Nogueira, os professores estão "extremamente preocupados, não tanto pela forma como abre" o ano lectivo, mas "pela forma como decorre e vai terminar".

Isto porque, explicou, "ao corte de 800 milhões deste ano, se juntará um novo corte de 500 milhões no próximo ano", sendo "1.300 milhões um quarto do orçamento total" no sector da Educação.

"E isto tem consequências. Não é apenas a questão do emprego dos professores. É o funcionamento das escolas, a qualidade do ensino, os apoios sociais às famílias. Enfim, é a escola que fica em causa", considerou.

Passos Coelho entrou em diálogo com Mário Nogueira, lembrando que as exigências de Portugal do ponto de vista financeiro "são muito grandes" e que "a despesa pública na área da Educação, da Saúde, da Segurança Social são as que mais relevância têm" no Estado.

"Portanto, não é possível cumprir as metas que temos para o orçamento do Estado, para o défice e para a dívida sem, também na Educação, fazer pelo menos tão bem ou melhor gastando menos", defendeu, dizendo contar com a colaboração dos professores neste processo.

Mário Nogueira lamentou que mais professores tenham ficado sem colocação, não "porque de repente as escolas ficaram a precisar de menos professores", mas "porque foram tomadas medidas nesse sentido, nomeadamente ainda no final da governação anterior" e que foram adoptadas pela actual equipa do ministério.

"Lendo o documento estratégico para o orçamento até 2015, preocupa-nos quando vemos lá o aumento do número de alunos por turma, que faz perder qualidade ao ensino, o continuar a encerrar escolas ou continuarem os mega-agrupamentos", explicou.

Mário Nogueira admitiu ser preciso racionalizar, mas fez votos para que nesse processo "não se esmaguem aqueles que não podem ser esmagados e que não fique o país de rastos no fim".

Passos Coelho argumentou que o Governo não deve criar ilusões aos portugueses, exemplificando que, se os ministros da Saúde e da Educação não cumprirem bem a sua missão de gastar centenas de milhões de euros a menos, o Serviço Nacional de Saúde e o sistema educativo podem "ficar em causa, porque deixará de haver meios financeiros para poder acudir".»

sexta-feira, março 26, 2010

Elementos sobre o estado da escola pública 64: violência camuflada XV

Este país não é para professores

Síntese de um artigo de opinião com algumas sentenças certeiras:
«Só quem anda longe do meio escolar é que ficou surpreendido com o suicídio do pequeno Leandro ou com o voo picado para o Tejo do professor de Música. Nas escolas, antigamente, preveniam-se as causas. Hoje, lamentam-se, com lágrimas de crocodilo, os efeitos.»

«Pobre senhor [professor Luís]. Se calhar teve o azar de ter que ganhar a vida a dar aulas e não conheceu a sorte daqueles que a ganham a ditar leis do alto da sua poltrona que, em nada, se adequam à realidade das escolas de hoje.»

[É] normal os professores andarem com a cabeça num 'oito' por não se sentirem protegidos por uma ideia pedagógica de que os alunos são o centro de tudo, têm quase sempre razão, que a vida familiar deles justifica tudo, inclusive atitudes violentas sobre os colegas a que agora os entendidos dão o nome de 'bullying'?»

«Segundo os jornais 'Público' e 'i', o professor de Música que se suicidou a 9 de Fevereiro deste ano, parou o carro na Ponte 25 de Abril, em Lisboa, e atirou-se ao rio Tejo. No seu computador pessoal, noticiam os dois diários, deixou um texto que afirmava: 'Se o meu destino é sofrer, dando aulas a alunos que não me respeitam e me põem fora de mim, não tendo outras fontes de rendimento, a única solução apaziguadora será o suicídio', disse o licenciado em Sociologia.»

«E à boa maneira portuguesa, lá veio o director regional de Educação de Lisboa [dizer] que o docente tinha uma 'fragilidade psicológica há muito tempo'. Só entendo estas afirmações num país que, constantemente, quer enveredar pelo caminho mais fácil, desculpando os culpados e deixar a defesa para aqueles que, infelizmente, já não se podem defender.»

«É assim tão lógico pensarmos que este senhor professor, por ter a tal fragilidade psicológica, não precisaria de algo mais do que um simples ignorar dos sete processos instaurados àquela turma e que em nada deram?»

A Direcção Regional de Educação de Lisboa (DREL), à boa maneira portuguesa, colocou psicólogos na tal turma com medo que haja um sentimento de culpa [nos alunos]. E não deveria haver? Não há aqui ninguém responsável pela morte deste professor?» Nem um pouco?

«Só quem não trabalha numa escola ou não lida com o ambiente escolar pode achar estranho (colocando de lado a questão do suicídio em si) que um professor não ande bem da cabeça pelos problemas vividos dentro da sala de aula em tantas escolas deste país.»

Recorde-se:
Apontam a suposta fragilidade da vítima, mas nada dizem da brutalidade dos agressores

sexta-feira, março 19, 2010

Elementos sobre o estado da Escola Pública 63: público perde, privado ganha alunos

Enquanto a escola pública perde milhares de alunos, o privado está em ascensão, sobretudo nos últimos anos
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A notícia não espanta ninguém, sobretudo quem, como aqui, tem abordado diversos «elementos sobre o estado da Escola Pública» portuguesa.

«Nos últimos dez anos, o ensino público perdeu mais de 135 mil alunos, do pré-escolar ao ensino secundário», diz o Público (02.03.2010). «No entanto, o número de estudantes nos colégios e externatos aumentou de 15 para 18 por cento do total da rede, em dez anos. Entre 1998 e 2004, fecharam cerca de cem colégios. Mas o ensino privado ganhou um novo fôlego. E, de há seis anos para cá, surgem novos projectos anualmente.»

E porquê a escolha pelo privado? «As famílias que optam pelo privado procuram um ambiente seguro, um projecto educativo virado para o sucesso e um corpo docente estável, dizem os pais, os responsáveis pelas escolas, mas também os investigadores universitários.»

Eu recorreria à escola privada como forma de fugir aos ambientes desfavoráveis ao processo de ensino-aprendizagem, à indisciplina, à atitude negativa perante o trabalho intelectual, à violência escolar, à degradação da qualidade das aprendizagens devido ao facilitismo (e construção fraudulenta do sucesso escolar), à falta de valores, entre outros aspectos.

«É preciso investir na educação dos filhos como fez a avó de Obama: meteu-o numa escola privada cara» (João Vaz - Jornalista, CM 14.11.2008).

quinta-feira, março 18, 2010

Elementos sobre o estado da Escola Pública 62: violência camuflada XIV

É claro que os professores, deixados sozinhos, têm também de unir-se para forçar os responsáveis, desde cima a baixo, a tomar medidas e a fazer o que lhes compete quanto à indisciplina e violência na escola
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«[O]s professores (ou pelo menos aqueles dignos de assim serem chamados) deviam unir-se para mudar o estado das coisas. Já vimos que os professores são capazes de mobilizar-se em torno de causas que consideram verdadeiramente importantes como, por exemplo, a progressão na carreira e a questão da sua avaliação.

Eu, como cidadã e como mãe, gostaria de ver os professores unidos pelo respeito pela sua autoridade, e pelo correcto exercício dela. Considero que não abona a favor dos professores que não lutem por isto, que é o cerne do ensino, como lutam por alguns dos seus direitos.

Compete, também, aos professores, se for necessário, lutar por contrariar a podridão que Marques da Silva [Carta do Leitor no Diário de 15.03.2010: decorrente do facilitismo e permissividade, o «resultado foi a Escola, em muitos casos, oferecer à sociedade indivíduos ignorantes, incompetentes e malcriados»] aponta na sua referida carta. Estou convencida que os pais - aqueles que se esforçam por exercer essa função de forma séria - e toda a sociedade civil, os apoiariam. Ficassem os politicamente correctos e os pedagogos de meia tijela a falar sozinhos! Neste momento o poder está na mão deles porque todos nós deixámos...

Conheço imensos professores. Alguns são excelentes, na sua maioria são honestos, sérios e trabalhadores. Querem cumprir a sua missão (ensinar!) e fazer o que está certo, mas frequentemente acabam por desistir. Às vezes são as próprias direcções das escolas que "não querem problemas", ou a Secretaria da Educação que não toma medidas (se calhar porque não pode).

Assim, alguns pais usam o "bullying" para que nada toque ou perturbe o percurso escolar dos delinquentes de amanhã, o sistema protege-os e nós todos vergamo-nos. A mensagem que passa é bem clara: o que está a dar é insultar e ameaçar, e o resto (comportamento, saber, trabalho, competência, esforço, honestidade, etc.) pouco importa. Esta mensagem, aliás, faz eco na nossa sociedade em muitas outras situações...

Autoridade e autoritarismo são coisas muito diferentes. O 25 de Abril trouxe-nos liberdade. O exercício da liberdade não pressupõe um vazio de autoridade. Já vem sendo mais que tempo de os portugueses compreenderem que a autoridade é necessária e faz falta. Depois, só nos faltará exigir às autoridades que as sejam efectivamente. Mas isso já é outro assunto.»

Diário 16.03.2010
Diana Rodrigues

quarta-feira, março 17, 2010

Elementos sobre o estado da Escola Pública 61: violência camuflada XIII

É preciso penalizar e responsabilizar tanto quem provoca a violência como quem a desculpabiliza e branqueia. Tanto uns como outros, bullies e quem lhes dá "carta branca", não podem continuar impunes
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Têm surgido, em vários quadrantes, o discurso do "sempre existiu" para legitimar a violência (bullying) em espaço escolar. Aceitar e relativizar para negar a realidade é abandonar as vítimas à sua sorte.

A discriminação da mulher, por exemplo, sempre houve, mas isso não é argumento para legitimar essa discriminação nem para que ela continue a ser aceite como normal, como se de uma boa tradição se tratasse. O mesmo se aplica ao bullying.

«Efectivamente, ao nível das comunidades escolares, sempre houve os empurrões, sempre houve as pequenas agressões, todos nós passámos por isso e sobrevivemos e penso que todos sobreviverão a esse tipo de situações», afirmou à RTP Madeira, em 16.3.2010, o secretário regional de Educação e Cultura.

A relativização e aceitação da violência em espaço escolar é, antes de mais um sinal de desautorização a todos os que procuram, nas escolas, lutar contra a violência continuada dos bullies sobre as vítimas. É, por outro lado, um sinal de incentivo para os agressores e para a impunidade de que gozam tantas vezes.

Ainda bem que PGR quer reforçar criminalização da violência escolar. «A nossa sociedade não pode continuar a ver o aluno como uma criatura intocável, irresponsabilizável e inimputável» [LER MAIS].

Interessa apenas sobreviver? Se as vítimas da violência não acabarem como o Leandro de Mirandela significa que está tudo bem? As feridas e marcas psicológicas que ficam para a vida nas vítimas não têm importância? A violência mais grave e demolidora muitas vezes nem é a física («empurrões»). É a psicológica.

As sociedades vão evoluindo. A civilização tem evoluído. O facto de um comportamento ter sempre existido não o legitima nem serve de argumento para que continue. É uma questão de tradição? Isto é negar o conceito de Educação, aquilo que nos permite estarmos num estádio superior ao dos animais irracionais.

Uma escola que aceita a indisciplina e a violência como normal está doente. Tal minimização da violência constitui a negação da realidade, bem como do valor da Educação, numa gestão do problema que é tudo menos educativa.

A mesma notícia da RTP Madeira referia que, «nos últimos dez anos a Secretaria Regional de Educação e Cultura lidou apenas com dois casos de bullying, ou seja, violência em meio escolar». Supostamente dois casos que ficaram por resolver [esconder?] nas escolas e acabaram por chegar à Secretaria Regional de Educação e Cultura.

Faço três apelos, para que a realidade integre as (ilusões) estatísticas e o bullying não passe incógnito:

Que todos os alunos ou encarregados de educação cujos filhos sejam vítimas de bullying façam chegar à Secretaria Regional de Educação e Cultura esses casos de violência escolar.

Que todos os professores denunciem à Secretaria Regional de Educação e Cultura os casos de violência escolar de que os seus alunos ou eles próprios sejam vítimas.

Que os professores se unam na luta por condições de trabalho, para si e para os estudantes que querem aprender, sem indisciplina generalizada e violência.

A ocultação da realidade serve aos agressores, desresponsabiliza quem tem o dever de agir e penaliza as vítimas.

É preciso penalizar e responsabilizar tanto quem provoca a violência como quem a desculpabiliza e branqueia. Tanto uns como outros não podem continuar impunes.

A propósito:
PGR quer reforçar criminalização da violência escolar

60: Violência camuflada XII
59: Violência camuflada XI
58: Violência camuflada X
57: Violência camuflada IX
56: Violência camuflada VIII
55: Violência camuflada VII
53: Violência camuflada V
15: Violência (des)camuflada IV
13: violência camuflada III
12: violência camuflada II
7: violência camuflada I
38: Bandalheira instalada na pública favorece a privada
30: Onde falhamos nós no público
29: Regras e responsabilização das crianças
27: Responsabilização
23: Leste arrasa postura desculpabilizante

Outros:
10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação
Brincamos mesmo
País de brincalhões
Fomentos da indisciplina [quando o exemplo nem vem de cima]

segunda-feira, março 15, 2010

Elementos sobre o estado da escola pública 60: violência camuflada XII

«A nossa sociedade não pode continuar a ver o aluno como uma criatura intocável, irresponsabilizável e inimputável»
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«Esta sequência de acontecimentos [suicídio de estudante da uma escola de Mirandela e de um professor de uma escola de Mafra] evidencia bem o estado a que chegámos e revela o grande erro em que persistimos no campo da educação - o aluno está no centro de tudo, enquanto professores e pais são actores secundários, que as orientações do Ministério tentam colocar em lados opostos da barricada», lê-se hoje no Diário, num artigo de opinião.

«A nossa sociedade não pode continuar a ver o aluno como uma criatura intocável, irresponsabilizável e inimputável», continua o articulista Raul Ribeiro. «Na peça do "Público" lia-se que o malogrado Professor Luís era constantemente apodado de "gordo", "careca" e "cão". Mas o mais chocante para mim foi ler a declaração dum dos seus alunos do 9º B,: "Portava-me sempre mal (…) mas somos assim e todas as aulas, é da idade".»

Na verdade, «numa simples frase, dita por um adolescente, que deverá ter entre 13 e 15 anos, está tudo dito sobre as futuras gerações de egoístas sem carácter que estamos formando. O mau comportamento, o insulto e a agressão estão cobertos por um manto de normalidade e resignação, porque não se deve pressionar nem castigar os meninos, para não os traumatizar.»

Acrescentaria que aqui entra a desculpabilização da indisciplina e da violência escolares para a qual a psicologia e a pedagogia muito contribuíram: não há consequência por que se traumatizam os meninos, não se exige trabalho e estudo porque, supostamente, a pedagogia deve fazer o estudante aprender sem esforço e empenho.

«E assim, por todo o Pais, há muitos pais que não são integrados no projecto escolar, e lavam as mãos com a mesma desfaçatez com que ignoram os filhos, muitos professores que se sentem manietados, porque podem levar com uma cadeira na cabeça mas quase não podem levantar a voz, e cada vez mais alunos que reinam, na escola e em casa, porque se aperceberam que quem deveria zelar por eles e impor-lhes regras, lhes concedeu o poder de fazerem o que bem entenderem.»

Isto é, todas as partes no processo educativo têm de assumir as suas responsabilidades. E os alunos não podem ficar de fora.

Elementos sobre o estado da escola pública 59: violência camuflada XI

Madeira não é nenhum "cantinho do céu" no que toca à indisciplina e violência escolar

A «disciplina democrática» que se aplica aos sectores da vida pública na Madeira não chega às salas de aula, esses espaços de autoridade e regulação difusas (vulgo bandalheira).

O aluno é disciplinado e empenhado nas tarefas escolares apenas se assim entender, porque caso contrário ninguém lhe educa a vontade para nada. Pelo menos o professor já não tem a autoridade para tal. Como não tem autoridade não pode construir uma liderança (ser líder). Por isso, exigem-lhe qualidades de super homem ou super mulher para inventar soluções, sozinho.

«Direcções das escolas nem sempre são solidárias com os professores» foi título de uma notícia no Diário (13.03.2010). «Além das ameaças de agressão fora da escola, não é raro o professor repreender um aluno dentro da sala de aula e depois deparar-se com o carro vandalizado.»

O Sindicato dos Professores da Madeira denuncia que «há professores vítimas dos alunos na Região. Os números são à nossa escala, mas existem, os dramas são reais e estão espalhados um pouco por todos os concelhos». Diz-se ainda que «quase todos preferem viver a situação sozinhos, conforme podem.»

É este isolamento que é preciso ser quebrado e haver uma acção concertada, não sei se liderada pelos sindicatos ou por outro tipo de estrutura associativa de docentes. É preciso que as queixas de foro criminal cheguem ao Ministério Público e que os problemas sejam descritos por escrito e oficialmente à tutela educativa. Nem que seja para evitar que alguns neguem a realidade.

Como outro tipo de vítimas, os docentes muitas vezes ocultam os problemas com medo da censura ou de serem responsabilizados, porque o sistema educativo tenta passar a ideia de que a disciplina e autoridade e liderança na sala de aula depende exclusivamente do professor. Que nada tem a ver com o aluno, a família, a direcção da escola ou a tutela educativa. Como se fosse uma questão de pedagogia...

domingo, março 14, 2010

Elementos sobre o estado da escola pública 58: violência camuflada X

Na escola do professor que se matou os casos de violência são constantes, denuncia o Público

Os alertas, inclusive escritos, não tiveram eco na direcção da escola, como não têm o devido tratamento em outras instâncias educativas. É a indiferença e o deixa andar reveladores de uma enorme irresponsabilidade.

Como pode um professor conformar-se com uma escola de falsas ilusões que não promove a cultura, nem o método, nem o rigor, nem a exigência, nem a disciplina, nem o trabalho?

Como se pode um professor conformar-se com uma escola que nega e desculpabiliza a indisciplina e a violência?

«Quem pode levar a sério uma escola em que o próprio ministério fabrica os resultados, proíbe legalmente a reprovação e aceita a violência?» (Vasco Pulido Valente, Público 13.03.2010)

Como se pode tolerar como normal que um estudante, um dos alunos do professor Luís, que se suicidou, diga com o maior à vontade que «portava-me sempre mal, mas não era por ser ele. Somos assim e todas as aulas, é da idade»...

Elementos sobre o estado da escola pública 57: violência camuflada IX

Para alguns, a culpa é da suposta fragilidade da vítima e não da brutalidade dos agressores

Os casos mediatizados do estudante de 12 anos que atirou ao rio e o do professor que «preferiu morrer a voltar ao 9º B», em consequência, no todo ou em parte, da maus tratos de alunos, têm colocado à mostra a complacência com que os responsáveis, desde as escolas ao Ministério da Educação, lidam com o problema da indisciplina e violência na escola pública.

Desde logo pela recusa em falar do caso. E quando falam é para negar a evidência (relativizar, aceitar, minimizar, é escolher o sinónimo) ou ajeitar os factos (desresponsabilização).

O professor que suicidou, bem como outros colegas, segundo o Público, alertaram a direcção da escola para os problemas da indisciplina e da violência, mas nada fizeram.

O facto de o professor em causa ter antecedentes de fragilidade emocional não o torna agressor nem justifica a violência. Bem pelo contrário. Ou será que a sala de aula é uma arena de combate em que as pessoas se portam como animais?

«Apenas lhe propuseram assistir a aulas de colegas para aprender a lidar com as provocações», disse a irmã, também docente, do referido professor. Que bela forma de sacudir a água do capote. A direcção da escola, em vez de fazer o que lhe compete e regular a indisciplina, deixa cada docente sozinho, entregue a si próprio e, ainda por cima, culpabiliza-os. O problema não está no agressor ou no indisciplinado, está no docente que supostamente não sabe lidar com as provocações...

Dá vergonha ser professor neste País... Vale mesmo a pena ser-se empenhado e competente... A qualidade que se pede ao professor é, afinal, saber lidar com as provocações. Tem de impôr respeito (dar-se ao respeito) e ser líder sem autoridade (condições para exercer liderança). É preciso não esquecer a grande erosão da autoridade dos professores nos últimos quatro anos de governo PS e "reinado" de Maria de Lurdes Rodrigues. Isto ninguém pode negar.

«O clima de indisciplina nas escolas está a tornar-se insustentável», escreveu Luís, que era como se chamava o professor em causa. «E ainda há quem culpe os professores, por falta de autoridade. Essas pessoas não fazem a mínima ideia do ambiente que se vive numa escola. Aconselho-as a verem o filme A Turma [Entre Les Murs]». Eu aconselho um outro: Dia da Saia.

Mas, mesmo que poucos optassem pelo suicídio nas circustâncias do Luís, a sua irmã questiona (Público 13.03.2010): «quantos professores não se econtram neste momento de atestado médico ou a leccionar no limite das suas forças, por situações semelhantes?»

E insiste: «Será que um professor tem que ser um super homem? Qualquer um, independentemente das suas características, não tem o direito de ser respeitado?»

Dito de outra forma, os estudantes não sabem que, à partida, até por lei, têm de ter uma atitude disciplinada e não violenta na sala de aula? Os pais não o sabem? As direcções das escolas não o sabem? A regulação da disciplina depende apenas do professor?

Como se pode tolerar como normal que um estudante, um dos alunos do professor Luís, diga com o maior à vontade (Público 12.03.2010) que «portava-me sempre mal, mas não era por ser ele. Somos assim e todas as aulas, é da idade»...

O director regional de Educação de Lisboa, José Joaquim Leitão, que já desculpabilizara os alunos que maltrataram o professor, veio dizer, segundo o Público (13.03.2010) que «Luís apresentaria "fragilidade psicológica desde há muito tempo"» (mais desculpabilização e aceitação da violência escolar) e que o objectivo, em vez de tomar medidas para acabar com a indisciplina e a violência na escola, é perceber se o suicídio foi uma consequência do bullying por parte dos alunos (mais uma tentativa de iludir a realidade de uma forma desavergonhada e irresponsável)...

Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, afirmou que o «pior que pode acontecer neste caso é desvalorizar-se a situação e dizer-se que só aconteceu porque era frágil.»

O senhor José Joaquim Leitão deveria ser imediatamente responsabilizado pela tentativa de branqueamento da situação e falta de vontade política em resolver os problemas. Se os maus tratos dos alunos tiveram um peso que 30, 50 ou 70 por cento no suicídio do professor o que altera de substancial? Deixa de haver indisicplina e violência? Isto não é uma questão de estatística.

São muitos os professores em estado de exaustão física e psicológica. A maioria não se realiza na profissão porque não tem condiçoes para ensinar nas salas de aula deste País e desta Região. Os alunos que querem aprender também não têm condições para o fazer: não vêem cumprido um direito basilar inscrito na legislação, o direito à aprendizagem.

Elementos sobre o estado da escola pública 56: violência camuflada VIII

Recorde-se as palavras de Eduardo Lourenço, um dos mais importantes pensadores portugueses, já em 1978, sobre a educação infantil no nosso País: AQUI

Em Portugal, incluindo a Madeira, que padece do mesmo mal, pensa-se que se educa sem disciplina, responsabilização e consequência. Sem regras e regulação.

É uma educação a fingir, para a indisciplina, para a irresponsabilidade, para a inconsequência, para a improdutividade, para o atraso e a pobreza.

Isto vem a propósito de alegados suicídios de um aluno e de um professor, que saltaram para as primeiras páginas dos jornais nos últimos dias, ambos vítimas de bullying por parte de jovens estudantes.

O director regional de Educação de Lisboa, José Joaquim Leitão, afirmou mesmo que os meninos e meninas da turma que, alegadamente, infernizou a vida do professor e o terá (pelo menos ajudado) levado ao suicídio, devem ser objecto de preocupação para que não haja traumas no futuro, como se maltratar verbal e fisicamente o professor fosse algo normal e não implicasse responsabilização nem consequência.

Esse (ir)responsável da (des)educação disse: «Trata-se de jovens que são na sua generalidade bons alunos e que não podem transportar na sua vida uma situação de culpa que os pode vir a condicionar pela negativa».

Os agressores e agentes de crueldade passam a vítimas. É ser «bom aluno» maltratar os outros? Dos traumas das vítimas ninguém quer saber. Está o director regional de Educação de Lisboa (e certamente os pais desses meninos e a escola...) preocupado com os traumas dos agressores. Isto é uma vergonha.

Mais do que vergonha, é a prova da aceitação da indisciplina e da violência na escola pública portuguesa, começando nos mais altos responsáveis. E tentam negar (ou minimizar, que é a mesma coisa) a realidade quando com ela são confrontados de forma brutal.

A propósito:
15: Violência (des)camuflada IV
13: violência camuflada III
12: violência camuflada II
7: violência camuflada I
38: Bandalheira instalada na pública favorece a privada
30: Onde falhamos nós no público
29: Regras e responsabilização das crianças
27: Responsabilização
23: Leste arrasa postura desculpabilizante

Outros:
10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação
Brincamos mesmo
País de brincalhões
Fomentos da indisciplina [quando o exemplo nem vem de cima]

terça-feira, março 09, 2010

Elementos sobre o estado da escola pública 55: violência camuflada VII

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«No território disciplinar que é o seu, que devia ser seguro e disciplinado, a escola devia ser soberana. Assim tenha meios e não baixe os braços», disse o Editorial do Público no passado dia 6 de Março, a propósito do jovem que, em desespero, depois de ter sido alvo de bullying (violência física e psicológica continuada por parte de colegas).

«Numa primeira fase vieram as habituais desculpas: não haveria relação directa entre o afogamento do jovem de 12 anos e eventuais violências sobre eles exercidas na escola», continua o referido texto, para concluir que, «em lugar de procurar respostas, a comunidade acobarda-se e afasta responsabilidades.»

Sem esquecer que a escola não pode substituir a família, as escolas têm inevitavelmente que ter um papel na «educação das crianças, na sua disciplina, na forma como devem respeitar-se entre si e respeitar os outros».

segunda-feira, março 08, 2010

Elementos sobre o estado da escola pública 54: violência camuflada VI

A Federação Nacional dos Professores contraria a tendência de alguns responsáveis camuflarem ou relativizarem a realidade e defende que «são necessárias medidas concretas para combater a violência e indisciplina escolar», recordando que a «violência e a indisciplina em contexto escolar, assim como os fenómenos de bullying, têm tido, da parte da FENPROF, uma atenção muito especial.»

O Secretariado Nacional da FENPROF, reunido em 5 de Março, em Lisboa, manifestou a sua «preocupação pelas situações de violência» que têm vindo a ocorrer nas nossas escolas «com cada vez maior frequência e com consequências por vezes trágicas», como foi o caso recentemente ocorrido em Mirandela.

«Foi nesse sentido que a FENPROF aprovou no seu Congresso uma Resolução na qual defendia a consagração de 12 Medidas urgentes para combater os fenómenos de violência e indisciplina em contexto escolar:

1. A promoção, pelo Governo, com o envolvimento da Assembleia da República e do Conselho Nacional de Educação, junto das escolas e das comunidades educativas, de um amplo debate "Por uma Cultura de Paz e de Não-violência", que saia do foro exclusivamente legal e que procure o estabelecimento de um compromisso, envolvendo, designadamente, as famílias e as comunidades educativas, em geral.

2. A atribuição às Escolas e Agrupamentos de Escolas dos recursos humanos, financeiros e materiais necessários para o desenvolvimento de planos de actividade que concretizem os seus Projectos Educativos».

Recorde-se:
Violência camuflada V

sexta-feira, março 05, 2010

Elementos sobre o estado da escola pública 53: violência camuflada V

«Coisas de miúdos» diz a direcção da Escola Luciano Cordeiro de Mirandela, mas agora morreu um aluno. Até quando se vai, cobardemente, escamotear a violência e a indiscisplina nas escolas?
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“Não apanho mais, vou-me atirar ao rio”, terá dito o menino desaparecido no rio Tua, levado ao desespero, segundo relatado, por ser frequentemente ameaçado e agredido por colegas mais velhos. Anteontem, «Leandro não aguentou mais. Saiu a chorar do estabelecimento de ensino, pelas 15h00, e nem o irmão gémeo nem os três primos, sensivelmente da mesma idade, o conseguiram travar» (CM).

Leandro já tinha estado internado no hospital, há um ano, depois de ter sido pontapeado na cabeça por colegas de escola. Um entre vários episódios de violência de que terá sido vítima.

Isto é uma vergonha, para além de ser uma tragédia. A realidade vem dar razão ao Procurador-Geral da República: «Sei que há várias pessoas (...) que minimizam a dimensão da violência nas escolas, mas ela existe. (...) Não quero nem que haja um sentimento de impunidade nem que esse miúdo se torne um ídolo para os colegas. Quanto à escola, ao nível penal, deve existir tolerância zero.»

O Ministério Público está a investigar pelo menos 160 casos de violência escolar, segundo os dados mais recentes divulgados ao Público pela Procuradoria-Geral da República. Os inquéritos foram abertos em 2008 e admite-se "que o número seja maior, já que alguns[processos] não constam do sistema informático" da procuradoria. Se pensarmos que a maioria dos casos é camuflada... e que nunca vem a lume...

Em Mirandela, uma mãe cuja filha tem sido, alegadamente, vítima de violência na mesma escola, denuncia que a direcção da escola limita-se a desvalorizar o problema ao dizer que «são coisas de miúdos». É tudo uma brincadeira. Mesmo perante os factos públicos nega-se a realidade. Imaginemos o que não se esconde quando nem chega a conhecimento público...

A Associação de Pais veio alegar que não havia violência na escola, mas um grupo de mães logo se reuniu para denunciar o oposto, com exemplos de violência sofrida pelos seus filhos na escola.

A Confap quer responsabilizar pais por actos violentos dos filhos, por exemplo, retendo os seus apoios sociais. É um sinal, não sei se é a melhor forma de responsabilização cívica, mas não basta.

Esperemos que a morte do Leandro, com fortes indícios de ter sido um suicídio na sequência de violência física e psicológica continuada no tempo (bullying) por parte dos seus colegas, ao menos não seja em vão e despolete processos crime e medidas no sistema de ensino. A escola não pode ser um limbo de violência impune, como se fosse um espaço sem lei.

Não pode continuar tamanha bandalheira nas escolas, dentro e fora das salas de aula.

A propósito:
15: Violência (des)camuflada IV
13: violência camuflada III
12: violência camuflada II
7: violência camuflada I
38: Bandalheira instalada na pública favorece a privada
30: Onde falhamos nós no público
29: Regras e responsabilização das crianças
27: Responsabilização
23: Leste arrasa postura desculpabilizante

Outros:
10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação
Brincamos mesmo
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Fomentos da indisciplina [quando o exemplo nem vem de cima]

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Caso Magalhães 20: já custou 217 milhões ao Estado

A novela do Magalhães continua.

«O Programa e.escola, em que está integrada a distribuição do computador ‘Magalhães’, já custou ao Estado, segundo a Fundação para as Comunicações Móveis (FCM), cerca de 217 milhões de euros. Com esta despesa pública a comparticipação dos contribuintes com a distribuição de computadores a alunos e professores é 81 por cento superior aos números apresentados recentemente por Mário Lino, o ministro que avançou com essa iniciativa no anterior Governo de José Sócrates, e António Mendonça, seu sucessor na pasta das Obras Públicas. Só em 2009, este Ministério transferiu para a FCM cerca de 200 milhões de euros.»
Correio da Manhã 15.12.2009

O Correio da Manhã refere ainda que o «presidente da FCM tem uma remuneração mensal de 6450 euros. Mário Franco, que foi assessor da equipa do ex-ministro Mário Lino no Ministério das Obras Públicas, é desde Março deste ano o único membro do conselho de remuneração com salário.»

sexta-feira, agosto 28, 2009

Educação > Legislativas 2009 > BE

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Embora para os professores seja mais importante as linhas programáticas dos partidos políticos com possibilidade de serem governo e, por conseguinte, colocarem em prática as suas medidas/promessas para a Educação, não deixamos de aqui dar conta dos compromissos eleitorais dos chamados partidos de contestação. Entre eles o programa eleitoral do BE (página 33). Curioso notar que o programa do PSD tem 39 páginas e o do BE 110 páginas.

Sob o título, «combater o défice do atraso com a Educação», o BE dá conta das suas ideias para este sector. Muitas dessas ideias são bonitas e ideologicamente estimulantes (o meu lado idealista agradece), mas enfermam de um claro irrealismo e condescendência no que toca à educação das crianças e jovens (vide notas finais deste post), como se vivessemos num mundo perfeito e fosse possível criar o aluno ideal e uma sociedade utópica. Passamos por cima do irrealismo (é fácil ennunciar princípios sem dizer como os concretizar na quotidiano)e destacamos as seguintes passagens:

«À multifuncionarização que vem recaindo sobre professores e professoras, à angústia das escolas às quais se pedem todos os milagres sem nada em troca, este governo acrescentou a liquidação de todos os resquícios de partilha e cultura colectiva, esvaziando a componente intelectual e a autonomia necessária do trabalho docente em troca da sua disciplina e desejada obediência acrítica.»

«Temos que dignificar as condições de exercício dos profissionais da escola.» [Falta dizer como. Por acaso a autoridade é um dos ingredientes?]

«A humilhação de professores e professoras, exibidos como o bode expiatório e verdadeiros culpados dos atrasos e do desinvestimento, foi acompanhada da degradação intencional das suas condições de trabalho, de um modelo de avaliação construído para impedir o acesso ao topo da carreira de uma larga maioria, assente na fractura administrativa da mesma, entre professores de primeira e de segunda. A divisão arbitrária e incompetente entre professores titulares e não titulares foi um dos mais duros golpes na escola pública, e a avaliação é a sua sequela. Mas não foi o único. Desregulação das relações de trabalho e precarização foram o lema. Aumento do horário de trabalho, exploração indigna de professores de Actividades de Enriquecimento Curricular, Novas Oportunidades, profissionais experientes e qualificados enxotados para reformas humilhantes, estas são as heranças do governo Sócrates.»

O BE «bater-se-á até ao fim pela dignidade de todos os profissionais de educação e contra todos os pontos lesivos do Estatuto da Carreira Docente, na certeza de que sem profissionais motivados e reflexivos não há qualidade de aprendizagens, com claro prejuízo para as crianças e jovens e para as suas famílias e com agravamento do
atraso do país.»

«O Bloco de Esquerda compromete-se na defesa:
• da estabilidade profissional e contra a precarização;
• do fim da fractura entre professores de primeira e de segunda, sublinhada como um dos ataques mais lesivos da escola pública e que não foi fundada nem em critérios de qualidade nem em conteúdos funcionais diferenciáveis;
• por uma avaliação credível, que se inicia pelas escolas em contexto, alia vertentes internas e externas, e assuma a responsabilidade colectiva do trabalho docente;
• por um horário de trabalho que reconheça o aumento do tempo de qualidade para todo o trabalho docente vergonhosamente silenciado, e para dar resposta às exigências de mudança na escola pública;
• pela componente colectiva do trabalho docente como uma das vertentes mais positivas da sua actividade e como um dos aspectos que mais conteúdo dão à relação com os alunos/as.»

«O Estado deve assumir como prioridade absoluta o alargamento da rede de educação para a infância a todas as crianças com quatro anos de idade.»

«Equipas multidisciplinares de combate ao abandono e insucesso escolar. Defendemos a criação de pequenas equipas multidisciplinares – compostas por professores, psicólogos, técnicos de serviço social e mediadores culturais – capazes de promover o acompanhamento personalizado dos alunos sinalizados como estando em risco de abandono e/ou insucesso escolar. Estas equipas respondem ao contexto social de cada escola e trabalham com diferentes instituições da comunidade.» [Concordo desde que não se pretenda que estas equipas resolvam o insucesso escolar sem exigir o necessário trabalho, disciplina e responsabilidade que o estudante tem de pôr em prática no seu processo de aprendizagem.]

«Uma reorganização curricular que permita redução do número de disciplinas e a redução da excessiva carga horária imposta aos alunos.»

«Limitação do número de alunos/as por turma, nomeadamente nas escolas sobrelotadas (20 no máximo para o 1.º ciclo e 22 para os demais).»

«As novas tecnologias não resolvem problemas básicos da aprendizagem e do combate ao insucesso escolar. O seu papel é relevante para quem não disponha de bibliotecas familiares e é uma fonte de informação utilizada com prazer pela maioria (ao contrário do que sucede com o recurso ao livro). Em contrapartida, pode promover facilitismo no ensino. As novas tecnologias não substituem a aprendizagem por outras vias, como a leitura, e não asseguram, por si só, a formação de uma consciência crítica. A escola, na diversidade da sua actividade, é que garante essa aprendizagem.»

«É certo que o aparelhismo burocrático do Ministério da Educação exige a descentralização. Mas a aposta do ME não está na descentralização, antes numa municipalização obediente e permissiva, com os riscos decorrentes de um modelo que, em Inglaterra, por exemplo, já mostrou o que valia.O Bloco de Esquerda denunciará e combaterá a territorialização político-partidária das escolas e as tentações autoritárias e privatistas dela decorrentes. Exemplos como os do director de uma escola de Fafe que demite arbitrariamente um coordenador vão-se multiplicar. Directores de escolas ao serviço de presidentes de câmara é
o ensejo reformista por concluir. O risco de partidarização total da gestão das escolas públicas é hoje, com este modelo de gestão escolar e municipalização de competência, um risco real. O reforço da autonomia e responsabilidade das instituições é a alternativa.»

NOTAS:

O BE não quer o ensino profissional seja uma «oferta do sistema como solução para o insucesso», porque «as desigualdades de partida reproduzem-se», mas não diz nada como assegurar nas escolas as condições de ensino-aprendizagem para que as tais classes menos privilegiadas, social e culturalmente, valorizem mais a escola, o saber, o trabalho, a disciplina e a responsabilidade individual de cada qual no seu percurso escolar. Uma escola que não exige trabalho, disciplina e responsabilidade ao estudante está a criar exclusão, porque há uma boa parte dos alunos, social e culturalmente desfavorecidos, cuja única oportunidade de mobilidade e ascensão social é a escola. Se não trabalha e não se esforça, não acontecem aprendizagens significativas.

O facilitismo das passagens administrativas e dos diplomas sem corresponderem a conhecimentos e competências efectivas é um logro, que nada tem a ver com qualificação séria nem com uma «escola de qualidade [que] deve ter a inclusão como objectivo essencial.». O discurso paternalista do coitadinho, por isto ou por aquilo, conduz à inércia e à fácil responsabilização de terceiros (sociedade) por todos os males individuais. Quem é socialmente desfavorecido deve ser apoiado na escola, mas não pode ser dispensado de trabalhar, de ter disciplina e civismo, de ser responsável. Pobreza não legitima a indisciplina, a violência ou a ausência de trabalho, esforço e estudo. Pelo contrário, estes estudantes têm de redobrar o seu esforço para recuperar das desvantagens de partida relativamente a outros estudantes. Se nem trabalho se exige nem querem, depois não se queixem que vão cair nas «escolas que “tomam conta” das crianças e dos jovens» e não nas que estão «vocacionadas para a “aprendizagem”.» Como refere ainda o BE, as «primeiras são “escolas do saber”, destinadas a estudantes padrão; as segundas são “escolas do fazer”, para estudantes com contextos sociais e culturais desfavorecidos.» É preciso fazer pela vida e aproveitar os apoios que são concedidos para evoluir socialmente.

O BE não utiliza a palavra autoridade, como se tivesse uma conotação negativa (autoritarismo) devido aos complexos ideológicos de uma certa esquerda. Não se consegue, dizemos nós, sem trabalho, disciplina e responsabilidade por parte do estudante, melhorar os níveis de sucesso escolar nem dignificar as condições de exercício dos profissionais da escola, que o BE defende.

O BE quer que o sistema de ensino combata as «disigualdades sociais e culturais de partida» (página 34) mas depois deve pensar que isso acontece por milagre, sem disciplina, sem trabalho e reponsabilidade dos estudantes. Os professores estão cansados da já referida teoria do coitadinho. A melhor inclusão e contributo para a mobilidade social são o trabalho, a disciplina e a responsabilidade individuais, contando com apoios sociais e socio-afectivos disponíveis na escola, para que se diluam as «desigualdades de partida» e se contribua para a igualdade de oportunidades. Sou totalmente favorável. Já não sei o que se entende por «projecto pedagógico criativo e libertador». A pedagogia é importante mas não substitui o trabalho, a disciplina e a responsabilidade do estudante. É tão ilusório pensar o contrário como acreditar nas estatíticas pré-eleitorais do governo de José Sócrates sobre o sucesso escolar.

Como o BE, também vejo a escola como um pólo da comunidade, com vocação e funções sociais, mas não vamos exigir à escola aquilo que ela não pode dar. Aquele partido defende a escola como «espaço público em torno de três vocações centrais: educar os jovens e as crianças; apoiar as famílias nas suas necessidades; e valorizar a articulação com as dinâmicas comunitárias e de formação ao longo da vida.» Então a principal função e vocação da escola não é ensinar/transmitir conhecimento/desenvolver competências/ensinar a pensar? A educação não é vocação e função da família? A escola é um complemento nessa educação pessoal.

A escola deve oferecer «actividades lúdicas que permitam à escola servir de apoio às famílias»? É esta a vocação da escola? Ser espaço de entretenimento e depósito de crianças e jovens? A escola adaptar-se aos «horários de trabalho dos pais e das mães»? Não se deveria antes pensar-se em alternativas mais adequadas, envolvendo clubes desportivos, associações culturais, escolas de música, ATLs, entre outros. A escola pública e o governo não têm de regular a vida toda das crianças e interná-las na escola. Só falta saírem da escola com banho tomado e de pijama.

O BE defende o fim das reprovações por ano de escolaridade. É um bom princípio. Mas, é preciso condições e alternativas. Se o estudante não trabalha, não se esforça, é indisciplinado e irresponsável, não tem os conhecimentos/competências mínimas, vamos fazê-lo transitar de ano com que propósito? Para ele sentir mais dificuldades no ano escolar seguinte?

Existem «estudos que demonstram que as crianças e jovens pouco ou nada ganham com a acumulação de retenções para além da quebra de auto-estima». Qual é a alternativa? Transitar sem saber? Não. Primeiro, as premissas de trabalho, disciplina e responsabilidade deveriam ser exigidas ao estudante. Uma certa esquerda pensa que isto não importa e toca a colocar o ónus na pedagogia (varinha de condão para transformar alunos preguiçosos, indisciplinados e irresponsáveis em estudantes de sucesso) ou na sociedade, essa causadora de todos os males. Pois, o BE está mais procupado com a «auto-estima» dos estudantes... repare-se que nem fala de auto-confiança, que é baseada e se fundamenta em alguma coisa, no trabalho e no esforço, por exemplo. O BE poderia propor que os alunos com nível negativo nas línguas ou na Matemática teriam de ficar nas férias na escola a recuperar essas notas para poder transitar sem o facilitismo e laxismo que se promove actualmente, ao deixar o estudante avançar sem conhecimentos mínimos em várias disciplinas nucleares. Será isto inclusão? Uma falsa inclusão.

Recorde-se:
Educação > Legislativas 2009 > PSD

quinta-feira, agosto 27, 2009

Elementos sobre o estado da Escola Pública 52: trágicas ilusões

O facilitismo e o laxismo educativos tomaram proporções tais que é uma vergonha nacional. O PS de Sócrates faz parte, na Educação, de uma certa esquerda laxista, que aqui temos denunciado, e dedicou-se às estatísticas para iludir os portugueses. Só uma cultura desresponsabilizante e desvalorizadora da escola e do conhecimento podem pactuar com este estado de coisas.
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O primeiro-ministro José Sócrates, segundo o Público, quando pintava de rosa a realidade educativa do país, referiu ser acusado de facilistismo. José Manuel Fernandes, director do referido jornal, no dia 25 de Agosto, procurou deitar luz sobre as zonas escuras que o governo não pretende manter:

«O primeiro problema colocado pelas estatísticas ontem divulgadas pelo Ministério da Educação é que estas fornecem pouca informação. Mais: todos os esforços do PÚBLICO para completar essa informação chocaram com a habitual relutância da administração pública em fornecer as bases de dados e não apenas os números trabalhados "à sua maneira". É um escândalo numa democracia, tornou-se uma rotina com este Governo que trata toda a informação estatística como se de um segredo de Estado se tratasse.» [E fá-lo por alguma razão.]

«Mesmo assim a informação que essas estatísticas fornecem permite verificar que o "grande salto" foi dado apenas nos dois últimos anos lectivos. Porquê? Uma das explicações ontem adiantadas por professores que conhecem bem as escolas é que o novo Estatuto do Aluno [leia este «Balbúrdia na escola»], que foi muito criticado por promover o laxismo e diminuir a autoridade dos professores, automaticamente impede as chamadas "retenções" - a que os mais velhos ainda chamam chumbos... - por faltas.» [A mão dura foi apenas para os professores, para justificar cortes nos salários e nas carreiras, como se o sucesso educativo dependesse só dos docentes. Como se outros actores nada tivessem a ver com os resultados escolares. Como se o trabalho e o esforço dos meninos não fosse necessário...]

«Por outro lado, são inúmeros os exemplos, alguns dos quais chegaram a ser debatidos nestas páginas, da pressão que existe para evitar que os alunos tenham de repetir um ano lectivo, mesmo que, manifestamente, não tenham adquirido as competências, o saber correspondente. Obrigar um aluno a repetir o ano é algo que o "eduquês" condena com veemência, condenação que se tornou doutrina oficial do actual ministério.»

«Este quadro torna difícil acreditar nos cenários dourados que apontam para mecanismos como as aulas de recuperação ou uma melhor formação de professores como factores do aparente sucesso: mais depressa se olha para a escola e se encontram casos de exames mais fáceis e de conselhos de turma onde os docentes discutem qual deles vai perdoar a negativa a um aluno para não ficar... "retido".» [Eu estou no terreno e isto é pura verdade. Andamos a criar um mundo de faz de conta na escola pública, para mal dela.]

«Em síntese: se uma orientação correcta - a abertura de mais vias no ensino profissional - explica uma parte dos sucessos, há orientações e práticas erradas que permitem que as taxas de insucesso baixem não porque as escolas estão a produzir alunos melhor formados, antes porque se acomodaram a menores níveis de exigência. Estes afectam depois a qualidade do ensino superior, como muitos docentes que dão aulas aos primeiros anos verificam ano após ano.» [Outra realidade clara, que os professores bem conhecem. Cada vez se exige menos trabalho, responsabilidade e disciplina ao aluno, que resulta na bandalheira instalada. Os alunos passam a saber as matérias pela rama. Esta é a realidade que a propaganda procura camuflar.]

«Uma última nota, porventura ridícula para quem está no sistema, mas chocante para quem toma à letra as palavras dos governantes e, depois, se confronta com a letra da lei, lei neste caso anterior ao actual Governo: os nossos nove anos de escolaridade obrigatória não correspondem à obrigatoriedade de completar o 9º ano, apenas à obrigatoriedade de frequentar a escola (mesmo que não aprendendo nada) até aos 15 anos, altura a partir da qual a lei portuguesa permite que se trabalhe sem cair na moldura penal do trabalho infantil. Confessando ao mesmo tempo a ignorância sobre este "detalhe" mas assumindo a revolta por esta pantomina, é caso para dizer que nunca deixaremos de ser um país de opereta. E opereta fanhosa.»

Este governo não poderia ter falhado na Educação. Precisamente na Educação. Mantemos ainda elevadas percentagens de trabalhadores não qualificados («em 2007, os trabalhadores portugueses mantinham uma estrutura de qualificações muito semelhante à verificada duas décadas atrás»: 31%), mas este governo parece apostado em aumentar as qualificações com falsos qualificados para compor a estatística. Não sei o que é mais trágico... Quando se varre para debaixo do tapete o problema ele "deixa" de existir e não se tomam medidas para o resolver...

Mais "serviço" de desmontagem da ilusão para votante ver:
AQUI

Recorde-se:
51: falar verdade
50: vida ilusória na escola versus dura realidade
49: novo paradigma de escola
47: «A balbúrdia na escola»
46: Afinal, ministra da Educação desresponsabiliza estudantes
42: Vida fácil na escola e regras de vida para o estudantes
41: «Zona de esforço não negociável»
40: Responsabilizar outros actores e não só os docentes
39: Professor bode expiatório
31: Responsabilizar os estudantes pelo seu desempenho
29: Regras e responsabilização das crianças
27: Responsabilização
24: Laxismo e facilitismo significam exclusão social
23: Leste arrasa postura desculpabilizante
22: valores do Trabalho e da Responsabilidade moribundos na escola
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação

domingo, agosto 16, 2009

Elementos sobre o Estado da Escola Pública 51: falar verdade

Falar verdade, por mais politicamente incorrecto que seja. Falar verdade, doa a quem doer.

"A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva.... O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?"

"Os exames são uma vergonha. Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada!"

"Isto da avaliação dos professores não é começar por lado nenhum. Eu já disse à Ministra uma vez «A senhora tem uma agenda errada"» Porque sem pôr disciplina na escola, não lhe interessa os professores. Quer grandes professores? Eu também, agora, para quê? Chegam lá os meninos fazem o que lhes dá na cabeça, insultam, batem, partem a carteira e não acontece coisa nenhuma. Vale a pena ter lá o grande professor? Ele não está para aturar aquilo... Portanto tem que haver uma agenda para a Educação. Eu sou contra a autonomia das escolas. Isso é descentralizar a «bandalheira»."

"Se aparece aqui uma pessoa para falar verdade, os vossos comentadores dizem «este tipo é chato, é pessimista».... Se vem aqui outro trafulha a dizer umas aldrabices fica tudo satisfeito..."

Medina Carreira
(Entrevista conduzida por Mário Crespo, Sic Notícias, 09.03.2009)

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VER OS VÍDEOS

sexta-feira, agosto 14, 2009

Elementos sobre o Estado da Escola Pública 50: vida ilusória na escola versus a dura realidade

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Depois de termos abordado o problema das ilusões que se criam na escola em Vida fácil na escola, chegou-me às mãos um texto de um aluno que confirma a análise.

O texto intitula-se «The Cops» e, no final, depois de expressar que não gosta de polícias, que são maus, violentos, entre outras coisas, conclui o seguinte: «If the cops were like some teachers, it would be much better.»

Este «se os polícias fossem como alguns professores, seria muito melhor» permite tirar conclusões claras, que prova a tal distância entre a vida na escola e a vida fora dela.

O estudante acha injusto se não o deixarmos fazer o que lhe apetece. Espera e pensa poder fazer lá fora o que faz dentro da escola. Espera e pensa obter a mesma brandura, complacência e falta de autoridade (impunidade) nos polícias que encontram na Escola e nos professsores.

Esperam que o mundo real seja como o ilusório mundo da escola, em que regras, disciplina e responsabilidade individual são altamente realtivizadas em nome da auto-estima (amor próprio) ou de um certo conceito de "inclusão" (manter os alunos dentro dos muros da escola).

O estudante chega à dura conclusão que o mundo real não é a escola, mas em vez de enfrentar a realidade refugia-se no mundo ilusório da escola: manifesta o desejo de que os polícias actuem como os professores. Pretende a mesma permissividade e complacência por parte das forças da ordem, do nosso Estado de Direito, que vive em meio escolar, em que muitas vezes não há consequências para os actos de transgressão que chocam com os direitos dos outros à sua volta.